Discurso de Ahmadinejad na Conferência sobre o racismo
Na sua sanha manipuladora, os media do chamado mundo ocidental têm procurado criar na opinião pública dos seus países uma imagem negativa e de rejeição do primeiro-ministro do Irão, Mahmoud Ahmadinejad. Mesmo sobre o recente discurso pronunciado na recente Conferência sobre o Racismo, a que significativamente a administração Obama não compareceu e os países de UE se retiraram, difundiram a mentirosa afirmação que Ahmadinejad “negou a existência do Holocausto” judeu às mãos do racismo nazi, num discurso marcado pelo primarismo político.
Pela leitura do texto completo do discurso o leitor poderá tirar as suas conclusões…
Sr. Presidente, respeitável secretário-geral das Nações Unidas, respeitável Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Senhoras e Senhores:
Reunimo-nos na sequência da Conferência de Durban contra o Racismo e a Discriminação Racial a fim de elaborar mecanismos práticos para as nossas campanhas sagradas e humanitárias.
Ao longo dos últimos séculos, a humanidade atravessou grandes dificuldades e sofrimentos. Na Idade Média, pensadores e cientistas foram sentenciados à morte. Seguiu-se um período de esclavagismo e de tráfico de negros. Pessoas inocentes aprisionadas aos milhões, foram separadas das suas famílias e seres amados para serem levadas para a Europa e a América nas piores condições. Um período negro em que também houve ocupações, saques e massacres de pessoas inocentes.
Muitos anos passaram antes de nações se levantarem e combaterem pela sua liberdade, pela qual pagaram um elevado preço. Esses povos perderam milhões de vidas para expulsar os ocupantes e criar governos independentes e nacionais. No entanto, não levou muito tempo até que esses ocupantes impusessem duas guerras na Europa, que também arrasaram uma parte da Ásia e da África. Essas guerras terríveis ceifaram cerca de uma centena de milhões de vidas humanas e deixaram atrás de si a devastação massiva. Se as lições das ocupações, horrores e crimes daquelas guerras tivessem sido aprendidas, teríamos uma réstia de esperança no futuro.
As potências vitoriosas consideram-se conquistadoras do mundo e ignoram ou espezinham os direitos de outras nações, através negociatas internacionais e a imposição de leis opressivas.
Senhoras e senhores, vejamos o Conselho de Segurança da ONU, um dos legados da I e da II Guerras Mundiais. Qual foi a lógica para se atribuírem o direito de veto? Como pode tal lógica conciliar-se com valores humanos ou espirituais? Não será isto incongruência com os princípios universalmente reconhecidos de justiça e igualdade perante a lei, de amor e dignidade humanas? Não será isto uma discriminação, uma injustiça, uma violação dos direitos humanos ou uma humilhação para a maioria das nações e países?
O Conselho de Segurança é o mais alto corpo decisório do mundo para salvaguarda da paz e da segurança internacionais. Como podemos nós esperar a concretização de justiça e paz quando a discriminação é legalizada e a origem da lei é dominada pela coacção e pela força, em vez de o ser pela justiça e pelo direito?
A coação e a arrogância são a origem da opressão e das guerras. Embora hoje muitos responsáveis pelo racismo o condenem a discriminação racial em palavras e slogans, a alguns países poderosos foi permitido, no seu interesse e ao seu livre arbítrio, decidir por outras nações e assim, eles podem facilmente, como têm feito, violar todas as leis e valores humanitários.
A seguir à II Guerra Mundial, recorreram à agressão militar, retiraram o lar a uma nação a pretexto do sofrimento judeu e enviaram migrantes da Europa, dos Estados Unidos e de outras partes do mundo e a fim de instituírem um governo racista na Palestina ocupada. E, como compensação pelas terríveis consequências do racismo na Europa, ajudaram a levar ao poder na Palestina o mais cruel e repressivo regime racista.
