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A atribulada estreia de Trump

Claudio Katz* :: 13.03.17

Claudio KatzTrump abre uma viragem de alcance global. O epicentro da crise situa-se, pela primeira vez, na principal potência do planeta. Da mesma forma que ninguém imaginou a derrota da União Soviética ou a conversão da China em potência económica, também não houve previsão da monumental mutação em curso.

Nos seus primeiros dias Trump confirmou que é um mandatário reaccionário com múltiplos planos de tudo atropelar. Enquanto a resistência nas ruas cresce, a visibilidade da sua agressão é uma incógnita. Em qualquer caso, uma acertada caracterização do seu projecto vale mais que incontáveis vaticínios.

Uma agenda virulenta

As ordens executivas que o magnata assinou ilustram os seus propósitos trogloditas. Ratificou a construção do muro a expensas do México, pôs em marcha a expulsão de indocumentados, anulou a visita a vários países árabes, anunciou a retirada de subsídio federais às cidades que protejam imigrantes, iniciou a liquidação do seguro de saúde (Obamacare) e congelou a contratação de empregados estatais

O seu gabinete de generais e multimilionários inclui peritos em destruição da educação pública (Betsy Devos), esvaziar o sistema sanitário (Tom Price), liquidar o ambientalismo (Scott Prui) e congelar o salário mínimo Andy Puzder). O seu Vice-presidente (Mike Spence) lidera as campanhas de penalização do aborto e os seus principais funcionários são declarados anti-islâmicos (Michael Flynn) ou pregoeiros da supremacia branca (Bannon).

Como o expoente do lobby petrolífero (Tillerson) já reabilitou a construção de oleodutos contaminantes, é possível uma estreia repressiva contra as populações que resistem em Dakota a esses devastadores empreendimentos.

A predisposição de Trump para o garrote verificou-se na sua justificação da tortura. Garantiu protecção total às actividades da CIA e subiu o tom dos insultos contra a imprensa pela sua cobertura das manifestações opositoras. Com uma fábula sobre os sufrágios fraudulentos, prepara algum mecanismo de dissuasão do registo de votantes.

Trump negoceia com o establishment republicano o plano económico e a política externa, apoiando as campanhas obscurantistas da ultradireita do seu gabinete. Essa agenda inclui iniciativas dos defensores da supremacia branca contra os afro-americanos e os direitos conquistados por outras minorias. Não são apenas os latino-americanos que estão excluídos do seu projecto de «fazer novamente grande» os Estados Unidos (Davis, 2016).

O magnata sabe que a sua onda xenófoba requere mais acções que palavras. Procura o apoio activo do seu eleitorado para diabolizar os mexicanos e atacar os muçulmanos. Por isso convoca os «verdadeiros estadunidenses» a apoiá-lo contra os «políticos profissionais» do Congresso.

A sua de verborreia agressiva e o caudilhismo nacionalista foi identificada por numerosos analistas com o «populismo anti-sistémico» (Fraga, 2016). Utilizam essa denominação para questionar a sua demagogia e o seu desconhecimento dos princípios republicanos. Sublinham que esses defeitos são internacionalmente partilhados por líderes da direita e da esquerda. Mas a inconsistência desta comparação salta à vista no caso de Trump. Podem traçar-se paralelos com Le Pen, mas qualquer comparação com os presidentes Maduro ou Evo Morales é um disparate. O mote de populista obscurece que o potentado é um expoente da classe capitalista que procura reconstituir o sistema político estadunidense, através de uma gestão autoritária.

Como esta meta exige suportes para-institucionais, a coligação governante inclui a componente fascista das milícias e dos grupos que promovem o uso de armas nas Universidades.

