Hillary Clinton, a Raínha do caos
- Um livro de Diana Johnstone

Nas eleições presidenciais de 2008 nos EUA, a técnica de vender ao mundo um presidente foi, desde início, um enorme logro coroado de sucesso.
Ao contrário, os candidatos que parecem estar destinados à disputa eleitoral de 2016, Hillary Clinton e Donald Trump, não só não suscitam qualquer entusiasmo no mundo como levantam por todo o lado uma indignada interrogação: como é possível?
Neste texto, Miguel Urbano chama a atenção para um livro a lançar esta semana em Portugal que, «apoiando-se numa documentação exaustiva, apresenta de Hillary um perfil tão assustador que muitos eleitores norte-americanos podem concluir que ela é mais perigosa do que Donald Trump.»

São poucos os escritores progressistas norte-americanos cujos livros denunciam a estratégia de dominação planetária dos EUA como ameaça à Humanidade.

Diana Johnstone é quase uma exceção. Não é marxista nem revolucionária e acredita nos valores da democracia ocidental. O que critica é o funcionamento da engrenagem do poder, a ambição, a perversidade, a irresponsabilidade, o belicismo da elite oligárquica que no seu país controla o sistema e define a sua relação com o mundo.

Ligada aos Verdes, colaboradora de Counterpunch, especializada em temas políticos europeus, Diana (81anos) reside em Paris e a maioria das suas obras foi escrita em França.

O seu último livro, Hillary Clinton Rainha do Caos* tem entre outros o mérito de chamar a atenção para a ameaça potencial que representa para a Humanidade a candidata à Casa Branca que será provavelmente a próxima presidente dos Estados Unidos.

Diana, apoiando-se numa documentação exaustiva, apresenta de Hillary um perfil tão assustador que muitos eleitores norte-americanos podem concluir que ela é mais perigosa do que Donald Trump. O multimilionário novaiorquino é um beócio ignorante, xenófobo, racista, ultra reacionário. Conta com o apoio da extrema-direita por d
efender projetos tão monstruosos como a construção de um alto muro eletrificado na fronteira com o México e a
expulsão massiva dos imigrantes ilegais. É uma personalidade megalómana, um irresponsável.

Mas, inesperadamente, Trump critica a corrida às armas, pretende reduzir o Orçamento de Defesa, e melhorar as relações com a Rússia e a China. Discorda do envolvimento dos EUA em novas guerras. Para ele a saída da crise passa pela economia, pela expansão do comércio.

O escritor australiano John Pielger afirma que Hillary é favorável ao emprego de armas nucleares táticas em algumas «guerras preventivas». Seria abrir a porta à destruição da Humanidade.

FAVORITA DO COMPLEXO MILITAR INDUSTRIAL

O livro de Diana Johnstone transcende pelo seu conteúdo e significado os problemas ligados à eleição presidencial.

Grande parte dos seus sete capítulos é dedicada a iluminar o funcionamento de um sistema criminoso, montado por uma oligarquia que aspira a modelar o mundo sob a égide dos EUA. No vértice dessa engrenagem situa-se o Complexo Militar Industrial. O seu poder nocivo já era tamanho que Eisenhower, há mais de meio século, no seu discurso de despedida alertou o povo americano para a sua perigosidade.

O desaparecimento do «inimigo comunista» estremeceu os alicerces da poderosa indústria que produz armas, considerada pelo sistema base da prosperidade nacional.

O governo Truman recusou todas as propostas de desarmamento da União Soviética, que aspirava a uma paz duradoura para reconstruir o país, devastado pela guerra.

A elite do poder estado-unidense decidiu que era imprescindível inventar novos inimigos e desencadear em cadeia guerras para os destruir.

A estratégia agressiva de dominação universal foi o complemento da política imposta pela sobrevivência e agigantamento do Complexo Militar Industrial.

Iniciou-se então um ciclo de agressões bélicas que perdura desde meados do século XX: Coreia, Vietnam, Camboja, Laos, Iraque, Afeganistão, Somália, Iémen, Líbia. O estado neofascista de Israel foi no Médio Oriente o aliado permanente do imperialismo estado-unidense.

Diana Johnstone analisa em pormenor os mecanismos utilizados para anestesiar a consciência dos povos de modo a viabilizar essa estratégia.

As agressões militares são apresentadas como iniciativas humanitárias em defesa da liberdade e da democracia. A fórmula tem sido repetida com êxito, tendo como instrumento um sistema mediático manipulado pelo imperialismo.

Campanhas massacrantes de deformação da história precedem as agressões militares. As «guerras preventivas» são justificadas pela necessidade de destruir ditaduras e tiranos que oprimem os seus povos e ameaçariam «a segurança dos EUA». A demonização dos comunistas do Vietnam, de Sadam Hussein, de Khadafi foi prólogo de intervenções militares que devastaram os países «libertados», matando centenas de milhares de pessoas.

HILLARY FAVORITA DO PENTÁGONO

Hillary aprova o famoso comentário da sua íntima amiga Madeleine Albright sobre o poder das forças armadas dos EUA: «Para que ter toda essa força militar se não a usamos?»

Apoiou, com entusiasmo por vezes, todas «as guerras preventivas» do seu país.

Na juventude foi admiradora do senador Barry Golwater, o caçador de bruxas, ideólogo da campanha de perseguição a intelectuais e artistas acusados de filo comunistas.

Em 1999 foi ela quem convenceu o marido, o presidente Bill Clinton, a iniciar o bombardeamento da Sérvia pela NATO e a expressar solidariedade com a mafia do Kosovo. O esfacelamento da Jugoslávia foi aliás o laboratório de «guerras preventivas» posteriores.