O Conselho de Segurança da ONU ajudou a estabilizar o regime de ocupação e apoiou-o nos últimos 60 anos, dando-lhes liberdade de acção para cometer toda a espécie de atrocidades. É ainda mais lamentável que um certo número de governos ocidentais e os Estados Unidos se tenham comprometido a defender aqueles racistas executores de um genocídio, enquanto os povos com consciência e mente livre do mundo condenam a agressão, as brutalidades e o bombardeamento de civis em Gaza. Os apoiantes de Israel têm estado sempre coniventes ou calados em relação a estes crimes.
Caros amigos, distintos delegados, senhoras e senhores. Quais são as causas raízes dos ataques dos EUA contra o Iraque ou da invasão do Afeganistão?
Era o motivo da invasão do Iraque outra coisa que não a arrogância da então administração dos EUA e as pressões crescentes por parte dos possuidores da riqueza e poder para expandir, dentro da sua esfera de influência, a satisfação dos interesses de gigantescos fabricantes de armas, atacando para isso uma cultura nobre com milhares de anos de história, e eliminando as ameaças, potenciais e reais, de países muçulmanos contra o regime sionista ou para controlar e pilhar os recursos energéticos do povo iraquiano?
Porque é que quase um milhão de pessoas foi morta e ferida e mais alguns milhões foram deslocados? Porque é que o povo iraquiano sofreu enormes perdas que atingem as centenas de milhares de milhões de dólares? E Porque é que milhares de milhões de dólares foram cobrados em impostos ao povo americano como consequência destas acções militares? Não foi a acção militar contra o Iraque planeada pelos sionistas e seus aliados da então administração dos EUA, em cumplicidade com os países fabricantes de armas e os possuidores de riqueza? Será que a invasão do Afeganistão restaurou a paz, a segurança e o bem-estar económico no país?
Os Estados Unidos e os seus aliados não só fracassaram na contenção da produção de drogas no Afeganistão, como se multiplicou o cultivo de narcóticos durante a sua presença. A questão básica é qual foi a responsabilidade e a função da então administração dos EUA e dos seus aliados?
Representavam eles os países do mundo? Foram mandatados por eles? Foram autorizados pelos povos do mundo a interferir em todas as partes do globo, sobretudo na nossa região? Não serão estas medidas um claro exemplo de egocentrismo, racismo, discriminação ou violação da dignidade e da independência de nações?
Senhoras e senhores, quem é responsável pela actual crise económica global? Onde é que começou a crise? Na África, na Ásia ou nos Estados Unidos, propagando-se depois através da Europa e entre os seus aliados?
Durante um longo tempo, através do seu poder político, eles impuseram regulamentações económicas injustas à economia internacional. Impuseram um sistema financeiro e monetário sem um adequado mecanismo de supervisão internacional sobre nações e governos que não desempenhavam qualquer papel nestas tendências ou políticas repressivas. Nem mesmo permitiram ao seu povo supervisionar ou monitorar as suas políticas financeiras. Aprovaram todas as leis e regulamentos em desobediência a todos os valores morais, só para proteger os interesses dos detentores da riqueza e do poder.
Além disso, impuseram uma determinada economia de mercado e de concorrência que negou muitas das oportunidades económicas que poderiam ser disponibilizadas a outros países do mundo. Transferiram os seus problemas aos outros, enquanto as ondas de crise os açoitava, inundando as suas economias com milhões de milhões de dólares de défice orçamental. Presentemente, estão a injectar centenas de milhares de milhões de dólares de dinheiro retirado do bolso dos seus próprios povos e de outras nações em bancos, companhias e instituições financeiras falidas, tornando a situação cada vez mais complicada para a sua economia e o seu povo. Estão simplesmente a pensar na manutenção do poder e da riqueza. Não poderiam desprezar menos os povos do mundo e até o seu próprio povo.
Sr. Presidente, senhoras e senhores. O racismo está baseado na falta de conhecimento quanto às raízes da existência humana como as criaturas seleccionadas de Deus. É também o resultado do desvio do verdadeiro caminho da vida humana e das obrigações da humanidade no mundo da criação, deixando conscientemente de orar a Deus, não sendo capazes de pensar acerca da filosofia da vida ou o caminho para a perfeição que são os principais ingredientes dos valores divinos e humanitários os quais restringiram o horizonte da perspectiva humana tornando interesses transitórios e limites a medida para a sua acção. Eis porque o mal do poder se moldou e expandiu no âmago do poder, enquanto privava outros de desfrutarem oportunidades de desenvolvimento correctas e justas.
