A próxima guerra: operações militares no sul do México e na América Central

América centralPara os Estados Unidos é urgente a abertura de outro teatro de operações militares e guerreiras no sul do México e na região considerada, segundo o Departamento de Estado, a mais perigosa do mundo: o triângulo entre a Guatemala, as Honduras e El Salvador.

Não chegam mobilizações massivas para deter a violência estatal e dos seus correlativos mafiosos como o narcotráfico. Não chegam 40 mil mortes, nem 16 mil raptos e 6 mil desaparecidos para declarar que no México se vive e morre em guerra.

Não chegam as denúncias mundiais sobre a catástrofe que consome aquele país a sul dos Estados Unidos, integrado/subordinado desde 1994 com o TLC (código do aeroporto internacional López Mateos na Cidade do México – N.T.) e aprofundado em 2005 com a ASPAN (“Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte”, organização criada em 2005 pelo Canadá, México e EUA – N.T.). Fazem ainda falta mais criatividade, mais organização civil e mais mobilizações regionais e mundiais para acabar com a barbárie.

Para os Estados Unidos, em contrapartida, é urgente a abertura de outro teatro de operações militares e guerreiras no sul do México e na região considerada, segundo o Departamento de Estado, a mais perigosa do mundo: o triângulo entre a Guatemala, as Honduras e El Salvador.

Projectar “um conflito bélico” para cumprir com as metas estabelecidas para a segurança e prosperidade dos EUA e para reposicionar a hegemonia que foi perdendo na região latino-americana nos últimos anos, essa é uma prioridade para os americanos. Se não o conseguiram com a ALCA (“Área de Livre Comércio das Américas”, organização proposta pelos EUA em 1994 e parada desde 2005 – N.T.), fá-lo-ão sob o guarda-chuva da segurança e da retórica sobre os “potenciais inimigos das democracias”. É assim que se inicia a estratégica guerra global dos interesses.

O chefe do Comando Sul (Southcom), Douglas Fraser, instou recentemente o governo de Felipe Calderón a abrir na fronteira sul do México uma frente de guerra contra o narcotráfico e a controlar a partir de políticas regionais o corredor do istmo, sob o pretexto de ser a área do maior tráfico de drogas (80%) que chega aos Estados Unidos. O estratega militar afirmou: “O triângulo do norte da Guatemala, El Salvador e Honduras é a zona mais letal do mundo fora das zonas de guerra activas”.

Isso significa, em linguagem militar, que a região está identificada como eventual zona de guerra. Sim, estender a guerra que assola o México até à América Central

Não se trata da guerra contra um difuso inimigo interno, mas sim da guerra contra “as corporações transnacionais do crime organizado”, dizem-nos os representantes do Pentágono, trata-se de “uma guerra definitiva para acabar pela raiz com o mal” que o governo mexicano não conseguiu.

Contudo, trata-se na realidade de uma guerra regionalizada, sem fronteiras, nem códigos militares clássicos, na qual os que perdem são sobretudo os civis, gente inocente desta zona arruinada desde sempre pelo intervencionismo americano, e quem ganha são os que financiam as guerras, traficam armas, negoceiam com altos dividendos as rotas do dinheiro e o tráfico de drogas.

Segundo um despacho da agência AFP do passado dia 15 de Abril, chefes militares dos EUA e do Canadá assistiram a uma reunião sobre segurança na fronteira sul do México. Participaram os governos do México, Guatemala e Belize. Trataram os temas do narcotráfico, do tráfico de pessoas e das políticas de segurança conjunta. Os acordos e resultados foram considerados secretos e com eles foi dado outro passo mais na estratégia de domínio através da militarização.

A região vive já nos factos a escalada das operações castrenses. Desde 1994 que, no estado de Chiapas, foram instalados paulatinamente 40 mil efectivos do exército mexicano com o objectivo de acabar com a insurreição do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

As tropas militares efectuaram movimentos dinâmicos, acções coordenadas encobertas, e deram informação e cobertura aos grupos paramilitares para sabotarem a organização social das comunidades indígenas nos Altos, Selva e Norte do território a sul do México.

Além disso, a região costeira e fronteiriça, de acordo com as necessidades políticas do momento, sofre patrulhamento sistemático pela polícia da imigração que persegue e reprime os caminheiros vindos da América Central e do Sul.

A partir do recente apelo do Departamento de Estado e da DEA (“Drug Enforcement Administration”, organismo do Departamento de Justiça do governo dos EUA – N.T.) para militarizar a fronteira, foram criadas duas bases militares com 1200 efectivos, uma cintura de contenção supostamente para a luta contra o crime organizado, numa das fronteiras mais vulneráveis para a passagem da população civil, migrantes que no desespero de encontrarem saída para a pobreza caminham por esta zona.

Na Guatemala, vivem-se estados de excepção e suspensão das garantias individuais em zonas consideradas perigosas. Em Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011, o exército executou a medida em Alta Verapaz, na fronteira com o México, ao assinalar actividades do crime organizado transnacional.

Nas Honduras, o golpe de estado de 2009 deu a concentração real do poder às forças armadas. Todos os dias se dão crimes de lesa-humanidade à sombra do contestado governo de Porfírio Lobo.

No El Salvador, as acções delinquentes das pandilhas justificam as acções dos militares nas ruas.

Como reforço, o governo dos EUA anunciou através do presidente Obama a canalização de 200 milhões de dólares para assuntos de segurança na região centroamericana.

Em síntese, a zona sul do México e o “triângulo letal” da América Central contam já com uma considerável presença militar e de agências, internas e externas, que prefiguram um nó de segurança regional sob orientação do Departamento de Estado e uma zona altamente vulnerável a partir da qual se podem desencadear confrontos como os que agora se vivem no norte do México.

Durante quatro dias, a população civil mexicana começou a perder o medo e a sair às ruas em várias localidades do país, com o fim de conseguir o fim da guerra e o fim da estratégia militarista de Felipe Calderón para o problema do narcotráfico.

Apelou-se à refundação da nação a partir de um novo pacto social onde se trate o tema da droga como um problema de saúde pública, se combatam as raízes económicas do crime organizado e as suas ligações com o poder financeiro e político, se aplique uma política social de emergência para os jovens e uma reforma democrática.

É urgente o despertar da sociedade civil na nossa região. É urgente um movimento social de alcance regional para evitar as consequências que podem em breve rebentar.


Campanha América Latina Região de Paz – Fora com Bases Militares Estrangeiras.

Tradução: Jorge Vasconcelos

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