A “Lista de Vítimas” sírias em questão*

Sharmine Narwani **
12.Mar.12 :: Outros autores

No padrão comum das ofensivas imperialistas, em particular na última década e meia, a manipulação da informação desempenha um papel central. É perante a colossal desinformação que, diz Sharmine Narwani, “as pessoas têm que parar de se sujeitar a esta obsessão oportunista e histérica com o número de mortos sírios e em vez disso perguntarem: “quem são estas pessoas e quem as matou?” É o mínimo que estas vítimas merecem. Tudo o que não for isso torna estas mortes trágicas absolutamente sem sentido”.


http://www.veteranstoday.com/author/narwani/

“Em política, o que parece é”, diz o velho adágio. Repita-se seja o que for três, cinco, sete vezes e as pessoas começam a acreditar, da mesma forma que se “sabe” que a aspirina é boa para o coração.
Algumas vezes, no entanto, as aparências são perigosas. No sujo jogo da política, são as aparências e não os factos sobre determinada questão aquilo que invariavelmente ganha.
No caso do furioso conflito da Síria, a única questão fundamental que anima todo o debate internacional sobre a crise é o número de mortos e o seu corolário: a lista de vítimas da Síria.

A “lista” tornou-se largamente conhecida, senão especificamente, pelo menos de certeza quando os números são atirados: 4000, 5000, 6000, por vezes mais. Não se trata de simples números, representam sírios mortos.
Mas, é aqui que os erros das aparências começam. Há varias listas concorrentes de vítimas com diferentes números. Como se consegue avaliar se o número de mortes X é exato? Como foram as mortes verificadas? Quem as verifica e com que interesse? São todos os mortos civis? São civis pró-regime ou anti-regime? As listas incluem os cerca de 2000 membros das forças de segurança sírias? Incluem membros dos grupos armados? Como é que o escrutinador diferencia entre um civil e um membro das milícias à paisana?
A própria logística é desconcertante. Como conseguem diariamente contagens rigorosas em toda a Síria? Um membro da equipa libanesa de investigação das mortes a tiro de manifestantes palestinianos pelos israelitas em 15 de maio de 2011 na fronteira com o Líbano disse-me que levaram três semanas a descobrir que houve apenas seis vítimas e não as onze contadas no dia do incidente. E nesse caso, o confronto todo demorou apenas algumas horas.
Como é que são então contadas 20, 40 ou 200 vítimas em poucas horas quando o conflito continua a desenrolar-se?

http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-list/rupert-colville/
Rupert Colville, porta-voz do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR)

A minha primeira escala na tentativa de resposta a estas questões sobre a lista de vítimas foi o gabinete das Nações Unidas do Alto-comissário para os Direitos Humanos (OHCHR), que me pareceu a fonte de informação mais fidedigna sobre o número de mortos até ter parado de as registar no mês passado.
A ONU iniciou o seu esforço para fornecer a contagem de vítimas na Síria em setembro de 2011, baseada principalmente em listas fornecidas por cinco fontes distintas. Três das fontes eram o Centro de Documentação das Violações (CDV), o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) e o sítio da rede Syrian Shuada. Nessa altura, as listas variavam em número entre 2400 e 3800 vítimas.
A lista de vítimas não-ONU mais frequentemente citada nos media em geral é a do Observatório Sírio (OSDH).
No mês passado, o OSDH deu origem a alguns títulos quando surgiram notícias de uma cisão ligada a posições políticas e à contagem de corpos. Dois OSDH rivais reclamaram-se ambos genuínos, mas o grupo encabeçado por Rami Abdul Rahman é o que é reconhecido pela Amnistia Internacional.
O porta-voz do Alto Comissário Rupert Colville declarou numa entrevista telefónica que a ONU avalia as suas fontes para verificar “se são fiáveis”, mas apareceu mais tarde a criar uma certa distância relativamente ao OSDH durante a homenagem pública ao grupo dizendo: “O colega (da ONU) mais envolvido nas listas… não teve contacto direto com o Observatório Sírio, embora tivéssemos olhado para os seus números. Não é um grupo de que tivéssemos qualquer conhecimento anterior e não tinha base na região, de forma que tínhamos alguma desconfiança.”
Colville explica que a ONU procurou sempre “fazer estimativas prudentes” e que “temos razoável confiança que os números arredondados não estão muito longe da verdade.”
Ao mesmo tempo que “também obtendo provas das vítimas e desertores – alguns corroborando determinados nomes,” a ONU segundo Colville “não está em posição de conseguir fazer a contra verificação dos nomes e nunca estará em condições de o fazer.”
Falei-lhe de novo depois de a ONU decidir parar com a contagem das vítimas nos finais de janeiro. “Nunca foi fácil de verificar, mas era um pouco mais claro antes. A composição do conflito alterou-se. Tornou-se muito mais complexo, fragmentado,” disse Colville. “Enquanto não temos qualquer dúvida de haver vítimas civis e militares… não conseguimos na verdade quantificá-las.”
“As listas são claras – a questão é se podemos garantir totalmente a sua exatidão,” explica citando os “números mais elevados” como um obstáculo à verificação.

