Espanha e a terceirização do caos na Venezuela

Carlos Fazio    01.Oct.14    Outros autores

Justifica-se plenamente que publiquemos em dias seguidos dois artigos sobre a Venezuela. Os inimigos externos e internos da Revolução Bolivariana não desistem, e dispõem de meios de acção muito poderosos. Denunciar a sua permanente actividade conspirativa, desestabilizadora e terrorista é um dever de solidariedade.

A inusitada irrupção de uma campanha internacional de notícias frívolas, centrada na escassez de produtos de beleza, Botox, próteses para implantes de seios e materiais para cirurgias estéticas num país que ostenta o record de 13 coroas de Miss Mundo e Miss Universo, poderia ser parte de um novo “aquecimento” mediático apontado a gerar novas acções de violência de rua de forma a não dar “qualquer trégua ao governo chavista” de Nicolás Maduro na Venezuela.

A novidade, agora, é a terceirização do caos, com o Centro Nacional de Inteligência (CNI) de Espanha encarregue da subempreitada das acções encobertas de desestabilização da Agencia Central de Inteligência (CIA) estado-unidense, e com a “Fundacion para el Análisis y los Estudios Sociales” (FAES), do Partido Popular do ex-presidente do governo espanhol José María Aznar como articuladora de uma rede internacional de think tanks e ONG’s neoconservadoras que impulsionam uma mudança de regime na Venezuela.

Inscrita na guerra não convencional ou de quarta geração, a nova ofensiva, que poderia desencadear-se nos próximos dias, foi planeada no quadro de uma série de conferências denominadas Campus FAES 2014, celebradas na localidade madrilena de Guadarrama no final de Junho e princípio de Julho passado.

O evento, encerrado pelo chefe do governo espanhol Mariano Rajoy, contou com a participação do deputado golpista venezuelano Julio Borges e do alcalde guarimbeiro de Chacao, Ramón Muchacho, ambos do corrupto partido Primero Justicia, e com um discurso gravado da ex deputada opositora María Corina Machado, fundadora da ONG Súmate (financiada pela Agencia Internacional para o Desenvolvimento dos Estados Unidos - USAID) e subscritora do Decreto Carmona durante o golpe de Estado de 2002, a quem a Procuradoria do seu país proibiu de sair da Venezuela uma vez que está sob investigação por terrorismo.

Durante a realização do Campus FAES 2014, o par de opositores venezuelanos realizou encontros paralelos secretos com Aznar e funcionários e analistas do CNI, o serviço de inteligência espanhol dirigido por Félix Sanz Roldán. Ambos teriam recebido instruções concretas sobre os procedimentos tácticos e estratégicos para desencadear uma nova fase de confrontos de rua, guerra psicológica, ingovernabilidade e acções de desgaste do governo de Nicolás Maduro.

O CNI teria garantido o treino e o financiamento necessário para a execução dos novos planos subversivos para a Venezuela, que estariam a ser coordenados em segredo em estreita colaboração com o governo de Barack Obama e a CIA.
Convém recordar que em 2013, graças aos documentos sobre vigilância mundial divulgados por Edward Snowden, ficou a saber-se que o Centro Nacional de Inteligência espanhol vinha colaborando estreitamente com a Agencia Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos na espionagem massiva de milhões de cidadãos espanhóis, interceptando de forma directa ou ajudando a interceptar milhões de megadados de registos de chamadas, mensagens de texto e correios electrónicos.

Na actual etapa, a da terceirização via Espanha da desestabilização, do caos e da violência sediciosa na Venezuela, trata de não deixar evidencias dos vínculos do CNI com os serviços de inteligência e espionagem estado-unidenses, para que a oposição venezuelana não seja objecto de uma campanha governamental de descrédito.

Nas reuniões de Borge e Muchacho com funcionários do CNI teria sido colocado ênfase na organização e mobilização de rua de jovens estudantes venezuelanos, e teriam sido discutidos os temas e os chamados talking points que devem ser abordados em cada um dos discursos, conferências de imprensa e campanhas mediáticas que sejam organizadas na nova fase de guerra psicológica e terrorismo mediático.

O CNI espanhol e a CIA estado-unidense teriam determinado como acções prioritárias da nova ofensiva incentivar as especulações sobre divisões internas dentro do governo da Venezuela, tendo como eixo comum mensagens desinformavas que sublinhem a estagnação económica, a escassez de produtos de primeira necessidade (entre os quais remédios e alimentos), a falta de governabilidade no país e a suposta diminuição de popularidade do presidente Maduro.

