Marx, 129 anos após a sua morte
Mais vivo e actual que nunca

Atilio A. Boron*
29.Mar.12 :: Outros autores

O mundo de hoje parece-se de forma surpreendente com o que Marx e o seu jovem amigo Engels previram num texto assombroso: O Manifesto Comunista. Este sórdido mundo de oligopólios rapaces e predatórios, de guerras de conquista, de degradação da natureza e saque dos bens comuns, de desintegração social, poder e tecnologia, de plutocracias travestidas para aparentarem ser democracias, de uniformidade cultural definida pelo “american way of life” é o mundo que todos os seus textos anteciparam. Por isso são muitos os que nos capitalismos desenvolvidos já se perguntam se o século XXI não será o século de Marx.


Há 129 anos, num dia como hoje, Karl Marx morria tranquilamente em Londres com 65 anos. Teve a sorte de todos os grandes génios, sempre incompreendidos pela mediocridade reinante e o pensamento aprisionado pelo poder pelas classes dominantes. Como Copérnico, Galileu, Servet, Darwin, Einstein e Freud, para referir apenas alguns, foi insultado, perseguido, humilhado. Foi ridicularizado por intelectuais de meia tijela e académicos burocratas que não lhe chegavam aos tornozelos, e por políticos subservientes aos poderosos de turno, que odiavam as suas concepções revolucionárias.

A academia tratou rapidamente de lhe fechar as portas, pelo que nem ele nem o seu amigo e eminente colega, Friedrich Engels, jamais tiveram acesso aos claustros académicos. Mais, Engels, de quem Marx disse que era «o homem mais culto da Europa», nem sequer estudou na universidade. Apesar disso, Marx e Engels fizeram uma autêntica revolução copérnica nas humanidades e nas ciências sociais: depois deles, e ainda que seja difícil separar a sua obra, podemos dizer que depois de Marx nem as humanidades nem as ciências sociais voltaram a ser o que eram antes. A amplitude enciclopédica dos seus conhecimentos, a profundidade das suas análises, a sua empenhada procura das evidências que confirmaram as suas teorias fizeram com que Marx, e as suas teorias e legado filosófico tantas vezes dados como mortos, sejam mais actuais que nunca.

O mundo de hoje parece-se de forma surpreendente com o que ele e o seu jovem amigo Engels previram num texto assombroso: O Manifesto Comunista. Este sórdido mundo de oligopólios rapaces e predatórios, de guerras de conquista, de degradação da natureza e saque dos bens comuns, de desintegração social, poder e tecnologia, de plutocracias travestidas para aparentarem ser democracias, de uniformidade cultural definida pelo American way of life é o mundo que todos os seus textos anteciparam. Por isso são muitos os que nos capitalismos desenvolvidos já se perguntam se o século XXI não será o século de Marx. Respondo a essa pergunta com um sim sem hesitações, e já o estamos a ver: as revoluções em marcha no mundo árabe, as mobilizações dos indignados na Europa, a potência plebeia dos islandeses a enfrentar e derrotar os banqueiros, as lutas dos gregos contra os sádicos burocratas da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu, o barril de pólvora dos movimentos Occupy Wall Street que envolveu mais de cem cidades estadunidenses, as grandes lutas que na América Latina derrotaram a ALCA e a sobrevivência dos governos de esquerda na região, a começar pelo heroico exemplo cubano, são outras tantas provas de que o legado do grande mestre está mais vivo que nunca.

O carácter decisivo da acumulação capitalista, estudada como ninguém mais o fez em O Capital, era negada por todo o pensamento burguês e por todos os governos dessa classe que afirmavam que a história era movida pela paixão dos grandes homens, as crenças religiosas, os resultados de heroicas batalhas ou imprevistas contingências da história. Marx retirou a economia das catacumbas e não só assinalou a sua centralidade como demonstrou que toda a economia é política, que nenhuma decisão económica está despojada de conotações políticas. Mais, que não há saber mais político e politizado que o da economia, demonstrando o ridículo dos tecnocratas de ontem e de hoje que sustentam que os seus planos de ajuste e as suas absurdas elucubrações econométricas obedecem a meros cálculos técnicos e que são politicamente neutros.

Hoje ninguém já acredita seriamente nessas patranhas, nem sequer esses procuradores da direita, ainda que se abstenham de o confessar. Poderia dizer-se, provocando o sorriso matreiro de Marx desde o além, que hoje todos são marxistas. Por isso, quando rebentou a nova crise geral do capitalismo todos correram a comprar O Capital, a começar pelos governantes dos capitalismos metropolitanos. É que a coisa era, e continua a ser, muito grave para perder tempo a ler as parvoíces de Milton Friedman, Friederich von Hayek ou as monumentais sandices dos economistas do FMI, do Banco Mundial ou do Banco Central Europeu, tão ineptos como corruptos que, por ambas as coisas, não foram capazes de prever a crise que como um tsunami arrasa os modernos capitalismos metropolitanos.

Por isso, por méritos próprios e por vícios alheios, Marx está mais vivo que nunca e o seu pensamento, qual farol, projecta uma luz cada dia mais viva sobre as tenebrosas realidades do mundo actual.

* Sociólogo argentino, Director do PLED, Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais.

Texto originalmente publicado em:
www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-189607-2012-03-15.htmlo

Tradução de José Paulo Gascão