Académicos franceses contra a manipulação mediática
Não, a América Latina não é um espantalho político.

Rebelion    11.May.17    Outros autores

No decurso da primeira volta das recentes eleições em França a subida nas sondagens de Jean-Luc Mélenchon desencadeou uma forte ofensiva mediática por parte da direita. Um dos temas esgrimidos foi o espantalho do “chavismo”. Na Europa como na América Latina, os grandes media são hoje meios de desinformação e manipulação reaccionária. Foi também assim que se chegou ao cenário que colocou os eleitores franceses, na segunda volta, à lamentável opção entre direita e extrema-direita.

Perante o questionável tratamento mediático das esquerdas latino-americanas pelos meios de comunicação franceses, um conjunto de investigadores e especialistas desta região desejou ratificar nesta tribuna algumas contraverdades:

Na nossa qualidade de investigadores e especialistas na América Latina, a presença desta região na campanha eleitoral francesa devia ter sido motivo de regozijo. Mas observamos com inquietação o tratamento mediático de que é objecto. Desde algumas referências humorísticas à insularidade da Guiana, alertou-nos o grau de desinformação que evidenciam as polémicas recentes, que vão da simplificação a interpretações totalmente fantasiosas. Isso preocupa-nos ainda mais quando constatamos que grandes jornais nacionais mobilizam figuras políticas complexas da história recente para alimentar uma confusão já presente nas esquerdas radicais e o autoritarismo, como por exemplo o título sensacionalista do jornal Le Figaro «Castro, Chavez…Melenchon, o apóstolo dos ditadores revolucionários?»

Não podemos deixar de interrogar-nos — trata-se apenas de provocar o terror de um auditório de eleitores indecisos? Com efeito, numerosos meios de comunicação parecem reter do balanço das esquerdas latino-americanas apenas os elementos que podem contribuir para as apresentar como um espantalho, com o objectivo de retirar credibilidade aos movimentos políticos que se inspiram parcialmente neles.

Perante temas complexos e frequentemente desconhecidos, certos meios de comunicação tem tendência para tomar liberdades com a história e as realidades sociais contemporâneas da região. Mesmo nos meios de comunicação do serviço público, principalmente no canal de televisão France 2 por exemplo, numa reportagem de 2012 sobre a reeleição de Hugo Chavez, cheio de erros grosseiros e de críticas, ou mais recentemente em Maio de 2016, com a intervenção de François Lenglet no seu programa Palavras e Actos, onde acusa infundadamente de corrupção o presidente Evo Morales. Para além das suas imprecisões factuais, constatamos uma falta de interesse generalizada numa compreensão real das transformações sociais e politicas.

Alguns jornalistas conhecem a fundo os assuntos latino-americanos contemporâneos e utilizam especialistas capazes de propor análises muito boas, especialmente no caso da crise politica, económica e social da Venezuela. Mas frequentemente os comentaristas mais influentes transmitem uma visão fragmentada e estereotipada da situação,

Venezuela? Fácil! Muito petróleo, presidentes autoritários que monopolizam a televisão, uma alimentação racionada e manifestações!

A análise das causas estruturais e a longo prazo torna-se menos atractiva para compreender as realidades económicas, sociais e politicas contemporâneas. Apesar do seu carácter fundamental, não se trata o tema da inserção dos países latino-americanos na divisão internacional do trabalho e os «intercâmbios desiguais». Mas, um dos principais factores das economias destes países reside justamente no facto de que dependem em grande parte da exportação de matérias-primas e que a volatilidade dos preços destas tem repercussões imediatas nas taxas de câmbio e nos mercados financeiros nacionais. Na esfera académica, o que tem sido teorizado como «síndroma holandês» ou «a maldição dos recursos naturais» (a longo prazo, os resultados económicos de um país são inversamente proporcionais à amplitude dos seus recursos naturais), parece ser desconhecido por análise de jornais que se pretendem científicas e objectivas.
O nosso propósito aqui não é explicar e ainda menos justificar os erros dos governos que chegaram ao poder desde os anos 2000. Pelo contrário, trata-se de convidar a desenvolver análises críticas reais e superar a hipnose do instantâneo. Assim, é possível superar interpretações simplistas que designam os regimes como «bons» ou «maus» e tentar compreender os processos históricos que geram situações particulares.

A longa formação da onda de novas esquerdas

O que era a Venezuela antes de Chavez. O Equador antes de Correa. A Bolívia antes de Morales. O Brasil antes de Lula. A Argentina antes de Kirchner?
Partamos de um tema preciso: a inflação na Argentina durante a era de Kirchner. Para o comentar, seria preciso levar em conta a debilidade estrutural da moeda argentina, causa já de hiperinflacção durante a presidência de Raul Alfonsin, em 1988. Seria preciso recordar a re-especialização da economia em torno da exportação de matérias-primas agrícolas iniciada em finais dos anos 1979 com o cessar das políticas de industrialização para substituir as importações, reforçada pelas condições draconianas impostas pelo currency board e as medidas aplicadas na década de Carlos Menem. Este último executou fielmente os programas de reajuste estrutural recomendados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) mediante a privatização de infra-estruturas, empresas públicas e sectores inteiros dos serviços sociais. Não poderemos também deixar de mencionar as condições da introdução de politicas neoliberais tanto na Argentina como no Chile — considerada por muitos historiadores como um «laboratório» em que o choque foi especialmente brutal — por ditaduras associadas às elites económicas locais com o apoio do governo norte-americano através do tristemente célebre Plano Condor, instrumento de luta contra os comunismos e as esquerdas. Essa pergunta parece sacar um fio de um desesperante novelo de processos históricos e políticos. O tempo e a complexidade das situações não podem ser sistematicamente explicados pelos meios de comunicação, mas deveriam ao menos indicar elementos para alimentar as análises.

Os governos que precederam a «onda das esquerdas» latino-americanas levaram os seus respectivos países a crises económicas e sociais e politicas inéditas. Mas, perante políticas autoritárias e resultados económicos catastróficos, as opções destes dirigentes raras vezes foram questionadas pelos discursos mediáticos franceses, como se a submissão às regras do FMI garantissem a boa conduta para os países periféricos.
Evidentemente, os governos das novas esquerdas não desfrutaram da mesma indulgência mediática. Mas os seus progressos sociais e democráticos são numerosos. As derivas e os fracassos são suficientemente conhecidos e comentados em França para que não seja preciso citá-los. Tracemos melhor um panorama sucinto dos êxitos nos últimos 15 anos.

Estes movimentos políticos originaram-se nas mobilizações sociais nas décadas de 90 e 2000, e estruturaram-se em volta dos sindicatos, de grupos de militantes pelos direitos dos povos indígenas, colectivos e associações de bairro, de defesa do ambiente ou feministas. No cenário político, caracterizam-se pela vontade de situar-se entre a social-democracia e a esquerda radical. As práticas de desintermediação do acesso à política institucional deveriam permitir a reapropriação do político e a ampliação da participação. Nesse sentido, as reformas constitucionais permitiram a introdução de referendos revocatórios na Venezuela e na Bolívia e no Equador a constitucionalização do «viver bem». Apesar de algumas semelhanças, estas «novas esquerdas» são extremamente diversas e compreendem tanto os governos bolivarianos ou de inspiração eco-socialista que pretendem romper com o neoliberalismo (Venezuela, Equador e Bolívia) como os governos progressistas sócio-liberais (Argentina, Brasil, Uruguai e, em certa medida, Chile).
No plano social, as desigualdades extremas do continente lamentavelmente não são recentes nem imputáveis aos governos de esquerda. Através de estratégias diferentes e sem conseguir libertar-se da renda produto da exportação de matérias-primas, as políticas públicas desses países concentraram os seus esforços em reduzir a fractura social. Apesar da crise económica, os anos 2000 permitiram a mais de 30 milhões de brasileiros superar a pobreza. Na Bolívia, a proporção da população que vivia em condições de pobreza crítica passou de 66,4% no ano 2000 para 38,9% em 2015, enquanto no Equador passou de 44,6% em 2004 para 22,5% em 2014. Na Venezuela, o índice de escolarização a nível secundário passou de 47% em 1995 para 75% em 2007, enquanto o coeficiente de Gini passou de 0,435 para 0,402 e que milhares de casas foram construídas. Sob as presidenciais de Kirchner (2003-2015), a Argentina iniciou um processo de reconstrução dos fundamentos do Estado social através da instauração de um subsídio universal para as crianças, de pensões de reforma para todos e da garantia da gratuitidade dos sectores públicos (transportes, saúde).

Os meios de comunicação e a polarização política

A maioria dos meios de comunicação pertence a grandes grupos de comunicação que são simultaneamente importantes intervenientes políticos. Na América Latina, um estudo de Observacom avaliou em 60% esta concentração no conjunto da região. Neste contexto, alguns governos tentaram propor alternativas para garantir o pluralismo mediático e a liberdade de expressão. Um exemplo é a Lei de Notícias argentina, cujo objectivo é limitar a concentração de meios de comunicação em grandes grupos, reforçar os meios do sector público e favorecer o desenvolvimento de meios associativos, cooperativos ou locais em todo o território. Vendo um risco para a sua expansão comercial o Grupo Clarín, principal conglomerado de imprensa argentino tornou-se o opositor radical do governo de Kirchner. Em reacção a estes comportamentos, os meios de comunicação públicos de alguns países transformaram-se por sua vez e tribunas para os seus respectivos governos, reforçando assim o mecanismo de polarização.

A polarização política é portanto obra dos meios de comunicação. A velocidade com que o novo presidente argentino, Maurício Macri, derrogou a lei dos meios, ilustra a importância para as direitas latino-americanas do poder mediático. Lamentavelmente, a imprensa francesa — talvez demasiado segura da imparcialidade jornalística — retoma com frequência análises de imprensa favoráveis aos sectores conservadores e neoliberais. Assim a crise política brasileira que permitiu a instauração do governo ultraliberal de Michel Temer foi conhecida em França através da visão de meios favoráveis à elite económica, com o Globo, Folha de S. Paulo, o Estado de São Paulo, ou Veja, que participaram mais ou menos activamente na destituição muito pouco democrática de Dilma Rousseff.

Assim se elaborou a ignorância das evoluções democráticas e políticas que as sociedades latino americanas atravessam. Para lá de políticas governamentais, observar a América Latina só através da denúncia oportuna de derivas chavistas ou castristas e de um «miserabilismo» condescendente contribui para manter representações eurocentristas que negam toda a força original, criadora e libertadora a sociedades particularmente inovadoras no plano sócio/politico e regularmente agitadas por mobilizações colectivas.

Estas últimas, como todos os movimentos de organização colectiva «de base», são pouco citadas nos meios de comunicação dominantes., embora representem hoje em dia um dos fenómenos políticos mais interessantes.

A imagem muito aproximativa que estes meios dão das diversas realidades latino-americanas favorece o predomínio de uma desinformação generalizada, que permite textos pouco sérios terem grande êxito, unindo-se a esta espessa neblina. Assim, quando um artigo relaciona insidiosamente as situações contemporâneas e as ditaduras militares das décadas de 60, 70 e 80, os seus termos, que se servem de uma demagogia que pretendem denunciar, parecem quase aceitáveis. Como não reagir e condenar esses discursos, quando vivem connosco exilados políticos e os seus filhos?

É lamentável que na arena politica as mulheres e os homens deformem as realidades sociais para as manipular a seu favor. Nesse caso, podemos reprovar Jean-Luc Melenchon que menciona apenas os êxitos das esquerdas latino-americanas, em caso algum seria sensato ou legitimo opormo-nos à leitura diametralmente oposta: a função do jornalista, como a do investigador, é tentar tornar o mundo mais inteligível. Mas, de nos últimos dez dias, assistimos a uma apresentação muito discutível da América Latina na imprensa francesa. Alimentados quer por um cinismo político e eleitoral como por um eurocentrismo latente, reduzem a história da América Latina e a sua complexidade social e política a uma caricatura. Alguns exemplos latino-americanos mostram que não pode haver democracia plena quando os meios de comunicação preferem a polémica, e até a instrumentalização politica, aos factos e sua explicação.

Notas:

Medida da desigualdade de rendimentos num país, de 0 para o mais igualitário a 1 para o mais desigual.
Observatório latino-americano de medias e convergência.
Primeiro jornal em número de edições e 60% do mercado da televisão por cabo.

Tradução: Manuela Antunes