Alguns autores (Cabrera, 2017) salientam com acerto essas ameaças perante as vacilações dos progressistas que contemporizam com Trump. Estas abordagens descrevem o voto operário alcançado pelo multimilionário como uma simples manifestação de descontentamento, diluindo o seu carácter reaccionário. Também desenvolvem acertados questionamentos a Obama e Hillary, desconsiderando o perigo que representa o novo presidente (Fraser, 2017). Com essa atitude torna-se difícil valorizar a extraordinária explosão de protestos desencadeados pela chegada de Trump.

Uma resistência inédita

Nenhum outro presidente iniciou o seu mandato com tanta rejeição inicial. Quatro milhões de manifestantes transformaram a fisionomia das principais cidades dos Estados Unidos. Mas mais apelativa foi a radicalidade dos discursos e das consignas.

Debaixo de uma avalanche de cartazes proclamando que Trump «não é o meu presidente», numerosos oradores salientaram a ilegitimidade do mandatário. As sondagens ratificaram que metade da população está de acordo com esta percepção. Não são só Michael Moore e os seguidores de Sanders que questionam a validade da actual gestão presidencial. Algumas personalidades do establishment coincidem nesse questionamento (Krugman, 2017). Estas posições abalam os fundamentos do sistema institucional estadunidense.

A cerimónia de posse foi boicotada por quarenta senadores liderados pelo emblemático lutador afro-americano (Lewis). Este convulsivo panorama suscita impensáveis comparações com os países latino-americanos.

Juntamente com os protestos emerge uma nova cultura de resistência presente em engenhosos cartazes, que recordam os graffitis de 68. As redes sociais substituem as velhas pinturas nas paredes, facilitando a difusão instantânea das mensagens. A repercussão internacional desses slogans cresce em simultâneo com o repúdio de Trump, que é partilhado por toda a comunidade artística de Hollywood.

A próxima batalha vai travar-se nas «cidades santuário» que aprovaram documentos de protecção aos perseguidos. As autoridades de 300 centros urbanos declararam que resistirão às exigências federais de deportação, sublinhando «que a imigração torna a América grande».

Vários comentadores traçam comparações com o clima que antecipou nos anos 60 as mobilizações contra a guerra do Vietname. Esta recordação substituiu as analogias de Trump com Reagan por semelhanças mais pertinentes com Nixon. Se a resistência se consolida, os planos do novo mandatário afrontarão os mesmos limites que paralisaram aquele antecessor.

Trump reabre velhas feridas da sociedade estadunidense. Confronta os descendentes de povos originários sioux, que rejeitam os oleodutos contaminantes. No piquete de Standing Rock foi comemorado o saque sofrido por aquela comunidade, com apoios que incluíram vários veteranos de guerra. Todos pediram perdão pelo extermínio dos índios e o seu confinamento a reservas (Honty, 2016).

Este ressurgimento de antigas fissuras é mais agudo na questão racial. Trump acolhe os encobertos simpatizantes do Ku Klux Klan, herdeiros do ódio que os derrotados plantadores do Sul tinham aos afro-americanos. Durante os últimos cem anos, esse sector preservou um enorme poder nos ministérios, tribunais e legislaturas (Pozzi, 2016) e sustentou o sistema eleitoral que premeia os estados rurais, conservadores e com menor população (Majfud, 2016).

Trump foi ungido por esse antidemocrático sistema que vulnerou a maioria dos sufrágios obtidos pelo seu contraditor. Agora reabre, a partir da presidência, as mais dolorosas fracturas da história estadunidense. A sua presença na Casa Branca desencadeou um terramoto político. Depois do impressionante apoio conseguido por Sanders, essa convulsão criou um grande auditório para as propostas da esquerda.

O estratégico braço-de-ferro com a China

Trump não é um extraviado que improvisa a gestão da primeira potência. Parte de diagnósticos elaborados por centros de estudos do establishment, que constataram como a globalização neoliberal impulsionada pelos Estados Unidos beneficia a China (Silva Flores, Lara Cortes, 2017).

