Pecados e falta de memória

Vaz de Carvalho    18.Oct.11    Outros autores

Não é raro que, quando altas figuras da hierarquia da Igreja Católica falam, o que exprimem não seja mais do que o realejo da ideologia da classe dominante, e que as ideias que expõem se encontrem em contradição com os preceitos da religião que deveriam representar.

1 - 8º Mandamento - Não levantar falsos testemunhos.

Sua Santidade Bento XVI, na sua recente visita à Alemanha comparou, numa missa, as “ditaduras negra e vermelha”, respectivamente do nazismo e do comunismo, para as quais “a fé cristã teve o efeito de uma chuva ácida”. SS Bento XVI, ou está muito esquecido ou peca contra o 8º Mandamento. Recordemos então. Desde 1931, pelo menos, que o Partido Católico do Centro negoceia com os nazis. Bruening, o seu líder, quer o apoio de Hitler para formar governo. Em agosto de 1932, o nº2 nazi, Goering é eleito presidente do Reichstag, com apoio do Partido Católico. A ânsia de se aproximarem de Hitler é tal que leva a dissidências no Partido Católico. Von Papen, é demitido do partido por tomar iniciativas de negociação com Hitler, à margem de Bruening, para formar governo – como virá a acontecer. Papen é então o principal apoiante de Hitler junto do velho Marechal Hidenburgo, presidente da República, que desprezava profundamente Hitler (“esse cabo austríaco”) e os nazis (arruaceiros). Von Papen conluiado com os nazis torna-se então chanceler, preparando o caminho de Hitler para o poder. (*)

Seria fastidioso descrever aqui todo o conjunto de intrigas, traições e violências sobre as forças democráticas e progressistas que se verificaram então. Dizer que Hitler alcançou o poder por via democrática é uma descabelada falsidade, mostrando até que ponto pode chegar a degradação da “democracia burguesa”, transmutada em ditadura do grande capital. Nisto se resumiu a entrega do poder aos nazis.

Em Novembro de 1932, o Parlamento é dissolvido e realizadas novas eleições. Os nazis perdem 2 milhões de votos e 34 deputados, o Partido Comunista ganha 750 mil votos e mais 11 deputados. Que acontece a seguir? Muito “democraticamente” em Janeiro é nomeado um governo Hitler / Papen, sob pressão dos interesses monopolistas e agrários (a “sociedade civil”?) e monsenhor Kass do Partido Católico negoceia com Hitler o apoio do partido.

Em Julho de 1933, com a “ausência” dos deputados comunistas, o Partido Católico garante os dois terços de deputados necessários para Hitler assumir poderes absolutos. Votam contra, os deputados social-democratas que não estavam presos ou em fuga. Apesar disto, em Maio tinham votado pela aprovação da política externa e procuravam apaziguar Hitler.
Nesse mesmo mês de Julho, o Partido Bávaro Católico e o Partido Católico do Centro autodissolvem-se assegurando o domínio absoluto dos nazis. Ainda neste mês é assinada a concordata com o Vaticano, sendo Hitler já formalmente ditador e os campos de concentração a encherem-se. A concordata proporcionou a Hitler prestígio e credibilidade que nessa altura bastante necessitava a nível interno e externo. O Núncio Apostólico em Berlim, será em breve o papa Pio XII.
“Chuva ácida” ou “água benta” para o nazismo?

O Vaticano mostrou inegável complacência – quando não apoio – para com “as ditaduras negras” fascistas e pro-nazis que infestaram a Europa nesse tempo. Mais recentemente, foi o silêncio em relação a Pinochet, Vilela da Argentina, e na prática a todos os cruéis ditadores sul-americanos, ou ao torcionário católico Ngo-Dinh-Dien – e ao seu irmão bispo - do então Vietname do Sul, ou ao Marcos das Filipinas. A lista é no mínimo tenebrosa.

Em compensação, foram marginalizados e perseguidos os padres, bispos e outros religiosos que participaram na Teologia da Libertação contra os fascismos e foi silenciado e esquecido o crime contra monsenhor Romero, de São Salvador, caído às mãos dos fascistas, pela sua coragem e dignidade.