Encerramento da Lista de Vítimas: histórias por detrás dos números
Dado que a ONU parou a sua contagem de vítimas, os jornalistas começaram a voltar às anteriores fontes de contagem de mortes. O OSDH é ainda a mais proeminente delas

http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-list/sohr-rahmi/
Rami Abdulrahman, Diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH)

O Observatório Sírio de Abdul Rahman não fornece a sua lista ao público em geral, mas no princípio de fevereiro encontrei uma ligação para o sítio de rede do outro OSDH e resolvi dar uma olhadela. A base de dados lista o nome da vítima, idade, sexo, cidade, província e data da morte, quando disponível. Em dezembro de 2011, por exemplo, a lista regista cerca de 77 vítimas sem fornecer informação sobre identidade. No total, há cerca de 260 desconhecidos na lista.
Por volta dessa altura, tinha eu visto a minha primeira lista de sírios mortos durante a crise, alegadamente compilada em coordenação com o OSDH, contendo os nomes de refugiados palestinianos mortos por fogo israelita nos montes Golan em 15 de maio e 5 de junho de 2011 quando manifestantes se juntaram na linha de armistício entre a Síria e Israel. Assim, a minha primeira verificação foi ver se esse tipo de erro clamoroso aparecia na lista do OSDH.
Para meu espanto, toda a lista de vítimas desses dois dias estava incluída na contagem de vítimas do OSDH – 4 de 5 de maio (#5160 a #51639 e 25 vítimas do fogo israelita de 5 de junho (#4629 a #4653). A lista chega a identificar as mortes como tendo tido lugar em Quneitra, que se situa nos montes Golan.
Não demorou muito também a encontrar os nomes de bem conhecidos apoiantes do regime sírio na lista do OSDH e a relacioná-los com filmagens dos seus funerais no Youtube. A razão para procurar ligações com os funerais está em que os funerais pró-regime e contra o regime diferem marcadamente nos slogans cantados e nos cartazes ou sinais ou bandeiras exibidas. Encontra-se em baixo uma lista de oito desses indivíduos na lista de vítimas, incluindo nome, data e local de morte, seguida da ligação vídeo e outros detalhes quando disponíveis.

#5939, Mohammad Abdo Khadour, 4/19/11, Hama, Coronel na reserva do exército sírio, atingido no seu carro e morto de múltiplas feridas de balas. Ligação ao funeral

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#5941, Iyad Harfoush, 4-18-11, Homs, Comandante na reserva do exército sírio. Num vídeo, a viúva diz que alguém começou a disparar na zona pró-regime al Zahra, na vizinhança de Homs - Harfoush saiu para ver o que se passava e foi morto. Ligação funeral

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#5969, Abdo al Tallawi, 4/17/11, Homs, General do exército sírio morto com os dois filhos e um sobrinho. A filmagem do funeral mostra as quatro vítimas. Os outros estão também na lista no #5948, Ahmad al Tallawi, #5958, Khader al Tallawi e #5972, Ali al Tallawi, todos em Homs, ligação funeral

