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Uma factura vale mais que mil palavras*

António Santos  :: 04.08.17

Nos EUA, com o “Obamacare” em vigor ou com o ainda pior “Trumpcare”, o acesso à saúde é para os privilegiados que a podem pagar, nomeadamente através dos seguros de saúde que embolsam milhões dessa forma desumana. Este artigo informa-nos de um caso, que será idêntico ao de milhões de norte-americanos.

Sete meses depois de tomar posse, o presidente dos EUA, Donald Trump, não conseguiu mais que convencer, esta terça-feira, o Senado controlado pelo seu partido a discutir a proposta de «repelir e substituir o Obamacare», uma das promessas cruciais da sua campanha. Segundo o Gabinete Orçamental do Congresso, o vulgarmente chamado Trumpcare deixaria mais 15 milhões de estado-unidenses sem acesso à saúde em 2018, aumentaria para 13 mil dólares, até 2026, o custo médio anual de um seguro de saúde individual e cortaria em 800 mil dólares o orçamento do Medicaid, o programa público de Saúde para os mais pobres.
A proposta de Trump para a Saúde continua, contudo, refém das contradições internas do campo republicano. Entre os seus correligionários que, de olhos postos na reeleição, querem preservar os aspectos mais populares do Affordable Care Act de Obama e aqueles para quem o Trumpcare não vai tão longe quanto seria desejável, há uma arena ocupada por intrigas palacianas, inteiras facções senatoriais compradas pelas farmacêuticas, grupos de pressão das seguradoras e vários dissidentes com pretensões presidenciais. Enquanto os republicanos não se entendem, o cadáver emaciado do Obamacare decai privado de investimento e os democratas assistem como mirones entretidos ao estrondoso desastre do Grand Old Party.
Daria tudo isto um episódio da série de televisão House of Cards ou mesmo Black Mirror, mas sob as intrigas de congressistas, presidentes, senadores, grupos de pressão e interesses obscuros há todo um outro lado da política americana que, embora menos televisionado, não é por isso menos inacreditável.
A factura que ilustra esta crónica foi-me enviada pela amiga Kaitlyn Cunningham, do Estado do Idaho, nos EUA, que gentilmente me autorizou a partilhar a sua história com os leitores do Avante!. No final de Abril, a Kaitlyn sofreu um aborto espontâneo. Por segurança, dirigiu-se às urgências do Bonner General Health, um hospital auto-intitulado «sem fins lucrativos» em Sandpoint, onde a submeteram a uma ecografia endo-vaginal. Não foi necessária qualquer intervenção mecânica no útero como raspagens ou cortagens. Para além da ecografia, a factura descreve análises ao sangue, uma consulta médica de urgência e o espaço que a Kaitlyn ocupou.
Seria um serviço banal, se o seguro de saúde da Kaitlyn o cobrisse e não fosse isto nos EUA. Total a pagar ao balcão por esta ecografia? 1746,02 dólares ou, na nossa moeda, 1498 euros e 32 cêntimos. Dinheiro ou cartão? Eis a «democracia»!

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2278, 27.07.2017


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