Erodoğan e Netanyahu declaram guerra

James Petras    19.Ago.15    Colaboradores

Israel tem estado no centro de décadas de devastação de povos e nações do Médio Oriente. As crescentes ambições regionais do actual poder turco estão a ponto de o colocar como rival de Israel nesse papel destruidor. Em ambos os casos com a bênção do imperialismo.

Introdução

Os dirigentes dos dois mais fortes regimes autoritários do Médio-Oriente estão a preparar guerras importantes para reconfiguração do Médio Oriente. O primeiro-ministro israelita Netanyahu declarou guerra por procuração ao Irão, anunciando mobilização militar de grande escala em Israel (27-29 Julho) e organizando a maior campanha política de judeus ultra-sionistas em Washington. A finalidade deste golpe de propaganda duplo é derrotar o acordo americano-iraniano recentemente assinado e iniciar outra guerra de grande envergadura no Médio Oriente. Em última instância, Netanyahu tenciona tratar do “problema palestiniano” de uma vez por todas: completar a conquista e ocupação da Palestina e expulsar o povo palestiniano da sua terra-mãe, o único e mais importante objectivo de política externa e interna do estado judaico. Para isso, os dirigentes israelitas têm tido que fazer campanha sistemática pela destruição dos apoiantes e simpatizantes regionais dos palestinianos: Iraque, Líbia, Síria, Líbano e Irão.

As múltiplas guerras de Erodoğan

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro turco Erodoğan lançou uma guerra importante contra o povo curdo e a sua aspiração a um estado curdo. Foi no seguimento de diversos incidentes recentes que começaram com o bombardeamento (em cooperação com os serviços secretos turcos) de um campo de juventude curdo, matando e ferindo muitos jovens activistas seculares. Dias após o massacre da juventude curdo-turca Erodoğan deu ordem à força aérea para bombardear e metralhar bases curdas nos territórios soberanos do Iraque e da Síria e a polícia de segurança turca assaltou e prendeu milhares de nacionalistas curdos e simpatizantes turcos de esquerda por todo o país. Tudo isto aconteceu com o apoio dos EUA e da NATO que fornecem cobertura aos planos de Erodoğan para apanhar território sírio, deslocar os civis e combatentes curdos e colonizar a fronteira norte da Síria, sob o pretexto de precisar de uma “zona tampão” para protecção da soberania turca. Tal apropriação de um território com centenas de quilómetros quadrados porá fim ao tradicional apoio e interacção entre as populações curdas sírias, iraquianas e turcas que têm constituído os mais eficazes oponentes dos grupos radicais islamitas.

A recente guerra declarada por Erdoğan contra os curdos tem complexas componentes internas e regionais (Financial Times 7/28/15, p 9): dentro da Turquia, a repressão encontra-se dirigida contra o emergente poder político-eleitoral do Partido Democrático do Povo Curdo. Erodoğan planeia desacreditar ou banir completamente este partido político, que venceu um surpreendente número de lugares nas recentes eleições parlamentares, marcar novas eleições, garantir uma “maioria” no parlamento e assumir “poderes executivos” ditatoriais.

Regionalmente, a invasão da Síria por Erodoğan é uma parte da sua estratégia para expandir as fronteiras da Turquia para sul e leste e assim fornecer uma plataforma a partir da qual os clientes jihadistas favoritos da Turquia possam lançar ataques contra o governo secular em Damasco e Alepo.  O bombardeamento das aldeias e campos curdos no Iraque e na Síria foram planeadas para inverter as vitórias militares curdas contra o ISIS e justificarão maior repressão dos activistas curdos que apoiam a autonomia no sueste da Turquia.

Erodoğan está a contar com os acordos turcos com os EUA e a NATO para uma colaboração aberta e secreta contra os curdos e contra a soberania nacional síria.

As guerras por procuração de Netanyahu

A ofensiva política multifacetada de Netanyahu está concebida para arrastar os EUA para uma guerra contra o Irão. A sua estratégia funciona a vários níveis e de complexos modos complementares. O alvo imediato é o acordo nuclear recentemente assinado entre a Casa Branca e o Irão. Fazendo parte de uma estratégia a mais longo prazo para destruir o Irão, inclui a formação de uma coligação de estados do Médio-Oriente, especialmente as monarquias do Golfo, para cercar, confrontar e provocar a guerra com o Irão. Esta estratégia político-militar está a ser impulsionada por dirigentes sionistas no interior das altas esferas do governo americano.

