O Imperialismo do Dólar, ano de 2015-10-19

Os dólares que funcionam como meios internacionais de circulação não são só criados pela Fed, mas também pelo sistema bancário internacional, como crédito. A análise do crédito é fundamental porque é uma criação de dinheiro que pode ser convertida em capital. Assim, a grande maioria dos problemas que são, aparentemente, gerados pelo dinheiro são na realidade criados pelo capital em si. O dólar não é mais que o apoio do capital mundialmente dominante. De modo que criar uma nova moeda num sistema mundial capitalista que se mantivesse intacto seria apenas mudar o nome da moeda que serve esse capital para alargar a sua dominação sobre o mercado universal.

«O dólar é a nossa moeda, mas é o vosso problema». É o que John Connally, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos da América, tinha declarado aos seus homólogos ministros das Finanças quando da reunião do Grupo dos Dez (que reunia os Estados Unidos, o Canadá, o Japão e os países mais ricos da Europa ocidental, incluindo a Suíça) em Roma em Novembro de 1971, pouco tempo após a administração Nixon, ter terminado em Agosto do mesmo ano, a convertibilidade do dólar em ouro o que fez oscilar o sistema monetário internacional para um regime do flutuação generalizado das taxas de juro. O mundo sofre desse «problema» desde que os Estados Unidos obtiveram, para si próprios, o privilégio exorbitante de poder criar uma moeda nacional que é também internacionalmente a divisa chave no seio do sistema de Bretton Woods, criada na saída da Segunda Guerra Mundial.
O sistema de reserva federal norte-americana (ou seja o Banco da Reserva Federal ou (Fed) comporta-se na realidade como faria um banco central à escala mundial, mas só determina a sua politica monetária no sentido de servir os interesses exclusivos dos Estados Unidos. Sob a pressão ou sob as ordens dos oligopólios financeiros, a Fed fixa as taxas de lucro e imprime a moeda que quer, e para o que lhe convém, mesmo que a implicação desta ou daquela decisão seja a de desestabilizar, de afundar, outras economias pelo mundo fora. Quando quer provocar a queda da taxa de lucro observada há uma dúzia de anos nos Estados Unidos e extirpar esses últimos da estagnação em que mergulhou nos anos 70, a mesma Fed relevou brutalmente a sua taxa de lucro — a taxa federal de juro efectiva, que aumentou, no momento do choque Volcker» de 1979 a 1981, acima de 20% no início dos anos 80 — mergulhando assim muitos países em desenvolvimento no Sul em graves dificuldades económicas, alguns em situação de falta de pagamento, todos ou quase todos na servidão da dívida. Como essa divida se calculava em dólar e as taxas de juro aumentaram repentinamente, estas economias encontravam-se confrontadas com fardos de serviço da dívida consideravelmente aumentados que só podiam ser apoiados por novas dívidas contratadas em condições draconianas junto do Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma ligeira subida de juros de apenas um quarto de ponto nos Estados Unidos constituiu em 1997 um dos factores de aceleração do eclodir da «crise asiática», massas enormes de capitais flutuantes deixaram então a Ásia do Sudoeste. Hoje — ano de 2015 —, o fim das politicas monetárias qualificadas como uma «flexibilização quantitativa», em Inglês Quantitative Easing ou QE) o reforço do curso do dólar e uma antecipação da subida de taxas de juro nos Estados Unidos poderiam, ao combinar-se, causar um terramoto em numerosas economias em desenvolvimento. Desde 2009, os biliões (ou milhares de milhões) de dólares acabados de sair do prelo ou emprestados a taxas perto de zero inundaram os países do Sul e do Leste. Mas o recente estreitamento monetário já está a fazer fugir os capitais especulativos, o que desestabiliza esses países e, especialmente enfraquece os rivais dos Estados Unidos que surgem no mundo «emergente».
Não interessa que as medidas monetárias adoptadas a quando do «choque Volcker surgissem expressamente a fim de zurzir directamente os países do Sul e do Leste; mas o facto é, necessário e previsível, que o resultado seja uma ordem financeira global dominada por um único país, cujo interesse é o de conservar o seu estatuto hegemónico. Outras medidas foram tomadas precisamente para esse fim. Acontecimentos recentes, no que muito se assemelha a uma guerra financeira, surgem neste contexto geral de imperialismo financeiro. Países a lutar pela sua soberania, foram fustigados com sanções, por ataques especulativos dirigidos contra a sua moeda, por manipulação de preços dos produtos de base, avaliações ocultas da parte de agências de notação norte-americanas, condenações a emendas colossais de alguns dos seus bancos por terem efectuado práticas julgadas inapropriadas pelos Estados Unidos, ou ainda interdições impostas a muitos bancos em participar no sistema bancário internacional. Todas essas armas foram utilizadas para enfraquecer os seus rivais (vindos dos Estados Unidos ao Norte ou mesmo concorrentes a Sul ou a Leste) e para manter a hegemonia do dólar.
