Quando a festa nacional é uma demonstração fascista

À crescente contestação da monarquia em Espanha, pelo seu carácter antidemocrático, agravado pelo facto Juan Carlos de ter sido designado e preparado por Franco, alia-se à luta anti-imperialista e de classe…
A escalada de acontecimentos que questionam directamente a legitimidade democrática da monarquia borbónica saltou para primeiro plano da actualidade. Há anos que em todo o Estado espanhol manifestações populares de cariz diverso – operário, estudantil, contra a NATO e a participação de tropas espanholas na ocupação de diferentes países, pelo habitação, etc. – são sistematicamente acompanhadas pela presença massiva de bandeiras republicanas desfraldadas por jovens que, com o grito cada vez mais generalizado de “chamam-lhe democracia, mas não o é” ligam o facto concreto que as mobilizou com a denúncia global do sistema estabelecido pela Transição.
Tudo isto veio a desembocar nas manifestações de 6 de Dezembro e de 14 de Abril que desde 2003 mostram uma crescente capacidade de mobilização, reunindo dezenas de milhar de pessoas, cada ano mais numerosas, abertamente com lemas de ruptura: “Contra a Constituição de 1978”, “Pelo Direito de Autodeterminação” e Pela III República”. Estas manifestações são de forma unitária convocadas por organizações e movimentos situadas fora do âmbito institucional. A IU não convoca e o PCE fá-lo com manifestos e lemas diferentes, que não saem do republicanismo nostálgico, sem questionar a ordem estabelecida.
Aparece assim um novo ambiente político que desbarata o tabuleiro do jogo instaurado pelo Pacto de Moncloa, que foi intocável durante trinta anos, e que foi protegido como o bem mais apreciado pela oligarquia dominante e os seus representantes políticos: PP e PSOE, com a importante cumplicidade da IU. As regras do jogo foram rompidas pelo profundo mal-estar social provocado pela brutalidade da agressão do capitalismo selvagem contra a nova classe operária – jovens, mulheres e imigrantes – e pelo alinhamento, cada vez mais difícil de ocultar, do imperialismo espanhol com a bota militar da UE e dos EUA, sob o comando da NATO.
Agora foi pelos ares toda a engrenagem construída sobre a capacidade de contenção da luta social de uma esquerda institucional – PSOE, IU e PCE – agora profundamente deslegitimada e incapaz de conter o crescente mal-estar das ruas.
A debilidade democrática congénita do regime instaurado em 1978 sobre o pacto entre as forças políticas que hoje carecem da representatividade operária e popular, e que lhes permitiu então atraiçoar impunemente os conteúdos da luta contra a Ditadura, manifesta-se agora com toda a crueza.
A tudo isto junta-se o estoiro do escalão historicamente mais débil da engrenagem institucional da Transição: a continuidade do mais rançoso nacionalismo espanhol, hegemónico em todas e cada uma das estruturas do Estado, e a nula resposta democrática à reivindicação do direito à autodeterminação.
A monarquia borbónica, chave da abóbada da continuidade do franquismo em todas as estruturas do Estado, está a ser frontalmente contestada. Cada acto de repressão contra os meios de comunicação ou contra os movimentos sociais que denigram a monarquia, mostra publicamente perante a opinião pública do Estado espanhol e internacional, o seu papel de continuidade com a Ditadura, o seu insultuoso boato, as suas riquezas impossíveis de justificar, a sua ligação com o lado mais negro da Igreja Católica, a sua impunidade e, sobretudo, a sua incompatibilidade com os mínimos princípios democráticos.
Tudo isto se pôs em evidência na instituída Festa Nacional de 12 de Outubro. Uma festividade que explicitamente comemora o genocídio do imperialismo espanhol sobre os povos da América Latina, os espólios dos seus recursos e o morticínio de milhões de pessoas.
O que noutros países é a comemoração de vitórias nacionais contra a dominação colonial ou do povo contra monarquias opressoras, aqui – sobretudo este ano – foi uma pírrica exaltação do Exército colaborador em tarefas imperiais e, sobretudo, uma manifestação fascista.
A insultuosa intenção de Bono, o anterior ministro da Defesa do PSOE, de encenar a “reconciliação nacional” fazendo desfilar um combatente republicano ao lado de um outro da Divisão Azul, juntamente com o Festival de música latino-americana deste ano com que o PSOE tentou mascarar a exaltação imperialista do desfile, não conseguiram ocultar o verdadeiro significado do 12 de Outubro de 2007: alguns milhares de fascistas aclamando o Exército vencedor da guerra civil, colaborador das gestas imperiais e garante, de acordo com a Constituição, da “Unidade de Espanha”.
As contradições agudizam-se e as máscaras caem. Os prolemas reais das pessoas e os problemas pendentes aparecem em primeiro plano. No Estado espanhol, para a esquerda consequente, só há um lado da barricada, a que liga as reivindicações nacionais com as de classe.
* Angeles Maestro é amiga e colaboradora de odiario.info e dirigente da Corriente Roja
Tradução de José Paulo Gascão



