Badiou e Zizek

Georges Gastaud    21.Feb.12    Colaboradores

GEORGE GASTAUDQue alguma imprensa burguesa em França abra as páginas à opinião de filósofos que se reivindicam do marxismo tem um significado positivo. Mas merecerá a pena reler criticamente o “marxismo” que esses textos formulam. Em vários casos, trata-se de versões cuja crítica do capitalismo é desprovida de pontaria certeira, e cujo conteúdo revolucionário é inexistente.

O comunismo marxista, ou seja o comunismo, deve aprofundar a crítica do neo-comunismo que Alain Badiou e Slavoj Zizek corporizam, cada um à sua maneira. Certamente que é muito positivo que estes dois autores - cuja inteligência e capacidade ninguém contesta, e cuja coragem política é bem real, se se tiver na devida em conta o anticomunismo actual (Badiou é um dos raros maoistas que não renegou a Revolução chinesa!) – consigam abrir brechas na feroz censura anticomunista que silencia os marxistas, exprimindo-se no Le Monde e no Libération sobre a “hipótese comunista”. Trata-se de um muito satisfatório indicador do rápido desgaste das ideologias do “fim da história” e da “morte do comunismo” que infestavam os media e as universidades nos anos noventa. Mas um olhar mais atento acaba por constatar que estes dois autores, que tomaremos o cuidado de considerar em separado, têm menos o mérito de desenvolver uma “hipótese comunista” - bastante nebulosa - do que de contribuir para levantar a hipoteca anticomunista que marca o “pensamento único” nestes nossos tempos de contra-revolução.
No que diz respeito a Alain Badiou, destaca-se-lhe o mérito de não idealizar a democracia burguesa e de recordar o que é uma revolução, ainda que, tendo em conta o tempo que já passou, fosse de esperar dele um pouco mais de espírito dialéctico no que diz respeito à articulação entre o insurrecional e o institucional num processo revolucionário que envolva a totalidade dos recursos políticos. É grande a sua coragem quando denuncia o “neo-pétainismo” de Sarkozy, arriscando-se aos processos que nos dias de hoje são instaurados a autores acusados de “ultraje ao chefe do Estado” (sic). É de elogiar a sua ancoragem na racionalidade matemática e nas ciências da natureza matematizadas, numa época em que a maioria dos “marxistas” desdenha e ignora essas ciências e o seu contributo ONTOLÓGICO, coisa que Badiou não faz, defendendo à sua maneira uma ontologia diamaterialista. Do mesmo modo, vibramos de entusiasmo quando Badiou se proclama “patriota francês” face à Finkielkraut e ao seu ocidental-sionismo pseudo-republicano.
Mas não podemos acompanhar Badiou na sua liquidação de facto do materialismo histórico e da dialéctica da natureza que constitui a sua base ontológica e epistemológica geral, porque este revisionismo de esquerda conduziria à liquidação do comunismo marxista no seu conjunto. Para Badiou, com efeito, existiria uma ruptura total entre aquilo que é da ordem do sujeito, portanto da ordem da moral, do “amor” e da política, e o que é da ordem da natureza, na qual a ciência matematizada é rainha e senhora: “postulo uma autonomia radical da categoria de sujeito. Não creio na ideia dum campo de homogeneidade dialéctica entre o ser e o sujeito. O sujeito é um processo singular, excepcional, improvável, indiscutivelmente ligado a condições exteriores efectivamente particulares mas que não resulta de nenhuma espécie de necessidade. Assumo esse hiato entre aquilo que é da ordem do ser e o que é da ordem do procedimento da verdade, que é subjectivo” (citado por A. Monville em l’Humanité de 23 de Março de 2010).
O marxismo, sem abandonar a defesa da matemática e das ciências físicas nem a sua reafirmação do seu alcance directamente ontológico, materialista e dialéctico, sem renunciar de nenhum modo à análise específica do elemento subjectivo e da iniciativa histórica, o marxismo articula a dialéctica da natureza com o materialismo histórico para fazer passar o socialismo “de utopia a ciência” (título de uma obra fundamental de Engels, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie biz zur Wissenschaft), fundamentando, portanto, a teoria do socialismo e do comunismo sobre a escrupulosa análise dos dados materiais, - naturais, económicos, sociais E psíquicos – porque o espírito não tem nada de imaterial e a sua própria contingência é fortemente enquadrada pela necessidade natural (que as neurociências estudam por um lado, e que a antropologia da pré-história, desde Leroi-Gourhan a Y. Coppens passando por H. de Lumlet, para nos limitar-mos apenas a França, estudam por outro lado), pela necessidade histórica (aquilo a que Marx chama a “produção dos meios de existência”), e pela psicologia materialista herdeira dos Vygotsky, Leontiev, Wallon e de outros Zazzo.
