“Não há guerra civil na Síria, mas uma guerra contra o terror que não reconhece quaisquer valores, nem justiça, nem igualdade, e nega quaisquer direitos ou leis.”

Walid Al-Moualem    23.Oct.13    Outros autores

Walid Al-MoualemDeclaração de Walid Al-Moualem, Primeiro-ministro, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Expatriados, Chefe da Delegação da Republica Árabe Síria, na 68ª Sessão da Assembleia das Nações Unidas

Nova Iorque, 30 de Setembro de 2013

Senhor Presidente,
Esperamos que as Nações Unidas levem os povos do mundo para um futuro melhor, para realizar as aspirações desses povos à prosperidade, desenvolvimento e auto-suficiência alimentar, longe de todas as formas de tensão, confrontos e guerras; para a implementação total dos princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas que declara soberania e igualdade de direitos e deveres de todos os estados membros. Neste sentido, o meu país encara positivamente todos os esforços dos Estados Unidos e Irão para ultrapassar o fosso de desconfiança entre os dois países, e espera que isso se reflicta construtivamente na estabilidade das relações internacionais.

Obrigado, senhor presidente
John Washe,
Presidente da 68ª sessão da Assembleia Geral
Gostaria de saudá-lo a si e o seu admirável país, Antígua e Barbados, na sua eleição como presidente da Assembleia-Geral nesta sessão, e desejar-lhe êxito no seu trabalho para a realização do papel importante e neutro do presidente da assembleia geral realizado pelo seu antecessor, que evitou colocar a presidência das nações unidas em agendas políticas

Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores
No ano passado, quando me dirigi a esta augusta assembleia, o nosso mundo enfrentava muitos acontecimentos que o dilaceravam e as suas nações. Todos desejávamos que o cenário mudasse para melhor, mas infortunadamente, tornou-se pior. Muitos países enfrentam ainda crises políticas, económicas e financeiras que excedem as suas capacidades de as enfrentarem sozinhos. Enquanto os povos do mundo esperavam ver esforços internacionais a favor da ultrapassagem dessas crises, assistimos hoje à exacerbação e aumento dos problemas, desde que a hegemonia e domínio das capacidades dos povos aumentou de um modo que contradiz os princípios da Carta das Nações Unidas e as normas da Lei Internacional. Em vez de resolver conflitos regionais e internacionais por meios pacíficos, alguns países conhecidos continuam a praticar políticas contra certas nações. A hipocrisia política continua a interferir nos assuntos domésticos dos estados sob o pretexto de Intervenção Humanitária ou a Responsabilidade de Proteger; e quando essas políticas agressivas não demonstram ser benéficas para alguns países como o meu, a Síria, esses estados bem conhecidos revelam a sua verdadeira face, e ameaçam com agressões nitidamente militares fora do mandato do Conselho de Segurança, e certamente fora de qualquer consenso internacional. Isso acontece quando esses mesmos países impõem medidas imorais, ilegais e unilaterais. Isso em conjunto cm políticas suspeitas que procuram espalhar a sedição e a revolta nas malhas de comunidades nacionais múltiplas e harmonizadas, que viveram durante séculos em harmonia, unidade e compreensão.
Pior ainda, as guerras destrutivas de alguns países sob o pretexto de combater o terrorismo, enquanto simultaneamente, são os que apoiam o terrorismo no meu país, em contradição com todas as resoluções das Nações Unidas e todos os valores humanos e morais. Coloco novamente a mesma questão que já coloquei no ano passado: o consenso internacional de combater o terrorismo foi um compromisso sério dos Estados Membros desta organização, ou foi apenas retórica?

Senhor Presidente
Tornou-se claro para todos, o que está a acontecer no meu país. Mas, alguns países não querem reconhecer que a Al-Queda, a organização terrorista mais perigosa no mundo, e as suas ramificações, como Jabbat Al-Nusrah, o estado islâmico no Iraque e o Levante, a Brigada do Islão e muitos outros, lutam na Síria. Os cenários de assassínios, massacres e devorar corações humanos foram apresentados na TV, mas não tocaram as consciências cegas. No meu país, Senhor Presidente, há civis inocentes cujas cabeças são colocadas na grelha porque violam a ideologia extrema e as opiniões desviantes da Al-Queda. Na Síria, Senhoras e Senhores, há assassinos que desmembram corpos ainda vivos e enviam os pedaços às famílias, só porque esses cidadãos defendem uma Síria unificada e secular.
No meu país, esses terroristas violam, diariamente, direitos humanos, direitos de cada um à vida e às crenças religiosas de todos e as filiações políticas. Qualquer Sírio que não pertença a esta ideologia obscurantista está destinado a morrer, assassinado, ou as mulheres da sua família são sequestradas na base de conceitos pervertidos de uma religião que nada tem de ver com o Islão.

