Seleccionados como é costume

Correia da Fonseca*    15.May.10    Colaboradores

A questão é simples embora não seja sempre e facilmente perceptível. O hábito tornou-a mesmo uma questão “normal” na informação única que temos mas não merecemos.

Era domingo, os céus derramavam por praticamente todo o território português uma chuva abundante que parecia prenunciar as bênçãos que poucos dias depois haveriam decerto de descer sobre o País aquando da visita de Bento XVI. Quase apetecia ficar em casa e, nesse caso, inevitavelmente na condição de telespectador. No Jornal das Sete da SIC Notícias, dois convidados comentavam o recheio do serviço noticioso que aliás era portador de novidades significativas: a decisão de adiar a construção do novo aeroporto de Lisboa e da terceira travessia sobre o Tejo, a declaração do senhor PR admitindo que no seu entendimento lhe cumpre «apontar caminhos» ficando para o governo as tarefas um pouco menos nobres de executar.

Salvo melhor interpretação, as palavras do professor Cavaco revelavam com alguma clareza que continua a considerar-se «o homem do leme» como nos bons velhos tempos, ficando para o primeiro-ministro talvez a função subalterna de primeiro-maquinista. Quanto aos referidos dois convidados, um deles era Sarsfield Cabral, presença já antiga na condição de telecomentador, e o outro era José Adelino Maltez.

José Adelino Maltez parece ser uma descoberta relativamente recente da televisão portuguesa, talvez apenas da SIC, para as funções de comentador, ou talvez de analista dos acontecimentos sócio-económicos, ou talvez de politólogo, ou mais provavelmente de tudo isso conjuntamente e de mais alguma coisa ainda. Era até há pouco tempo um desconhecido para a generalidade dos telespectadores e, contudo, não parece ser propriamente um jovem a avaliar pelos fios brancos que lhe vão ornamentando a barba negra.

E José Adelino Maltez falava, falava, falava, permitindo assim a suspeita de que gosta muito de se ouvir. Não me pareceu que dissesse coisas particularmente notáveis, antes se me afigurando que se limitava a repetir o que é comum ouvir-se hoje a qualquer sujeito da direita política, ainda que neste caso com maior abundância de palavras.

Aludiu de passagem, compreensivelmente, ao destempero com que o deputado Ricardo Rodrigues deu a sua contribuição pessoal, minúscula mas espectacular, para o descrédito da instituição parlamentar. Porém, o que me pareceu mais curioso foi que Maltez, porventura por acaso, porventura não, por duas vezes conseguiu encaixar no seu discurso o nome de Salazar. Com razão ou sem ela, pareceu-me que o fazia regalado com a ideia de que estava a fazer uma provocaçãozinha que o deliciava. E isso despertou-me velhas reminiscências. Injustamente, decerto.

É que, não conhecendo eu José Adelino de parte nenhuma, não sabendo de todo de onde veio e não me interessando saber para onde queira ir, sucede que ao longo da minha vida só soube de um outro Maltez que não era propriamente politólogo mas, não obstante, se dedicava a um modo peculiar de intervenção na vida política: comandava forças policiais que durante a ditadura do já mencionado Salazar se aplicavam a espancar nas ruas de Lisboa os cidadãos que se atreviam a reclamar liberdade e justiça.

É claro que José Adelino Maltez não tem a menoríssima culpa do apelido decerto honrado que transporta nem da associação de ideias que a coincidência me suscita, mas o facto é que por via dela dei por mim a interrogar-me acerca dos critérios de recrutamento dos telecomentadores na SIC e não só.

Este Maltez é manifestamente um homem de direita, como já foi dito e sobretudo como o teor das suas agora frequentes intervenções na TV revelam. Tudo bem, está evidentemente no seu pleníssimo direito, nada a objectar. No caso deste Jornal das Sete do passado domingo, poder-se-á notar que Sarsfield Cabral também o é, embora num outro registo mais inteligente, mais qualificado.

A questão, porém, é que também neste caso como em muitos mais, tudo ali era direita e nada era de esquerda, nem de esquerda-a-valer nem sequer de esquerda-de-faz-de-conta. O que mandava às urtigas o mais elementar princípio do contraditório.

Assim nos aparecia mais uma vez, nítida, a interrogação de modo nenhum nova mas sempre agreste, tanto e de tal modo que transporta para os territórios da indignação qualquer telespectador que ainda sonhe com uma TV asseada: como é aceitável esta televisão triunfante que como regra, ainda que com muito raras excepções, exclui gente de esquerda das «equipas» de comentadores com entrada nos seus estúdios.

Dizendo-o de outro modo: que só selecciona gente «integrada na ordem vigente e com activo repúdio de todas as doutrinas subversivas». Fórmula esta que decerto agradaria a Maltez. O outro.

* Amigo e colaborador de odiario.info

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