Ao ignorar esta articulação e ao enveredar pelo risco de resvalar no sentido do dualismo ontológico e do voluntarismo político (duas formas de idealismo), Badiou não pode falar do comunismo senão em termos de hipótese e de projecto …. puramente subjectivos e, no fim de contas, puramente éticos; na prática, não se fica muito distante da enunciação do comunismo como de uma “ideia reguladora da razão” como Kant o teria dito. Omissão total e algo sobranceira das forças produtivas (que a chamada “revolução cultural” chinesa contornava), omissão total das estratégias económicas e políticas do grande capital (a “construção europeia” é quase totalmente ignorada no que diz respeito à sua própria natureza), e ainda, deve dizer-se, menosprezo aristocrático por toda a experiência passada do proletariado (fazendo tábua rasa de tudo o que trouxe consigo a URSS, que os maoistas de ontem consideravam “social-imperialista”) e também pelo renascimento de uma ORGANIZAÇÃO comunista em França. E é a própria contradição capital/trabalho que passa ao esquecimento na concepção badiouista, uma vez que este autor, corajosamente empenhado na questão dos trabalhadores clandestinos, parece limitar a luta de classes ao confronto entre os trabalhadores imigrantes e o sistema de dominação “neo-pétainista”. O capital pode dormir descansado: assentando sobre uma base tão estreita, o “comunismo” nunca alcançará uma massa crítica que lhe permita derrubar a oligarquia; pelo contrário, ficar-lhe-ia largamente assegurada a sua hegemonia ideológica, inteiramente assente na divisão do trabalho entre a UM/Pen (Sarkozy e Le Pen rivalizam na islamofobia e xenofobia) e a UMPS, cujo programa comum implícito consiste na destruição da nação e na instalação de um Imperio europeu do capital dirigido sobretudo, se não exclusivamente, pela Grande Alemanha capitalista de regresso aos seus sonhos imperiais!
Quanto a Slavoj Zizek, que retoma a expressão hipótese comunista (Le Monde, 3 de Junho de 2008), a sua concepção ecléctica de revolução parece bem menos rigorosa do que a de Badiou, e no seu testemunho brilham o pechisbeque e as lantejoulas das ideias “altermundialistas” da moda. O capitalismo e a sua dominação aparecem ali como que desencarnados, reduzidos a puras tácticas ideológicas do género da “permissividade receituada”; a estratégia capitalista de desmantelamento dos Estados-nação e de construção de blocos supranacionais continentais e trans-atlânticos passam-lhe de raspão, com a aceitação implícita pelo autor das teses “híper-imperialistas” (fusão de todos os capitalismos num só, indiferença face ao belicismo imperialista) retomadas de empréstimo de Kautsky e “refrescadas” pelos revisionistas de esquerda Negri e Hardt, o “comunismo” consiste em remeter para a gamela comum da humanidade, essa massa informe na qual as nações e a classe operária terão antecipadamente desaparecido, com os grandes serviços públicos privatizados; o interesse central que Zizek manifesta na sua tribuna no Le Monde incide sobre a ecologia, sobre a sexualidade e a bioética, enquanto a questão social aparentemente não o apaixona, muito embora seja a partir deste terreno que o movimento social esteja em desenvolvimento um pouco por todo o lado: mesmo o ATTAC, que não se reivindica do comunismo mas que se interessa pelo social, está mais à esquerda do que isto! Ideólogos que não se reivindicam do marxismo, como Frédéric Lordon, têm, pelo menos, a coragem de atacar a Europa, de falar do patriotismo de forma positiva e de mencionar a “desmundialização”, o que poderia de alguma forma abalar o marxismo decorativista de Zizek. No fim de contas, segundo Zizek, a contradição principal oporia a plebe semi-proletária dos “bairros da lata” ao sistema de dominação cuja natureza de classe não é de nenhum modo identificada: “a tarefa essencial do 21º século, declara Zizek, será a de politizar, dando-lhes organização e disciplina, as “massas desestruturadas” dos bairros da lata” (e como faríamos para as estruturar se tudo objectivamente as desorganiza? E entretanto o patronato preservará o essencial: a empresa, e os lucros que aí produz o proletariado, nomeadamente o industrial!). Surgem aqui claramente as concepções pseudo-modernas (que remontam à II Internacional!) de Negri, opondo o “império” à “multidão”; uma concepção desmobilizadora que subestima ao mesmo tempo as contradições inter-imperialistas, o desenvolvimento desigual do capitalismo, e o papel da classe operária, inteiramente sonegado. Para Zizek a questão central seria, não a exploração capitalista, mas a “inclusão” e a “exclusão” social: como se a massa dos assalariados “incluídos” no sistema tivessem deixado de ser explorados, como se a exclusão e o desemprego em massa, como se a chantagem da precariedade não fossem aramas tradicionais do capital para intimidar os trabalhadores assalariados, para condicionar o mercado do emprego e para aumentar a exploração na fábrica, e como se, para construir uma sociedade menos selvagem, o comunismo não tivesse também o encargo de excluir os antigos exploradores, que iriam sabotar a ordem social revolucionária (a questão não é exclusão ou inclusão, mas quem exclui quem?, quem explora quem?: em resumo, a questão continua a ser a do combate de classes e o seu desenvolvimento revolucionário incontornável, a expropriação dos capitalistas, primeiro passo no sentido da socialização dos meios de produção).
