Carta aberta sobre Cuba

Existe pelos vistos nos EUA quem defenda uma alteração na estratégia de ataque a Cuba. Não é nova. É a táctica das “organizações da sociedade civil”, das “ONG’s”, do “apoio à pequena e à média actividade económica privada”, da captura de jovens quadros por meio de facilidades de intercâmbio, de bolsas e outras benesses. Os interesses por detrás de tal estratégia são os mesmos que há mais de meio século apostam no bloqueio, na sabotagem e no terrorismo.

ALAI AMLATINA, 17/06/2014.- A Mr. John D. Rockfeller, Director Honorário da Sociedade das Américas, e destacadas individualidades do sector privado e das organizações governamentais ou das fundações que enviaram uma carta ao Presidente Obama para apoiar a sociedade civil em Cuba.

Lemos com muito cuidado a solicitação que dirigiram ao Presidente Obama. Surpreende-nos nela a indiscutível mudança de política em relação à pequena Ilha e ao seu grande povo. No decurso de mais de cinquenta anos haveis realizado todas as medidas abertas e encobertas para que o seu projecto de Independência e Liberdade fracassasse. Hoje encarais a possibilidade de conseguir com diferentes políticas os mesmos objectivos de antes, e argumentais em defesa da sua aplicação, com a mesma emoção que investis na “defesa dos vossos valores e interesses”…

As medidas que exaltais dão conta, entretanto, de muitos erros e auto-enganos ao acreditar (e alguns de vós acreditam) que ides impulsionar “a independência económica de Cuba”, os seus “direitos individuais” e os seus “direitos humanos”, quando na realidade se trata de um país que não haveis podido vencer, apesar das tremendas pressões e acções abertas e encobertas contra ele, e do inqualificável bloqueio de mais de meio século que lhe haveis infligido.

¿Tendes olhos e não vedes? ¿ouvidos e não ouvis? É coisa sabida. Em Cuba todas as crianças e jovens em idade de aprender têm escolas, universidades e institutos, todos os doentes têm médicos, medicamentos e hospitais, todos os trabalhadores têm emprego, e os idosos assistência…É certo que uso aqui a palavra “todos” como a definiu García Márquez, como os 80% ou mais da população, ou muito mais, com limitações das quais os cubanos se encarregariam se na prática os tivésseis deixado corresponder às boas intenções que manifestais. Mas já, entre pressões e bloqueios, é muitíssimo aquilo que alcançaram, até centros de investigação científica de ponta têm, de nível mundial, bem como serviços hospitalares tão bons e tão amigos do povo norte-americano que curaram os bombeiros feridos em “11 de Setembro” que os vossos hospitais não tinham atendido e que Michael Moore se encarregou de trazer aos hospitais públicos de Cuba.

Mais ainda, se fizerdes contas vereis que neste país da Nossa América os habitantes que recebem benefícios gratuitos atingem proporções muito maiores do que em Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e a União Europeia. Estes sucessos são realizados com modestos recursos mas procurando, obstinadamente, que chegue para todos em tudo o que for possível, e pode-se muito.

As ofertas que propondes de “ajuda humanitária”, “segurança nacional”, “proibição de drogas e meio ambiente”, sabeis muito bem dos desumanos fracassos que tiveram quando as haveis aplicado e aplicais em países inteiros como Afeganistão, Iraque, Haiti, Sudão do Sul, Nigéria, Líbia entre outros, ou en Continentes inteiros como a própria África, o Médio Oriente, a América Latina, cujas populações – em grande maioria ou na totalidade – se encontram envolvidas nas chamadas “guerras de espectro completo” que os vossos estrategas desenham, e que acrescentam os ódios, confrontos e pesares de imensas populações que não têm direitos humanos, vivem e morrem pior que animais, esfomeados e enfermos, fracos e até tão esqueléticos que surpreende vê-los com os olhos encovados, o olhar das crianças perdido, sem brilho, e a sua pele enrugada que se lhes pega aos ossos. Dói vê-los até na televisão, e imaginar como vivem dia a dia e minuto a minuto e como crescem no meio da fome e do terror, sem agua nem tecto, sem forma de trabalhar que não seja servil ou escrava, esgotante, arriscada, ou insalubre, entre ofensivas generalizadas dos capatazes, dos guardas brancos, de militares e paramilitares que com outros bandidos, assassinos e sádicos fanáticos - todos muito bem armados e aprovisionados, para gloria da industria armamentista - são espanto de crianças, adultos e velhos, vítimas e candidatos às políticas de etnocídio e genocídio crescentes, cada vez mais preconizadas ou patrocinadas pelos “neoconservadores”, e pela ”extrema-direita” alucinada pela xenofobia, o asco visual e o racismo do mundo global que encabeçais.

