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A esperança não morre

Miguel Urbano Rodrigues :: 01.08.12

Cada manhã, quando abro o computador e tomo conhecimento das últimas notícias e à noite, ao acompanhar os noticiários da televisão e ouvir resumos de declarações de ministros e deputados dos partidos da burguesia e de falas do primeiro-ministro, sou tocado pela estranha sensação de assistir a uma farsa intemporal num país inimaginável.

Adolfo Casais Monteiro escreveu no final dos anos 50 que «era difícil ser português». Expressou uma realidade.
Humberto Delgado estava refugiado na Embaixada do Brasil e naquela época a imagem do fascismo era medonha nos meios intelectuais brasileiros.
Conheci no exílio essa situação. Os amigos perguntavam como podia o povo português suportar há décadas uma ditadura tão obscurantista como a de Salazar. As nossas explicações para a sobrevivência do regime não convenciam.
Transcorrido meio século, a situação em Portugal faz-me recordar o desabafo de Casais Monteiro num contexto histórico muito diferente.
A crise do capitalismo irrompeu nos EUA e alastrou pelo mundo. Mas em Portugal os seus efeitos inserem-se num quadro que pelas suas facetas humilhantes é difícil compreender e explicar.
Cada manhã, quando abro o computador e tomo conhecimento das últimas notícias e à noite, ao acompanhar os noticiários da televisão e ouvir resumos de declarações de ministros e deputados dos partidos da burguesia e de falas do primeiro-ministro, sou tocado pela estranha sensação de assistir a uma farsa intemporal num país inimaginável.
Temo que não exista precedente para uma situação como a de Portugal neste ano sombrio de 2012.
Sei que os trabalhadores irlandeses, gregos e espanhóis, entre outros, sofrem duramente as consequências de políticas impostas pelo grande capital internacional em nome de uma «austeridade» que empobrece mais os de baixo enquanto enriquece os de cima.
O que diferencia então o caso português dos demais?
Aqui a linguagem, o comportamento, o arrogante exibicionismo dos responsáveis pelo trágico agravamento da crise são irrepetíveis, ao exigirem «sacrifícios» aos explorados e oferecerem prebendas aos exploradores. Tudo em nome do interesse nacional, da salvação da Pátria. O discurso lembra o do fascismo.
Mas creio que nem no auge do fascismo Salazar tenha reunido em qualquer dos seus governos um feixe de ministros e secretários de estado comparável ao gabinete formado por Passos Coelho. Com a peculiaridade de o Partido Socialista, cúmplice do binómio que desgoverna o Pais, participar conscientemente da tragédia social e económica em desenvolvimento.
Politólogos, professores de discurso pomposo (alguns formados em universidades de fantasia), jornalistas de pretensa sabedoria analisam em múltiplas e insuportáveis mesas redondas a crise e, com raríssimas excepções, alinhem com o governo ou não, destilam anticomunismo, identificam no presidente Obama um grande humanista e justificam as guerras imperialistas.
A política de «austeridade», a submissão servil ao diktat da troika, o roubo de salários, a supressão dos subsídios de natal e de férias, o aumento de impostos sobre o trabalho, os despedimentos sumários configuram já o funcionamento de mecanismos de uma ditadura de facto da burguesia, mas o coro dos epígonos fala com orgulho farisaico da «nossa democracia».
A engrenagem que ostenta as insígnias do Poder é servida por uma equipa de pesadelo.
O Primeiro-ministro merecia figurar no Guiness. Impressiona pela vastidão da ignorância, pelo vácuo intelectual.
Estranhamente, fala como se fosse detentor do saber universal. Quase diariamente enaltece os benefícios da sua política neoliberal ortodoxa, afirmando que o povo a compreende, mas é recebido com vaias em todas as cidades e vilas onde aparece.
Conheci-o em 1991. Eu era então secretário da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da Republica, ele um jovem deputado que liderava a Juventude do PSD.
Recordo que quando pedia a palavra bolsava tanta asneira que, por decoro, lhe pedia que abreviasse as suas arengas.
O ministro Relvas ganhou notoriedade por talentos que lembram os de vilões de tragédias shakespearianas. O ministro da Economia escreveu livros «criacionistas» que principiam agora a correr de mão em mão como obras de contornos extraterrestres. São apenas três figuras de um painel governativo impar na Europa comunitária.
O Presidente da Republica, um reaccionario quimicamente puro, apoia o descalabro.
É essa gente que, desfraldando o estandarte da democracia, garante que «os portugueses» apoiam a ditadura de classe que os afunda na miséria.
Desaprovo as analogias em política. Mas este governo, pelo absurdo, pela crueldade social, pelo exibicionismo ridículo, pela submissão ao capital faz-me lembrar atitudes do subsaariano Imperador Bokassa da Republica Centro Africana.
É tão transparente o repúdio popular pela estratégia de Passos e seus rapazes que até Pacheco Pereira - o mais inteligente e culto dos ex-dirigentes da direita - sentiu a necessidade de escrever um artigo (Publico, 28 de Julho de 2012) desancando o sistema. Nele pergunta: «Como devemos cruzar-nos com os credores? De alpergatas, trabalhando 10 horas por um salário de miséria?». Ele próprio responde que em breve o povo acordará, «porque estas coisas, uma vez maduras, não escolhem nem dia, nem hora».
A História de Portugal lembra que a esperança não morre no povo. Quando a opressão atinge um nível insuportável, as massas levantam-se e assumem-se como sujeito da ruptura.
Foi assim em 1383, na guerra da Restauração em 1640, e no 25 de Abril de 1974.
Os actuais inimigos do povo, Passos&Companhia, instrumentos do capital e do imperialismo, vão desaparecer na poeira da História. A obra é devastadora, os autores figurinhas liliputianas.

Vila Nova de Gaia, 1 de Agosto de 2012


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