Resolver esta contradição é o principal objectivo do magnata [acaudalado]. Primeiro que tudo procura resolver o descomunal deficit comercial com o gigante asiático. Promove esse reequilíbrio através de uma revisão dos tratados de livre comércio, que não acrescentam lucros suficientes à economia ianque.

Por isso, inaugurou a sua gestão travando a negociação do convénio transpacífico que, a seu ver, outorgava demasiadas concessões aos restantes membros da associação.

Esta decisão não implica o regresso proteccionista de uma economia tão entrelaçada com circuitos internacionais de abastecimento. Trump tenta reordenar (e não suprimir) os tratados que regem o comércio mundial, através do esquema concertado pela OMC em meados dos anos 90.

O magnata procura recuperar a hegemonia dos Estados Unidos no intercâmbio global (Lucita, 2016). Não pretende reverter a estrutura internacional de transacções, que, actualmente, manejam as empresas multinacionais.

Esse tipo de revisão já foi perpetrado pelos Estados Unidos, quando substituiu o fracasso da ALCA por convénios bilaterais com diferentes países latino-americanos.

Agora prepara uma renegociação que preservará todos os itens que beneficiam a potência do Norte.

Trump retomará do falhado projecto TTP (do pendente TISA) tudo o que for conveniente para beneficiar as empresas estadunidenses nos direitos de propriedade de várias áreas (medicamentos, cinematografia, informática, correio, aeronáutica, finanças). Procurará confirmar a supremacia do seu país nos serviços e no acesso privilegiado às compras públicas de outras nações (Ghioto, Heidel 2016).

Mas a negociação com a China é mais complexa. Trump não exige apenas a abertura do mercado asiático aos bancos e fornecedores estadunidenses. Pede também limites à penetração directa de produtos chineses ou à sua penetração lateral, através de plataformas de terceiros países. Os automóveis estão na mira dessa operação.

A pressão contra o concorrente oriental alarga-se ao campo monetário. Trump não obstruirá a compra de títulos do tesouro – que preserva a proeminência internacional do dólar – mas tratará de evitar a apreciação da moeda norte-americana (e as desvalorizações do yuan), que afecta as exportações da primeira potência.

Com esse duro esquema de fustigamento comercial-monetário, o magnata tentará dobrar a China, sem afectar o predomínio dos sectores altamente internacionalizados da economia estadunidense.

O conflito estratégico que se avizinha com o gigante oriental tem semelhanças com a luta mantida com a União Soviética. Os presidentes republicanos especializaram-se em confrontos desse tipo. Reagan potenciou a guerra fria, Bush liderou as invasões do Médio Oriente e Trump encabeça o braço-de-ferro com a China.

Mas no establishment há muitas dúvidas sobre este desafio (Nye, 2017). Os falcões supõem que a China é economicamente vulnerável e incapaz de substituir os Estados Unidos no comando do capitalismo globalizado.

Mas o sector que predominava com Obama teme as consequências desse choque. Promove a neutralização da China, através da sua incorporação plena (e conseguinte subordinação) aos circuitos globais das finanças (poder de voto no FMI) e à moeda (constituição de uma referência mundial com a participação do yuan) (Bond, 2015).

Trump já começou a sua ofensiva com um telefonema para Taiwan, mas prepara cuidadosamente a escalada. O governo chinês respondeu com dureza, oferecendo em Davos novos tratados de livre-comércio a todos os parceiros em disputa. Ao mesmo tempo que evita discutir a abertura interna, contra-ataca com propostas de globalização potenciada.

A China já pôs em andamento o seu próprio convénio no Pacífico, garante o estratégico acordo de Xangai com a Rússia e conseguiu inéditas aproximações com as Filipinas, a Malásia e vários países do Sudeste Asiático. Perante tal resistência, Trump ensaia a futura confrontação, com provocações a um vizinho indefeso do hemisfério americano.

O sentido da agressão ao México

Os furibundos ataques ao México são uma advertência aos concorrentes de maior porte. Trump exercita a sua ofensiva global com a insultante exigência de construir um muro pago pelas vítimas.

