Descubra as diferenças*

Filipe Diniz    02.Abr.17    Colaboradores

Já foi amplamente feita a comparação entre os termos da cobertura mediática internacional às acções de guerra em Alepo, na Síria, e em Mossul, no Iraque. São um exemplo antológico de dualidade e manipulação. Mas não só os grandes media que assim se comportam. Uma ONG de projecção mundial que se reclama de independente não foge à mesma cartilha.

Um porta-voz da Amnistia Internacional falava em Dezembro de 2016 sobre a situação em Alepo. Não poupou nas palavras nem nas conclusões: “a chocante informação de que dezenas de civis têm sido executados extrajudicialmente pelas tropas do governo sírio […] aponta para crimes de guerra” […] “A informação de que civis – incluindo crianças – estão a ser massacrados a sangue-frio em suas casas pelas forças do governo sírio é profundamente chocante mas não é inesperada, tendo em conta a conduta destas forças até à data.” […] “No decurso do conflito as forças sírias, apoiadas pela Rússia, têm repetidamente manifestado um grosseiro desrespeito pelo direito humanitário internacional e um evidente desprezo pela sorte dos civis”.
Intensifica-se agora uma “ofensiva aliada” sobre Mossul, no Iraque. Há notícia de milhares de mortes de civis. A Amnistia Internacional, que tão duramente e de forma tão conclusiva se pronunciara em Dezembro sobre Alepo, pronuncia-se agora sobre Mossul. A fórmula utilizada é um verdadeiro salamaleque: “o recente aumento de baixas civis […]sugere que a coligação encabeçada pelos EUA não está a conseguir tomar as precauções adequadas para evitar mortes civis”. Só falta pedir desculpa pelo atrevimento.
É certo que atribui a situação a “um padrão alarmante na utilização por parte da coligação encabeçada pelos EUA de ataques aéreos que têm destruído habitações inteiras com famílias no seu interior” . Mas agora não há crimes de guerra nem a tomada de civis como alvo, há apenas “incapacidade em tomar precauções”.
Tem diferentes lentes esta ONG. As tragédias de que fala – que resultam em milhões de mortos e refugiados e em países destruídos - são idênticas e foram desencadeadas pela mesma mão: os EUA, a NATO e os seus aliados na região. Não têm fim à vista. Relativizar as suas consequências conforme as forças em presença é, antes de tudo, trair as vítimas.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2261, 30.03.2017