Todos os principais partidos políticos israelitas e a maior parte dos eleitores israelitas apoiam esta perigosa política contra o Irão. Os presidentes das 52 maiores organizações judaico-americanas dos EUA foram mobilizados para intimidarem, ameaçarem e comprarem a maioria do Congresso no sentido de serem seguidos os ditames de Netanyahu. Cada congressista dos EUA é “visitado” e presenteado com material de propaganda por dirigentes, activistas e funcionários permanentes do AIPAC (“American Israel Public Affairs Committee” ou Comité Americano para os Negócios Públicos de Israel, grupo de pressão pró-Israel fundado em 1951 sob o nome “American Zionist Committee for Public Affairs – N.T.), das Confederações Judaicas e dos respectivos multimilionários mecenas políticos. Toda a imprensa americana mais importante e os meios televisivos papagueiam o apelo de Netanyahu para a “guerra ao acordo de paz”, apesar de uma esmagadora opinião pública americana ser contrária a qualquer escalada do conflito.

Ao mais alto nível da tomada de decisões do executivo dos EUA, funcionários sionistas de topo evitam a associação com as polémicas públicas e gritaria rufiona do AIPAC, ao mesmo tempo que promovem a sua própria “solução final” político-militar… para a eliminação do Irão como adversário da supremacia israelo-judaica no Médio-Oriente. No Departamento de Estado e nos Departamentos do Comércio, da Defesa e do Tesouro, agentes israelo-americanos agindo como conselheiros especiais para o Médio-Oriente, embaixadores e infiltrados, pressionam com as políticas de Netanyahu para minarem qualquer normalização das relações entre os EUA e o Irão.
Uma recente proposta escrita pelo Professor Phillip Zelikow no Financial Times (7/23/15, p. 9 ) e intitulada “Para Equilibrar (sic) o Acordo Nuclear, Derrotar o ISIS e Confrontar o Irão” é aterradora.

Antigo “Director Executivo do Relatório da Comissão de Investigação do 11 de Setembro”, o super-infiltrado Zelikow promove a formação de uma engenhosa coligação em nome do combate ao ISIS, mas cujo real objectivo é “confrontar as ambições iranianas”. A “coligação” de Zelikow inclui a Turquia, que terá por missão atacar os aliados regionais do Irão na Síria e no Líbano (Hezbollah), tudo em nome da “luta contra o ISIS”:

 O gentil e muito respeitável Professor Zelikow apresenta a própria lista sangrenta de alvos de Netanyahu até ao mínimo detalhe , mas lavada com uma fina capa de “confrontação do ISIS” para obscurecer a sua verdadeira agenda. Trata-se de algo diferente da ameaça rufiona do AIPAC ou do toque de tambor dos belicistas neoconservadores…

A “coligação anti-ISIS” irá em última instância perseguir a milícia iraquiana Shia e seus principais apoiantes da Guarda Revolucionária do Irão, executando de muito perto a estratégia de Netanyahu!

Zelikow foi um grande advogado interno da invasão do Iraque de 2003. Doze anos depois de os americanos invadirem, ocuparem e destruírem o Iraque, Zelikow salta de novo para promover uma política de envio de tropas de combate americanas ao serviço do interesse regional de Israel. Escreve ele, “O lado militar [da coligação] precisará de mais americanos no terreno para fornecer apoio de combate significativo entre a coligação”. (FT ibid).

Zelikow está claramente ciente da opinião pública americana a favor da diplomacia com o Irão e contra o envolvimento dos EUA em mais guerras terrestres no Médio-Oriente quando escreve que “um esforço militar não é uma alternativa à diplomacia.” Zelikow e os seus patrões no Ministério dos Estrangeiros de Israel sabem que qualquer intervenção militar americana com tal “coligação” levaria à destruição do acordo EUA-Irão e a outra grande guerra terrestre com tropas americanas lutando mais uma vez por Israel!

Considerando a sua posição como infiltrado com importantes ligações, as tentativas de Zelikow para sabotar o acordo Irão-EUA apresentam um perigo muito maior para a paz mundial do que todo o barulhento trabalho de cunha das 52 organizações sionistas activas no Congresso.

Zelikow tem sido um altamente influente conselheiro de segurança do executivo americano e do Departamento de Estado desde o início dos anos 80 com Reagan. Foi nomeado conselheiro especial do Departamento de Estado em 2007, posição anteriormente ocupada pela neoconservadora operacional Wendy Sherman e seguido pela belicista Victoria Nuland. Em 2011, o presidente Obama nomeou-o para o quadro da Presidência   “Intelligence Advisory Board” (Conselho Consultivo sobre Informações – N.T.).