O resultado foi o aparecimento de um racismo desenfreado, que está a colocar as mais sérias ameaças à paz internacional e impede o caminho para construir a coexistência pacífica em todo o mundo. O racismo é, indubitavelmente, o símbolo da ignorância com tem profundas raízes históricas e é, também, o resultado da frustração no desenvolvimento da sociedade humana.
É, portanto, crucialmente importante detectar as manifestações de racismo em situações ou em sociedades onde a ignorância ou a falta de conhecimento prevalece. Esta crescente consciência geral e entendimento da filosofia da existência humana é a luta de princípio contra tais manifestações e revela a verdade de que a humanidade se centra na criação do universo e que a chave para a resolução do problema do racismo é um regresso a valores espirituais e morais e, finalmente, a inclinação para orar a Deus Poderoso.
A comunidade internacional deve iniciar movimentos colectivos para elevar a consciência em sociedades mergulhadas na ignorância sobre o racismo e onde este ainda prevalece, de modo a pôr termo à propagação destas manifestações malignas.
Caros amigos, hoje, a comunidade humana está a enfrentar uma espécie de racismo que no princípio do terceiro milénio empana a imagem da humanidade.
O sionismo mundial personifica o racismo que falsamente recorre a religiões e abusa de sentimentos religiosos para ocultar o seu ódio intrínseco e o seu rosto horrendo. Por isso, é da maior importância denunciar os objectivos políticos de algumas da potências mundiais e daqueles que controlam enormes recursos e interesses económicos no mundo. Eles mobilizam todos os recursos, incluindo a sua influência económica e política e os media mundiais para, apoiar, em vão, o regime sionista e minimizar a indignidade e desgraça deste regime.
Não é apenas uma questão de ignorância, e não se pode acabar com estes fenómenos horríveis através da acção diplomática. Devem desenvolver-se esforços para pôr fim ao abuso dos sionistas e dos seus apoiantes políticos internacionais e para respeitar a vontade e as aspirações das nações. Os governos devem ser encorajados e apoiados nos seus combates destinados a erradicar este racismo bárbaro e para se empenharem na reforma dos actuais mecanismos internacionais.
Não há dúvida de que todos vós estais conscientes das conspirações de algumas potências e de círculos sionistas contra os objectivos desta conferência. Infelizmente, tem havido textos e declarações de apoio aos sionistas e aos seus crimes. Os respeitáveis representantes das nações devem revelar estas campanhas, desenvolvidas contra os valores e os princípios humanitários.
Deveria ser reconhecido que o boicote a esta reunião internacional é um gesto de apoio expresso a este exemplo flagrante de racismo. Ao defender direitos humanos é basicamente importante defender os direitos de todas as nações a participarem em condições de igualdade em todas as decisões internacionais importante, com processos de decisão sem a influência de certas potências mundiais.
E em segundo lugar, é necessário reestruturar as organizações internacionais existentes e as suas respectivas estruturas. Esta conferência é um teste e a opinião pública mundial, hoje e amanhã, julgará as nossas decisões e os nossos actos.
Sr. Presidente, Senhoras e Senhores, o mundo está a atravessar mudanças rápidas e fundamentais. As relações de poder tornaram-se fracas, fragilizaram-se. O ruir dos pilares dos sistemas mundiais é agora audível. As principais estruturas políticas e económicas estão à beira do colapso. Crises políticas e de segurança estão em ascensão. Os efeitos da crise na degradação da economia mundial, para a qual não se vê perspectiva brilhante, mostram uma maré ascendente de mudanças globais de extremo alcance. Enfatizei repetidamente a necessidade de alterar a direcção errada em que o mundo está hoje a ser administrado e também adverti das terríveis consequências de qualquer atraso nesta responsabilidade crucial.
