Globalização, desglobalização, Capital e Crise Global
Resumo do debate proposto pelo companheiro Garcia Linera

Num quadro global tão complexo e em crise como o que atravessamos, toda a reflexão e debate que procure identificar os traços fundamentais da evolução do capitalismo e da sua caracterização actual é útil. Não sendo necessário subscrever todas as opiniões expressas neste texto, ele é parte desse indispensável debate.

Introdução
Foi aberto o debate sobre se a globalização morreu, está viva, moribunda, se existe ou não. Achamos importante e imprescindível participar neste debate iniciado pelo companheiro Garcia Linera porque nos permite e obriga a tratar de um dos temas de maior centralidade e actualidade, sendo de alto impacto político e estratégico a sua compreensão e resolução. Nesse sentido faremos as nossas reflexões e considerações sempre com o maior respeito reconhecendo nele não apenas a sua capacidade científico-académica para tratar do tema mas fundamentalmente a sua legitimidade politica para o realizar.

Este debate abre-se justamente num momento em que a crise estrutural do capitalismo (que se manifesta num avanço lento, contido e até com retrocesso das diversas áreas do mundo em termos de crescimento do PBI daí o encerramento de fábricas, crises na Bolsa, diminuição dos fluxos comerciais, corridas cambiárias, fuga do ouro, aumento flagrante da pobreza e da indigência, coeficiente de Gini a crescer, aumento da dinâmica das migrações, perdas de qualidade no emprego e desemprego crescentes) se aprofunda até chegar a fazer opções visíveis alternativas ao sistema capitalista.

Estamos, por outras palavras, numa fase de transição para outras formas de poder, valor e estado, que incluem até o cenário de um pós-capitalismo, cujo tempo de duração é difícil de calcular e cuja alternativa está ainda em aberto. Uma batalha entre as fracções mais poderosas do capital financeiro transnacional mesmo no centro de poder do capitalismo (Estados Unidos da América) que desde a batalha de Alepo perde a possibilidade de o fazer subir e exportar para cenários mais complexos (China, Rússia, Índia, etc.) deixando entrever que o cenário real do conflito pode situar-se nos Estados Unidos, manifestando-se primeiro como um grande aprofundamento da crise, como crise política institucional e até confrontos entre facções armadas.

Os factos político-institucionais que abrem este debate são a vitória de Trump e o Brexit. Factos que acontecem nos Estados Unidos e na Grã Bretanha justamente e que irradiam (a desesperança globalista e com ela a esperança na desglobalização). Factos que nos mostram triunfos eleitorais de nacionalismos que clamam por uma re-industrialização nacional (e/ou trabalho nacional) de potências imperiais que parecem já não sê-lo. Nacionalismos que são observados e propagados como fascismo-nazismo pelos comunicadores pró-globalistas.

A tentativa do capital financeiro globalizante e os seus meios de comunicação dominantes (CNN/BBC/Euronews/Al Jazeera/Bloomberg, etc.) é estigmatizar a alternativa industrialista nacionalista de Trump como nacionalismo-fascista, para reivindicar o lugar da antifascistas para si, quando «jogarem» na corrida ou crise financeira. Crise que eles mesmo criaram e que apresentaram como o resultado de tal nacionalismo fascista e nos propõem a opção que só um estado Global poderá evitar ou corrigir. Os globalistas ainda estão em posição de provocar a crise financeira, com um forte aumento nas taxas de juro através da Reserva Federal que até Fevereiro de 2018 estará sob o seu controle.