Outro eixo capital da campanha é manter “quentes” as ruas e não deixar que desapareça nelas a presença opositora, para o que é fundamental reavivar o movimento juvenil.

Nesse sentido, teria sido decidido facilitar um maior apoio político e logístico às manifestações estudantis nos estados onde a oposição tem maioria. Dentro dessa estratégia desempenham um papel de suma importância os estados fronteiriços com a Colômbia controlados por governadores opositores. Nas reuniões teria sido considerada vital a chamada estratégia da “Meia-Lua”, apontada a que a oposição logre alcançar e assegurar o controlo dos referidos territórios.

Outra prioridade da campanha mediática antigovernamental é o incremento do uso das redes sociais. Com esse objectivo serão organizados em Espanha cursos para treinar membros da oposição venezuelana em novas estratégias de comunicação e no emprego eficaz das novas tecnologias nessa área.
Foi programada a assistência a esses cursos de 50 jovens venezuelanos, que depois de receber formação deverão compartilhar o que aprenderam e difundir os seus conhecimentos entre a massa juvenil opositora.

Outro ponto-chave da nova fase desestabilizadora é a continuação do desenvolvimento de acções conspirativas no seio da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), com o objectivo de fragmentar o sector militar e de facilitar, em consequência, que o governo perca apoio nas fileiras castrenses. Nas conversações teria sido posto ênfase na necessidade de manter total discrição e de tomar as medidas de segurança necessárias para evitar a detecção por parte do governo.

Também se conversou com Borge e Muchacho acerca da necessidade de realizar estudos sobre os movimentos de dirigentes do Partido Socialista Unificado de Venezuela (PSUV) e do governo de Maduro, e em especial de reconhecidas personalidades artísticas e desportivas, com a finalidade de planificar eventuais acções de sequestro e outras acções violentas que gerem terror e caos entre a população e ao mesmo tempo fomentem a campanha sobre a insegurança no país.

Nessas reuniões ficou estipulado que José María Aznar, que esteve envolvido no golpe de Estado de 2002 contra o presidente Hugo Chávez e a Revolução Bolivariana, devido à sua posição à frente da FAES e os seus fortes vínculos com diversos sectores latino-americanos e venezuelanos, assumisse enlace principal com os dirigentes opositores.

O FAES é apoiado por importantes empresas afins à sua ideologia que têm interesses económicos na América Latina, como BBVA, Santander e ENDESA. Entre os íntimos colaboradores da Fundação há personagens relevantes dos meios académicos, jornalísticos e diplomáticos da direita latino-americana e europeia, entre os quais o ex alcalde de Chacao Leopoldo López, actualmente preso, e uma rede de intelectuais “amigos” que impulsionam a visão neoliberal e neoconservadora em voga, como o mexicano Enrique Krause, o cubano-espanhol Carlos Alberto Montaner, o chileno Jorge Edwards e o peruano Álvaro Vargas Llosa.

O papel da FAES na nova ofensiva em gestação radica na sua articulação com um grupo de “tanques de pensamento” neoconservadores como o Cato Institute, American Enterprise Institute, Heritage Fundation, International Republican Institute (IRI) e uma rede de partidos, ONGs e fundações latino-americanas.

Entretanto, o que mais se destaca nesta conjuntura é a aberta participação do Centro Nacional de Inteligência na conspiração. As funções do CNI são proporcionar informação, estudos e análises ao governo espanhol e ao seu presidente. Às suas actividades de espionagem, contra-inteligência e contra terrorismo junta-se ser interlocutor habitual de serviços de inteligência e organizações supranacionais (como a NSA, a CIA e os serviços da OTAN).
Tal como do antigo CESID (Centro Superior de Informação de Defesa), diz-se que no exterior as principais zonas de operação do CNI são no norte de África e América Latina.

Em síntese, durante as conversações secretas do Campus FAES 2014, ficou pronta a logística para uma nova fase de desestabilização subversiva, guerra suja e terrorismo mediático dos Estados Unidos e seus aliados europeus contra a Revolução Bolivariana da Venezuela.

Rebelión publicou este artigo com autorização do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar en outras fontes.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos