Notícias da Idade Média

“Os Estados Unidos estão já mergulhados numa espécie de guerra civil, felizmente apenas ideológica e cultural (em sentido amplo), situando-se num dos lados os que acreditam na Ciência e no que ela pelo menos desde Darwin apurou quanto às origens da espécie humana, e no outro aqueles para quem a Bíblia, e designadamente o Antigo Testamento, é a única fonte de conhecimentos científicos quanto à origem do Universo, da vida, da Terra, do homem e da mulher.)”
Foi na RTP2, em horário a dobrar a meia-noite, que pelo menos dantes era a hora das bruxas e de sortilégios a condizer. A reportagem trazia o título «Amigos de Deus» e decorria nos Estados Unidos. Não sei se deveria dizer «nos Estados Unidos profundos»: não sei sequer se tal coisa existe num país tecnologicamente tão avançado, se a expressão é adequada para englobar cidades com considerável grau de desenvolvimento comercial ou industrial, habitadas por pessoas com permanente acesso à televisão e à rádio. Sei, isso sim, que o que reportagem revelou é de estarrecer e assustar. Julgava eu, como decerto a maioria das gentes, que os Estados Unidos eram um país completamente civilizado cujos cidadãos teriam não apenas a fama mas também o proveito de acederem a interessantes níveis de informação geral.
Haveria, é claro, muitos excluídos desta situação, há-os em todos os países, mesmo na Europa com a reputação de culta, mas seriam sempre uma minoria. Porém, esta reportagem retirou-me todo e qualquer optimismo quanto a este assunto e reforçou-me as piores apreensões que de vez em quando me visitavam.
É claro que não ignorava que nos Estados Unidos muita gente rejeita a Teoria da Evolução e acredita literalmente em tudo quanto na Bíblia está escrito quanto à criação do mundo em seis dias (mais um para descanso do Criador, que o Altíssimo não é de ferro), àquela estória de Noé e da sua arca bem maior que o Jardim Zoológico de Benfica, aos encontros de primeiríssimo grau entre o Senhor e alguns patriarcas rigorosamente seleccionados. Mas julgava que os crentes nestas e noutras coisas conexas não passavam de facto de uma minguada minoria pitoresca e inofensiva. Veio a reportagem «Amigos de Deus» e arrasou-me a ingenuidade.
A avaliar pelo que se viu e ouviu em «Amigos de Deus», os Estados Unidos estão já mergulhados numa espécie de guerra civil, felizmente apenas ideológica e cultural (em sentido amplo), situando-se num dos lados os que acreditam na Ciência e no que ela pelo menos desde Darwin apurou quanto às origens da espécie humana, e no outro aqueles para quem a Bíblia, e designadamente o Antigo Testamento, é a única fonte de conhecimentos científicos quanto à origem do Universo, da vida, da Terra, do homem e da mulher. O que esta entranhada e exclusiva fidelidade aos textos bíblicos significa de inacreditavelmente absurdo só o pode saber ao certo quem se der a um trabalho que felizmente está ao alcance de todas as bolsas: pegar num exemplar da Bíblia e ler o Antigo Testamento.
Convém saber que as mais relevantes igrejas cristãs, com destaque para a Católica Romana, já explicaram que aqueles textos devem ser entendidos como escrita muitas vezes simbólica e reenquadrados nas circunstâncias históricas em que foram produzidos. Por isso mesmo, ainda há dias a TV deu a notícia de que a Igreja Anglicana pediu desculpa a Charles Darwin, sendo esperável que o agora reputado cientista as tenha aceitado. Mas, soube-o agora graças à RTP2, milhares de norte-americanos rejeitam essa modernice e condenam-na com uma ferocidade que surpreenderá qualquer desprevenido. São esses, supostamente, os «amigos de Deus».
Do que a reportagem nos mostrou bem se deveria dizer que foram coisas do Diabo se não fosse temeroso falar do Diabo em matéria tão diabólica. Vimos pregadores do típico modelo americano a quase espumarem de raiva em programas de rádio e de TV quando se referem aos endemoninhados que se atrevem a aceitar os ensinamentos científicos que começaram com Darwin. Vimos grandes outdoors a insultarem Darwin e a Ciência em nome da «verdadeira Fé». Vimos bandos de crianças a serem literalmente amestradas para que desde a infância se acostumem a papaguear a sua cega rejeição do darwinismo. Soubemos como em alguns dos estados norte-americanos é proibido o ensino da Evolução e perseguidos os que ousam defender a herança de Darwin e dos que prosseguiram o caminho por ele aberto. Vimos imagens em que a estupidez militante, a ignorância erguida como estandarte e a brutalidade mental mais óbvia se misturavam numa espécie de regresso à Idade Média num caldo obscurantista de meter medo.
E acontecia naturalmente que esse susto se ampliava e adquiria novos aspectos quando nos lembrávamos de que aquilo se passa no país que continua a ser olhado como o líder (também cultural, lembremo-nos no domínio mediático que exerce por todo o mundo) da chamada Civilização Ocidental.
* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info
Ver sobre este assunto “Sarah Palin Palin e o fundamentalismo cristão” em diário.info:
http://www.odiario.info/articulo.php?p=894&more=1&c=1