Na crise dos anos trinta, com a luta também entre facções imperialistas que leva ao craque da Bolsa de Valores de Nova Iorque e à quebra de muitas empresas, o liberalismo tocou o fundo, já que não servia mais à burguesia «expansionista». Ao fracassar, o liberalismo foi substituído por um proteccionismo de tipo nacionalista nos países centrais que atrasavam nas suas condições para dar o salto para a nova situação, escala e composição orgânica. Os que avançavam eram chamados de «Aliados», «Democráticos» e os que atrasavam foram chamados de «Eixo», «Fascistas». Crise, divisão e luta de poder que percorria e fragmentava cada um dos países e todos em geral. Não há um só país central ou metrópole em que não encontremos a fractura do capital financeiro imperialista nestes dois «bandos». A diferença a que «bando» pertencia cada país definiu-se pela fracção do capital financeiro que foi hegemónico.

Ficam fora destes «bandos» de capital financeiro e sua caracterização, os países dependentes, periféricos, semicoloniais ou subdesenvolvidos. Os quais foram apenas uma parte auxiliar, subordinada e oscilante destes «bandos» segundo as circunstâncias centrais do capital financeiro. E segundo os momentos nos quais a sua posição de estar alienado ou neutral (o que implicava um alinhamento) beneficiava cada nação dependente no seu desenvolvimento com projecto estratégico próprio, o que sempre se manifestou como um nacionalismo industrialista de país dependente, um nacionalismo industrialista popular anti-imperialista. O que sempre pôs em luta os dois bandos do capital financeiro.

No «bando financeiro do eixo/fascista» tomaram parte a Alemanha, França, Itália, Japão, Espanha, Portugal, etc. Nelas se construiu um poder estatal corporativo, burocratizado, militarizado, autoritário e antidemocrático, que recusava o parlamentarismo, baseado no mesmo individualismo atomizador que caracterizava o liberalismo económico e que também, caracteriza o neoliberalismo de mercado. No «bando financeiro aliado/democrático» tomaram parte os Estados Unidos, Grã-Bretanha, entre outros. Que do mesmo modo que os países do bando fascista militarizaram a sociedade civil, encerraram todo o parlamentarismo, meios de comunicação e mobilizações sociais. Porque o confronto entre facções de burguesias financeiras ao passar da guerra económico-financeira à guerra militar, levou à militarização de todas as sociedades civis, à clausura de todo o liberalismo político formal em função da acumulação capitalista e em todas o Estado centralizou-se em administrar essa acumulação.

O grande negócio capitalista para os bandos em luta foi a própria guerra como motor de acumulação acelerada, e na batalha militar só se definiu a fracção financeira vencedora. Isto permitiu e obrigou sempre ao desdobramento de todos os governos financeiros nos países centrais, de uma política populista e corporativa. A burguesia financeira capitalizava mediante o «populismo» as exigências sociais de inclusão corporativa da base social num projecto de Estado Corporativo. (um estado burocratizado-militarizado). A não exclusão dos eleitos da nação dependia da não exclusão da burguesia na competitividade internacional. Só nas nações periféricas dependentes, etc. os governos tiveram espaços, embora limitados, para desenvolver políticas populares que incluíam actores políticos centrais aos povos e como objectivo desenvolver soberania politica, económica, cultural, social e estratégica.

No mundo actual, onde a crise e uma grande depressão se manifestam cada vez mais, o confronto entre as duas maiores fracções do capital financeiro transnacional tem lugar num mesmo país: os Estados Unidos. Esse conflito surge principalmente dentro dos Estados Unidos e não entre nações. Aparece como um confronto entre os Estados Unidos e a China, o que acontece essencialmente nos Estados Unidos. A partir do processo de globalização, a fracção do capital financeiro globalista no seu avanço procura criar e impor o Estrado global, a sua forma Estado, que subordina todas as nações incluindo os Estados Unidos. Para esse capital financeiro global o mundo não só já deixou de ter fronteiras nacionais mas também já não conta com cidadãos, como acontecia ainda nos anos trinta. O Estado global sem fronteiras nem cidadãos consiste nas chamadas redes financeiras globais com a sua rede de empresas transnacionais (ETNs) e cidades financeiras. As forças em luta procuram hoje estar acima de todos os povos e de todas as nações e quem constitui um perigo real para o retorno do nazismo é o mesmo capital financeiro globalizante.