Por entre tão desumanos factos, confirmados pelos “media” e até pelos íntimos olhares dos vossos próprios filhos – com uns que se preparam para suceder-vos com a mesma sanha e outros que cada vez mais protestam e se rebelam com admirável energia – vós acrescentais o erro de crer que na Cuba invencível ao fim de mais de cinquenta anos de assédio se pode separar e até enfrentar a “sociedade civil” contra o “seu governo”. Não sois capazes de imaginar governos que não sejam os das corporações e dos burocratas. Mas em Cuba, povo e governo estão ligados e soldados tão estreitamente – e numa proporção tão alta – que não há grupo de “contras” aventureiros que tenha podido ter êxito, em tão longo tempo, com as suas acções terroristas e subversivas.

O “povo governo” de Cuba é um fenómeno “democrático” que se fosseis capazes de entender vos causaria horror, pois de facto – como escreveu David Brooks – a democracia é o que mais temeis, tanto quanto encerre o verdadeiro sentido da etimologia grega e corresponda à definição de uma prática do povo como fazedor das grandes decisões, em que para ser eficaz em alcançar os seus objectivos se organiza como povo-governo, com os mais diversos colectivos e as mais diversas estruturas, umas coordenadas e outras hierárquicas, todas para concretizar, em cada tarefa, os objectivos a alcançar.

A organização das práticas democráticas em Cuba é muito diferente da dos governos das corporações, pois tanto nas grandes como nas pequenas estruturas os valores e interesses dominantes se combinam com os da Independência e da Liberdade, tudo, evidentemente, entre contradições, erros e fraquezas – menores ou maiores – que os inimigos do processo cubano procuram ampliar fingindo consternação pelas falhas que eles mesmos ou os seus patrocinadores atiçam.

Pensai bem e entendereis com extrema claridade que os vossos grandes triunfos no mundo, por alguma razão não se verificaram em Cuba. Vereis, no íntimo da vossa consciência política, que os cubanos conseguiram subsistir no seu projecto emancipador precisamente pelo tipo de democracia que os habitantes de Cuba redefiniram, tanto na criação como na prática das suas organizações. Criação e prática que abarcam uma imensa população com centenas de milhares de quadros, cuja consciência, vontade e valentia incluem a disciplina que aqueles que nem se rendem nem se vendem têm por convicção.

Tamanho esforço do pequeno grande país que não deixa de padecer e enfrentar – como temos dito – essas contradições que vos interessam tanto e, também, as que recentemente reconheceu, com precisão e claridade admiráveis. Mr. Warren Buffet, o terceiro maior milionário dos Estados Unidos da América do Norte, quando disse há pouco: “Sem dúvida que há guerra de classes, e é a minha classe – minha, a dos ricos – quem a está a ganhar”…

A luta continua e vós – como signatários da carta ao presidente Obama sobre Cuba… (Aliás, permitam-me que mude o trato e lhes fale na terceira pessoa pois é-me mais fácil) … Repito: a luta de clases continua, e confesso que a estão a travar muito bem dentro do que lhes é possível, pois agora querem mudá-la para ganhar a guerra às boas já que não a ganharam pelas más. Na sua proposta ao presidente Obama pedem-lhe que mude a política de bloqueio, de sanções e proibições que os Estados Unidos têm aplicado contra Cuba durante cinquenta anos. Afirmam que “os Estados Unidos podem ajudar o povo cubano a determinar o seu próprio destino…”; podem “empoderar”, (como já se diz en mau castelhano) o povo; podem “fortalecer um amplo espectro da sociedade civil independente”, e “as organizações criadas para impulsionar a economia individual, e as necessidades sociais, à margem da sua orientação política…”