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#6021, Nidal Janoud, 11/4/11, Tartous, um alauita barbaramente ferido pelos agressores. O homem de barba à direita da fotografia e um segundo suspeito estão agora em julgamento pelo assassínio. Ligação foto http://www.google.com.lb/imgres?q=%D9%86%D8%B6%D8%A7%D9%84+%D8%AC%D9%86%D9%88%D8%AF&hl=ar&client=firefox-a&sa=X&rls=org.mozilla:en-US:official&tbm=isch&prmd=imvns&tbnid=YUXJa4-iko20AM:&imgrefurl=http://www.syrialife.org/%3Fpage%3Dshow_det%26select_page%3D8%26id%3D1327&docid=3oyKrIyzGkTD1M&imgurl=http://www.syrialife.org/photo//local/janod-gun-4db0ca08db644.jpg&w=436&h=328&ei=ZdIpT82yB8uu8QPsrvyzAw&zoom=1&biw=1138&bih=553

#6022, Yasar Qash’ur, 11/4/11, Tartous, tenente-coronel do exército sírio, morto com outros oito numa emboscada a um autocarro em Banyas, ligação ao funeral

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#6129, Hassan al-Ma’ala, 4/5/11, polícia, arredores de Damasco, ligação ao funeral

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#6130, Hamid al Khateeb, 4/5/11, polícia, arredores de Damasco, ligação ao funeral

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#6044, Waeb Issa, 10/4/11, Tartous, Coronel do exército sírio, ligação ao funeral

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Além de figurar na lista do OSDH, o tenente-coronel Yasar Qashur, Iyad Harfoush,
Mohammad Abdo Khadour e o General Abdo al Tallawi e os dois filhos e sobrinho aparecem também em duas das outras listas de vítimas – o CDV e a Shuhada Síria – ambas usadas pela ONU para compilar os seus números.
Nir Rosen http://www.nirrosen.com/blog/, jornalista americano que esteve vários meses nos pontos quentes da Síria em 2011 com acesso notório aos grupos de oposição armada, relatou numa recente entrevista à Al Jazeera http://www.aljazeera.com/indepth/features/2012/02/201221315020166516.html:
“Todos os dias a oposição dá uma contagem de mortos, normalmente sem qualquer explicação sobre a causa das mortes. Muitos destes mortos são de facto da oposição, mas a causa da morte é omissa e são descritos nos relatórios como civis inocentes mortos pelas forças de segurança, como se estivessem simplesmente a protestar ou dentro de casa. Evidentemente, essas mortes ainda acontecem também normalmente.”
“E todos os dias membros do exército sírio, das forças de segurança e do vago fenómeno paramilitar e miliciano conhecido por shabiha [”bandidos”] são também mortos pelos revoltosos antiregime,” diz Rosen.
O relatório feito em janeiro pelos observadores da Liga Árabe após a missão de observação de um mês na Síria (largamente ignorada pelos media internacionais) também testemunhou atos de violência pelos grupos armados da oposição contra quer civis, quer forças de segurança.
Diz o relatório: “Em Homs, Idlib e Hama, a missão de observadores testemunhou atos de violência cometidos contra forças de segurança e civis… Exemplos destes atos incluem o bombardeamento de um autocarro civil, a morte de oito pessoas e ferimentos noutras, incluindo mulheres e crianças… Noutro incidente em Homs, um autocarro da polícia explodiu, matando dois oficiais da polícia.” Os observadores também assinalam que “alguns dos grupos armados usavam lança-chamas e projéteis de perfuração de coletes.”
Importante é o relatório confirmar a ocultação de informação quando afirma: “os media exageraram a natureza dos incidentes e o número de pessoas mortas nesses incidentes e nos protestos em certas cidades.”
A 3 de fevereiro, nas vésperas da votação do Conselho de Segurança da ONU sobre a Síria, surgiram notícias sobre um massacre em Homs http://www.guardian.co.uk/world/2012/feb/04/homs-massacre-un-vote-syria,
com os media em geral admitindo a sua veracidade e com toda a violência como tendo sido cometida pelo governo sírio. O OSDH de Abdul Rahman foi largamente citado nos media invocando um número de mortos de 217. Os Comités de Coordenação Local (CCL) que fornecem informação ao VDC, falaram em “mais de 200” e o Conselho Nacional Sírio (CNS), autoproclamado governo no exílio formado sobretudo de expatriados, invocou 260 vítimas.
No dia seguinte, o número de vítimas tinha sido revisto pelos CCL’s para 55
(link: http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-16883911)
Mesmo que a contagem seja 55, é ainda um grande número de vítimas sob todos os aspetos. Mas, foram essas mortes causadas pelo governo sírio, pelos atiradores da oposição ou pelo fogo cruzado entre os dois grupos? Essa é a questão que precisa ser esclarecida, por entre as ensurdecedoras narrativas, listas e contagens de corpos.