Este último permite não só garantir a preservação do imperialismo norte-americano, a protecção do estatuto internacional do dólar constitui uma das principais razões na origem de diversas guerras imperialistas recentemente iniciadas por Washington. O poderio militar-financeiro norte-americano funda-se no facto de o dólar ser a moeda chave mundial, principalmente da reserva e das trocas comerciais. Globalmente, isso gera uma demanda dirigida ao dólar colocando nas mãos dos Estados Unidos e só nas deles a decisão de imprimir tanta moeda quanto desejarem. Esses dólares são a seguir injectados à escala global no seio do sistema de capital financeiro globalizado e utilizados, entre outras coisas, para financiar as várias guerras criminosas dos Estados Unidos.
A demanda global de dólares é tal que a medida mais decisiva que evitou o afundamento do sistema capitalista durante a crise dita «financeira» em meados de Setembro de 2008, foi o acordo da Fed destinado a permitir, a partir do mês de Outubro de 2008, aos bancos centrais dos países do Norte, os do centro do sistema mundial, e de alguns países do Sul considerados como extremamente importantes (como o México ou a Coreia do Sul, principalmente) que beneficiassem de um acesso «ilimitado» ao dólar através de um dispositivo de «linhas de troca» (swap lines). O dólar está nitidamente sobrevalorizado em relação às leis fundamentais» da economia real dos Estados Unidos, os quais consomem muito mais do que produzem e podem saldar a diferença graças a um endividamento exorbitante. Assim, os deficits do orçamento de Estado federal e da balança de pagamentos corrente atingem montantes astronómicos que se medem a cada ano, em somas acumuladas, em biliões de dólares… Nenhum outro país do planeta seria autorizado a viver desse modo a tal ponto acima dos seus meios, com total impunidade. Sem uma procura mundial tão forte sobre o dólar, este último deveria sofrer uma «correcção» e o facto é que a consequência de um tal ajustamento seria provavelmente — ou quase inevitavelmente — o fim da hegemonia norte-americana.
Os Estados Unidos estão em condições de pressionar ou mesmo atacar países em que as autoridades monetárias tentem libertar-se soltando-se do jugo do dólar, não só porque os seus governos foram julgados culpados de lesa-majestade, mas também a fim de obrigar o mundo a respeitar o estatuto supremo do dólar, e por isso a preservar a dominação norte-americana. A Rússia, por exemplo, cujo presidente denunciou alto e bom som o carácter injusto do sistema monetário internacional sob domínio do dólar, foi atacado e recebeu sanções, principalmente via de ataques contra o rublo, a fixação dos preços do petróleo a níveis artificialmente baixos (claro, manipulados por Washington, com a cumplicidade submissa da Arábia saudita), degradações nas avaliações das agencias de notação, tentativas de desestabilização politica das «revoluções de cor», e até ameaças militares directas. De maneira geral e graças às suas diversas iniciativas os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, Africa do Sul [South Africa] especialmente depois da crise de 2008, tentaram desembaraçar-se do domínio do dólar. E numa reviravolta, a China, cujo papel motor é decisivo no seio do grupo dos BRICS, tornou-se o alvo central da recente estratégia de «giro» operada pelo exercito norte-americano em direcção à Ásia. Esse país tornou-se assim objectivo de desestabilizações recorrentes politicas em Hong Kong, nas províncias do Ocidente (do Tibete a Xinjiang). Sofreu também diversas tentativas — todas efectuadas pelos Estados Unidos — de isolamento económico em relação aos seus vizinhos pela interpretação da Sociedade Trans-Pacífico (Trans-Pacific Partnership).