Na sua carta aberta ao presidente Obama propõem-lhe sem rodeios “uma mudança radical,” tendo em conta que a política seguida pelos Estados Unidos nas suas relações com Cuba deixaram os Estados Unidos cada vez mais isolados em termos internacionais. “É a oportunidade de mudar, – dizem-lhe –, ….de ajudar o povo de Cuba, a sociedade civil de Cuba; a oportunidade de ampliar o comercio com “as empresas independentes”, isso sim, a “de facilitar e legalizar o uso de cartões de crédito”, de promover “a importação e exportação de bens e serviços”, e de que as ONG’s, (as Organizações não Governamentais), “apoiem os pequenos proprietários agrícolas”, e “que também apoiem, naturalmente, as pequenas empresas e até as microempresas…”

Em várias ocasiões – não sei porquê tantas – vós insistis na necessidade de promover vários projectos de telecomunicações, e referem-se a diversas formas de cooperação das ONGs com instituições académicas cubanas mediante fundos para a educação, bolsas para estudantes distintos e para despesas de viagem, e que nesse terreno se dê a necessária autorização para que aqueles que viajem a Cuba, ou tenham familiares em Cuba, possam usar, juntamente com os cartões de crédito, outros serviços bancários norte-americanos, bem como abrir contas em bancos dos Estados Unidos, ou enviar remessas aos seus familiares, ou prestar serviços profissionais a “empresários independentes”…

Está claro que, ao mesmo tempo, insistem em que “o governo dos Estados Unidos se comprometa cada vez mais com o povo de Cuba, e que simultaneamente cumpra com o dever de continuar a pressionar o governo de Cuba no terreno dos direitos humanos”. “O governo deve dar prioridade” – terminam dizendo ao presidente Obama – a concertar compromissos em áreas “de interesse mútuo e a realizar discussões serias com os seus homólogos cubanos em assuntos de segurança mutua e deveres humanitários”. Nestes destacam a libertação de um preso que estimam.

Para qualquer leitor bien informado, como Mr. Warren Buffet, toda a mensagem a que nos vimos referindo procura “continuar a ganhar a luta de classes”, agora em Cuba. A sua inegável sagacidade consiste em privilegiar os interesses individuais, de grupo, ideologia ou classe face aos interesses da comunidade nacional de um país onde o povo-governo das grandes maiorias está construindo a transição a um mundo viável, pois aquele em que vivemos se encontra em processo de destruição por parte desse 1% a que parte de vocês pertence, um processo que a juventude americana, juntamente com a do mundo inteiro, vai sofrer e enfrentar, ameaçada como está no seu futuro imediato pelo doentio e hegemónico projecto de acumulação de poder e riquezas que praticais à custa da miséria da imensa maioria de la humanidade e do crescente perigo para la vida de toda a humanidade. Situação e perigo confirmados pelos próprios “think tanks” de Harvard, MIT, Instituto de Santa Fé, e por numerosos organismos científicos do mundo, entre os quais se destacam os principais organismos das Nações Unidas, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, e muitos outros que com todo o rigor e responsabilidade científica verificam, para além da alteração climática; do crescimento do buraco do ozono, – que apenas por um momento pareceu conter-se –, e de muitos outros perigos mais, que abarcam a poluição dos mares e das aguas doces; a destruição dos solos, e subsolos; das florestas, vegetais e faunas de mar e terra, e até da biosfera inteira. Como nos dizem os peritos, muitos desses danos e perigos são irreversíveis, e asseguram-nos que cada dia aceleram mais, e que conforme passa o tempo se torna mais difícil contê-los. As mais prestigiosas revistas científicas dos Estados Unidos e do mundo sustentam estas afirmações que nada têm que ver com meras crenças apocalípticas nem com supostos erros ou opiniões de alguns especialistas, nem com manipulações de dados por cientistas desonestos como chegaram a acusar, sem a menor base, um grupo de cientistas ingleses pelo facto de terem assinalado o carácter “antropogénico” da alteração climática que ameaça o planeta. Tão temeraria acusação foi desmentida pelas grandes revistas científicas do vosso próprio país e do mundo. Esse perigo e outros que ameaçam a Terra são antropogénicos. Pela primeira vez na historia do sistema solar o homem é capaz de destruir a terra. Basta que se pense no aperfeiçoamento e na quantidade excedente de bombas nucleares e de sistemas de lançamento, a cuja capacidade letal, precisão e alcance se juntam a irresponsabilidade com que as grandes potencias jogam às ameaças de guerra.

Bom…, pode ser possível que ganheis a luta de clases, mas a vossa vitória será uma vitória pírrica se destruís os movimentos que estão lutando pela construção da vida, como o governo-povo de Cuba, e muitos outros que a partir das comunidades agrícolas e das cidades perdidas estão construindo a transição a outro mundo possível e auto-sustentável.

Com os meus melhores votos e boas maneiras vos digo. Deixai-vos de “desqualificações” e “negações” freudianas. Incentivai os homens de ciência que têm confirmado a verdade, atendei à sua verdade, e pensai por vossa própria conta que a democracia das corporações e dos conglomerados já é insustentável, que a organização do mundo pelos complexos empresariais-militares-políticos e mediáticos, cujo mais poderoso factor de “atracção” é a “maximização de bens e riquezas”, já entrou numa “fase de transição” terminal, “entrópica”, e que é necessário impulsionar a transição a um sistema cujo factor de atracção principal seja a liberdade e a vida.

Vereis que o povo-governo de Cuba é pioneiro nesse caminho e vereis também o ciberespaço no qual, desde Wall Street até Washington D.C., lutam muitos dos vossos próprios filhos. Todos eles, absolutamente todos, procuram caminhos pacíficos, e continuam, sob novas formas, a velha luta dos rebeldes pela paz e pela vida para transitar a um mundo viável, realmente humano…

Conhecê-los e reconhecê-los consiste em respeitá-los, e em começar por honrar a vossa palavra, um acto para o qual também apelamos à Senhora Hillary Clinton, que começou a organizar a sua campanha para a presidência do governo dos Estados Unidos e que poderia começar por honrar a sua palavra e a do governo a que aspira, bem como a do seu esposo, reclamando a imediata libertação dos três jovens ainda encarcerados – Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero – os quais, por acordo com o ex-presidente Clinton integraram um grupo cubano-norte-americano encarregado de pôr a descoberto os terroristas que estavam cometendo atentados sem conta a partir de Miami.

A luta de classes continua, a lucha pela independência e a autonomia dos povos continua, bem como a lucha pela redefinição na prática da liberdade, a justiça e a democracia: Nenhuma se deterá. Só que no mundo actual os seres humanos têm que começar por recuperar o uso da palavra para a transição para a paz e a vida.

Fazei viver a palavra que se honra com actos… Fazei – para começar – algo que vos parecerá muito pequeno e que será muito grande. Peçam ao presidente Obama a liberdade dos três heróis cubanos encarcerados. Iniciem uma nova historia da sua palavra com actos como este a que nos obrigam as mudanças de um mundo en que não só existe a luta de clases com a luta pela vida, pela vida dos 99% e também dos 1% da humanidade e dos nossos descendentes.

Pensai que novamente a palavra estará no principio do mundo. Viva a vida e a liberdade. Viva o povo dos Estados Unidos e o povo de Cuba. Viva a Humanidade e a transição a outro mundo viável, possível e necessário.

Obrigado pela vossa atenção. Sinceramente

Pablo González Casanova
Professor da Universidade

Fonte: http://www.alainet.org/active/74647

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