Na Lei Internacional, o detalhe interessa
Enquanto a impressão dominante até agora sobre as vítimas sírias é que se trata sobretudo de civis desarmados intencionalmente alvejados pelas forças governamentais, tornou-se óbvio que as vítimas incluirão também: civis apanhados no fogo cruzado entre forças governamentais e atiradores da oposição, vítimas da violência deliberada dos grupos armados, “rebeldes mortos” cujo aspecto não os distingue dos civis normais e membros das forças de segurança sírias, tanto em serviço, como fora de serviço.
Mesmo que pudéssemos verificar os nomes e números numa lista de vítimas sírias, ainda falta conhecer as suas histórias, que se reveladas podem estabelecer um quadro inteiramente diferente sobre o que se passa hoje na Síria.
Estas questões são vitalmente importantes para se perceber a carga de responsabilidade neste conflito. A lei internacional prevê diferentes medidas do conflito: as duas mais importantes bitolas são o Princípio da Necessidade, ou seja, só usar a força quando necessário, e o Princípio da Proporcionalidade, ou seja, usar de uma força proporcional à ameaça colocada.
No caso da Síria, como no Bahrain, no Iémen, no Egito e na Líbia, é largamente considerado que o governo utilizou força desnecessária em primeira instância. O presidente sírio Bashar Assad, como muitos desses dirigentes árabes, admitiu quando muito “erros” nos primeiros meses dos protestos. Esses erros incluem disparos mortais e prisão de um número de manifestantes muito maior do que o esperado, alguns deles alegadamente torturados.

http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-list/syria5/

Assumamos, sem questão, que o governo sírio usou de excesso de zelo no uso da força inicialmente e que portanto violou o Princípio da Necessidade. Tendo a acreditar nesta versão, porque foi assim declarada pela missão de observadores da Liga Árabe (os primeiros e únicos observadores no terreno a investigar a crise de dentro do país). Contudo, e é aqui que entra a lista de vítimas, não existem ainda provas suficientes, em medida aceitável por um tribunal, que o governo sírio tenha violado o Princípio da Proporcionalidade. As acusações de que o regime tenha usado uma força desproporcionada ao lidar com a crise são hoje difíceis de sustentar, em grande parte porque os oposicionistas têm usado armas contra as forças de segurança e contra os civis apoiantes do regime praticamente desde o início dos protestos.
Partindo do princípio que o número de vítimas fornecido pelo Alto Comissariado da ONU é da ordem de 5000, último número oficial citado pelo grupo, a questão é se se trata de um número altamente desproporcionado de mortes quando diretamente comparado com os aproximadamente 2000 soldados do exército regular sírio e de outras forças de segurança alegadamente mortos desde abril de 2011.
Quando se calcula o número de mortes das forças governamentais nos passados 11 meses, chega-se a cerca de seis por dia. Compare-se com o total de cerca de 15 diariamente divulgado por ativistas , muitos dos quais não são possivelmente nem vítimas civis, nem vítimas de violência intencional, e encontramos uma quase suficiente paridade para sugerir que se trata de um conflito em que os atos de violência são aproximadamente iguais de ambos os lados.

http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-lis
t/syrias-president-bashar-al-assad-and-his-wife-asma-speak-to-the-media-afte
r-voting-at-a-referendum-on-a-new-constitution-in-damascus/
O presidente da Síria e sua mulher Asma falam aos media depois de votarem no referendo sobre a nova constituição numa assembleia de voto no edifício da estação da TV síria em Damasco em 26 de fevereiro de 2012, em fotografia distribuída pela agência nacional de notícias síria SANA. REUTERS/SANA

No domingo passado, quando os sírios foram votar no referendo constitucional, a Reuters noticiou http://www.reuters.com/article/2012/02/26/us-syria-idUSL5E8DB0BH20120226 citando o OSDH que 9 civis e 4 soldados tinham sido mortos em Homs e que no resto da Síria houve 8 civis e 10 membros das forças de segurança mortos. Ou seja, 17 civis e 14 elementos das forças do regime (onde se situam os atiradores da oposição nesses números? Não foi morto nenhum? Ou estão incluídos na contagem dos “civis”?).

