O espelho do fascismo*

José Casanova    30.Dic.11    Outros autores

josé CasanovaQue a Universidade do Mindelo tenha decidido atribuir o título de doutor honoris causa a um ex-ministro do regime fascista e colonialista português já é escandaloso. Mas que a iniciativa parta de uma instituição do arquipélago onde o salazarismo instalara o Campo de Concentração do Tarrafal, que este personagem mandou reabrir para aí encerrar patriotas que lutavam pela libertação das colónias portuguesas ainda o é mais.

A Universidade do Mindelo decidiu atribuir a Adriano Moreira o grau de Doutor Honoris Causa.

As razões de tal honra residem no facto de, segundo o Reitor da dita Universidade, Adriano Moreira ser, não apenas «um dos sábios de Portugal, unanimemente reconhecido por pessoas de todas as cores políticas», mas também –
E quanto a «defeitos», nem um…
Ora, Adriano Moreira foi «ministro do Ultramar» de Salazar – facto que, por si só, diz alguma coisa a quem queira ouvir…

Acresce que, no que respeita a Cabo Verde, Adriano Moreira tem no seu currículo o ter levado a PIDE para aquela então colónia portuguesa – o que, está-se mesmo a ver, é de humanista e de democrata…

Para além disso, foi ele que, enquanto ministro do fascismo, deu a ordem para a reabertura do Campo do Tarrafal para nele serem encerrados militantes dos movimentos de libertação das colónias – facto que, por si só, chegava e sobrava…

Muito justamente, a Associação Cabo-Verdiana de Ex-Presos Políticos, pela voz do seu presidente, Pedro Martins, manifestou-se contra a decisão que considerou «um insulto».
A apoiar as razões do Reitor, veio um historiador (há sempre um historiador disponível…) alegando que «Cabo Verde não tem razão para alimentar ressentimentos contra quem quer que seja».

É claro, o que lá vai, lá vai… e não há nada como apagar a memória para fazer com que o que lá vai… volte.

E já agora, para avivar memórias, recorde-se que este Campo da Morte Lenta foi criado em Abril de 1936 e inaugurado cinco meses depois.

«Quem vem para o Tarrafal vem para morrer», era o lema dos directores do Campo.
«Eu não estou aqui para curar doentes, mas para passar certidões de óbito», era o lema do médico do Campo.

Por lá passaram 340 antifascistas portugueses, somando dois mil anos, onze meses e cinco dias de prisão – e lá morrerem 32, friamente assassinados.

Fechado em 1954, foi depois reaberto por Adriano Moreira em 1961 e para lá foram enviados patriotas dos movimentos de libertação.

Do Tarrafal se diz, justamente, que foi o espelho do fascismo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1987, 29.12.2011

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