E também nenhuma palavra, nem em Badiou nem em Zizek, para denunciar a criminalização do comunismo histórico e a gigantesca caça às bruxas que, iniciada nos países bálticos e “transportada” pelo canal azul-negro do berlusconismo e do sako-lepenismo, ameaça abater-se sobre a Europa ocidental. Separado do fundamental do passado comunista, separado de qualquer questionamento sobre as forças produtivas, separado das lutas concretas e dos esfroços de reorganização da calsse operária, separado da necessidade de reorganizar os PC de massas e o Movimento comunista mundial, separado do movimento político anti-imperialista, diluindo de forma romântica e esquerdista o proletariado produtivo e o campesinato laborioso na plebe mundializada (enquanto os trabalhadores marginalizados constituem uma fracção do proletariado, o terreno principal da luta de classes continua a ser a empresa e as relações de TRABALHO), ignorando tudo da dialéctica marxista do socialismo e do comunismo, estas duas versões do neo-comunismo, provindas na verdade do socialismo utópico, e tendendo mesmo (no caso do segundo) – com toda a sinceridade – a maquilhar de vermelho o altermundialismo e o altercapitalismo, ou seja, o reformismo sem reformas típico da nossa época contra-revolucionária. Não pretende Zizek, explicitamente, “neutralizar e canalizar os mecanismos do mercado”? Não se trata de nada que possa afectar nem um ¼ de ponto os índices bolsistas…
Está claro que o jornal anti-comunista Le Monde, que se adorna com um toque subversivo concedendo uma página inteira para Zizek escrever sobre o “comunismo”, ao mesmo tempo que espadeira sem tréguas contra o comunismo histórico e censura a 200% as organizações marxistas-leninistas francesas, não daria nem um quarto de página a quem, nas suas colunas, mesmo sem fazer uso das palavras “revolução” e “comunismo”, fizesse um apelo à saída da França da sacrossanta “construção europeia”: intelectuais neo-comunistas, desancai quanto quiserdes no “capitalismo”, as palavras saem barato, mas não toqueis nos fundamentos materiais e políticos da sua dominação: a destruição contra-revolucionária dos países socialistas, dos partidos comunistas e dos sindicatos de classe, as ofensivas maciçamente antissociais da “construção europeia”, o desmantelamento dos Estados-nação, etc. E, sobretudo, apresentai com Zizek “a” mundialização como um facto irreversível, porque é de tudo isto que a estratégia capitalista politicamente necessita para desarmar ideologicamente o proletariado!
À face deste neo-comunismo utópico, as posições de D. Losurdo parecem bem mais materialistas e bem mais “resistentes”. Losurdo, pelo menos, bate-se contra a “autofobia” comunista, pelo respeito pela primeira experiência socialista da história, contra a criminalização da URSS, contra a amálgama Hitler=Stáline, e esforça-se por defender os países socialistas actuais, sobretudo a China popular (se ela merece ainda esse título seria questão para outro debate). Para o fazer, infelizmente, D. Losurdo engole às vezes a água do banho capitalista para preservar o bebé socialista: e o filósofo italiano revê pela direita o marxismo ao repudiar a ideia do desaparecimento do Estado (o que ficará do comunismo, encurralado para sempre entre os dois comparsas que são o estatismo e o mercantilismo?), celebrando o oximoro do “socialismo de mercado” como uma opção estratégica e histórica (o socialismo de mercado imagina, como faz Zizek, não o recorrer temporariamente ao mercado capitalista para o controlar e o superar, mas o coexistir pacificamente com ele durante um largo período) e idealizando a China, onde as contradições de classes se estão entretanto a tornar mais estridentes, e mesmo sangrentas, embora esse facto não elimine a contradição entre a China e a Tríade imperialista, nem dispense os comunistas do mundo inteiro de defender a República popular chinesa contra tudo aquilo que a desestabiliza (pressões imperialistas, mas também políticas neo-liberais grosseiramente anti-proletárias). Nestes termos, estamos mais próximos do colbertismo do que do marxismo! E tudo culmina com uma defesa do “desenvolvimentismo” do tempo de Stáline que exalta o pragmatismo, quando não o cinismo, desse dirigente, ao mesmo tempo que formula uma acusação contra o pretenso “utopismo” de Lénine. A nossa leitura da história soviética é bem diferente e mostra, pelo contrário, que é urgente contrapor tanto à stalinofilia ambiente como a um regresso da stalinolatria uma critica equilibrada, leninista, dos desvios políticos estatistas do marxismo, e a crítica conjunta do socialismo de mercado e do comunismo de Estado, esse outro oximoro, contra os quais Lénine tinha ele próprio alertado nos seus últimos escritos, em que apresenta a NEP como um “recuo táctico” e em que apela ao reforço da ditadura do proletariado sobre a base de um controlo acrescido do povo sobre a economia e a vida política, reduzindo sistematicamente em simultâneo a máquina estatal-administrativa propriamente dita.

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