«Liberais»

Filipe Diniz    26.Feb.16    Colaboradores

Neste texto, uma vez mais certeiro e breve, Filipe Diniz aponta ao tempo e ao como se defendem os interesses da classe dominante, e como a radicalização verbal de aparentes posições divergentes mais não é do que o modo como esconder a verdadeira função do Estado numa sociedade de classes.

No rol de personagens da direita cujas opiniões diariamente enchem o espaço público há de tudo, incluindo mentes em manifesto delírio. Mas há questões que pode ter interesse acompanhar.

Um, que uma parte da direita não está satisfeita com os partidos que tem. Há um mal-estar transversal que abrange, evidentemente, também o PS. Não gostam do estado actual das coisas, e uma das dificuldades que têm em comum é a de dar nome ao que os une.

O que os une é, obviamente, a política de direita. O nome que gostariam de lhe dar é o de «Liberalismo». Um dos seus patronos ideológicos é o economista austríaco Ludwig Van Mises. Em 1927, num livro intitulado precisamente «Liberalismo», esse senhor escreveu: «Não pode negar-se que o Fascismo e movimentos semelhantes cujo objectivo é o estabelecimento de ditaduras estão cheios de boas intenções e a sua intervenção, de momento, salvou a civilização europeia. […] O Fascismo foi um recurso de emergência» [contra a perspectiva da revolução, esclareça-se].

Num debate em que participou com outros «liberais» o sr. Mises, que era conhecido por perder facilmente as estribeiras, acusou os outros de «serem todos socialistas». Exactamente a mesma coisa que César das Neves foi dizer nas jornadas parlamentares do PSD: «o país é mesmo socialista. Todos os partidos, do CDS ao Bloco de Esquerda, é tudo socialista» (DN, 21.02.2016).

Outro tema – próximo do anterior – é o do «Estado». O «Estado clientelar», formatado para «manter os privilégios de alguns – nos salários, nas pensões e na segurança do emprego». Nada obriga esta gente a conhecer a teoria marxista-leninista do Estado. Mas acusar o Estado (qualquer Estado, numa sociedade dividida em classes antagónicas) de estar ao serviço das classes dominadas constitui uma colossal fraude que toda a realidade desmente.

Veja-se um modesto exemplo de 2012. Uma auditoria do Tribunal de Contas detectou que não foram contabilizadas isenções fiscais a empresas no valor de 1.080 milhões de euros, dos quais 1.045 milhões a grandes empresas. No mesmo ano, o OE previa cortes de 600 milhões na Educação e 810 milhões na Saúde. Por pouco que uma coisa não dava para a outra.

O Estado que os «liberais» querem ver consagrado é este: para o povo, migalhas; para o grande capital, tudo.

Este texto foi publicado no Avante nº 2.204, de 25 de Fevereiro de 2016.

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