Em 2009, depois de os Estados Unidos terem exportado por toda a parte através do planeta a crise financeira ali originada, a China e a Rússia propuseram que o mundo se libertasse do dólar e tentasse substitui-lo por uma moeda de reserva que não fosse controlada por um só país. Sugeriram que os Direitos de Tiragem especiais do FMI (DTS ou Special Drawing Rights) pudessem ser utilizados como moeda mundial, «neutra». Essa proposta foi recusada, imediatamente, pelo governo norte-americano. Os DTS na realidade constituem um produto fatal bastante singular vindo da crise de mudança surgida no fim dos anos 1960 e no início dos anos 70. O FMI, impulsionado então por vários países europeus, tinha respondido a essa crise, em 1969, com a criação de uma moeda fiduciária destinada a ser utilizada como moeda de reserva internacional. Washington não apreciara a ideia segundo a qual os DTS deviam substituir nesse papel o dólar e torpedearam-na mesmo antes de abandonarem o sistema de padrão troca-ouro. Os DTS não representam actualmente mais que uma ínfima fracção das reservas mundiais. Mas, desde aí, os Estados Unidos fizeram também abortar largamente todas as propostas de modificação do sistema de DTS, recorrendo ao seu direito de veto dentro do FMI. As regras que permitiam essas mudanças poderiam evoluir graças a uma decisão que seria aprovada com uma maioria de 85%, mas acontece que os Estados Unidos dispõem de uma quota de 17%, o que os coloca na situação de serem o único país a dispor na realidade de um direito de veto. Acontece até que o FMI, apesar das suas ligações estreitas com o Tesouro dos Estados Unidos, emite algumas críticas (muito ligeiras, na realidade), a propósito do sistema monetário internacional fundado hoje sobre a supremacia total do dólar, e que promove como alternativa (embora, muito discretamente) os DTS, ou uma nova moeda de reserva internacional.
Embora não tivesse conseguido, até agora, a ideia de um reequilíbrio do sistema monetário mundial parece extremamente perigosa do ponto de vista dos Estados Unidos, e não está desligada da explicação do comportamento ameaçador ou declaradamente belicista, dos Estados Unidos, cujas guerras parecem a alguns irracionais. A extensão da rede de bases da OTAN, na Europa de Leste, assim como o recente golpe de Estado na Ucrânia, constituem tentativas para separar a Europa da Rússia, tentando manter esta ultima em posição subordinada sob a égide dos Estados Unidos, a fim de prevenir a formação de um vasto espaço económico eurasiano unificado e, assim, isolar e desestabilizar a Rússia. A Sociedade transatlântica de Comércio e de Investimento (Transatlantic: Trade and Investment Partnership) tem esse objectivo. O enfraquecimento da Rússia e da China (como todos os BRICS de modo geral) sobre os planos militares, económico e político, com mudanças de regime em perspectiva, representa um elemento fundamental da estratégia dos Estados Unidos para manter a sua hegemonia, e principalmente a da sua moeda. Washington cercou assim esses países de bases militares e continua a tentar, de diversos modos disponíveis, desestabilizá-los. Também a presença norte-americana no Médio Oriente não serve apenas para assegurar um acesso às reservas de petróleo e de gás da região (os Estados Unidos dispõem aliás de grandes reservas de gás de xisto, podendo ser exploradas por fracturação das rochas), nem sequer para controlar o acesso a essas reservas energéticas (tanto mais que os chineses já lá estão), mas também e talvez por isso, para garantir a protecção da esfera dos petrodólares, e terem a certeza de que o mercado global dos combustíveis fósseis continua a ser tabelado em dólares. Nos últimos anos, o Irão, acompanhado do crescendo xiita, regressou muito claramente à linha de mira dos Estados Unidos quando o seu governo reafirmou a sua vontade de desdolarizar nas exportações de petróleo e gás.
