A NATO «não obsoleta» prepara-se para outras guerras

Manlio Dinucci    03.Mar.17    Outros autores

Numa das suas tiradas eleitorais, Trump classificou a NATO de «obsoleta». Mas a sua administração já arrepiou caminho. Como poderia ser obsoleta para a maior potência imperialista uma aliança militar que nos últimos 20 anos incorporou todos os países do extinto Pacto de Varsóvia, 3 repúblicas da desaparecida URSS e outras 3 da ex. Jugoslávia, e promove uma concentração de forças e meios no leste da Europa e no Médio Oriente que cria condições para uma colossal tragédia?

Muito aguardado na sede da NATO, o novo secretário da Defesa do regime de Trump sublinhou a intenção de Washington de se apoiar na aliança atlântica em vez de se limitar a conseguir que os membros aprovem as suas declarações de guerra. Isto deveria implicar tanto um aumento dos gastos militares – com os perigos de guerra que tal implica – como um reequilíbrio das forças políticas no seio da NATO. Entretanto, o Pentágono não pensa renunciar à posição de preeminência em relação aos seus aliados.

A ministra da Defesa de Itália, Roberta Pinotti, e os demais ministros europeus da Defesa respiraram aliviados na reunião do Conselho do Atlântico Norte, iniciada a 15 de Fevereiro em Bruxelas: a NATO não está «obsoleta», como tinha dito o presidente Trump. Na sua primeira intervenção oficial em Bruxelas, o novo secretário da Defesa, James Mattis, assegurou que para os EUA a NATO continua sendo «fundamental».

É «a aliança militar de maior sucesso da Historia», disse Mattis aos jornalistas no avião que o levava a Bruxelas, e como prova do compromisso estado-unidense com a aliança atlântica mencionou o facto de o único comando da NATO com quartel-general nos EUA ser o Comando Supremo Aliado para a Transformação (SACT, siglas em inglês), cargo que o próprio Mattis ocupou anteriormente. O SACT, responsável pelo Comité Militar – a mais alta autoridade militar da NATO –, «promove e controla a transformação contínua das forças e capacidades da aliança».

Mattis sublinhou que a NATO se transformou nos últimos 20 anos – com efeito, incorporou todos os países do extinto Pacto de Varsóvia, bem como 3 Repúblicas da desaparecida URSS e outras 3 da ex. Jugoslávia. Mas, acrescentou, «deve continuar a transformar-se para se adaptar ao que sucedeu em 2014, ano de viragem em que as nossas esperanças de alguma forma de associação com a Rússia resultaram infrutuosas». E para isso há que «estar seguros de que o vínculo transatlântico se mantém forte».

Para demostrar esta última questão o secretário-geral da NATO, Stoltenberg, confirmou na sua declaração conjunta com o secretario Mattis que «tropas e equipamento estado-unidense estão chegando a Polonia e aos países bálticos, mostrando claramente a determinação de se manter junto à Europa neste período tormentoso».

Sob comando dos EUA – país a quem pertence o cargo de Comandante Supremo das forças aliadas na Europa –, a NATO continua a avançar para leste e a reforçar a sua instalação na frente oriental com objectivos anti-russos, apesar das intenções manifestadas pelo presidente Trump de abrir uma negociação com Moscovo. Ao mesmo tempo, a NATO reforça também a frente sul com novos dispositivos militares.

«Hoje decidiremos conformar um novo polo para o sul no nosso Comando Conjunto em Nápoles», anunciou Stoltenberg, sublinhando que «isso nos permitirá avaliar e enfrentar as ameaças provenientes da região, como complemento do trabalho realizado pela nossa nova divisão de Serviços de Informação, instalada aqui no quartel general da NATO».

Para maior satisfação da ministra Pinotti, a importância de Itália aumenta no sentido do que Stoltenberg definiu na abertura do Conselho do Atlântico Norte como «projecção de estabilidade para além das nossas fronteiras». O novo «Hub para o sul» que se instalará em Nápoles, servirá de base operacional para a projecção de forças terrestres, aéreas e navais em direcção a uma «região» de contornos indefinidos, que abarca o norte de África e o Médio Oriente bem como áreas mais além dessas regiões geográficas. Para esse tipo de operações está disponível a «Força de Resposta» da NATO, com um acréscimo de 40 000 efectivos, principalmente a sua «Força de Avançada de Muito Alta Rapidez Operacional», que pode projectar-se em 48 horas «para qualquer lugar e em qualquer momento».

O novo «Hub para o sul», dependente do Comando da Força Conjunta Aliada – cujo quartel-general está em Lago Patria, Nápoles –, estará sob as ordens da aguerrida almirante estado-unidense Michelle Howard que, além de estar à cabeça do Comando da NATO, é também comandante das forças navais dos EUA na Europa e em África. Ou seja, o novo «Hub para o sul» será também parte da cadeia de comando do Pentágono.

E tudo isso custa dinheiro. Mattis recordou o pedido peremptório a todos os aliados europeus para que elevem o gasto destinado à «defesa» até pelo menos 2% do se PIB. Até agora, só 5 países alcançaram ou ultrapassaram esse nível: EUA (3,6%), Grécia, Grã-Bretanha, Estónia e Polonia. A Itália está atrás com «apenas» 1,1% do seu PIB… mas está a melhorar: segundo os dados oficiais da NATO, em 2015-2016 o gasto de Itália na «defesa» aumentou de 17 642 milhões de euros a 19 980 milhões, o que representa uma média de 55 milhões de euros gastos cada dia no sector militar.

De facto, os gastos militares da Itália estão muito acima desse número uma vez que o balanço da «defesa» não inclui as missões militares no exterior – custeadas por um fundo aparte do ministério de Economia e Finanças –, nem o custo de importantes armamentos que são pagos através da Lei de Estabilidade.

Mas Stoltenberg anuncia muito feliz que a OTAN «virou uma página» em 2015-2016 ao aumentar o gasto militar em 3,8% em termos reais, ou seja em uns 10 000 milhões de dólares. A ministra Pinotti confia que a Itália alcance o famoso 2% do PIB, ou seja que o país chegue a gastar 100 milhões de euros diários no sector da «defesa».

E crescerá o desemprego, mas teremos a satisfação de ter em Nápoles o novo «Hub para o sul».
Il Manifesto / Red Voltaire

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