O sonho e os factos
Uma reportagem da CBS mostra como a realidade das condições de vida de muitos milhões de norte-americanos, nomeadamente dos desempregados de longa duração, estilhaça a mitologia do “sonho americano”. Não há “sonho” que seja compatível com a pilhagem pelos mais fortes do direito dos mais fracos à realização humana em sociedade. Seja nos EUA ou em Portugal.
1. Durante muito tempo, tive o cuidado de não perder uma só emissão do «60 minutos», programa da SIC Notícias construído com reportagens ou entrevistas quase sempre interessantes da CBS, grande cadeia norte-americana de televisão, como se sabe. Em certa medida esse tempo passou, creio que porque entretanto me fartei do apresentador do programa, o jornalista Mário Crespo, que aliás admito ser também o responsável pela selecção das reportagens/entrevistas que integram cada emissão. Não que Mário Crespo seja um jornalista medíocre, longe disso. Mas não apenas com razão ou sem ela enjoei o estilo um pouco untuoso que o caracteriza como entrevistador no «Jornal das Nove» da mesmíssima SIC-Notícias, como também passei a suspeitar de que Crespo como que privatizou a seu favor, ou a favor do que melhor lhe parece, aquele espaço de informação. De tudo isto terá resultado algum injusto fastio pelo «60 Minutos», o que só a mim prejudica e estou decidido a combater, sendo certo que para o êxito deste esforço muito contribuiria o próprio Mário Crespo se reduzisse o pendor, que me parece crescente, para se tornar parte e não apenas moderador nas breves polémicas que tornam o «Jornal das Nove» um espaço televisivo especialmente atraente.
2. Mas passemos ao que esta breve crónica vem: a uma reportagem acerca do desemprego nos Estados Unidos que integrou o «60 Minutos» transmitido na passada semana. Que há desemprego nos Estados Unidos não é novidade para ninguém: a informação surge por vezes na imprensa, embora sem destaque, e decerto será dada também pela rádio e pela TV, ainda que quase de passagem para outro tema. Quanto à reportagem deste «60 Minutos» as coisas foram um pouco diferentes: não se ouviu apenas dizer que nos Estados Unidos há milhões de desempregados ditos «de longa duração» que estão praticamente condenados a um terrível futuro iminente: ouvimos alguns desses homens e mulheres, olhámos-lhes os rostos já marcados pela angústia, soubemos da extrema penúria de expectativas em que estão mergulhados e do desespero que já os toca. E, contudo, tanto quanto nos foi possível avaliar não se tratava dos mais afundados no pântano do desemprego. Mas era gente já sem caminhos para uma sobrevivência compatível com a inserção numa sociedade civilizada, humanizada. Que, segundo a própria reportagem, deixara de «acreditar no sonho americano». Sabemos que o mesmo pode ser dito de outro modo: era gente que aprendera à sua custa a mentira de uma sociedade que supostamente garantia, por automatismos internos, a dignidade aos seus cidadãos.
3. Compreender-se-á que, ao ver aquele punhado de testemunhos acerca do desemprego nos Estados Unidos, o comum telespectador português se tenha lembrado do desemprego que grassa em Portugal e dos muitos milhares de cidadãos que o protagonizam. A reportagem não era suficientemente extensa para que fosse possível fazer comparações, averiguar em que lado do Atlântico há uma percentagem maior de desempregados a passar fome, a agonizar de doenças não tratadas por penúria de meios, a retirar filhos dos sistemas de ensino, a deixar-se tentar pela miragem do recurso à delinquência. Não o sabemos, pois. Mas alguma coisa podemos saber. Se quisermos. Podemos saber que a ocupação da vida social pelos poderes privados, isto é, pelos interesses e pelas gulas privadas, com rejeição ou destruição dos aparelhos estatais que consubstanciam a solidariedade entre cidadãos e a defesa eficaz contra os grandes flagelos da fome e seus derivados, resulta da passagem à prática de uma espécie de veneno ideológico que nos Estados Unidos usa o pseudónimo de «sonho americano» e por cá, a avaliar pelo que Passos Coelho certo dia debitou sem que ao tema tenha debitado, será uma suposta «democratização da economia». Há, contudo, uma outra forma mais simples e mais clara: será a pilhagem pelos mais fortes do direito dos mais fracos à realização humana em sociedade. A reportagem da CBS forneceu uma ideia ainda que ligeira da distância abissal entre «o sonho americano» e a realidade vivida nos Estados Unidos. E, assim, ajudou a que entendamos o ludíbrio ideológico cuja importação está na raiz das práticas do actual governo português.