Mas, para além desta proposta particular, são os países do grupo dos BRICS que intensificaram significativamente os seus esforços para se encaminharem para uma desdolarização do dólar. O novo banco de Desenvolvimento (New Development Bank) dos BRICS, oficialmente criado em Julho de 2014, foi concebido para ser uma alternativa ao FMI e ao Banco mundial. Teoricamente poderia mesmo emitir, em certa medida, e num futuro próximo, uma moeda que poderia representar um concorrente do dólar e produzir efeitos desastrosos sobre a economia norte-americana. O Banco Asiático de Investimento infra-estrutural (Banco de investimento de infra-estrutura asiático) foi iniciado em Outubro de 2014, em Pequim, a fim de desenvolver os investimentos nos sectores de infra-estruturas em toda a Ásia sem ter de recorrer aos financiamentos do Banco mundial ou do banco asiático de Desenvolvimento, controlados pelos interesses norte-americanos e japoneses. Quarenta e sete países candidataram-se para serem membros fundadores, incluindo a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Itália, a Coreia do Sul e até Taiwan, apesar das pressões de Washington. O vento mudará de rumo? Os Países dos BRICS também aumentaram muito as suas trocas comerciais, uns com os outros, e mesmo com muitas outras economias do Sul e do Leste em desenvolvimento, nas suas próprias moedas (real, rublo, rupia, iene e rand) em vez do dólar. O iene foi promovido como moeda regional, principalmente para as reservas e as trocas intra-asiáticas, enquanto a União económica eurasiana (Eurasian Economic Union) que agrupa a Rússia, a Bielorrússia, o Cazaquistão, a Arménia e logo o Quirguizistão, pensam criar, dentro de três a cinco anos, uma moeda comum, o altin. O governo do Cazaquistão anunciou abertamente que está agora a trabalhar num processo de desdolarização do dólar. A Rússia e Chipre, os dois gigantes, assinaram acordos absolutamente enormes sobre os sectores energéticos. Cooperam militarmente. Começaram também a reduzir a parte ocupada pelos títulos do Tesouro norte-americanos nas suas reservas oficiais, e a comprar quantidades maciças de ouro. Depois, em Novembro de 2014, a China anunciou um vasto plano de reforma financeira que abrange um deslocamento das suas reservas de troca: em vez de as reciclar comprando do Tesouro norte-americano, serão a partir de agora prioritariamente dirigidas «para o apoio da economia topo de gama chinesa». Quanto à Rússia, anunciou no mês de Fevereiro de 2015 o lançamento de uma alternativa ao sistema Swift, em resposta às ameaças ocidentais de desligar o país desse sistema e após as revelações segundo as quais a NSA vigia de muito perto essas transacções Swift. Estas várias medidas foram tomadas de modo a que os países do Sul e do Leste possam finalmente dizer de uma vez por todas aos Estados Unidos «o dólar é a vossa moeda, e o problema é vosso».
Mas, o facto é que o dólar por agora ainda é problema deles. Os políticos recentemente nomeados pela Fed estão novamente a levar o mundo em desenvolvimento à desordem mais completa. No decurso dos seis últimos anos, a Fed inundou o planeta de dólares, concedeu quase de graça cerca de 4,5 biliões (ou seja milhões de milhões) de dólares aos bancos e investidores por intermédio do QE, e prometendo manter taxas de juros extremamente baixas. Somas consideráveis de dinheiro norte-americano foram lançadas nos mercados das economias emergentes: as empresas e os governos desses países endividaram-se em dólares a taxas baixas, enquanto à escala global, os especuladores que emprestaram dólares a bom preço colocaram-nos nas economias do mundo em desenvolvimento para aí obter rendimentos muito superiores (por exemplo, nas chamadas operações carry trade implicando o dólar, ou seja montagens especulativas que podem consistir em endividamento numa divisa com uma taxa de lucro reduzido — no caso o dólar — e colocar esses fundos numa outra moeda com uma taxa de juro mais elevada — caso das moedas dos países emergentes —). É portanto bastante revelador constatar que muito poucos desses novos dólares foram efectivamente investidos na economia real norte-americana, que fica anémica, já que é evidente em contrapartida que contribuíram para dopar sempre mais os mercados financeiros nos Estados Unidos.
Segundo informações divulgadas pelo Banco dos Regulamentos Internacionais (BRI ou Bank of International Settlements) no início de Dezembro de 2014, no meio desse mesmo ano, os prestamistas não bancários e não residentes dos Estados Unidos deviam um total de 9 biliões de dólares de dívidas nessa moeda, aumentando em cerca de 50% desde 2008.
Desta soma, 5,7 biliões eram colocados nos mercados emergentes, principalmente sob a forma de títulos de empresa ou empréstimos bancários internacionais a firmas. Esses 5,7 biliões compreendiam 1,1 bilião de dívidas em dólares norte-americanos na China, ou seja mais do dobro do montante correspondente nos fins de 2012. A maior parte do endividamento em dólares contraída pelos mercados desses países emergentes dizia respeito às empresas, e não a dívidas soberanas, mas as reservas dos Estados poderiam ser envolvidas no caso em que planos de salvação de grande amplitude o exigissem, ou mais concretamente se fosse necessário defender activamente as suas moedas em declínio.