Tornou-se de nacionalmente mais conhecido quando o presidente Bush o nomeou Director Executivo da Comissão do 11 de Setembro, onde dirigiu o altamente controverso (e altamente censurado) Relatório da Comissão contra muita oposição pública. A nomeação foi feita após a primeira escolha de Bush por Henry Kissinger ter criado uma tempestade mediática – Kissinger não foi nunca uma escolha a sério com um cão-de-guarda infiltrado como Zelikow à espera nos bastidores. Foi uma escolha controversa devido ao seu papel como conselheiro íntimo de Condoleeza Rice e à sua autoria da famosa estratégia de segurança nacional de Bush publicada em Setembro de 2002 e que promovia a guerra preventiva.

Phillip Zelikow suprimiu qualquer discussão do papel de Israel como principal causa do envolvimento dos EUA nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Como director executivo do Relatório da Comissão do 11 de Setembro, Zelikow assumiu o papel de editor e censor. Ignorou a história das operações da Mossad israelita nos EUA, especialmente nas vésperas do ataque do 11 de Setembro de 2001. O relatório não fez qualquer referência ao falso camião de “mudanças” cheio de espiões israelitas presos a 11 de Setembro de 2001 quando festejavam e fotografavam a destruição do complexo do World Trade Center. Nem discute a tranquila “deportação” de agentes israelitas. O relatório não contém qualquer discussão da quantidade de falsos “estudantes de arte” israelitas que operaram no sul da Flórida próximo de instalações militares americanas e na vizinhança do apartamento dos alegados sequestradores do 11 de Setembro. Também eles foram calmamente presos e deportados.

Suprimiu também a discussão do “Projecto Able Danger” do Departamento da Defesa, que mostrou o conhecimento dos serviços de informações americanos sobre a presença e actividades dos piratas do ar muito anteriores, desde 1997.

Em Outubro de 2001, ocorreu o primeiro “ataque de antrax” – primeiro fazendo adoecer e depois matando um fotojornalista de um jornal de escândalos na Flórida. Os programas de notícias nacionais apresentaram uma entrevista com… o reciclado perito na “al Qaeda” e em “bioterrorismo” professor Zelikow (apesar da ausência de credenciais quer arábicas, quer científicas…), o qual declarou que o antrax era de “qualidade armamento” e “decididamente proveniente de um laboratório militar dependente do estado”, assim implicando o Iraque (estava correto na parte da declaração sobre “laboratório militar”, só que as instalações eram as do US Weapons Lab em Fort Detrick. O papel de Zelikow ao culpar da histeria antrax o assediado e embargado regime do presidente iraquiano Saddam Hussein foi crucial para a disponibilidade pública para a questão da invasão do Iraque e estava em sintonia com o apelo do primeiro-ministro israelita Ariel Sharon para a destruição do Iraque. Para que a mestria do golpe fosse completa, a entrevista do “cientista” Zelikow desapareceu da internet (como outras, aliás).

A “perícia” de Zelikow’ (a que se vê) e a sua utilidade para Israel decorrem dos seus artigos sobre a utilidade de “falsas bandeiras” e de acontecimentos-catástrofe fabricados ou instigados pelas potências imperialistas para empurrar um público traumatizado para guerras impopulares e políticas internas estatais de tipo draconiano. O seu trabalho centrou-se na manipulação e exploração de “acontecimentos” para influenciar as políticas públicas, incluindo a crise dos mísseis cubanos, a reunificação da Alemanha, a questão da Irlanda do Norte (mas não compreende estudos sobre o Médio-Oriente ou bio-armamento”). A sua especialidade encontra-se no campo da utilização histórica do “mito público”, como o incêndio do Reichstag, ou Pearl Harbor. Na Foreign Affairs de Novembro Dezembro 1998, escreveu em co-autoria com o actual Secretário da Defesa Ashton Carter um artigo intitulado “Terrorismo de Catástrofe”, em que um “acontecimento crítico” pode resultar em “horror e caos”, levando o público americano a aceitar a destruição das “liberdades civis, a vigilância generalizada, a detenção e o uso de força letal…”

Zelikow continua a desenvolver o guião da “falsa bandeira”: em 2001, com a “histeria antrax” e agora com a “histeria da ameaça do Irão”… O que não é surpresa é que em ambos os casos ele cumpre totalmente com o objectivo estratégico de Israel de destruir completamente países que se tenham oposto à expropriação, ocupação e expulsão dos palestinianos por Israel – Iraque, Síria, Líbia, Líbano e agora Irão.

Zelikow é um trunfo importante a longo prazo para Israel, trabalhando calma e eficazmente enquanto os rufias do AIPAC assaltam as portas do Congresso. Nunca teve uma posição proeminente no conselho de ministros ou algum posto na Casa Branca, como os descarados sionistas-conservadores Wolfowitz, Feith, Libby, Perle, Abrams e Levey, que agressivamente empurraram o país para a guerra com o Iraque. Wolfowitz e companhia retiraram-se para a sombra sob o pretexto de lucrativas ocupações privadas, enquanto Zelikow continua a trabalhar por dentro, trazendo para a ribalta a agenda da guerra com o Irão.