Também aqui está em jogo a redução do deficit comercial com o vizinho e uma renegociação mais favorável do convénio comercial (NAFTA). Mas como esses desequilíbrios são inferiores aos existentes com outros países, é evidente que a fanfarronada com o México tacteia braços-de-ferro de maior alcance.

Trump pensa que Peña Nieto aceitará todas as humilhações. Não esquece que o actual chanceler Videgaray o convidou como candidato a depreciar publicamente o México. Imagina que o establishment desse país não tem um plano alternativo à subordinação ao Norte e está certo do acompanhamento do Canadá.

Por isso chantageia com a taxação alfandegária de importações de uma economia que destina 90% das suas vendas aos Estados Unidos. Complementa essa pressão com ameaças de impostos sobre as remessas.

O muro é uma mensagem de perseguição total. Mais do que a efectiva construção da parede – que já foi concretizada em cerca de um terço pelas administrações anteriores – interessa-lhe um sinal de agressão sem limite. Sugere um pesadelo semelhante ao sofrido pelos palestinos na Cisjordânia.

A expulsão dos mexicanos sintetiza um novo plano de gestão reaccionária da força de trabalho. Trump pretende reforçar a velha segmentação dos assalariados que caracterizaram o capitalismo estadunidense. Essa divisão facilitou a dominação burguesa. No princípio eram contrapostos os imigrantes europeus de diferentes nacionalidades e, posteriormente, verificou-se o confronto dos trabalhadores brancos com os negros e latinos (Gordon, 1985).

Nas últimas décadas esta fractura foi utilizada para consolidar a redução dos rendimentos populares. O salário mínimo é actualmente inferior em 25 por cento ao em vigor em 1968, apesar de a produtividade ter duplicado no mesmo período. Trump ressuscita o nacionalismo para recriar a velha segmentação dos trabalhadores no novo panorama neoliberal. Combina chauvinismo com privatizações e flexibilização laboral. Utiliza a xenofobia e limita a mobilidade dos assalariados para consolidar o poder do capital.

Esta restrição é o seu principal foco de revisão dos tratados de livre comércio. Em nenhum momento objecta à continuidade da acumulação à escala mundial. Defende a ampliação do esquema predominante na relação entre a China e os Estados Unidos, que exclui a circulação entre trabalhadores de ambos os países (Panitch, 2016).

O Brexit antecipou esta nova tendência. Supõe renegociar normas do comércio entre Inglaterra e a Europa, mas sobretudo aponta para a restauração das restrições ao ingresso de imigrantes. Também conduz ao não reconhecimento britânico das leis laborais e sociais do Velho Continente. Tal como nos Estados Unidos, os capitalistas procuram redobrar as suas agressões beneficiando das divisões da classe operária.

Com a obstrução à mobilidade da força de trabalho, Trump e os amigos ingleses promovem um outro modelo de globalização assimétrica. Tentam substituir o cosmopolitismo doentio da Terceira Via por um novo cocktail de neoliberalismo com xenofobia. Esta mudança é implementada através de estados nacionais, que persistem como a base inevitável da globalização neoliberal.

É importante registar o carácter limitado da alteração propiciada por Trump frente à generalizada identificação da sua política com o velho proteccionismo (Algañaraz, 2017) ou com o fim da globalização (Pérez Llana, 2017). Essas caracterizações foram acertadamente contestadas por autores que descrevem as diferenças do curso actual com os modelos clássicos de impostos alfandegários (Puello Socarrás, 2017). Na mudança proposta há muitas continuidades com o esquema neoliberal das últimas décadas (Robinson, 2017).

Trump dá seguimento a esse período pela sua evidente promoção da ofensiva do capital sobre o trabalho. Põe a revisão das normas de comércio dentro do quadro da mundialização. Não apadrinha nenhuma eliminação das cadeias globais de valor que regem a fabricação internacionalizada de inúmeras mercadorias. Nem sequer postula alterar a globalização financeira. Rodeou-se do creme e da nata de Wall Street e trabalha com os republicanos mais hostis a qualquer regulação do movimento internacional de capitais.