Para uma economia de mercado a qualquer preço, como a globalização, só existimos e temos razão de existir enquanto intercambiarmos o nosso (força de) trabalho por dinheiro. Na visão (neo) liberal os direitos sociais e a nossa cidadania não se afastam de uma visão que parta da totalidade mas que parecem nascer a partir do intercâmbio e dentro dos limites deste. Na visão neoliberal a qualquer preço o desempregado crónico e os excluídos tendem a perder todos os direitos. Os direitos de cidadão não derivam do facto de ser membro de uma sociedade que a priori se define como nação ou povo. Somos membros da sociedade na medida em que participemos no mercado (na medida em que somos provedores de bens e serviços, peças e partes para serem reunidas pelas ETNs Globais).

A partir dessa visão, os direitos como cidadãos são criados e perecem dentro dos limites do mercado e não aparecem ou se perdem com base no facto de sermos membros de uma nação, sociedade ou comunidade humana. Só existimos e temos realmente direito a existir na medida em que intercambiamos a nossa (força de) trabalho no mercado. Aquela população excluída que não troca a sua força de trabalho no mercado e se vê privada de forma paulatina de todo o direito económico e social perde a cidadania. Num mundo onde não há lugar para cidadãos, os excluídos constituem uma ameaça crescente para a totalidade e tendem a perder até o direito à vida, ou seja, são tendencialmente elimináveis-extermináveis. Desse modo a lógica neoliberal culmina enfim numa concepção nazi/fascista.

Um grande dilema para o capital financeiro globalizado é que num conflito geopolítico entre interesses de fracções de capital financeiro a nível mundial dificilmente se poderá prescindir da mediação política de estados com fronteiras e acima de tudo da mediação com o Estado norte-americano. Esta batalha dá-se neste momento e poderia levar ao aprofundamento da crise não só no processo de globalização mas também do sistema capitalista como tal. Todo o processo de crise estrutural é um processo complexo de lutas, confrontações e debates, donde uma heterogeneidade de actores capitalistas que avançam e recuam, não dando o tom à luta de interesses e que, para mais, neste momento geram espaços de revolta para actores neocapitalistas.

O importante é que surge uma discussão sobre a sociedade em que vivemos e o lugar dos seres humanos nela. Esta reflexão é fundamental para dar respostas reivindicativas perante a exclusão progressiva. A exclusão significa perda de lugar e identidade, e a crítica à mesma pode levar à reivindicação de uma sociedade com lugar para todos. Isso implica questionar o sistema de exclusão. Mas uma crise de identidade não significa, a priori, uma crise de legitimação do sistema. Pode também desenvolver-se uma posição crítica sobre a legitimidade da exclusão, sem que implique pôr em dúvida a legitimidade do sistema. O segundo deve anteceder o primeiro.

O perigo de reivindicar a legitimidade da inclusão sem questionar o sistema é que leva rapidamente a uma «legitimação» da exclusão do outro. Com isso não se enfrenta o problema da exclusão na sua raiz. Muito pelo contrário. Ao substituir uma modalidade de exclusão por via do mecanismo do mercado, por outro lado, a, pertença ou não a determinada nacionalidade, condição social, religião, raça, género, cultura., etc. desumaniza ainda mais as relações sociais. Os seres humanos não se solidarizam para reivindicar uma sociedade onde haja lugar para todos, mas pelo contrário, enfrentam-se uns aos outros para ocupar lugares cada vez mais escassos. Perante o medo de perder o seu lugar, podem reclamar com força crescente a sua inclusão, mesmo à custa de cidadãos de outros países (imigrantes, refugiados) religiões (muçulmanos) etc.

