A Islamofobia Espanhola

Antonio Torres*    26.Jul.10    Outros autores

BurkaAo fazer votar a proibição do uso da burka em Espanha, onde nunca se viu uma mulher com ela vestida, o que o nacionalismo espanhol pretende é “recriar o mito fundador da Espanha, aquele que contempla a existência de uma suposta Espanha unida, herdeira da Hispânia romana mas governada por godos, portanto muito branca e europeia, sem contaminações africanas ou orientais de qualquer tipo…”

No passado dia 23 de Junho o Senado espanhol aprovava uma moção do Partido Popular, apoiada pela CiU e pela União do Povo Navarro, na qual se instava o Governo espanhol a proibir o uso da burka. Apesar dos nacionalistas conservadores catalães da CiU terem sido um dos maiores apoios que esta proposta teve, junto ao navarrismo espanholista da UPN, esta não deixa de ser uma pura expressão dessa islamofobia que, historicamente, sempre caracterizou o nacionalismo espanhol. Por outro lado, ainda que o PSOE tenha rejeitado esta moção no Senado, o seu partido catalão, o PSC, aprovou moções semelhantes em municípios catalães.

Esta moção, insistimos, apesar de ser apoiada por nacionalistas conservadores catalães, expressa as essências mais puras do nacionalismo espanhol, escudado numa suposta defesa das mulheres frente a uma forma de vestir humilhante para elas, e numa suposta falta de igualdade. A moção do PP pretende recriar o mito fundador da Espanha, aquele que contempla a existência de uma suposta Espanha unida, herdeira da Hispânia romana mas governada por godos, portanto muito branca e europeia, sem contaminações africanas ou orientais de qualquer tipo, que viu perturbada a sua paz e tranquilidade por uma suposta invasão de uns bárbaros orientais fanatizados por crenças religiosas belicosas.

Esta visão da História ainda que não corresponda ao mais ínfimo rigor científico nem, por consequência, á mais rigorosa das análises, é, no entanto, a que mantém o nacionalismo espanhol e o PP como uma de suas expressões políticas. Neste sentido, isto é, no da luta da Europa contra «a barbárie oriental» coincide o PP com o nacionalismo conservador catalão da CiU.

A Espanha lutou por se libertar supostamente de um jugo árabe-muçulmano, ou, pelo menos, assim o explicava o ex-Presidente espanhol do PP, José María Aznar, nas suas famosas conferências pelos EUA, que a oprimia e a impedia de ser cristã e europeia. Com a queda do Reino granadino em 2 de Janeiro de 1492, a Espanha voltava a ser, segundo o nacionalismo espanhol, o que fora: um reino unido, cristão e europeu. A teoria do choque de civilizações não foi inventada por Samuel P. Hunttington, é muito anterior, da Idade Média.

Para o PP, os árabe-muçulmanos invadem-nos no Estado espanhol do século XXI, como supostamente o fizeram no século VIII, e como há séculos, nos trazem os seus bárbaros costumes que atentam contra Espanha e Europa detentoras com toda a sua falsa superioridade moral baseada na democracia, na liberdade e nos direitos humanos. Sem dúvida, com esta moção a única coisa que o nacionalismo espanhol, e também o nacionalismo conservador catalão, está a demonstrar é o seu racismo, a sua xenofobia e, sobretudo, a sua islamofobia. Como bem dizia Kamal Rahmouni, representante de uma associação de imigrantes marroquinos no Estado espanhol em declarações recolhidas na web da BBC em castelhano, a propósito da proibição da burka por determinados municípios catalães: “Há um milhão e meio de muçulmanos em Espanha e quantas burkas há? Os municípios catalães estão legislando contra nada, porque nenhum tem dados sobre quantas pessoas usam burka».