Os riscos da economia

Como Trump se apresentou abrindo muitas frentes de conflito, necessitará de êxitos económicos próximos para oxigenar a sua gestão. De imediato promove o programa de obras públicas que, sem sucesso, muitos sectores pediram a Obama.

Um magnata que amontoou fortunas com projectos imobiliários está em sintonia com todos os negócios de infra-estruturas. Esse investimento é inadiável devido ao estado dos serviços públicos. Ao fim de três décadas de contracção desse segmento a desadequação desses serviços supera os 22 anos.

A proposta de Trump não é tão ambiciosa e envolve uma distribuição de riqueza muito inferior às efectivadas pela China no último decénio. Inclusive, a essa escala há poucos antecedentes de efectividade nesse tipo de iniciativas. Nenhuma economia ocidental conseguiu recentemente reactivações substanciais por essa via. O último fracasso verificou-se no Japão. O Abe-economics – que antecipou alguns aspectos do Trump-economics – não conseguiu reanimar o aparelho produtivo (Robert, 2016).

O projecto do milionário supõe, além disso, um grande endividamento público e o significativo incremento da taxa de juro. Esse encarecimento reverteria o baixo custo do crédito que aliviou a economia estadunidense nos últimos anos. De momento, os mercados financeiros estão satisfeitos com o seu novo representante na Casa Branca. Aprovam a iminente redução de impostos às actividades empresariais e avalizam o protagonismo dos banqueiros no governo. Mas falta ver como reagirão aos fundos de investimento possuidores de grandes quantidades de títulos estadunidenses perante o crescimento do deficit fiscal.

Um risco semelhante é trazido pelo aumento de importância do lobby petrolífero. Os papas deste sector (Tillerson, Rick Perry, Scott Pruit) não recuperaram só o domínio que tiveram durante a gestão dos Bush. A sua total negação das alterações climáticas augura o congelamento das negociações para travar o aquecimento global e uma renovada emissão de gases tóxicos. Ao concluir o quinquénio mais quente da história recente avizinha-se o desmantelamento da Agência de Protecção Ambiental (Chomsky, 2016).

É difícil imaginar o que fará Trump para conseguir a sua prometida recomposição do emprego industrial. Nenhuma das suas propostas reverte a especialização da economia estadunidense, em serviços ou fabricação de bens finais. Essas medidas tampouco contrariam os processos de automação que desprezam a mão-de-obra. Em nenhum caso permitiriam o embaratecimento do custo da força de trabalho a uma escala comparativa com a Ásia.

O modelo em marcha pressupõe uma mistura de monetarismo (elevação das taxas de juro) e de redução de impostos às empresas, com ingredientes keynesianos (reactivação com gastos públicos). Esta última componente suscita elogios de alguns pensadores heterodoxos, que divorciam a política económica da orientação reaccionária de Trump (Varoufakis, 2016). A recuperação capitalista que promove esse projecto não atenua a sua regressividade.

Reposicionamentos internacionais

O belicismo de Trump salta à vista na escolha dos assessores do presidente. Incorporou mais militares em cargos de segurança que qualquer outro governo dos últimos 60 anos. No seu gabinete predominam os mesmos partidários da unipolaridade armada que prevaleceram na gestão dos Bush. Já determinou o incremento de salários no exército e um maior orçamento para o Pentágono.

O magnata desmentiu todas as expectativas de desmilitarização interna da primeira potência. O sheriff do planeta calibra os seus canhões e desmente todas as esperanças de isolacionismo. A valorização de acções do complexo militar-industrial antecipa a sua agenda intervencionista.