Ao encaminharmo-nos para um mercado unificado com um Estado global enfraquece a identificação dos cidadãos com este novo espaço económico. A realidade para os cidadãos é que o processo de regionalização (União Europeia, NAFTA) e mundialização deu lugar a uma concentração formidável de capital e riqueza em poucas mãos à custa de uma exclusão progressiva. Como resultado não se desenvolve uma maior identificação com o mercado crescentemente abstracto (ser cidadão reduz-se a ser consumidor de produtos, serviços, espectáculos eleitorais, notícias prefabricadas frequentemente falsas, opiniões doutrinarias, etc.).

O resultado é antes a identificação com uma comunidade mais concreta e mais antiga (a nação ou até a localidade) onde no passado houve mais direitos económicos e sociais, e vida aparentemente mais digna, embora os espaços objectivos para que o capital triunfe sobre a base desse retorno sejam quase nulos. A regionalização e mundialização da economia assim como a integração de blocos económicos (EU, NAFTA) levam assim de forma contraditória a tendências nacionalistas e até separatistas baseadas em razões extra-económicas. Aqui o motivo do Brexit e da vitória de Trump e a consequente crise para o capital financeiro globalizante. Aqui a tarefa difícil da administração Trump.

2. A globalização é o processo de desenvolvimento de uma nova forma de capital financeiro. (forma global ou transnacional que emerge e luta por impor-se face à forma dominante anterior, o capital financeiro multinacional. Num mundo onde o crescimento e taxa média de lucro tende a baixar, surgiu nos anos oitenta uma evolução forte das IDE (Investimento Estrangeiro Directo) dentro da Tríade (Estados Unidos, Japão e Europa). A guerra económica entre as multinacionais desenvolve-se a partir deste esquema para melhorar posições no mercado mundial restante, através da IDE no exterior.

O capital financeiro multinacional entra em crise entre 1980-1991-2001, quando emerge o processo de flexibilização e deslocalização de empresas transnacionais que saem dos países centrais e se localizam nas economias emergentes, quando se destroem totalmente estruturas na Administração pública das nações sob a ordem do estado mínimo, quando o poder no governo cada vez se afasta mais dos presidentes do governo eleitos para os presidentes dos bancos centrais impostos pelas grandes bancas financeiras globais em cada city financeira.

A globalização é um processo que emerge como alternativa capitalista ao capitalismo multinacional de país central e que nesta luta abre uma crise estrutural no período de tempo 1999-2001-2008. Na qual ainda estamos imersos. A globalização é parte da crise, é parte da luta que se observa como crise. É a parte que avança ou sai para a frente na luta e crise do capitalismo financeiro.

2.1 Um resumo histórico do capital financeiro

O mercantilismo percorre um longo caminho desde o século XV, fins de 1400, até meados do século XIX, 1850, quando o capitalismo industrial se transforma em dominante a partir do capital industrial, da fábrica, da grande industria mecanizada, e em estado-nacional em Inglaterra subordinando à monarquia feudal, ao estado-reino, à produção feudal e mercantil. Já transitou agora das fábricas.

O estado-nacional que nasce é um Estado nacional de metrópoles contra as monarquias feudais e que desenvolve nações coloniais e semicoloniais. Constitui o regime especificamente capitalista de produção.

O capitalismo chega a ser dominante como modo de produçãoquando desenvolve e impõe uma forma de capital industrial de grande indústria mecanizada. Daí por diante é capital industrial mas, no seu percurso subordinado aos modos feudais, foi primeiro corporações artesanais feudais e empresas manufactureiras antes de poder ser a grande indústria mecanizada. Neste momento subordina o campo e redefine-o com o passar dos anos como produção agrária industrial. O campo era o terreno do poder da monarquia feudal e a cidade industrial o do poder do capitalismo industrial e o agrário a sua extensão, assim como a city financeira é a do capital financeiro global.

O capitalismo industrial transforma-se em capital financeiro entre 1880-1890, crise económica e a primeira guerra mundial pelo meio quando o capital industrial no seu desenvolvimento absorve o capital bancário e se transforma em capital financeiro e transforma também a fábrica em grupo económico-financeiro (ggee). Transforma-a porque a unidade económica básica já não é a fábrica da grande indústria mas sim um grupo económico de fábricas diversificadas em sectores da actividade (produção para o consumo indústria-ciência-tecnologia e produção para o consumo pessoal) e diversificada em áreas dentro de cada sector. Essa centralização da condução estratégica do capital e descentralização do comando operativo caracteriza e define o capital financeiro.