«Ora bem, não creio que alguém possa defender uma vestimenta como essa, uma vestimenta que para nós está longe e é rara, que vem do Afeganistão, que é mais cultural que religiosa». Para dar um exemplo, há mulheres muçulmanas que usam burka em determinados países muçulmanos, especialmente no Afeganistão e no Paquistão, mas na Índia, mulheres não muçulmanas utilizam uma vestimenta parecida; por outro lado, há mulheres muçulmanas que usam o hiyab, outras a niqaq, outras o chador, e outras simplesmente nada, portanto, nada tem que ver a maneira de vestir das muçulmanas com a sua religião, antes com a sua cultura e tradições, muito distintas segundo os países e a classe social. Há também muitas mulheres muçulmanas que usam a hiyab ou o chador mais como uma demonstração de orgulho identitário que por uma questão religiosa. Mas para o PP, a CiU, a UPN, e também para a ministra espanhola Aído, que pretende regular o uso da burka numa Lei de Liberdade Religiosa, há que dar a sensação de que os imigrantes nos invadem, especialmente os árabe-muçulmanos, com os seus costumes religiosos distantes da superioridade moral da civilização europeia e da Espanha constitucional. No entanto, não se vê a estes partidos nenhuma intenção de regular, por exemplo, as vestes das freiras católicas, que recordemos, essas sim, são vestimentas religiosas, hábitos religiosos e não culturais ou tradicionais.

Falemos claro: o uso da burka no estado espanhol não é um problema real, como dizia a antropóloga da Universidade Autónoma de Madrid, Angeles Ramírez: «Proibir a burka não é uma medida útil nem necessária, serve apenas para que a sociedade veja que o Estado controla os muçulmanos». Consequentemente, dar-se-ia o caso de a sua proibição poder inclusive animar os sectores muçulmanos mais reaccionários, quando agora não o fazem, ao sentirem-se perseguidos por motivos religiosos, explorando a necessidade de sua afirmação religiosa. E esta antropóloga acrescenta: «Primeiro, porque não há nenhuma mulher com burka em Espanha e, segundo, porque chamando a qualquer véu integral burka, as autoridades conseguem que os cidadãos o relacionem com algo negativo, com o Afeganistão e com o veto ás mulheres». Portanto, se não é um problema real do que se trata é, nem mais nem menos, de distrair a atenção. O nacionalismo espanhol, como nacionalismo reaccionário, necessita sempre reafirmar-se seja com a sua islamofobia, ou com os êxitos desportivos da sua selecção de futebol, fazendo com que toda uma massa acrítica de cidadãos pendurem a bandeira espanhola nas suas varandas e dissolvam as suas inquietações materiais e espirituais com os golos de Fernando Torres ou David Villa, como o açúcar na água.

Se o uso da burka não é um problema real, e do que se trata é desviar a atenção é porque existem problemas reais que, ou não saem á luz do dia ou, se saem, são apresentados de forma unilateral, manipulados ou pelo menos maquilhados. Já falámos da profunda crise do modo de produção capitalista que estamos vivendo, e sobretudo, padecendo ou do conceito de Espanha.

Se um povo do Estado espanhol viu a sua identidade ocultada, manipulada, e tergiversada pela islamofobia espanhola, seja de velho ou de novo cunho «progressista» como a ministra Aído, esse é o povo andaluz. A islamofobia espanhola sempre pretendeu que os andaluzes olhem parte de nosso passado com desprezo ou com uma indiferença que é muito mais grave que o pior dos desprezos. A actual identidade nacional andaluza é um produto histórico, como todas as identidades nacionais, de sinais identitários que continuam e se reproduzem de uma maneira ou de outra, evoluídos ou transformados no tempo; há elementos de uma cultura nacional que, inclusive, nesse período desaparecem ou são tão transformados, que nada têm já que ver com os seus inícios. Aos andaluzes o nacionalismo espanhol ensinou que os elementos de nossa identidade de procedência não europeus ou não ocidentais, ou inclusive os autóctones que se interpretam como alheios ao euro-occidental, ou são elementos a desprezar ou a ignorar, pelo que a reconciliação dos diversos elementos de diversa procedência que formam a actual identidade nacional andaluza é uma tarefa pendente. Portanto, seria absurdo pensar que uma organização política que se define como andaluzista caia na islamofobia, contudo, o Partido Andaluzista (PA) do município malaguenho de Coín mostra-nos, uma vez mais, o incongruente e o insubstancial de seu andaluzismo, quando junto ao PSOE, votou a favor de um regulamento municipal que proíbe o uso de uma vestimenta, a burka, sendo que em Coín jamais se viu alguém, mais concretamente, alguma mulher, a utilizá-la.

* Colaborador de La Haine

Este texto foi publicado em http://www.lahaine.org/index.php?p=46812

Tradução: Guilherme Coelho

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