Essa escalada tem precedentes em Obama, que recompôs a presença internacional do Pentágono com o incremento de bases internacionais (de 60 em 2009 a 138 em 2016) e autorizou o lançamento de 26.171 bombas (Gandásegui, 2017).

Os Estados Unidos são o protector militar do capitalismo global e não têm nenhum dossier sobre o abandono desse papel. As incógnitas andam à volta dos objectivos geopolíticos específicos dessa acção.

Trump tenta uma aproximação à Rússia para debilitar a China. Inverte a operação de Nixon que, nos anos 70, procurou socavar a URSS com acordos com o gigante asiático.

Os contratos petrolíferos subscritos com Putin pelo secretário Tilleson (em representação da Exxon Mobil) prepararam o novo caminho. Mas no Departamento de Estado existem sérias resistências a esse rumo. É por isso que se filtraram tantos segredos da relação de Trump com Moscovo.

A elite russa aprova o reforço de relações com o Ocidente. Deposita as suas fortunas em Londres, educa os seus filhos em Harvard, passa férias em Miami e concretiza negócios em Genebra (Kagarlisky, 2015). Mas como os Estados Unidos nunca oferecem nada em troca da simples subordinação, todas as aproximações desembocam em novos distanciamentos.

A experiência de Yeltsin já passou e Putin não aceitou a submissão oferecida pelos antecessores de Trump. A Rússia estabeleceu diversos convénios com a China e acaba de mostrar as ambições geoestratégicas na Síria (Katz, 2016).

Além disso, o ocupante da Casa Branca enfrenta sérios conflitos com governos europeus pela sua aproximação a Putin. Vários líderes do Velho Continente recusam eliminar as sanções introduzidas por Hollande e Obama durante a crise da Ucrânia. Esses desacordos agravam o mal-estar provocado pelas exigências estadunidenses de um maior financiamento europeu da NATO. E a dissensão, inclusive, alarga-se ao incondicional parceiro britânico.

O impacte de Trump é especialmente significativo em Inglaterra. Reforçou os partidários da rápida concretização do Brexit, para actualizar a aliança transoceânica e diversificar acordos de livre-comércio com diferentes regiões. Mas os oponentes dessa separação atrasam as definições e auspiciam um estatuto intermédio com a Europa (semelhante à Noruega). Outros propõem uma longa transição de sete anos e todos dependem de uma decisão final do Parlamento.

Para contrariar a pressão dos bancos – que perderiam com o Brexit a centralidade da City na absorção do capital europeu – o governo oferece a ampliação da posição de Londres como paraíso financeiro desregulado. Na dura negociação comercial com a Alemanha ameaçam oferecer maiores subsídios às empresas para atrair investimentos do Velho Continente.

Mas estas jogadas empalidecem perante a ameaça da Escócia de convocar um novo plesbicito para decidir sobre a separação do Reino Unido, no caso de se concretizar a saída da União Europeia.

A ascensão de Trump também influencia os resultados das próximas eleições presidenciais em França. A extrema-direita espera repetir o que aconteceu no mundo anglo-saxónico. Mas ao contrário dos Estados Unidos não têm uma estratégia de futuro.

Proclamam a sua rejeição a qualquer modalidade da União Europeia e, ao mesmo tempo, reforçam os laços parlamentares com os partidos da direita do Velho Continente.

Com tais desacordos não é muito sensato surfar a onda actual elogiando o Brexit ou aprovando o proteccionismo (Sapir, 2016). Tal como nos Estados Unidos, a adesão do grosso da classe operária às propostas reaccionárias não atenua o recuo que essas posições significam.

A esquerda deve ter a sua própria bandeira denunciando xenófobos e liberais. É certo que Trump e Le Pen ascenderam devido à decepção que Hollande e Obama causaram, mas aquela posição expressa uma canalização reaccionária dessa mesma frustração.

A mesma firmeza deve prevalecer no momento de ajuizar as respostas conservadoras de Trump. A atitude do governo chinês é particularmente nefasta, visto que contrapõe à agressividade estadunidense as vantagens do livre-comércio.