Desertores ou Soldados?
Têm também havido alegações de que muitos, senão a maior parte dos soldados mortos nos combates ou ataques são desertores mortos por outros membros do exército regular. Há muito poucas provas que suportem isto como algo mais que fenómeno limitado. Logicamente, seria quase impossível ao exército sírio manter-se intacto se as suas fileiras se portassem desta maneira – e as forças armadas têm permanecido notavelmente coesas face à extensão e intensidade do conflito na Síria.
Além disso, o nome, posto e naturalidade de cada soldado morto são largamente publicitados diariamente nos media estatais, muitas vezes juntamente com filmagem dos funerais. Seria bastante simples para a oposição organizada assinalar os nomes dos desertores incluídos nas suas listas de vítimas, coisa que não tem acontecido.

O primeiro incidente com vítimas do exército regular sírio que pude verificar data de 10 de abril de 2011, quando atiradores atingiram um autocarro de soldados viajando através de Banyas em Tartous. Este incidente teve lugar umas poucas semanas depois dos primeiros protestos pacíficos se terem iniciado na Síria e portanto estabelece que a violência contra as forças governamentais vem desde o início da contestação política no país.

“Testemunhas” citadas pela BBC, pela Al Jazeera e pelo The Guardian insistiram que os nove soldados mortos eram “desertores” que tinham sido mortos pelo exército sírio por recusarem ordens para disparar contra os manifestantes

http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-lis
t/joshua-landis/
(Joshua M. Landis é Diretor do Centro de Estudos do Médio-Oriente e Professor Associado de Estudos do Médio-Oriente na Universidade de Oklahoma. É membro da School of International and Area Studies. Escreve no“Syria Comment,” uma newsletter diária sobre política síria.)

Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Médio-Oriente na Universidade de Oklahoma ridicularizou essa versão no seu sítio da rede “Syria Comment”
http://www.joshualandis.com/blog/?p=91156 . Um soldado sobrevivente do autocarro (ligado ao tenente-coronel Yasar Qashur, nº 6022 na lista do OSDH cuja ligação para o funeral está acima) negou também que fossem desertores. Mas a história de que os soldados mortos são na maior parte desertores abatidos pelas suas próprias tropas pegou ao longo deste conflito, embora menos à medida que se vai comprovando com algum atraso a existência de atiradores alvejando forças sírias e civis pró-regime

O Centro de Documentação das Violações (CDV), outra das fontes do Alto-Comissário para os Direitos Humanos da ONU (OHCHR) para as suas contagens de vítimas, alega que 6.399 civis e 1680 desertores do exército foram mortos na Síria durante o período de 15 de março de 2011 a 15 de fevereiro de 2012. Todas as forças de segurança mortas na Síria durante os últimos 11 meses eram “desertores”? Nem um simples soldado, polícia ou oficial de informações foi morto na Síria excepto as forças de oposição ao regime? Este é o tipo de história sem sentido deste conflito que continua por verificar. Ainda pior, esta mesma estatística do CDV foi incluída no último relatório da ONU sobre a Síria publicado na semana passada.

Crise Humanitária ou apenas Violência Bruta?
Enquanto poucos duvidam da violenta repressão desta revolta pelo governo sírio, torna-se cada vez mais claro que, para além da questão da desproporcionalidade, existe o problema de haver ou não uma “crise humanitária” conforme sugerido por alguns dirigentes ocidentais e árabes desde o ano passado. Procurei respostas durante uma viagem a Damasco no princípio de janeiro deste ano onde falei a umas poucas ONG’s que beneficiaram de raro acesso a todas as partes do país.

