A voz incómoda*

Correia da Fonseca    23.Feb.17    Colaboradores

Num programa da televisão pública, a apresentadora interrompe o secretário-geral da CGTP, que denunciava com números e factos as consequências da legislação laboral imposta pelas troikas, e que o actual governo não quer rever. É assim o pluralismo do sistema: os representantes da classe dominante têm todo o tempo e todos os espaços que quiserem. Para os trabalhadores, o pouquíssimo tempo disponível ainda é reduzido. A razão é fácil de entender: o público de um grande meio e comunicação de massa é constituído maioritariamente por explorados, não por exploradores. Mas é o discurso dos exploradores o que lhe é impingido.

Fátima Campos Ferreira não resistiu e interrompeu Arménio Carlos. No «Prós e Contras» da passada segunda-feira, é claro, com as leis laborais como tema do programa. E não é que o dirigente da CGTP estivesse a falar durante muitos minutos: a questão é que Arménio Carlos incomoda, dispara factos e números capazes de causarem escândalo, não se mostra inclinado a encarar com serenidade que os trabalhadores cumpram o seu destino natural que é o de serem explorados das muitas e variadas maneiras que ele, Arménio Carlos, bem conhece. E depois há a voz e talvez também o modo como ele a usa: aquela voz surge sempre impregnada de uma indignação que reforça o efeito dos dados que ele exibe e que por si já seriam indignantes. É claro que uma voz assim a desfiar factos fundamentados e fundamentais não fica lindamente numa reunião onde desejavelmente todos deviam ser, se não amigos, pelo menos tranquilos e pacíficos. Ouve-se Arménio Carlos e é fácil perceber que ele não é homem para certas omissões ou, no mínimo, para certos esquecimentos: para esquecer que são muitos os portugueses que trabalham sem deixarem de estar afundados na pobreza, que a famigerada troika veio com o objectivo de destruir a legislação laboral que defendia ou ainda defende os direitos dos trabalhadores, que 25 por cento das crianças portuguesas vivem abaixo da linha técnica que identifica a pobreza, que subsistem condições de trabalho que engendram a morte em pleno acto laboral. É claro que uma voz assim que enumera coisas destas assusta, injecta mal-estar em gente serena e bem sentada nas suas cadeiras, e em consequência é preciso calá-la. Por isso Fátima acudiu a interromper Arménio, como era exigido pela serenidade geral e o desejável bom entendimento entre todos. Fátima é sem dúvida uma boa senhora que não gosta de ver gente incomodada.

Em terrível incerteza

Ora, entre o muito que Arménio Carlos enumerou no estreito tempo de antena que apesar de tudo conseguiu, talvez mereça referência destacada a epidemia de precariedade laboral que percorre o País. A questão é que a precariedade elimina a expectativa natural, dir-se-ia que quase instintiva, de uma existência compatível com necessidades humanas básicas e continuadas: alimentação, reprodução, habitação. Quem não sabe se terá trabalho remunerado na semana seguinte, no mês seguinte, e assim vai manter-se ao longo da sua vida laboral, vive em terrível incerteza: não pode estar certo de continuar a ter duas ou três refeições diárias, de assegurar a si próprio e à sua família um tecto sob o qual sobrevivam, de manter a esperança de dar aos filhos o pão e o ensino de que eles carecem absolutamente. Em verdade, a precariedade que vem sendo apregoada como inevitável e tendencialmente «natural» é a semente de todas as angústias, a intensificadora de muitas subserviências, a estimulante de todos os abusos, a propiciadora de muitas infâmias. Arménio Carlos decerto sabe muito bem tudo isso e muito mais, faz parte do seu trabalho conhecer esse peculiar monstro que foi introduzido no cenário laboral, e porque o sabe é tão firme nas denúncias que aliás documenta. É nesse quadro que bem se entende que Fátima o tenha interrompido, ela, que é boa senhora e por isso gostaria de ver todos amigos ou pelo menos todos cordeais. Percebe-se, porém, que Arménio Carlos é diferente: que é saudavelmente exigente na escolha de amigos e na selecção de cordialidades. Acontece que também ali, no improvisado estúdio que a RTP montou no auditório da Fundação Champalimaud, Arménio Carlos está a bater-se por direitos humanos fundamentais, e essa é uma situação enormemente séria. E, contudo, mesmo com aquela voz incómoda, com aquela veemência que a muitos parecerá excessiva, Arménio Carlos tem muitos milhares de amigos. Que lhe chamam camarada. Que gostam de ouvi-lo. E detestam que Fátima Campos Ferreira lhe corte a palavra.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2255, 16.02.2017

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos