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Entre o céu e o inferno
Declaração das FARC-EP

FARC-EP    12.Jun.13    Outros autores

Os diálogos de Havana encontram-se no Limbo por conta do homem que quer passar para a história como o presidente que alcançou a paz na Colômbia.

Os ecos do justo protesto do governo da República Bolivariana da Venezuela em consequência da recepção de Santos ao opositor Capriles no Palácio de Nariño, ainda replicam com um sonoro vibrato.

Não são poucos os que acreditam que o passeio de Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, por Bogotá, foi a origem da explosão santista. E o associam com um plano de Washington encabeçado por um cavalo de Tróia de nome “Aliança Pacífico” que, manejado por Washington, se propõe a desestabilizar e inviabilizar governos populares, como os da Venezuela, Equador, Bolívia e Uruguai, entre outros. O que impulsionaria Santos a anunciar o fantasioso ingresso da Colômbia á OTAN? Ameaçar a Venezuela, o Brasil?

Àqueles que defendem a ingenuidade na conduta do presidente, não acreditem tanto, porque Santos não é nenhum tonto. Como estadista, é obrigado a medir o efeito de suas atuações.

Juan Manuel Santos sabia que sua provocação contra o governo legítimo da Venezuela espocaria como fogos de artifício na mesa de diálogo de Havana, pois o tema Venezuela, país acompanhante e facilitador do processo, é muito sensível para as FARC, que vê nos venezuelanos o principal fator gerador de confiança e, em consequência, um dos artífices fundamentais do processo de paz.

Por tudo isto é que causa tanta perplexidade o convite de Santos a Capriles, precisamente quando o entusiasmo pela paz cravava sua bandeira no pico Everest da reconciliação dos colombianos, motivado no acordo parcial sobre terras, tema que representa a nudez do conflito. A atitude de Santos desinflou o otimismo, a atmosfera favorável à paz que se busca construir com tanto esforço em Havana. A questão se resume no fato de que se não fosse pela Venezuela, não ocorreria o diálogo de paz na capital cubana.

É contraditório, profundamente contraditório, pretender entrar para a história como o presidente que fez a paz, propiciando, ao mesmo tempo, uma cadeia de atentados contra a paz. O assassinato a sangue frio de Alfonso Cano, o comandante guia da reconciliação, já é uma mancha indelével. Por outro lado, ninguém entende por que o governo repudia a necessária trégua bilateral proposta pelas FARC desde o início das conversações, se o objetivo é parar a guerra. Durante os últimos 6 meses, o ministro de defesa atuou como um franco-atirador sectário contra o processo, deixando a sensação de que não existe unidade de critérios no governo. E até o próprio presidente em pessoa não deixa passar uma oportunidade para desqualificar o interlocutor com acusações infundadas e ameaças de ruptura.

Além disso, outros elementos que estão enfraquecendo o diálogo e a construção do acordo como esse irritante estalar do chicote do tempo e dos ritmos nas mãos do governo. Um afã para quê? Para precipitar um mau acordo, uma paz mal feita? A progressão de um acordo tão transcendental não deve ser interferida nem pelos tempos eleitorais nem pelos prazos legislativos. Paralelamente às sessões da mesa, alguém do alto escalão orquestra campanha midiáticas que semeiam, com algum grau de maldade, a ideia de uma guerrilha assassina de um lado e, do outro, a de um Estado angelical, esvoaçando inocente sem nenhuma responsabilidade histórica pela violência e pelo terrorismo institucional.

Um governo que realmente queira a paz não fica marcando passo nas linhas vermelhas de sua intransigência, de sua imobilidade, mas atua com grandeza para facilitar o entendimento. Onde está a genialidade, onde está o bom senso? Aqui, o que se vê é uma grande inconsistência. E também uma grande mesquinhez quando se defende com argumentos teimosos privilégios indignantes. Essas atitudes pouco contribuem com a construção de uma atmosfera de paz. Então, os diálogos servem para que?

É preciso entender que este não é um processo de submissão, mas de construção de paz. Não se trata de uma incorporação da insurgência ao sistema político vigente, assim como está, sem que se opere nenhuma mudança a favor das maiorias excluídas. Então, qual foi o intuito da luta? O melhor epílogo desta guerra deve ser rubricado por mudanças estruturais no político, econômico e social que propiciem a superação da pobreza e da desigualdade.

Temos que defender este processo de paz, esta esperança. Todos, resolutamente, governo, guerrilha das FARC e as organizações sociais e políticas do país, devem somar vontades para alcançar, após décadas de confronto bélico, a ansiada reconciliação com justiça social. O que nos importa Uribe e Fedegan se estamos determinados a alcançar a paz?

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