A pressão deles
e o nosso desprezo

Uma das facetas da moral burguesa é a desfaçatez com que, amiúde, recorrem aos dois pesos e duas medidas para avaliar situações semelhantes.
E fazem-no sem corar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E não o será, neste tipo de sociedade em profunda crise económica, financeira, social, cultural, moral…?
Embora por vezes nos pareça que não, de tal modo andamos cansados de novelas e concursos, de notícias em cascata que acabam por ter o cheiro da calúnia e de aparentes calúnias que até podem não o ser, a televisão também nos traz informações e comentários interessantes. Quase sempre em dimensão minúscula, por vezes quase a permitir que pensemos que surgem à revelia da vontade de quem as traz ou, noutros casos, a abrirem caminho para reflexões e memórias que não estariam previstas.
Em verdade, é de algum modo o que nos pode valer: que a realidade possa, ao menos uma vez por outra, perfurar o bloqueio dos nevoeiros e das falsas pistas em que abunda a informação televisiva e não apenas ela. Que isso aconteça não implica a absolvição para a tarefa de condicionamento e manipulação que diariamente se abate sobre o telespectador e se desdobra por múltiplos métodos que vão da sistemática mistificação, opção já tradicional em certos temas, até à mentira por omissão, palavra esta aqui usada para designar com um eufemismo o que de facto é a pura e simples censura na sua forma mais típica.
Quando a doutora Manuela falou, não há muito tempo, do que designou por «asfixia democrática», de facto nem imaginava, coitadinha, do que estava a falar. Para o saber é preciso ser de esquerda, coisa que ela nem saberá ao certo o que é.
Foi neste quadro que ocorreu há dias um desses pequenos casos que abrem portas para horizontes mais amplos que os inicialmente previstos: gente claramente identificável como sendo da direita política, espécie aliás sempre bem-vinda nos estúdios de qualquer das estações portuguesas de televisão, veio queixar-se do que não sem razão lhe parece ser mais uma forma de pressão do governo PS sobre a comunicação social.
É que certos jornais, e talvez também estações de rádio e/ou de TV, estão a sentir que o Estado e empresas da área estatal estão a faltar com a publicidade que habitualmente lhes confiavam para publicação. Trata-se, já se vê, de por essa via lhes cortarem receitas importantes, pois o sector público é, entre publicações legalmente obrigatórias e outras que não o serão tanto, um anunciante muito significativo. E a explicação para esse alegado boicote é, como explicitamente foi dito e aliás facilmente se adivinhava, o facto de esses órgãos de comunicação social serem ou parecerem desafectos ao governo em geral e talvez ao primeiro-ministro em particular.
Assim, estar-se-á perante uma clara pressão, uma verdadeira agressão à liberdade de imprensa na linha da regra expressa pela histórica recomendação salazarista de «tirem-lhes o pãozinho!». O que, já se vê, é inadmissível.
É, de facto, totalmente inadmissível.
Acontece, porém, que o justificado lamento tem uma espécie de janela para o passado que se abre sem que ninguém lhe toque, só pelo efeito das queixas ouvidas. Por mim, bem me lembro não apenas de um, mas pelo menos de dois ou três jornais a quem, porque haviam ganho a incómoda reputação, justificada ou nem por isso, de serem «de esquerda», viram que a publicidade lhes era recusada, a de potenciais anunciantes da área estatal e também a do sector privado afinal muitas vezes feito da mesma massa.
Num desses casos, era um semanário que vinha dos anos do fascismo a que tinha resistido heroicamente e que assim morreu, assassinado de morte matada, como se diria no Brasil. Outro caso foi o de um conhecidíssimo jornal diário.
E em nenhum destes, como no de nenhum outro jornal abatido por ser considerado culpado do mesmo crime, me lembro de ter vindo à TV pelo menos um sujeito destes, dos agora tão indignados, a denunciar o boicote e a protestar contra ele. Bem pelo contrário: até suspeito, com razão ou sem ela, de que se terão regozijado com a eliminação de uma voz incómoda, inconveniente, talvez odiada.
E por isso os olho e oiço hoje com um reflexo de inevitável desprezo. E não serei o único.
* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info



