O Caso Casa Pia

Correia da Fonseca*    13.Sep.10    Colaboradores

Correia da FonsecaEstamos habituados a considerar que o fenómeno televisivo é qualquer coisa que começa algures no estúdio de uma operadora, que passa por umas antenas e/ou por uns cabos, para terminar nos ecrãs que temos em nossas casas. Não é assim: o tal fenómeno entra-nos pelos olhos e ouvidos adentro, instala-se nas nossas cabecinhas, e lá fica a germinar com maior ou menor força, conforme os casos, sem que claramente demos por isso.

Mais ainda que do empate da selecção nacional com a equipa do Chipre (país que, para ainda maior arrelia de alguns, consta ter um governo de maioria comunista, se me engano peço desculpa), a passada sexta-feira foi, na televisão e fora dela, o dia do veredicto do Caso Casa Pia. À leitura do veredicto ou do que foi anunciado como sendo a sua súmula ainda pude assistir, via TV, no conforto da minha casa. Logo a seguir, porém, tive de transferir-me para a sala de espera de um consultório médico, o corpo tem destas exigências, e só à hora habitual dos grandes telenoticiários da noite pude reencontrar-me com o meu televisor. A verdade é que não dei a interrupção por tempo perdido, mesmo no que respeita à avaliação dos poderes da TV num país como o nosso e, muito provavelmente, em qualquer outro. Estamos habituados a considerar que o fenómeno televisivo é qualquer coisa que começa algures no estúdio de uma operadora, que passa por umas antenas e/ou por uns cabos, para terminar nos ecrãs que temos em nossas casas. Não é assim: o tal fenómeno entra-nos pelos olhos e ouvidos adentro, instala-se nas nossas cabecinhas, e lá fica a germinar com maior ou menor força, conforme os casos, sem que claramente demos por isso. De onde, é claro, o seu assustador poder.

Pois aconteceu que na tal sala de espera do consultório a televisão continuava activa ou pelo menos assim me pareceu. Não por causa do televisor que ali estava colocado para embalar a longa espera dos pacientes (e poucas vezes esta palavra terá sido tão adequada à situação), mas sim porque a sua acção estava muito evidentemente a prosseguir na cabeça dos que ali estavam, sobretudo das senhoras, talvez mais vulneráveis aos efeitos da actividade mediática em geral e televisiva em particular. Assim, mesmo à revelia do que o televisor naquela altura mostrava e não tinha nada a ver com o assunto do dia, era do Caso Casa Pia, do veredicto tornado público horas antes e dos arguidos sentenciados, que as conversas aliás muito vivas se ocupavam. Sobretudo do arguido Carlos Cruz, decerto por ser a mais conhecida figura pública envolvida e também, provavelmente, por ter sido o que com maior veemência havia protestado contra a decisão do colectivo de juízes. E os comentários ali produzidos não eram nada meigos. Dizia uma que o que eles deviam ser era todos mortos. Concordava outra, mas acrescentando que antes deviam ser castrados, e em público. Dizia ainda outra que sim, mas depois queimados na praça pública. Aí eu comecei a sentir um cheiro a chamusco e a lembrar-me dos velhos autos-de-fé no Terreiro do Paço e no Largo de S.Domingos. E a perguntar-me onde se enraizava tamanha sanha.

Com razão ou sem ela, por referências avulsas que ia ouvindo, julguei descobrir que as excelentes senhoras ali reunidas tinham formado a sua opinião a partir do que ao longo de anos tinham ouvido e visto nos seus televisores: dos já antigos teledepoimentos de uma senhora jornalista do semanário do dr. Balsemão, das entrevistas de face oculta feitas às vítimas, das fragorosas acusações formuladas pelo advogado de Bibi, de outros elementos que ainda bem recordavam. Por isso não tinham dúvidas: aos patíbulos, já! E, então, designadamente e sobretudo no que se refere a Carlos Cruz (porque, embora julgados em conjunto, aqueles seis arguidos não eram iguais entre si como seis gotas de água), uma pergunta impertinente começou a incomodar-me como uma espécie de prurido. E se o homem tiver sido alvo de uma armadilha tecida a mando de um sujeito que em dada altura se tenha sentido ferido e mesmo publicamente humilhado pelo «apresentador de televisão», para usar aqui a fórmula redutora e pouco exacta como Cruz tem agora sido referido? E se esse sujeito for suficientemente poderoso no plano financeiro para mandar pagar muito bem aos que aceitassem colaborar no plano (ainda que muitos deles tivessem um preço baixo) e bastante influente no plano social para estar supostamente acima de qualquer suspeita? E se a velha ofensa estiver esquecida por todos ou quase todos, excepto pelo ofendido e o ofensor? E se, incómoda pergunta final, a TV dos privados com bastos capitais também puder servir para coisas destas?

A dada altura como que despertei de uma espécie de sonho ou de pesadelo que me assaltara de olhos abertos e ouvidos atentos: aquilo devia ter sido o resultado da enfadonha espera. Mas mesmo passadas horas o prurido não se dissipou totalmente. É de crer que a mistura da TV com um coral de senhoras iradas e com o desconforto de um consultório médico resulte num composto indesejável.

*Correia da Fonseca é amigo e colaborador de

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