A partir da Europa, armas estado-unidenses para a guerra contra Síria e Iémen

Manlio Dinucci    26.Abr.17    Outros autores

Como é habitual, um bem informado texto de Dinucci acrescenta novos elementos acerca da logística da escalada da guerra dos EUA no Médio Oriente. Uma intervenção criminosa, um chorudo negócio para alguns, uma tragédia sem fim à vista para os países e povos agredidos.

Supostamente, o regime dos EUA está a lutar contra os jihadistas. Mas continua enviando armas a esses terroristas a partir da «democrática» Europa

Chama-se Liberty Passion, ou seja “Paixão pela Liberdade”. É um moderníssimo e enorme navio estado-unidense do tipo Ro/Ro – concebido para transportar veículos e carga sobre rodas – de 200 metros de comprimento, com 12 conveses e uma superfície total de mais de 50 000 metros quadrados, capaz de transportar o equivalente a 6 500 automóveis.

Esse navio, propriedade da companhia estado-unidense Liberty Global Logistics, fez a sua primeira escala – em 24 de Março de 2017 – no porto de Livorno, Itália. Iniciou-se assim oficialmente uma ligação regular entre Livorno e os portos de Aqaba, na Jordânia, e de Jeddah, na Arabia Saudita, garantida mensalmente pelo Liberty Passion e outros dois navios similares, o Liberty Pride (“Orgulho de Libertar”) e o LIberty Promise (“Promessa de Liberdade”). A abertura desse serviço de transporte foi celebrada como «uma festa para o porto de Livorno».

Mas ninguém disse porque escolheu precisamente esse porto italiano a companhia estado-unidense. Um comunicado da administração marítima estado-unidense explica – em 4 de Março de 2017 – que o Liberty Passion e os outros dois navios que asseguram a linha Livorno-Aqaba-Jeddah integram o «Programa de Segurança Marítima» que, no quadro de uma associação entre interesses privados e estatais «assegura ao Departamento de Defesa uma poderosa frota móvel de propriedade privada, com bandeira e tripulações estado-unidenses».

Isso esclarece o motivo que levou la companhia estado-unidense a escolher o porto italiano de Livorno para abrir essa linha de transporte marítimo para dois portos do Médio Oriente. O porto de Livorno está ligado com Camp Darby, a base logística dos EUA (em Itália), que assegura o aprovisionamento das forças terrestres e aéreas estado-unidenses na área mediterrânica, o Médio Oriente, África e mais além.

Camp Darby é a única instalação das forças armadas dos EUA em que o material de guerra «preposicionado» (tanques, carros de assalto, etc.) se armazena no mesmo lugar que as munições. Os 25 búnkers de Camp Darby contêm todo o equipamento necessário para 2 batalhões blindados e 2 batalhões de infantaria mecanizada.
Em Camp Darby estão armazenadas também enormes quantidades de bombas e misseis para aviões de guerra e os “kits de montagem” para a instalação rápida de aeródromos em zonas de guerra. Tudo isso e outros tipos de material de guerra pode ser rapidamente enviado para os teatros de operações através do porto de Livorno, ligado a Camp Darby pelo Canal de Navicelli – recentemente ampliado – e também através do aeroporto de Pisa, também em Itália. Dali saíram as bombas utilizadas nas guerras contra Iraque, Jugoslávia e Líbia.

Na sua viagem inaugural – segundo reportam fontes documentadas como Asianews [1] e outras –, o Liberty Passion transportava 250 veículos militares de Livorno para o porto jordano de Aqaba, onde chegou a 7 de Abril depois de cruzar o Canal de Suez.

Dois dias antes, o presidente Trump recebia em Washington, pela segunda vez desde Fevereiro, o rei Abdalá e reafirmava o apoio dos EUA à Jordânia face à ameaça que representam os terroristas provenientes da Síria. Mas ninguém disse que foi precisamente na Jordânia que durante anos foram treinados – sob o comando de instrutores estado-unidenses, britânicos e franceses – os membros do “Exército Livre Sírio” que cometem actos de terrorismo na Síria.

Diversas informações mencionam crescentes movimentos de tropas estado-unidenses, equipadas com tanques e veículos blindados, na fronteira entre a Jordânia e a Síria. O objectivo seria apoderar-se, utilizando também tropas jordanas, da franja meridional do território sírio, onde operam já forças especiais dos EUA e Grã-Bretanha em apoio ao “Exército Livre Sírio”, que supostamente enfrenta o Emirato Islâmico (Daesh). Já em Fevereiro, o presidente Trump tinha discutido com o rei Abdalá «a possibilidade de estabelecer zonas seguras na Síria». Por outras palavras, a possibilidade de balcanizar a Síria, dado que é impossível controlar todo o seu território devido à intervenção russa.

Nesta operação de guerra, e em outras, como a guerra da Arabia Saudita que está a massacrar civis no Iémen, será utilizado o armamento estado-unidense que sai de Livorno, cidade na qual, por convite do presidente da câmara Nogarin (do movimento 5 Estrelas), realizará provavelmente uma visita o papa Francisco, que ainda há pouco denunciava novamente «os traficantes de armas que ganham dinheiro à custa do sangue de homens e mulheres».

Mas em Livorno festeja-se a designação desse porto toscano como escala da Liberty Global Logistics, com grandes perspectivas de desenvolvimento. Como diz o título do conhecido filme de Alberto Sordi: «Enquanto há guerra, há esperança». [2].

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[1] “Jordan strengthens military presence on border with Syria and Iraq”, Pierre Balanian, AsiaNews, 11 de Abril de 2017.
[2] Finché c’è guerra, c’è speranza, o seja “Enquanto há guerra, há esperança” é el título de um célebre filme italiano, dirigido e interpretado em 1974, por el actor Alberto Sordi, sobre um comerciante que se enriquece vendendo armas em países do Terceiro Mundo devastados por la guerra. [NdT da versão em castelhano da versão em castelhano]
Il Manifesto / Red Voltaire