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Vidas na Clandestinidade

Cristina Nogueira    20.Abr.11    Outros autores

“Vidas na Clandestinidade” é um livro que tem por base uma pequena parte de uma dissertação de Doutoramento em Ciências da Educação. O objectivo da investigação foi determinar de que forma é que aqueles que tiveram de se tornar clandestinos se formaram, e assim puderam permanecer durante um arco temporal longo na clandestinidade, desenvolvendo actividades, promovendo lutas e resistindo às investidas policiais.

Neste livro procura-se caracterizar a clandestinidade comunista, enquanto contexto de vida e de luta e descobrir as normas de conduta, regras, códigos éticos e morais e até a linguagem particular que os clandestinos assumiam. Pretende-se assim equacionar a cultura própria que emana da clandestinidade comunista, caracterizando não tanto a organização partidária numa perspectiva macro-estrutural, mas lançando um olhar para o quotidiano da vida clandestina, usando como fonte privilegiada de informação as vozes daqueles que permaneceram clandestinos e que forneceram as suas narrativas biográficas. Para além da clandestinidade, neste capítulo foi ainda caracterizado o dia-a-dia prisional, já que alguns dos biografados estiveram detidos (por vezes durante vários anos) e mesmo aqueles que não foram presos tiveram sempre a ameaça da prisão no seu horizonte. O contexto prisional é incontornável já que todos os clandestinos se referiram a ele, por vezes de forma particularmente intensa.

Ao longo do texto são privilegiadas as vozes dos biografados, que são transcritas frequentes vezes. Contudo, as suas trajectórias são apresentadas através das palavras da autora, de forma o mais precisa possível procurando respeitar as suas visões do mundo. Trabalhando com as vozes e as palavras de outros procura-se revelar a história de cada um, valorizando o sentido e o significado que cada um atribui ao vivido.

Para além das vozes dos clandestinos entrevistados, os jornais 3 Páginas para as Camaradas das Casas do Partido e A Voz das Camaradas das Casas do Partido, assim como outros documentos de arquivo, foram também usados com o objectivo de ajudar a aceder a aspectos da vida clandestina que poderiam estar pouco clarificados e que assim, com a ajuda de artigos escritos por clandestinas podem ser iluminados. Também foram usados como fonte de informação alguns relatos autobiográficos publicados ou mesmo obras de carácter ficcional que podem ajudar a caracterizar a clandestinidade enquanto contexto de vida e cultura particular.

A pertinência desta obra surge na medida em que o regime fascista português que oprimiu o povo durante 48 anos está hoje remetido para o esquecimento ou até para um branqueamento que pretendemos combater. Actualmente a memória do regime aparece com um novo impulso e com uma reescrita centrada na figura de um ditador paternal e até bondoso, que “endireitou” o país, homem dedicado à nação; o que tende a colocar Portugal num ponto distante dos regimes fascistas que caracterizaram a Europa durante o século XX. A aceitação em Portugal do “Estado Novo” como uma fórmula politica aceitável e até conveniente, considerando-o como um regime não totalitário, com uma repressão débil, em que mais do que fascismo foi uma ditadura paternalista, insere-se num movimento mais global a nível europeu de revisão histórica, de que é exemplo em Itália a consideração do nacional-socialismo como inevitável. Assim, a memória dominante do regime fascista em Portugal aparece cada vez mais pintada com tons idílicos e as recordações da pobreza, da fome, da censura, do analfabetismo, das prisões e da tortura aparecem de uma forma cada vez mais frágil.

A ideia de que é necessário dar a conhecer testemunhos das vítimas do fascismo, e que é fundamental para a construção da nossa identidade e da nossa memória colectiva esse conhecimento é o motivo primeiro que está na origem desta publicação. A ideia de que é importante legar para as gerações vindouras as memórias das vítimas do regime fascista e a sua versão dos factos, e que é necessário combater a ideia de que a ditadura foi inevitável, necessária ou até benéfica, construindo uma memória colectiva da resistência e da oposição, foi possivelmente a principal razão para que os ex-clandestinos aceitassem colaborar na investigação que realizámos.

Das narrativas biográficas recolhidas, sobressai uma representação de si, transversal a todos os biografados: a ideia de que não possuem qualidades excepcionais, e de que a sua capacidade de resistirem às torturas e à prisão, de viverem clandestinos, com tudo o que isso implicava, e de continuarem a lutar por algo em que acreditavam, se deve sobretudo à consciência que possuíam e à vontade que tinham. Se esta ideia, pode traduzir a desvalorização pelos feitos individuais e a importância atribuída pelos entrevistados à acção colectiva, não deixa contudo de fornecer também óptimos contributos para a reflexão na sociedade actual, em que o sonho, a utopia e as causas parecem não estarem na «moda», estarem a desaparecer e em que imperam valores como o individualismo, o egoísmo e o consumismo.

É preocupante que 37 anos após a revolução de Abril, surjam de forma cada vez mais clara alguns dos traços e valores que caracterizaram o regime fascista português. Longe de se pretender estabelecer qualquer paralelismo entre a situação actual e o regime fascista que oprimiu durante mais de quatro décadas o povo português, não se pode deixar de considerar que actualmente as injustiças sociais, a pobreza que assola uma parte substancial da população, algumas formas subtis de camuflar a liberdade, cada vez mais entendida e exercida no campo formal, tornam imprescindível a reflexão sobre os testemunhos recolhidos. Hoje, tal como ontem, é necessário que cada um se torne autor e actor da mudança, que use a sua vida para de forma critica transformar o mundo em que vivemos.

As vidas dos clandestinos biografados demonstram que é possível sonhar, que é possível lutar por aquilo em que acreditamos e que essa luta vale a pena. Os homens e mulheres que dão corpo a este trabalho e que representam tantos outros, anónimos e desconhecidos fazem parte integrante da história portuguesa do século XX e merecem ter os seus nomes escritos, semeados e multiplicados.

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