Investidores como prestamistas tinham antecipado que a Fed continuasse a manter a sua política de acesso ao dinheiro fácil, permitindo a todos os que se endividassem renovar com facilidade os seus títulos, porque emprestar em dólares não custava quase nada. Mas a Fed resolveu limitar a aplicação de QE a partir do início do ano de 2012, depois decidiu acabar com este dispositivo a partir do mês de Outubro do mesmo ano. E a partir do Outono de 2014, começou a evocar a sério a possibilidade de relevar as suas taxas no ano corrente de 2015, após múltiplas discussões, longas e animadas, a propósito da inoportunidade de prosseguir a sua política de taxas de juro quase nulo. O fim do acesso ao dinheiro fácil — assim como a percepção pelos «agentes» de uma relativa retoma da economia norte-americana — quer dizer a alta do dólar e baixa concomitância de numerosas moedas no mundo, o que significa um aumento do pagamento do serviço da divida e provavelmente também menos dólares disponíveis para os emprestadores nos mercados dos países emergentes quando eles tentam refinanciar-se e reformar as suas dividas. Quando se instala uma tal instabilidade, os investidores e os especuladores internacionais com uma aversão total pelo risco cada vez mais acentuado procuram dólares a fim de cobrir as suas posições em dólares nos mercados emergentes, o que aumenta a procura do dólar e o torna mais difícil. A acrescentar, as novas flexibilizações quantitativas em euros e ienes alimentam ainda a apreciação do dólar. Um dólar mais forte significa que este se tornou muito mais caro para as empresas e os governos dos países do Sul fazerem face ao pagamento das suas dívidas em dólares. Desde que os especuladores internacionais comecem a livrar-se de títulos de empresas nos mercados emergentes, essas firmas ver-se-ão obrigadas a adquirir dólares para pagar as suas dívidas, daí a acentuação da subida do dólar. Se uma vaga de falta de pagamentos subsistir, os efeitos de contágio poderão estender-se, e acelerarem-se as fugas de capitais. Há assim um risco de movimentos de liquidação de títulos sobre os mercados emergentes, susceptível de produzir condições semelhantes às de 1997. Apoiado em montantes consideráveis, o alargamento de operações de carry trade com o dólar empurraria desde logo para um ponto de retorno para lá do qual fluxos enormes de capitais poderiam deixar os países da periferia para voltar a toda a pressa aos Estados Unidos. Aliás já é o caso, em certa medida, para alguns desses países emergentes, nos mercados secundários de títulos, já começaram a exaurir-se. Compreendemos assim, que nesse contexto, uma alta das taxas de juros norte americanos não faria mais que deitar óleo sobre o fogo.
Em Janeiro de 2015, o banco mundial difundiu um aviso perante o risco de «correcção desordenada das vulnerabilidades financeiras». E segundo o Financial Times de 6 de Fevereiro, assistimos ao «crescer de uma torrente de capitais flutuantes vindos da China». Guan Tao, um oficial chinês de alta patente, declarou que cerce de 20 milhões de dólares tinham deixado a China, só no decorrer do mês de Dezembro de 2014 e que a situação financeira desse país se assemelha cada vez mais à da crise asiática» do fim dos anos 1990, pois é bem «a atmosfera dessa crise financeira que sentimos aproximar-se cada vez mais de nós». A antecipação de um abaixamento de taxas de juros no decorrer de 2015, mesmo de apenas um quarto de ponto como a Fed aludiu, agravaria mais um pouco esta tendência e atingiria as economias dos BRICS e outros países em desenvolvimento com violência, tornando mais oneroso o serviço das suas dívidas.
O dólar é atractivo, menos em razão de uma pretensa «retoma» da economia norte-americana já que a demanda global que lhe é dirigida aumenta com a aversão cada vez maior pelo risco dos investidores, no momento em que a Fed está em vias de desligar a tomada do QE. Diga-se de passagem, a economia dos Estados Unidos não está seguramente em fase de florescer. Segundo Jim Clifton, o presidente do Instituto de estatísticas e de sondagens Gallup, pela primeira vez em trinta e cinco anos, há mais encerramentos que abertura de empresas nos Estados Unidos. J. Clifton explica também que as taxas do desemprego oficial de 5,6% são «enganosas» e que só 44% dos cidadãos norte-americanos em idade de trabalhar têm um emprego de pelo menos 30 horas por semana, dentro de uma estrutura que lhes fornece um salário regular. Shadow Stats (ou Estatísticas do Governo Sombra), um site analítico das «estatísticas da sombra»» as despesas públicas e do mercado de trabalho) calculam que a verdadeira taxa de desemprego seria de 23,2% nos Estados Unidos. Uma pesquisa verificada pela Fed revela que 48% dos americanos não dispõem de reservas suficientes para fazerem face a uma despesa imprevista de 400 dólares. O think tank Pew Research Center anuncia que os Estados Unidos são hoje 40% mais pobres do que em 2007. Assim, em desconexão completa em relação a essas realidades, o dólar continua a agradar-lhe. Os debates que se tem sucedido nos Estados Unidos no campo dos conservadores a propósito do risco de um crash eventual do dólar e de uma hiperinflação como consequência do dispositivo do QE, assim como as comparações por vezes estabelecidas a este propósito com a história económica da Republica de Weimar, são inapropriadas: a Alemanha de Weimar não era a potência hegemónica que controlava a política monetária mundial. Pois no que respeita ao dólar, é menor a sua quantidade em circulação que a demanda global que se mantém sobre ele que tende a determinar o seu «valor». E o facto é que esta procura é ainda muito forte, em razão do estatuto de divisa chave de que beneficia, e em último caso do seu fundamento último: a hegemonia militar dos Estados Unidos, única dimensão em que estes últimos são actualmente superiores a todos os outros países do planeta e isso, apesar das falhas da sua economia real e claro, da sua política monetária.