Quando senadora, em 2009, deslocou- se às Honduras para impedir que Cuba fosse readmitida na OEA. Semanas depois, o presidente Zelaya foi metido em pijama num avião e expulso do país. Hillary, então secretária de estado, qualificou o golpe militar de «crise», convidando «todas as partes» a resolver o problema «sem violência». Posteriormente aprovou a fraude eleitoral que «legitimou» o golpe. No seu livro de memórias Hard Choices (Escolhas difíceis) define o seu estilo diplomático como «O poder Inteligente». Esse poder – escreve Johnstone – significa para ela recorrer a todos os meios possíveis para promover a hegemonia mundial dos EUA».

Sionista desde a adolescência, afirmou repetidas vezes que é inquestionável o direito de Israel a assumir-se como «estado judeu».

Hillary defende a tese do «excecionalíssimo americano”. Para ela os EUA são uma nação predestinada a salvar a humanidade, a «ultima esperança da humanidade». No cumprimento dessa missão instalaram mais de 600 bases militares em 148 países.

Fiel a essa mundividência qualifica de criminosos os lideres de pequenos países que não se submetem às exigências de Washington. No que toca a Julian Assange, Edward Snowden e o soldado Maning, as suas revelações são para ela «ataques aos Estados Unidos e à comunidade internacional».

Como secretária de estado de Obama, intensificou a ingerência dos EUA nos assuntos internos de 50 países. Hillary Clinton – escreve Diana – parece estar totalmente convencida de que o progresso do mundo depende de os EUA dizerem a toda a gente como se deve comportar desde a oração até ao quarto».

É uma metodista fervorosa e gosta de rezar em público em grupos de estudo da Bíblia no Prayer Breakfast (Pequeno almoço de oração).A participação nessas iniciativas, promovidas pela Rede de direita Fraternidade, não é, porém, gratuita: custa 400 dólares.

Hillary, com frequência, invocava o genocídio de «povos oprimidos» para justificar as «intervenções humanitárias». Na realidade eram as agressões militares imperialistas que assumiam um carácter genocida, provocando autênticas hecatombes. Assim aconteceu no Afeganistão, no Iraque e na Líbia.
Washington recorreu algumas vezes ao Tribunal Penal Internacional, de cuja jurisdição os EUA aliás se excluíram, para obter a condenação de políticos do leste acusando-os de genocidas. Manipulado, esse Tribunal de farsa, criado ad hoc, julgou entre outros o ex-presidente da Sérvia, Milosevic, acusado de crimes que não tinha cometido, como sublinha Diana Johnstone.

A OBSESSÃO ANTI RÚSSIA

Hillary desenvolveu desde a juventude uma obsessão anti Rússia. O ódio que sentia pela União Soviética sobreviveu à destruição do regime socialista. Foi transferido para Putin.

Durante os mandatos do marido como presidente, empenhou-se na defesa de um projeto de reforma da saúde. Mal concebido e estruturado, fracassou. Ao ser nomeada chefe do Departamento de Estado, esqueceu rapidamente essa frente de luta.

Acarinhada pelos neocons e pelos generais e almirantes do Pentágono, desempenhou então um papel importante em todas as campanhas que precederam agressões militares desencadeadas pelos EUA em defesa dos «direitos humanos». Ao receber a notícia de que Kadhafi tinha sido torturado e mutilado, começou – segundo Johnstone – «a rir em gargalhadas felizes» e exclamou: «Viemos, vimos, ele morreu».

Apoiou com entusiasmo as provocadoras, grupelho russo das Pussy Riot que em frente do altar-mor da Catedral de Cristo Salvador, em Moscovo, bolçaram obscenidades e, cantando em coro, chamaram «puta» ao patriarca da Igreja Ortodoxa Russa

Quando as moças foram condenadas pela justiça russa, Hillary assumiu a sua defesa e em Nova York publicou no Twitter uma foto sua ao lado das Pussy Riot, de visita à cidade, com uma mensagem: “É ótimo encontrar-me com as fortes e corajosas jovens das Pussy Riot que recusam que as suas vozes sejam silenciadas na Rússia».

Autêntica candidata do Pentágono, Hillary acompanhou com paixão os trágicos acontecimentos da Ucrânia.

Ao saber que Victoria Nuland – «a minha querida porta-voz no Departamento de Estado», como lhe chamava – fora nomeada para assumir o comando da agressiva política de Washington na Ucrânia, Hillary congratulou-se com a escolha da amiga. Posteriormente manifestou-lhe solidariedade ao explodir o escândalo da sua conversa telefónica com o embaixador dos EUA naquele país, Geoffrey Pyatt. Discutiam quem deveria ser colocado no poder em Kiev e Noland e desabafou: “A União Europeia que se foda».

A reação de Hillary ao referendo em que o povo da Crimeia, por maioria esmagadora, decidiu que a Península voltaria a integrar-se na Rússia foi intempestiva e grotesca: qualificou Putin de «novo Hitler».

No conflito que levou à secessão das províncias russófonas do Leste da Ucrânia, Hillary Clinton atribui a Vladimir Putin toda a responsabilidade da guerra civil que assola o país. Não surpreende tal atitude vinda de quem não esconde a sua simpatia pelo partido neofascista ucraniano Svoboda.

Na opinião de Diana Johnstone, «o desempenho de Hillary Clinton como secretária de estado somente foi um grande êxito num aspecto: tornou-a a candidata favorita do Partido da Guerra».

No seu importante livro esboça bem o perfil da mulher que segundo as sondagens pode ser o próximo presidente dos EUA.

* Diana Johnstone, Hillary Clinton Rainha do Caos, Editora Página a Página,123 pág., Lisboa 2016 (Queen of caos: The Misadventures of Hillary Clinton, no original inglês).

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