Dado que palavras como “massacre” e “matança” e “crise humanitária” estão a ser usadas a propósito da Síria, perguntei ao porta-voz da altura do Comité Internacional do Crescente Vermelho (CICV) Saleh Dabbakeh quantas chamadas de assistência médica urgente tinha a organização recebido em 2011. A resposta foi chocante: “Apenas uma, que me lembre,” disse Dabbakeh. “Onde?,” perguntei. “No Hospital Nacional de Quneitra nos Golan,” respondeu, “em Junho passado.” Foi quando as tropas israelitas dispararam sobre manifestantes sírios e palestinianos caminhando para a linha do armistício de 1973 com o estado judaico. Os mesmos manifestantes que acabaram por ir parar à lista de vítimas da OSDH.

Um elemento da Cruz Vermelha Árabe Síria (CVAS) confirmou o acontecido, lembrando que a sua organização tratou centenas de vítimas do incidente largamente publicitado.

À medida que o nível de violência subiu, contudo, a situação piorou e o CICV passou a receber mais chamadas de assistência médica, principalmente de hospitais privados em Homs. A CVAS tem hoje nove pontos diferentes em Homs onde fornece essa assistência. Os dois únicos lugares que actualmente não servem são os arredores de Bab Amr e Inshaat “porque as condições de segurança não o permitem, pela sua própria segurança, visto que há combates aí.”

Durante uma chamada recente, um funcionário de uma ONG explicou que a medida para uma “crise humanitária” está no nível de acesso a bens básicos, serviços e cuidados médicos. Disse-me em privado que “existe uma crise humanitária em Baba Amr, mas não na Síria. Se a luta acabasse amanhã, haveria suficiente fornecimento de comida e medicamentos.”

“A Síria tem suficiente comida para se alimentar por muito tempo. O sector médico ainda funciona muito bem. Não há pressão sobre o sector médico suficiente para criar uma crise,” prosseguiu. “Uma crise humanitária é quando um grande número de determinada população não tem acesso a auxílio médico, comida, água, eletricidade, etc., quando o sistema já não consegue responder às necessidades da população.”

Mas, um trabalhador internacional de direitos humanos avisa também: “a matança acontece de ambos os lados – o lado contrário não é melhor.”

As pessoas têm que parar de se sujeitar a esta obsessão oportunista e histérica com o número de mortos sírios e em vez disso perguntarem: “quem são estas pessoas e quem as matou?” É o mínimo que estas vítimas merecem. Tudo o que não for isso torna estas mortes trágicas absolutamente sem sentido.
A falta de transparência ao longo da cadeia de produção da informação e sua distribuição (de ambos os lados) é equivalente a fazer toda a história sobre a Síria a partir de impressões e não de factos. Trata-se de um resultado oco e as pessoas vão morrer em cada vez maior número.

Fonte original: Al Akhbar English
http://english.al-akhbar.com/content/questioning-syrian-%E2%80%9Ccasualty-l
ist%E2%80%9Dakhbar.com http://english.al-akhbar.com/content/questioning-syrian-%E2%80%9Ccasualty-list%E2%80%9D

http://www.veteranstoday.com/2012/02/16/high-tech-trickery-in-homs/sharmine
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** Sharmine Narwani é escritora e analista política cobrindo o Médio-Oriente. É Mestre de Assuntos Internacionais pela Escola de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Columbia em jornalismo e estudos do Médio-Oriente. Pode ser seguida no twitter @snarwani http://www.twitter.com/snarwani e Room for Debate http://www.nytimes.com/roomfordebate/2012/02/06/is-assads-time-running-out/
syria-after-assad-could-be-even-worse

Ler mais deste autor:
* High-Tech Trickery in Homs? [Embuste de Alta- Tecnologia em Homs?]
http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/2012/02/16/high-tech-trickery-in-ho
ms/
* Syria is Not Tunisia or Libya [A Síria não é a Tunísia ou a Líbia]
http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/2012/02/18/2012/02/06/syria-is-not-
tunisia-or-libya/
*http://www.veteranstoday.com/2012/02/28/questioning-the-syrian-casualty-list/
Tradução: Jorge Vasconcelos