Embora não altere a base da economia norte-americana — em especial o consumo — um dólar mais forte, associado a um apertar da política monetária americana, poderia estar na origem de um choque particularmente severo no mundo em desenvolvimento. Assim, Ambrose Evans Pritchard do Telegraph escrevia em 17 de Dezembro de 2014: «Mais marcado será o boom nos Estados Unidos, pior será a situação para os países que se encontram do «lado mau» do dólar. A Fed puxou o gatilho. Os países dos mercados emergentes deviam preparar-se para a prova de fogo. No total, pediram emprestado 5,7 biliões de dólares, numa moeda que não podem nem imprimir nem controlar. Esta divida emitida nesta moeda forte triplicou num decénio. Os 5,7 biliões de dólares decompõem-se em 3,1 biliões de empréstimos bancários e 2,6 de títulos. Isso corresponde totalmente, a uma das operações mais importantes de empréstimos internacionais registados dos últimos dois séculos. A maior proporção dessa divida foi contraída com taxas de juros reais da ordem de 1%, apoiando-se numa hipótese implícita segundo a qual a Fed continuaria a inundar o mundo de liquidez nos próximos anos. Os prestamistas estão, como se diz no jargão comercial, «em posição curta sobre os dólares» (poucos dólares) E ei-los agora que ouvem o apelo das margens vindo do inferno. Stephen Jen, de SI J. Macro Partners, declarou a este respeito que as divisas dos mercados emergentes poderiam afundar-se. Houve demasiadas oportunidades de crescer para os fluxos de capitais, nestes mercados durante o ultimo decénio. Nada poderá evitar a saída de capitais, enquanto a economia dos Estados Unidos parecer reafirmar-se. Essa tendência levará a uma crise do tipo da que sucedeu em 1997-98? Começo a pensar que isso será absolutamente provável para o ano de 2015».
Essas evoluções recentes servem evidentemente os interesses do imperialismo financeiro norte-americano. Contribuem para destruir economicamente os rivais que pensem pôr em dúvida a supremacia do dólar. Mas, é aceitável que um país, qualquer que ele seja, se arrogue o direito de impor uma política monetária laxista durante anos, depois estreitá-la segundo a sua vontade, esmagando à passagem o resto do mundo de uma maneira extremamente violenta? E será aceitável que um só país e só ele possa controlar a divisa de reserva internacional? As circunstâncias implícitas do QE e a política de taxas de juros (quase) nulos nos Estados Unidos originam que hoje, uma melhoria da situação económica que aí seja registada poderia provocar danos nos países do Sul, como numa equação de soma nula. Isso impõe obstáculos extremamente difíceis de ultrapassar para qualquer país que enfrente um processo de des-dolarização. Foi tudo feito a régua e esquadro? Mais uma vez, é delicado afirmá-lo aqui, mas por detrás da imputação de responsabilidades, o que encontramos, são os efeitos previsíveis, inegáveis, que não deixam de ter precedente: e esses efeitos são os da política monetária imperialista dos Estados Unidos há decénios. Uma política que serve o imperialismo, o acompanha, e cujas implicações são semelhantes às de formas mais directas e brutais do imperialismo financeiro, tais como as sanções. Os Estados Unidos devem ser assim responsabilizados pelas catástrofes que gerem e o mundo deveria decidir retirar-lhes o seu arsenal de privilégios, tal como — característica do imperialismo — dispor da divisa chave internacional.