Durante a 2ª guerra mundial nem uma palavra para defesa dos perseguidos e torturados. A duplicidade do Vaticano está bem retratada no drama histórico de Rolf Hochuth “O Vigário” que expõe a posição de Pio XII. Factualmente esclarecedora é a entrevista que o general De Gaulle teve com Pio XII nos finais de Julho de 1944 e que relata nas suas “Memoires de Guerre” vol. II. Escreve: “Para a Alemanha, que por muitas razões lhe é particularmente cara, (será ironia de De Gaulle?) vão as suas maiores inquietações. “Pobre povo – repete-me – Como vai sofrer!”

Espantoso, no momento em que sob o peso das derrotas, fundamentalmente frente ao Exército Vermelho, se aproximava o fim do nazi-fascismo, que os fascistas na sua retirada se vingavam massacrando populações, no momento em que milhões de seres humanos estavam a ser libertados dos horrores e da escravidão nazi-fascista, que prisioneiros eram dizimados antes dos campos de concentração serem abandonados, que a repressão e a crueldade mais se abatia sobre os povos sob o seu domínio, incluindo a resistência do interior da Alemanha (tudo isto hoje muito esquecido e deturpado, passando para a opinião pública que apenas os judeus foram vítimas de perseguições) a preocupação de Pio XII é clara. Prossegue De Gaulle: “Mas é a acção dos sovietes, hoje sobre terras polacas, amanhã sobre toda a Europa Central que enche de angústia o Santo Padre” (angústia pela libertação do terror nazi-fascista?!) Pio XII “Prevê que a cristandade vai suportar cruéis provas” e para isso deseja uma união estreita entre os Estados europeus católicos”, nos quais inclui, para erradicar o perigo a Espanha de Franco – na qual os pelotões de fuzilamento não tinham cessado - e o Portugal salazarista, onde campeavam torcionários e se mantinha o Tarrafal. “Água benta para o fascismo”, sim, nada de “chuva ácida”.

Não esquecemos, porém, os sacerdotes e crentes que tombaram na luta contra os fascismos ao lado do seu povo atormentado. Outra era a política do Vaticano.

“Chuva ácida” – aliás forma de poluição bastante destrutiva – foi a que se verificou com a ajuda da CIA. Em fevereiro de 1992, na revista TIME, Carl Bernstein (um dos dois jornalistas do Watergate) revela o que se passou no encontro entre o Papa João Paulo II e Ronald Reagan dez anos antes. Aí foi delineada a operação secreta para evitar a implosão do Solidariedade, apoiar Walesa e lançar a Polónia na instabilidade política e social. Foi estabelecida a colaboração entre sacerdotes e agentes da CIA que forneceram toneladas de equipamento de propaganda (impressoras, fax, rádios, etc.) organizaram manifestações, prepararam e financiaram agentes, proporcionaram fundos para nas Igrejas ser distribuído dinheiro, computadores e outros bens, remédios, etc. Na mesma altura foram delineadas operações secretas e apoio a organizações antisocialistas na Hungria e Checoslováquia e a intensificação das emissões da “Voz da América” e da “Europa Livre”.

A revista L’Expansion de 5 de Março de 1992 fez-se eco do artigo, desvalorizando-o: “a bem dizer faz muito poucas revelações”. O artigo é também parcialmente transcrito na brasileira “Manchete” em 22 de fevereiro de 1992.

O encontro com Reagan foi seguido de outros com o Secretário de Estado, A. Haig e o director da CIA W. Colby.
O que veio depois desta “chuva ácida” em termos de direitos humanos e espírito cristão, todos podemos saber ou mesmo ver com os nossos próprios olhos, mas isto é outra história da História.
* Seguimos a descrição dos acontecimentos na Alemanha conforme “Ascensão e Queda do III Reich” de William L. Shirer, 1º Vol.

2 – 2º Pecado Mortal: A avareza

Ainda acerca de pecados e esquecimentos temos o caso do Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. José Policarpo. Certamente aspirando á santidade, diz (DN- 25.Setembro.2011) “que temos de nos sujeitar às condições dos que nos emprestam dinheiro”. Francamente não entendemos. O sr. Cardeal sabe muito bem como a especulação desenfreada corroeu as economias lançando-as na crise – também de valores morais – sabe também como age o BCE e a UE na defesa a todo o custo dos especuladores. Porém não recorda o pecado mortal, da “Avareza”.