Essa mensagem desmente os que contrapõem o modelo internacional da China como alternativa ao neoliberalismo ocidental (Escobar, 2016). Num momento de tão drásticas mutações, a esquerda precisa de desfraldar as suas próprias bandeiras anticapitalistas.

O tremor na América Latina

Em nenhum país do mundo a presidência de Trump desencadeia convulsões idênticas às sentidas no México. O governo está desorientado e Peña Nieto só adiou a sua peregrinação a Washington quando o seu agressor lhe explicitou a inutilidade do encontro. As críticas a essa genuflexão unificaram todo o arco político opositor.

Os insultos do milionário gringo reavivam a memória dos avassalamentos sofridos pelo país, num contexto de grande reactivação da luta social. As marchas contra o gasolinazo [1] vieram reforçar a longa batalha dos professores e superaram a reacção aos crimes de Ayotzinapa (Aguilar Mora, 2017) [2].

A desorientação exibida pela classe dominante mexicana estende-se a todo o continente. Todos os mandatários neoliberais esperavam aprofundar a restauração conservadora com Hillary, acertando uma associação de livre comércio do Pacífico. Perante o novo cenário não conseguem definir qualquer alternativa política. Só aprofundam a paralisia interna do Mercosur, sem conceberem concertações defensivas.

Até agora predomina a tendência de procurar acordos de livre-comércio substitutos, não apenas com a União Europeia. A Argentina e o Brasil aceitam eventuais negociações com a China, tomando em conta a activa agenda do presidente asiático. Não avaliam, sequer, as consequências económicas de reforço do sector primário desses tratados.

Se a região ficar no meio de uma grande luta comercial entre os Estados Unidos e a China, os efeitos poderão ser demolidores. Aproveitando a ausência de políticas soberanas na região, os dois gigantes disputariam com maior ferocidade a colocação das mercadorias excedentárias e o saque dos recursos naturais.

A Argentina está particularmente vulnerável a essa autodestruição. Macri concorre com o seu par estadunidense na intimidação repressiva e na xenofobia anti-imigrante.

Mas Trump também desperta simpatias no Cone Sul, entre os políticos que elogiam a promoção do mercado interno (Terragano, 2017). Alguns declaram com apelativa emoção que «Trump é peronista» (Moreno, 2017). Explicitam dessa forma a componente reaccionária do justicialismo clássico, que emergiu no tempo de Isabel Perón.

O lugar da esquerda está no campo oposto da solidariedade com os manifestantes que ocupam as ruas dos Estados Unidos. Essa convergência alimenta-se de uma rejeição partilhada com o ocupante da Casa Branca. O anti-imperialismo da América latina alia-se às exigências democráticas dos indignados do Norte.

Trump abre uma viragem de alcance global. O epicentro da crise situa-se, pela primeira vez, na principal potência do planeta. Da mesma forma que ninguém imaginou a derrota da União Soviética ou a conversão da China em potência económica, também não houve previsões da monumental mutação em curso.

As grandes transformações irrompem sem aviso prévio, mas os seus efeitos estão à vista. Trump é a barbárie capitalista e as suas provocações exigem forjar uma resposta socialista.

Notas do tradutor:
[1] Luta contra o brutal aumento de impostos sobre os combustíveis que entrou em vigor dia 1 de Janeiro com o orçamento para 2017 e tem levado a massivas manifestações e corte de estradas principais.
[2] Ato de terrorismo do Estado Mexicano em 26 de Setembro de 2014, na cidade de Iguala, Estado de Guerrero em que, a mando de estruturas estaduais, 43 estudantes foram assassinados para depois fazerem desaparecer os seus corpo
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REFERENCIAS
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Este texto foi publicado em:
http://katz.lahaine.org/b2-img/ELTORMENTOSODEBUTDETRUMP.pdf

Tradução de José Paulo Gascão


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