O curso do dólar melhorou mais de 21% desde Julho de 2014, data em que descolou face a divisas de países emergentes que decaíram. Apesar das sanções adoptadas na Primavera de 2014, o rublo russo só começou a descer a partir do mês de Julho seguinte. As outras moedas dos países do grupo dos BRICS (excepto o iene) assim como outras divisas de países em desenvolvimento, como as da Indonésia, do México ou ainda da Argélia, mostraram também sinais de inflexão para a baixa a partir do Verão de 2014, antes de acentuar a sua queda no mês de Novembro do mesmo ano, pouco tempo depois de o QE ter cessado de se implantar nos Estados Unidos (fim de Outubro). Depois de ter suportado durante anos pressões de Washington exigindo uma reavaliação do iene face ao dólar, as autoridades chinesas poderiam ver-se obrigadas a desvalorizar a sua moeda nacional, o que estimularia mais ainda as fugas de capitais. O FMI e o BRIC aliás já avisaram muito explicitamente contra os riscos de falhas de pagamento maciças sobre os mercados emergentes. Esta instabilidade de trocas e de movimentos de capitais vem amplificar a do contexto geral de queda dos preços de matérias-primas e de antecipação de alta das taxas de juros norte-americanos. Os investidores poderiam aguardar para transferir as suas operações de carry trade para o euro, na expectativa do novo dispositivo QE em euros, mas seria esquecer que o banco central europeu não pode fornecer dólares, ou seja precisamente o que é pedido — na realidade, o QE em euros apenas fará enriquecer ainda mais o dólar.
O Financial Times declarava assim em 22 de Fevereiro último: «A história sugere que os acidentes mais graves são os mais prováveis quando a Fed estreita a sua política, e o dólar está orientado para a subida. Quer gostem ou não, a Fed é hoje mais do que nunca o banqueiro central do mundo. O dólar tornou-se a unidade de conta num mercado externo do crédito cujo tamanho corresponde a quase metade do produto interno bruto dos Estados Unidos. Os mercados dos países emergentes estão interligados. O conjunto é portanto vasto demais para causar, no caso de acontecer um acidente, alguns problemas à própria economia norte-americana. E um acidente assim não deveria ser excluído. Mesmo com o recuo não é fácil de identificar opções de política viáveis para os mercados emergentes, para além dos controles de capitais extremamente pesados, que teriam podido isolar as economias emergentes da estratégia pouco convencional do enfraquecimento monetário da Fed. Os gestores de portefólios sobre o mercado global dos títulos poderiam muito rapidamente relaxar a dívida dos países emergentes desde que as taxas de juro começassem a aumentar, obrigando as firmas desses mesmos países a comprar dólares para pagar as dívidas que vencem. Isso poderia empurrar o dólar para o alto — e a condições monetárias ainda mais duras — e reduziria o investimento de capital nas economias emergentes, agravando o risco de recessão e levando os gestores de títulos a desembaraçarem-se de créditos do país emergentes e a lançá-los sobre o mercado. A BRI declarou-se inquieta com o facto de o resultado se assemelhar ao estourar de uma bolha, tradicionalmente associado ao efeito de comando no sector bancário, ainda que os componentes institucionais fossem muito diferentes.
Uma tal situação gera uma série de riscos evidentes, mesmo para as economias do centro do sistema mundial — que não são propriamente estáveis. Um dólar forte zurzirá as transnacionais norte-americanas que trabalham mais a fundo no estrangeiro, e não o aguentarão por muito tempo. Se bem que tudo o que os Estados Unidos tenham a fazer para que os seus rivais dos BRICS entrem em convulsões seja fechar a torneira do QE, depois de ter inundado o mundo inteiro de dólares e relevar as suas taxas de juro, esta solução — aparentemente de boa economia — poderia revelar-se no final não isenta de custos para os Estados Unidos. Segundo Bloomberg, 13 de Fevereiro de 2015, o «Comité de Open Market da Fed de Janeiro de 2015 acrescentou «desenvolvimentos internacionais» a uma lista de problemas que deveria ter em conta para elaborar a política [monetária], conjuntamente com problemas de preocupação nacionais, tais como a inflação e o mercado de trabalho. Embora seja provável que um ambiente global impeça a Fed de começar a relevar as suas taxas de juro, a verdadeira tormenta sobre os mercados poderia influenciar o ritmo e a amplitude das evoluções ulteriores, declarou Edwin Truman, antigo chefe da divisão financeira internacional da Fed». Esta atenção súbita com o «resto do mundo» não deve suscitar mal-entendidos, interpretando-se como uma consideração ou simpatia para com a sorte dos outros países do globo. Pois, muito provavelmente, indica claramente o medo de um efeito de boomerang. A crise, previsível, que provocariam as modificações da política executada pela Fed poderia ter repercussões nefastas para a própria economia norte-americana se contribuísse para precipitar um choque de liquidez e uma crise económica global. Hoje, os mercados são muito mais interdependentes e o mundo está mais globalizado do que em 1979 ou 1997. Os países da «periferia» pesam pela metade no sistema mundial. A economia norte-americana, enfraquecida, penetra assim num terreno desconhecido em que imprime milhões de dólares novos, tentando ainda forçar o mundo a continuar a submeter-se ao seu domínio sem partilha. Mas parece muito possível que tenhamos entrado numa era em que os Estados Unidos já não possam continuar a exportar os seus problemas — e as suas crises — totalmente impunes.