Porque pela primeira vez o capital, como capital financeiro, desenvolve um aparelho administrativo estratégico privado que disputa, confronta e concorda com a administração política pública de quadros e como políticas de estado. E desenvolve-o porque agora o seu objectivo-terreno é o mundo e a sua política internacional de nação-estado metrópole a nações coloniais ou semicoloniais. O instrumento central é o crédito e a relação de credor-devedor, onde o credor impõe as condições e o produto através do financiamento para o desenvolvimento das indústrias que vão produzir nas colónias semicoloniais o que o credor necessita como matéria-prima ou peças/partes.

O capital financeiro internacional entra em crise no período 1929-1940, manifesta-se a partir da guerra/crise financeira de 1929 e posterior guerra militar (1936-44) porque emerge e se desenvolve a corporação financeira multinacional que dá sustento ao capitalismo financeiro multinacional (como forma avançada da época) que se impõe tornando-se hegemónico no resultado da segunda guerra mundial (1936-44). A corporação multinacional expressa-se no estado multinacional de país central, com a sua casa central que torna o país central e as suas empresas filiais nos países /nações dependentes/periféricos/subdesenvolvidos.

As filiais da casa matriz coincidem na maioria dos casos com as empresas mais importantes e dinâmicas em cada ramo da produção. Que se desenvolveram nas semicolónias a partir da relação devedor/credor quando era dominante o capital financeiro internacional. Agora, o capital financeiro multinacional impõe o capitalismo multinacional que tem presença directa e quantitativa em cada nação nas câmaras empresariais, nos partidos políticos, etc.

O capital financeiro multinacional entra em crise como vimos entre 1980-1991-2001, quando emerge o processo de flexibilização e deslocalização de empresas transnacionais. A banca financeira global inicia deste modo a subordinação real do nacional e continental pelo Global, redenominando-o como Local. Assim o par Global/Local caracteriza o desenvolvimento do capital financeiro global. Isto altera geograficamente a produção e realização de valor/riqueza capitalista e começam a mostrar-se diferenciais de crescimentos do PIB e participações mundiais dando lugar ao chamado mundo emergente.

O capital financeiro deslocaliza as suas estruturas estratégicas dos países centrais para o mundo, chama-o globalmente, de modo a por em crise a escala do poder das casas matrizes em cada pais central, porque eleva a escala do limiar do poder de multinacional a global. Mas não só deslocaliza a sua estrutura económica, politica e estratégica globalmente como também deslocaliza a sua estrutura de produção no nacional/local, quando hiperespecializa funções-tarefas laborais e de gerência, quando terceiriza em provedores de bens e serviços os que antes eram trabalhadores formais em áreas e secções da mesma empresa.

O fenómeno da deslocalização não deve no entanto ocultar o descomunal processo de desenvolvimento das forças produtivas de toda esta época. Pois mesmo observando o peso crescente das denominadas economias emergentes na geração da riqueza global, também se pode ver o crescimento, embora relativamente menor, da riqueza dos chamados países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos. A crise aqui não parece tanto a consequência de um processo de destruição como uma deterioração importante na participação da mesma.