Senhoras e Senhores,
Não há guerra civil na Síria, mas uma guerra contra o terror que não reconhece quaisquer valores, nem justiça, nem igualdade, e nega quaisquer direitos ou leis. O confronto deste terror no meu país exige que a comunidade internacional actue de acordo com resoluções relevantes no contra-terrorismo, principalmente, a resolução 1373 (2001) do Conselho de Segurança e tome as medidas necessárias e imediatas para forçar esses bem conhecidos países que financiam, armam, treinam e dão salvo-condutos a terroristas que vêm de diferentes países do mundo.

Senhor Presidente,
O povo de Nova Iorque assistiu à devastação do terrorismo, e ardeu no fogo do extremismo e assassinato, tal como sofremos na Síria. Como podem alguns países, atingidos pelo mesmo terrorismo que estamos sofrendo na Síria, afirmar lutar contra o terrorismo em todos os lugares do mundo e o apoiam no meu país? As declarações sobre a existência de militantes moderados e militantes extremistas tornaram-se uma piada sem graça. O terrorismo significa apenas terrorismo; não pode ser classificado como moderado ou extremista. Assim, gostaria de perguntar, o que chamam àqueles que raptam crianças para vender os seus órgãos fora do país? Como descrever os que recrutam crianças e as impedem de ir à escola, e em vez disso as treinam para atirar e matar? Como chamar-lhes aos que lançam fatwas pervertidas como a «Jihad sexual» e a «Jihad do Incesto»?

Senhoras e Senhores, somos aqueles que receberam gases venenosos em Khan Al-Assal, perto de Alepo. Pedimos uma Missão de Investigação, e pedimos para incluir nesse mandato a capacidade de determinar quem usou armas químicas mas os Estados Unidos e os seus aliados, a França e o Reino Unido, são os que o impediram e insistiram para limitar as funções da Missão para apenas decidir se foram utilizadas armas químicas ou não.

Nós, na Síria, aguardámos 5 meses pela Missão. E quando esta chegou à Síria, foi afastada, antes de terminar o seu trabalho, pois alguns estados começaram a tocar os tambores da guerra na Síria. O meu país aceitou a iniciativa do presidente Vladimir Putin, Presidente da Federação Russa. A Síria ao aceder à Convenção da Proibição das Armas Químicas, prova o seu compromisso contra o uso dessas armas, enquanto ao mesmo tempo pede à comunidade internacional para apoiar a sua responsabilidade contra a proliferação de armas de destruição maciça no Médio Oriente.
A Síria é conhecida pelo cumprimento dos seus deveres e compromissos, mas, garanto-lhe que o cumprimento da Síria na total implementação das provisões da Convenção, e na cooperação com a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW) da Convenção. Mas, aí está o desafio para todos nós se aqueles que estão a fornecer os terroristas com esses tipos de armas aceitarão os seus compromissos legais, visto que os terroristas, que utilizaram gases venenosos no meu país receberam agentes químicos de países regionais e ocidentais que são bem conhecidos de todos nós.

Senhor Presidente,
O cessar das políticas agressivas contra a Síria é o primeiro passo no caminho para a solução no meu país. Qualquer solução política à luz do apoio continuado ao terrorismo, seja no fornecimento de armas, fundos ou treino, é mera ilusão e disfarce.
A Síria anunciou repetidamente que aceita uma solução política da sua crise, está na hora de aqueles que afirmam apoiar uma solução politica na Síria de parar todas as práticas e políticas contra a Síria e se dirigirem a Genebra sem pré-condições. Na base do direito de autodeterminação o povo da Síria tem autoridade exclusiva para escolher os seus líderes, os seus representantes, e decidir o seu futuro e o sistema político que englobar todos os quadrantes da sociedade da Síria, incluindo aqueles que enganam e seguiram por um caminho errado. Nós, na Síria, não apostamos num partido, mas no povo sírio determinado, com todos os seus componentes, a rejeitar todas as formas de interferência externa nos seus assuntos domésticos e a vencer os advogados do sectarismo, extremismo e terrorismo. No meu país, a Síria, há uma ligação sólida entre as políticas de estado e as aspirações populares. O voto em eleições livres continua a ser a solução que decide as opções do povo sírio na determinação do seu futuro, livre das pressões de terrorismo e ordens estrangeiras.