Na concepção cristã, a avareza é considerada um dos sete pecados capitais, pois o avarento prefere os bens materiais ao convívio com Deus. Neste sentido, o pecado da avareza conduz à idolatria, que significa tratar algo, que não é Deus, como se fosse deus. Avareza, no cristianismo, é sinónimo de ganância, ou seja, é a vontade exagerada de possuir qualquer coisa. Mais caracteristicamente é um desejo descontrolado, uma cobiça de bens materiais e dinheiro, ganância.

Chamamos avareza ao excessivo desejo de acumular riqueza. Usura refere-se ao juro excessivo de dinheiro que se emprestou. No mundo actual campeia há décadas um pecado mortal: a avareza e a sua expressão mais cruel, a usura. Alguns teólogos consideram-na o mais grave pecado, pois não prejudica só quem o pratica mas todos os seus semelhantes. Além disso, é um pecado estúpido, pois o dinheiro assim criado não passa de uma potencialidade, uma imagem, uma ilusão de valor.

Ora, um pecado mortal, priva a alma da santificação da Graça que só pode ser restaurada pelo sacramento da penitência e reconciliação. Compreendemos que o sr. Cardeal na sua santidade queira absolver os especuladores e mesmo os banqueiros fraudulentos, mas como se persistem no pecado mortal? Pior, então quem faz penitência por eles são os inocentes deste pecado? Que Deus me perdoe, mas isto faz-me lembrar o culto de Baal - Moloch, ao qual se sacrificavam inocentes.
Mas, talvez estas coisas se percebam melhor se escutarmos os doutores da Igreja. (*)

Santo Agostinho, diz-nos que “as nações têm o regime ou sofrem as vicissitudes que merecem não segundo o juízo humano, mas sim segundo o critério para nós incompreensível da Providência” (Vol.I 139).

Agora entendemos: a Providência na UE tem o nome de Claude Trichet – ou será Angela Merkel?
O abade de Fleury Abão, no sec. IX, especificava que “a partir do momento da sagração, desobedecer ao rei é desobedecer ao próprio Deus” (Vol.I 193). Investido do Direito Divino, o poder temporal “para apaziguar a cólera divina, deve impor pelo terror e pela disciplina o cumprimento daquilo que os padres não conseguem fazer pela palavra”, segundo Isidoro de Sevilha (Vol.I 151)

Através dos séculos, com os “aggiornamentos” convenientes, a doutrina ter-se-á alterado na forma, pouco no conteúdo. No séc. XVII o sr. bispo Bossuet, mentor do Luís XIV – um criminoso, como a História comprova - reformulou o poder divino dos reis, agora sem a dependência do Papa. Dizia: ”Deus toma sob a sua protecção todos os governos legítimos, quaisquer que sejam a forma como estão estabelecidos. Quem tentar derrubá-los não é apenas inimigo público, mas também um inimigo de Deus”. “Para Bossuet a última palavra da política consiste na submissão ao poder” (Vol.II - 123-124).

Hoje a realidade do poder está nas mãos da finança especuladora que escandalosamente acumula fortunas imensas e crescentes (veja-se a listagem da “Forbes”) enquanto os povos que lhe estão submetidos são cada vez mais penalizados. As políticas impostas hoje serão amanhã, com o despertar dos povos tão obsoletas e infames como as práticas feudais.
Acerca disto dizia muito mais cruamente que o sr Cardeal Patriarca, o bispo Fulberto de Chartres (S. Fulberto – sec. XI): “Acima do povo deve ter lugar o Cavaleiro. E da mesma forma que aquele que monta o cavalo tem o direito de o conduzir para onde quer, assim o Cavaleiro deve dirigir o povo para onde lhe parecer melhor” (Vol.I 191).
Aqui chegámos, não é verdade, sr. Cardeal?

(*) – “História das Ideias Políticas” – Jean Touchard vol. I e II, ed. Europa América. Referências das páginas entre parêntesis.

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