Agora, neste importante evento, gostaria de anunciar a todos os líderes, pensadores e nações do mundo presentes nesta reunião, e àqueles que anseiam por paz e bem-estar económico, que a injusta administração económica do mundo está já no fim da estrada. Este impasse era inevitável uma vez que a lógica desta administração imposta era opressiva.
A lógica da gestão colectiva dos assuntos mundiais é baseada sobre nobres aspirações que se centram nos seres humanos e na supremacia do Deus poderoso. Por isso ela desafia qualquer política ou plano que vá contra o poder das nações. A vitória do certo sobre o errado e o estabelecimento de um sistema mundial justo foi prometido pelo Deus Poderoso e pelos seus mensageiros, e foi um objectivo partilhado de todos os seres humanos de diferentes sociedades e gerações no curso da história. A realização de tal futuro depende do conhecimento da criação e da crença da fé.
A criação de uma sociedade global é o cumprimento de um objectivo nobre contido no estabelecimento de um sistema global comum que será executado com a participação de todas as nações do mundo em todos os principais processos de tomada de decisão e a raiz definida para este sublime objectivo.
Capacidades técnicas e científicas, assim como tecnologia de comunicação, criaram um entendimento comum e generalizado na sociedade mundial e proporcionaram o terreno necessário para um sistema comum. Cabe a todos os intelectuais, pensadores e decisores políticos do mundo cumprirem a sua responsabilidade histórica com uma crença firme nesta raiz bem definida.
Quero ainda salientar o facto de o liberalismo ocidental e o capitalismo terem chegado ao seu fim, fracassaram ao não compreender a verdade do mundo e dos humanos tal como eles são.
Devemos aprender com o passado e esforçarmo-nos colectivamente no enfrentar dos desafios presentes. E, como observação final, quero chamar a vossa gentil atenção para duas importantes questões:
Primeiro, é claramente possível melhorar a situação existente no mundo. Contudo, deve notar-se que isto só pode alcançado através da cooperação de todos os países a fim de conseguir o melhor proveito das capacidades e recursos existentes no mundo. A minha participação nesta conferência deve-se à convicção de que é possível resolver estas importantes questões à convicção de que é nossa responsabilidade comum defender os direitos das nações do fenómeno do racismo, convicção que partilho convosco, pensadores do mundo.
Segundo, atentos à ineficiência dos actuais sistemas internacionais políticos, económicos e de segurança, é necessário centramo-nos nos valores divinos e humanitários que respeitam à verdadeira definição de seres humanos, baseados na justiça e no respeito pelos direitos de todos os povos em todas as partes do mundo, e no reconhecimento das transgressões ocorridas na administração do mundo, e no desenvolvimento de medidas colectivas que reformem as estruturas existentes.
Quanto a isto, é muito importante reformar rapidamente a estrutura do Conselho de Segurança, inclusive eliminar o discriminatório direito de veto e mudar os actuais sistemas financeiros e monetários do mundo.
É evidente que a falta de entendimento sobre a urgência desta mudança ou o seu atraso equivale a custos muito mais pesados.
Caros Amigos, atenção que movermo-nos rumo à justiça e à dignidade humanas é um fluxo rápido como a corrente de um rio. Não nos esqueçamos da essência do amor e da afeição. O futuro prometido dos seres humanos é um grande activo que pode servir os nossos propósitos de nos mantermos juntos na construção de um novo mundo.
Para fazer do mundo um lugar melhor, pleno de amor e de bênçãos, um mundo destituído de pobreza e de ódio, fundindo as crescentes bênçãos de Deus Poderoso e a gestão correcta do ser humano perfeito, vamos todos unir as nossas mãos na amizade para o cumprimento de um tal novo mundo.
Agradeço ao Sr. Presidente, ao Secretário-Geral e a todos os respeitáveis participantes a paciência que tiverem para me ouvir. Muito obrigado.
Este texto foi publicado em http://votersforpeace.us/press/index.php?itemid=1379
* Primeiro-ministro do Irão
Tradução de João Guedes