Senhoras e senhores, restam aqueles que não querem uma solução política e preferem partir para a agressão, directa ou indirectamente através dos seus agentes no terreno. A Síria comprometeu-se com uma solução política, mas o nosso compromisso com uma solução política não quer dizer a permissão de o terrorismo atacar civis inocentes; não significa assistirmos à destruição das nossas mesquitas e igrejas, como aconteceu em Homs e Alepo e na cidade de Maloula o único lugar do mundo em que se fala ainda a linguagem de Jesus Cristo, que a paz seja com ele. O que acontece às igrejas e mesquitas afecta também a herança histórica da Síria e da humanidade. Sabem os representantes dos Estados Membros desta augusta Assembleia que terroristas de mais de 83 países estão envolvidos na matança do nosso povo e do nosso exército obedecendo ao apelo global da jihad Takfiri? Por outro lado, têm alguns estados membros autoridade para pedir à Síria que ignore as suas responsabilidades constitucionais para proteger os seus cidadãos e preservar a unidade, a soberania e a independência do país?

A guerra contra o terror não é só a guerra da Síria. Um dia, esses terroristas vão voltar aos respectivos países e então nenhum país no mundo estará imune a esse terrorismo que não reconhece quaisquer fronteiras ou geografia.

Senhor Presidente,
Acontecimentos na Síria resultaram em necessidades humanitárias crescentes em vários sectores chave. As sanções unilaterais imorais e desumanas impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia levaram a piores condições de vida dos sírios, numa altura em que o meu Governo trabalha com as Nações Unidas e organizações internacionais dentro do enquadramento do Plano de Resposta para cobrir as necessidades básicas das pessoas, principalmente dos que foram forçados a abandonar as suas casas. Devemos lembrar que um grande número de pessoas foi obrigado a passar para países vizinhos devido à actividade de grupos armados nas áreas de fronteira. Infelizmente alguns desses sírios foram obrigados a permanecer em campos de treino militar ou no que parecem ser locais de detenção. Rogo, desta plataforma, para que os cidadãos sírios voltem para as suas cidades e aldeias onde o estado lhes garante um retorno seguro e condições de vida diferentes da desumanidade da vida nesses campos. Gostaria de assegurar que estamos prontos para desenvolver todos os esforços que permitam canalizar o auxílio das organizações internacionais a todos os sírios sem qualquer discriminação onde quer que estejam, em conformidade com a Resolução 46/182, desde que respeitem a soberania e independência da Síria.

Senhor Presidente,
Estes casos no meu país não nos devem fazer esquecer a Palestina e os Golan sírios. A Republica Árabe Síria confirma o seu direito natural para restaurar completamente os Golan sírios ocupados em 4 de Junho de 1967, e enfatiza a sua rejeição de todas as medidas tomadas por Israel, a potência ocupante, para modificar as suas fronteiras naturais e demográficas numa clara violação das relevantes resoluções do Conselho de Segurança, principalmente a resolução 497 (1981). A Síria reconfirma o seu apoio aos direitos legítimos e inalienáveis do povo palestiniano, principalmente o seu direito de regresso e autodeterminação, e a estabelecer o seu estado independente no seu país, com a sua capital em Jerusalém.

Senhor Presidente,
Depois do acesso da Síria ao Tratado da Proibição das Armas Químicas, o meu país renova o seu apelo à comunidade internacional para conseguir estabelecer uma zona livre de todas as armas de destruição maciça no Médio Oriente. Gostaríamos aqui de lembrar à comunidade internacional a iniciativa síria no final da sua presença como membro não permanente no Conselho de Segurança em 2003, e pede ao Conselho de Segurança que a adopte. A Síria enfatiza que o estabelecimento de uma zona livre de todas as armas de destruição em massa na região é impossível sem a adesão de Israel, a única potência nuclear na região, a todos os tratados que proíbam essas armas, e que eles coloquem as suas fábricas sob a supervisão da Agencia Internacional de Energia Atómica (IAEA). Ao mesmo tempo, enfatizamos o direito de todos os países a adquirir e desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos de acordo com o Tratado nuclear de Não Proliferação. A Síria condena o bloqueio contínuo dos Estados Unidos e Israel para atrasar a Conferência Internacional no Estabelecimento de uma Zona Livre de Armas de Destruição em Massa no Médio Oriente, que devia ter-se realizado em 2012.

Senhor Presidente,
O meu país pede aos Estados Unidos, aos países da União Europeia e a outros, que inibam medidas económicas imorais, unilaterais que contradigam as regras da lei internacional e os princípios do livre comércio. Assim, pedimos o levantamento do bloqueio imposto pelos Estados Unidos contra Cuba há décadas. Pedimos também novamente para levantar e impedir quaisquer medidas unilaterais coercivas impostas à Síria e aos povos de outros países, como a Venezuela, Belarus, Irão e a Republica Democrática da Coreia.