A sinfonia pastoral de Gide

Publicamos hoje dois textos que Miguel Urbano enviara há menos de uma semana. São notas de leitura de obras de André Gide e de Chinguiz Aitmatov. Como em tudo o que escrevia, essas notas são um pretexto para ir mais longe. Uma das mais notáveis qualidades que possuía, e que o distinguia como marxista, era a profunda compreensão do carácter histórico das coisas humanas. E de descortinar em todas elas o movimento da história.

Não recordo se tinha lido La Symphonie Pastorale* de André Gide (1869/1952). Não esqueci que vi o filme, com Michèle Morgan e Pierre Blanchard, mas quanto ao livro não tenho a certeza.

Acabo de o ler, com a sensação de quase tudo ser desconhecido.

Escrito na primeira pessoa, é muito mais do que uma narrativa.

A crítica coincidiu em ver nele uma das obras mais importantes de Gide, diferente de todas as outras.

Escreve maravilhosamente. Trabalhada por Gide, a língua francesa é uma inesgotável fonte de beleza.

Na sua Sinfonia Pastoral o tema é o choque entre a moral puritana e os sentimentos contraditórios que ela desencadeia. O conflito tem como personagens um austero pastor protestante e uma jovem cega que ele educa no culto da beleza e da virtude, ocultando-lhe a existência do pecado.
O livro empurra para o descobrimento do autor.

O HOMEM E O ESCRITOR

André Gide teve uma vida tempestuosa. Nascido numa família da grande burguesia, nunca enfrentou dificuldades financeiras, o que lhe permitiu desde a juventude viajar pela Europa e pelo norte de África. Fundador da editora Gallimard e da Nouvelle Revue Française, foi um mau estudante em grandes escolas, mas começou a escrever ainda adolescente enquanto lia os clássicos das grandes literaturas europeias.

Marcado por um misticismo panteísta, hesitou ao longo da vida, não sem amargura, entre a recusa de Deus e o apelo do divino.

Cedo se rebelou contra o moralismo que dominou a sociedade francesa ate finais do seculo XIX. Sentindo-se diferente, foi um dos primeiros escritores franceses a assumir na sua obra a homossexualidade. Num livro famoso, Corydon, escandalizou a classe dominante pela veemência com que denunciou a homofobia e fez a apologia de uma liberdade sexual irrestrita.

Paradoxalmente, a sua homossexualidade, publica, não o impediu de amar apaixonadamente a mulher com quem casou, embora nunca tenham tido relações sexuais.

As contradições dolorosas da sua personalidade transparecem na inconstância das suas posições politica. Solidário com Zola no caso Dreyfus, passou rapidamente para o campo oposto e escreveu textos anti semitas. Da proximidade com a direita francesa saltou para a defesa da Revolução Russa de Outubro. Mas foi brevíssima essa fase. Ao regressar de uma viagem à União Soviética, onde foi recebido com atenções especiais, escreveu dois livros anticomunistas, festejados pela ulta direita maurrasiana.

Essas metamorfoses permitem compreender a facilidade com que construiu grandes amizades com escritores do seu tempo para depois as romper. Uma das poucas que o acompanhou sempre foi a que o ligou a Roger Martin du Gard, como ele Premio Nobel de Literatura, mas com opções políticas antagónicas.
O fascínio que a religião exerceu a sobre ele desde a infância, não impediu o Vaticano de incluir a sua obra, por imoral, no Índex dos livros proibidos pela Santa Sé.

GIDE E A SINFONIA~

As dúvidas, angustias e contradições de Gide transparecem na Sinfonia Pastoral, obra que escreveu lentamente, publicada quando ultrapassara os 50 anos.

Gide afirmou que o livro não é um romance. E não é. Mas não lhe definiu o género literário.

É a estória de uma menina cega que o clérigo (o narrador) encontrou na casa de uma senhora que encontrou morta num casebre imundo perdido num vale dos Alpes suíços.

Era uma adolescente de uns 15 anos, cega, andrajosa, um ser sub-humano, animalesco. Não falava sequer, porque a tia, surdo-muda, não podia comunicar com ela.

O pastor, por piedade cristã, trouxe -a para a casa onde vivia com a mulher e cinco filhos.

Gertrude foi o nome que lhe atribuiu por desconhecer o real.

A recuperação daquele ser, que grunhia como um animal, parecia tarefa impossível. Mas resultou graças a um método inovador sugerido por um médico amigo.

Foi um processo lento em que o pastor se empenhou com entusiasmo, desaprovado pela mulher que o acusou de nunca haver prestado tanta atenção aos filhos.

Foi a partir de diálogos sobre as cores, a beleza das aves, das flores e da Natureza que o pastor despertou Gerturdes para a vida.

Inteligente, bela, a jovem sentiu um deslumbramento quando ele a levou a um concerto em que ouviu a Sinfonia Pastoral de Beethoven. Gertrude quis saber se a Natureza era tão bela quanto a imaginava partir da música genial de Beethoven.

Ao surpreender um dia Jacques, o primogénito, junto a Gertrude, ajudando-a mover as teclas do piano, o pai teve uma reação explosiva. O filho disse-lhe que amava Gertrude e pretendia casar com ela.

O Pastor forçou Jacques a afastar.se de casa e renunciar a Gertrude e tomou consciência pela primeira vez de que a amava.

O desfecho surge surpreendente, roçando pela tragédia.

Gertrude recupera a visão após uma cirurgia complexa. Mas a descoberta do mundo real não lhe traz a felicidade que ela esperava. Retira-lhe a que, quando cega atingira.

Ela admitira que amava o pastor; Mas ao ver Jacques sentiu que era ele a quem amava. No filho viu o rosto que ela imaginara ser o do pai.

Gertrude e Jacques renunciam ao protestantismo. Essa opção envolve a condenação da austeridade farisaica do pastor.

Ele vai para um convento; ela tenta suicidar-se e morre semilouca.

A estória seria banal, mas o talento de Gide faz dela um poema dramático, marcado pela influência de Hegel e Rousseau. Pela sua mão, o leitor mergulha numa reflexão sobre as fronteiras entre o bem e o mal, a virtude e o pecado.

*André Gide, La Symphonie Pastorale, Editions Gallimard, 149 pgs, Paris, 1925
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Vila Nova de Gaia, Maio de 2017

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