Com 5,7 biliões de dívidas em dólares nas economias emergentes, os países do grupo dos BRICS ainda têm muito caminho a percorrer antes de se conseguirem libertar verdadeiramente da supremacia do dólar. Se entrarem numa crise económica no verdadeiro sentido do termo — a Rússia já lá está — esses países poderiam ver-se obrigados a agir e a marchar mais depressa para a criação de uma esfera financeira alternativa, des-dolarizada, na simples tentativa de sobreviver. Pois este mundo bipolar, que parece desenhar-se, é muito provável que possa pelo menos oferecer algum descanso a estas economias. Mas, se o mundo se divide assim em duas esferas rivais, isso poderia então conduzir a uma espécie de nova Guerra-Fria — ou seja, talvez até a um risco de uma nova Guerra Mundial.
Uma solução sensivelmente preferível seria tentar criar uma nova moeda de reserva global, que não substituiria as moedas nacionais, mas esvaziaria apenas o dólar do seu papel hegemónico e poria fim a esta injustiça; uma moeda que seria gerida por uma instituição internacional, como por exemplo, um FMI «reformado» (se houver sentido nessa formulação) ou talvez outra entidade mais «neutra» que as instituições actualmente existentes. Assim, libertar o mundo do flagelo do dólar, como as guerras «frias» ou «quentes» ocorridas no juro do capital de que é o suporte não nos libertaria da verdadeira doença, insidiosa e destruidora, de que sofre o conjunto do sistema mundial.
A proposição de criar uma nova moeda de reserva global não é mais que voltar ao Banco imaginado em Bretton Woods por John Maynard Keynes. Mas, face à violência do capitalismo actual e à sua ditadura oligopolistica financeirizada, o reformismo keinesiano não bastará. Pois vejamos bem: há o capital atrás do dólar. Este último de resto não tem verdadeiramente o papel de reservas, que utilizam antes uma forma de divida, como diversos títulos emitidos pelos Estados ou as firmas transnacionais — ao lado de reservas de ouro. Do mesmo modo, os dólares que funcionam como meios internacionais de circulação, nas trocas comerciais (importações e exportações, por exemplo), não são só criados pela Fed, mas pelo sistema bancário internacional, como crédito — que é destruído em fim de ciclos. A análise do crédito é assim fundamental porque é uma criação de dinheiro que pode ser convertida em capital. Os trabalhos do teórico marxista Paulo Nakatani, da Universidade Federal do Espírito Santo em Vitória no Brasil, demonstraram-no perfeitamente. Entendemos assim que a grande maioria dos problemas que são, aparentemente, gerados pelo dinheiro, na realidade são criados pelo capital em si. Investimentos directos estrangeiros e investimentos de portefólios não correspondem exactamente a «dinheiro»; trata-se, na realidade, de formas de capital-dinheiro. Repetimos, o dólar não é mais que o apoio do capital mundialmente dominante. Também criar uma nova moeda num sistema mundial capitalista que ficará intacto seria apenas mudar o nome da moeda que serve esse capital para alargar a sua dominação sobre o mercado universal.
Entretanto, toda a recusa da hegemonia global do dólar norte-americano abriria novas margens de manobra; margens necessárias a fim de realizar experiências alternativas e emancipadoras a funcionar tanto como transição para a socialização da economia, o socialismo, para resistir à barbárie capitalista, e é por isso que também lutamos, para prosperar e para nos desenvolvermos, nós e as gerações futuras.

Michèle Brand é uma jornalista independente em Paris. Pode ser contactada no endereço michelebrand89@yahoo.fr.

Rémy Herrera é economista, pesquisador no CNRS (Centro de Economia da Sorbonne, Paris): herrera1@univ-paris.fr.

Tradução: Manuela Antunes

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