O papel de Zelikow é bastante mais discreto e importante para Israel a longo prazo do que os fala-baratos e rufias do AIPAC e outras frentes sionistas. À superfície, prossegue a sua carreira administrativa académica e universitária (uma excelente cobertura), ao mesmo tempo que repetidamente se introduz em discussões públicas cruciais e calmamente assume posições estratégicas como conselheiro sobre acontecimentos ou políticas que têm consequências do tipo “ponto de viragem” e onde as suas ligações profundas a Israel nunca são discutidas.

Zelikow tem uma vantagem que os seus camaradas sionistas fanfarrões não têm e tem outra que com eles partilha. Zelikow é um grande vigarista, reivindicando conhecimentos sobre o antrax, as relações no Médio-Oriente e a estratégia militar. Verte puro lixo com fineza de uma autoridade! Reclamando-se de perito legal e investigador, controlou o Relatório da Comissão do 11 Setembro e negou ao povo americano qualquer discussão aberta e relevante sobre o acontecimento. Chegou mesmo a comparar o cepticismo sobre o Relatório da Comissão como “uma infecção” da opinião pública americana, apoiando-se aparentemente na sua “competência” sobre a guerra biológica…

O que Zelikow tem em comum com os toiros enraivecidos do sionismo é o seu constante recurso ao vitupério contra qualquer país ou movimento identificado como alvo por Israel. Refere-se constantemente ao governo secular da Síria (atacado pelos terroristas jihadistas) como “regime terrorista”. Designa a milícia iraquiana que combate o ISIS como “esquadrões de tortura da Shia”. Faz parte da escalada para pressionar que os EUA vão para a guerra no terreno por Israel contra o Irão e os seus aliados.

Ao contrário de Erodoğan na Turquia, que usa as suas próprias forças armadas para lançar uma guerra total para expropriar, aterrorizar e colonizar os territórios da etnia curda na Síria, no Iraque e na Turquia, Netanyahu em Israel apoia-se nos seus operacionais de alto nível no estrangeiro (EUA) para pôr em andamento a engrenagem da guerra. Dias após os ataques do 11 de Setembro de 2001, o porta-voz de Israel no Senado americano Joseph Lieberman apresentou o roteiro das guerras americanas para a década e meia seguinte, declarando que “os EUA devem declarar guerra ao Iraque, à Síria, ao Líbano e ao Irão”, apesar da completa ausência de envolvimento destes países no acontecimento.

Seria ele profeta ou apenas um agente altamente bem-sucedido? Zelikow irá fazer pressão por uma “coligação” de ditadores e monarcas do Médio-Oriente para cumprir o sonho de Israel tal como expresso por Joseph Lieberman em Setembro de 2001. Trata-se do sonho de desencadear uma guerra devastadora contra o Irão levando à sua divisão, semelhante à divisão de facto do Iraque, da Síria e da Líbia, resultando num Médio-Oriente para sempre assolado por conflitos sectários, ocupações estrangeiras, balcanização e privação de qualquer possibilidade de recuperação de uma vida civilizada. Israel poderá então realizar a sua brutal solução final: a expropriação e expulsão de todos os palestinianos e o estabelecimento de um estado alargado puramente judaico, rodeado por inenarrável destruição e miséria.

Conclusão

Erodoğan expande a “fronteira turcomana” para a Síria e Iraque, apesar do facto de a Turquia nunca ter mostrado interesse pelas minorias turcomanas. Para esse fim, alia-se aos terroristas do ISIS para desenraizar os curdos, que se encontram por todo o lado na Turquia. Erodoğan, como Netanyahu, pretende um estado étnico “puro”, este um estado judeu, ele um turco! Ambos os brutais dirigentes não têm consideração pela soberania dos estados vizinhos e pouca pela segurança das suas próprias populações civis. Ambos dependem do apoio militar dos EUA. Ambos estão fazendo por incendiar mais vastas e mais destrutivas guerras no Médio-Oriente. Netanyahu e Erodoğan querem reconfigurar o Médio-Oriente: a Turquia apanha o Curdistão e a Síria, Netanyahu alarga o domínio militar até ao Golfo Pérsico com a destruição do Irão.

Estes dois dirigentes parecem odiar-se porque são tão semelhantes em arrogância e na acção… Mas, de acordo com o professor Zelikow, os EUA avançarão à maneira de um deus para “mediarem” as diferentes ambições de poder entre aqueles que, conforme inconscientemente referidos, são “os parceiros da coligação”. 
Tradução: Jorge Vasconcelos

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