Absurdo sem limites*

Jorge Cadima    21.Nov.14    Outros autores

Jorge CadimaOs discursos dos dirigentes das potências imperialistas tornaram-se monumentos de desfaçatez e hipocrisia. Parecem não temer o ridículo mesmo quando, como foi o caso de Obama na Cimeira do G20, se desmentem a si próprios na mesma ocasião. A sua impunidade verbal resulta do controlo sobre uma comunicação social dócil e submissa que os protege do confronto com a realidade. A realidade da miséria e da guerra que semeiam por todo o mundo.

O cantor e humorista norte-americano Tom Lehrer notabilizou-se nos anos 50 e 60 pelas suas canções satíricas progressistas. Anos mais tarde deixou de cantar. Interrogado sobre as razões, declarou que «a sátira política tornou-se obsoleta no dia em que [no final da guerra do Vietname] atribuíram o Prémio Nobel da Paz a Henry Kissinger». Desde então, a procissão do absurdo percorreu um longo caminho.

Vem isto a propósito das declarações, no final da Cimeira dos G20 na Austrália, de outro Prémio Nobel da Paz, o presidente da maior potência belicista do planeta, protagonista de todas as grandes invasões, guerras de agressão e subversões conducentes a «mudanças de regime» das últimas décadas. Afirmou Obama em conferência de imprensa: «Temos uma posição muito firme sobre a necessidade de preservar princípios internacionais fundamentais. E um desses princípios é o de que não se invadem outros países, nem se financiam agentes, nem se lhes dá apoios que conduzam à divisão de um país que tem mecanismos para eleições democráticas» (Reuters, 16.11.14). A espantosa declaração de Obama, proferida num momento em que as tropas americanas voltam ao Iraque, era dirigida contra a Rússia e vinha a propósito da Ucrânia. País onde o governo dos EUA investiu cinco mil milhões de dólares no financiamento da subversão, segundo confessou publicamente a vice-secretária de Estado dos EUA para as questões euro-asiáticas, Victoria Nuland, ao discursar perante uma plateia de homens de negócios em Washington, no dia 13 de Dezembro de 2013. Subversão que culminou, dois meses depois, no golpe de Estado que derrubou o presidente eleito Yanukovich, no ascenso do fascismo e na divisão e destruição do país (que tinha eleições agendadas para 2015).

Os dirigentes das potências imperialistas parecem não temer o ridículo. Não é apenas a realidade que desmente as palavras de Obama. É o próprio Obama. Na mesma conferência de imprensa, ameaçou: «Já comunicámos ao regime sírio que quando agirmos contra o ISIL no seu [da Síria] espaço aéreo, o melhor que eles têm a fazer é não se meterem connosco». O único «princípio internacional fundamental» que o imperialismo dos EUA conhece é simples: o planeta inteiro pertence-lhes. E quem se atravessar no seu caminho que se cuide.

A impunidade verbal dos dirigentes do imperialismo mundial resulta do seu controlo sobre uma comunicação social dócil e submissa. Como sempre acontece nas grandes questões internacionais e nas guerras e agressões imperialistas, a cobertura da Cimeira dos G20 na comunicação social de regime seguiu uma cartilha única. Que também parece não recear o ridículo. Como muitos outros, o jornal inglês TheGuardian titulou: «Vladimir Putin abandona G20 depois de dirigentes fazerem fila para o atacar a propósito da Ucrânia» (16.11.14). Mas quem resistir e ler esse mesmo artigo até ao fim descobre que: «embora a comunicação social ocidental tenha descrito Putin como uma figura isolada na Cimeira, ele continuou a forjar relações de proximidade com os países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um agrupamento que se torna cada vez mais organizado no G20 e que, em termos económicos, mais do que iguala a dimensão das economias do G7». E em termos demográficos, corresponde a mais de 40 por cento da Humanidade, contra pouco mais de 10 por cento para os G7.

Há cada vez menos relação entre a realidade e as declarações públicas dos dirigentes das principais potências imperialistas. Esta desconexão não é uma novidade. Mas hoje ultrapassa-se os limites do absurdo. Não é sinal de força, mas sim de fraqueza. Reflecte o facto de que as velhas potências capitalistas em crise nada têm para oferecer aos povos, senão miséria e guerra. Inconfessável, a realidade tem de ser expurgada do discurso oficial.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2138, 20.11.2014

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