Óscar Niemeyer 1907-2012

“(…) ter presente que a arquitectura não se pode limitar aos desejos das classes dominantes, mas atender aos mais pobres que dela tanto carecem.
E ser intransigente na defesa desse mundo sem classes que desejamos e no qual a arquitectura assumirá, um dia, sua verdadeira identidade”.

Óscar Niemeyer é certamente uma maiores figuras do séc. XX. Para a arquitectura, em muitos aspectos, pode dizer-se que o século XX é o século Niemeyer. Obras como o conjunto de Pampulha, o Congresso Nacional de Brasília, os Palácios do Planalto, do Itamaraty, da Alvorada, a Universidade de Constantine, a sede da ONU em Nova Iorque, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, entre tantas outras, são não apenas obras cimeiras, são obras que, de uma ou outra forma, influenciaram e inovaram toda arquitectura. Pode dizer-se do conjunto da obra de Niemeyer algo de semelhante do que foi dito de Palladio: que nenhuma obra sua é menor.

O distanciamento de Niemeyer, ainda muito jovem, em relação ao racionalismo do Movimento Moderno e do “estilo internacional” dos anos 20 e 30 do século passado é a mais vigorosa afirmação da sua original personalidade criadora. Na perspectiva de hoje adquire um ainda maior significado: é parte integrante de um movimento de emancipação cultural sul-americano, e em certo sentido das posições mais periféricas, em relação ao peso da cultura europeia ou, como Niemeyer escreve, do “velho mundo”, movimento que hoje parece reviver no impulso progressista que atravessa tantos países da América Latina.

Enquanto o Movimento Moderno, na Europa, efectivamente inovava e rompia com o passado, à distância os ecos dessa ruptura perdiam força porque – utilizando uma formulação que Niemeyer repetirá frequentemente – aí do que se tratava não era de romper com o passado, mas de criar “património futuro”. Enquanto em qualquer país europeu seria impensável a construção de raiz de uma nova capital, no Brasil isso será pensado e realizado.

A ruptura de Niemeyer com o racionalismo é estética e é técnica. É a utilização livre da linha curva no desenho e das superfícies curvas em betão armado na construção, como mais tarde o será dos audaciosos volumes balançados, dos amplíssimos vãos vencidos. À frieza do método do racionalismo funcionalista, do “ângulo recto” e da “linha recta, dura, inflexível”, da monótona quadrícula estrutural que, “dos Estados Unidos ao Japão” produzia formas idênticas, Niemeyer contrapõem uma estética e uma poética de radical ruptura, sensual e livre, barroca e “brasileira”. Niemeyer é um pensador da estrutura e da construção, com uma imensa intuição para as potencialidades do betão armado, que explora com tanta criatividade como rigor.

E esta figura de gigante, que marca de forma particularmente impressiva o século que viveu, que projectou e construiu alguns dos mais importantes e certamente perduráveis edifícios do século XX, reconhecido como uma muito destacada referência moral e ética na defesa das causas da emancipação humana, sempre assumiu com simplicidade e modéstia, mas também com exemplares coerência e determinação a sua inserção na longa trajectória da História. É ele quem afirma, em diversas ocasiões, que “o importante é a vida, não a arquitectura”, acrescentando, ainda: “e a vida é um instante”. Foi um longo instante uma vida de 105 anos, mas trata-se de um pequeno período para quem compreendia a longa marcha histórica da humanidade tal como Niemeyer a entendia.

Niemeyer não alimentava ilusões acerca de um papel determinante da arquitectura nos processos de transformação social, mesmo em aspectos relativamente limitados como o da habitação (“não acredito em arquitectura social em regime capitalista”). No discurso de aceitação do Prémio Pritzker, que lhe foi atribuído em 1988, Niemeyer fala de “um mundo socialmente injusto, que ignora a miséria, e que a nossa profissão é incapaz de melhorar”. O seu lúcido cepticismo coloca-o nos antípodas da utopia do Movimento Moderno: não cabe à arquitectura mudar o mundo, e muito menos como alternativa à revolução. Pelo contrário: é uma nova sociedade que permitirá que, “um dia”, a arquitectura assuma “sua verdadeira identidade”. E, entretanto, toda a sua obra, invulgar exemplo de criatividade e de arrojo técnico, é certamente um fortíssimo elemento de confiança na capacidade humana de antecipar esse “dia”.

Óscar Niemeyer inscreveu-se no Partido Comunista Brasileiro em 1935 e nele se “integrou para sempre”. Por esse motivo foram-lhe recusados projectos, foi forçado a exilar-se pela ditadura militar, foi impedido de exercer a docência, tanto no Brasil como nos Estados Unidos (que em sucessivas ocasiões lhe recusou a concessão de um visto), foi inúmeras vezes interrogado pela polícia política (incluindo quando Kubitschek era presidente e Niemeyer trabalhava em Brasília) e pelos militares. Sempre assumiu com coragem e coerência as suas opções. Sempre apoiou com o seu nome e o seu imenso prestígio as causas em que acreditava. Subscrevendo a reclamação de um plebiscito pela anulação da privatização da empresa Companhia Vale do Rio Doce, afirmou: ”Eu apoio esse plebiscito, pois quando tem gente protestando na rua é um trabalho melhor do que o meu”.

O empenhamento político e cívico repercute-se na sua obra, e tem expressão particularmente viva em alguns monumentos. Niemeyer é o autor de alguns dos mais expressivos e vigorosos monumentos realizados na América Latina no decurso do século XX. Alguns destes tornaram-se por si próprios episódios e símbolos da dureza da luta política, como o monumento aos metalúrgicos mortos na greve de 9 de Novembro de 1988, em Volta Redonda, destruído à bomba por uma organização fascista no mesmo dia em que foi inaugurado, e que foi reconstruído mostrando os fragmentos e as fracturas resultantes da explosão. O monumento a Juscelino Kubitschek, violentamente atacado por conter uma forma semelhante a uma foice. A imponente escultura em betão branco com sete metros de altura, em forma de mão em cuja palma uma mancha vermelha de sangue toma a configuração do continente sul-americano, no Memorial da América Latina em São Paulo, entre outros. São obras de enorme qualidade plástica, cuja força expressiva é indissociável da forte convicção do seu criador.
A sua obra arquitectónica e plástica é uma das mais admiráveis marcas deste tempo. O seu exemplo moral e ético é também o de um tempo futuro. Um tempo em que, em todas as escolas de arquitectura, será ouvido o seu conselho aos arquitectos:
“(…) ter presente que a arquitectura não se pode limitar aos desejos das classes dominantes, mas atender aos mais pobres que dela tanto carecem.
E ser intransigente na defesa desse mundo sem classes que desejamos e no qual a arquitectura assumirá, um dia, sua verdadeira identidade”.

6 de Dezembro de 2012
Sector Intelectual da ORL do PCP

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