É que o processo de lenta mas profunda inserção nas novas tecnologias, robótica, inteligência artificial, etc. ou seja automatização crescente e já não só do manual como da função intelectual (máquinas inteligentes) produz saltos enormes de produtividade que não se traduzem em salários nem rendimentos das classes medias. É um processo de rotinização extensa e profunda que precariza a condição de trabalho a ponto de entre a produtividade dos anos 80 eram necessários 25 trabalhadores industriais para gerar um milhão de dólares em mercadorias, em 2016 eram apenas necessários 5 para o mesmo resultado. Sem dúvida este resultado explica-se em parte pela automatização crescente da produção e em parte pela terceirização. Mas este processo que procura mostrar uma participação crescente no PIB das ex. economias centrais dos «serviços» a produção também sofre um processo de automatização. Um exemplo é a automatização dos serviços de transporte e logística. Ou seja, aqui onde havia peso do ingresso assalariado (serviços) também começa a ser erodido pelo desenvolvimento tecnológico. Este aspecto estrutural do funcionamento do capitalismo (com independência de fases) é o que explica em todo o caso a tendência da queda da taxa média de lucro, a necessidade dos saltos de escala poupando custos e com isso a deslocalização como mecanismo auxiliar.

A empresa global compõe-se de 10% de trabalhadores formais da gerência e une bens e serviços. Outros 90% são trabalhadores provedores de bens e serviços, onde alguns têm a função de gerir as unidades provedoras e parecem pequenos empresários. Este fenómeno foi caracterizado como a «pós-modernidade», onde os serviços passam a supostamente assumir a maior proporção do PIB, facto que resulta do que antes se denominava sector industrial. Na realidade só deixa de contabilizar-se dentro da unidade fábrica precisamente pela própria terceirização.

Isso assume a forma de redes flexíveis de provedores de bens e serviços, informais para as plataformas capitalistas globais juntarem bens e serviços para a plataforma global de produção e de bens e serviços para a plataforma global financeira (a cultura do outsourcing).

O capital financeiro global luta por se impor e esta luta torna-se uma crise pela primeira vez em Setembro de 2001 com a queda (implosão) das Torres Gémeas do Centro de Comercio Financeiro Global (World Trade Center) da Cidade de Nova Iorque. A «queda» é produzida pelos interesses financeiros multinacionais continentais, expressos directamente em Washington no poder politico, no poder judicial, no poder financeiro em Washington, no poder politico, no poder judicial, no poder financeiro multinacional, no complexo militar industrial e na polícia federal.

A queda dos edifícios do centro financeiro global é a resposta militar-policial (durante o governo de Bush) ao poder financeiro global para impor a derrogação da lei Glass Steagall em 1999 (durante o governo Clinton), lei que bloqueava desde 1934 a integração da banca comercial (legal) e a banca de investimentos (legal, segundo a lei Glass Steagall) cuja injunção constitui o capital financeiro global. A derrogação da Glass Steagall é o facto central instituinte do capital financeiro global e seus fundos financeiros de investimento global, paraísos financeiros fiscais e a sua rede de cidades financeiras globais.

A segunda acção contra o capital financeiro global virá em Setembro de 2008, quando a subida de taxas de juro da Fed em mãos de Bush abriu caminho à crise financeira das hipotecas lixo e à «queda» da banca de investimento Lehmann Brothers, que supõe um grande golpe no Citigroup (a primeira grande banca global), e a entrada na grande crise financeira global na qual ainda nos encontramos.

Neste caminho histórico, procuramos percorrer a crise final do feudalismo no século XV (1400) e como nela se desenvolveram e fortaleceram as primeiras formas do mercantilismo ou do capitalismo mercantil. A partir daí onde os mercadores davam aos trabalhadores em relação de dependência servil pessoal (com os seus senhores da terra), as matérias-primas para que estes elaborassem as suas casas (no tempo em que não trabalhavam para o senhor) que logo seriam pagas para as poder vender nas suas rotas de mercado. Passando pelas oficinas manufactureiras onde se concentravam pela primeira vez grandes massas de trabalhadores manuais nas cidades que fez a grande mediação e crise do feudalismo que só conseguiu subordinar, sepultar, a fábrica da grande industria e com isso impor-se agora ao capital industrial da grande industria como modo e relação social de produção dominante.

Não há capitalismo dominante até o capitalismo industrial baseado na grande industria mecanizada como relação social de produção e na fábrica como unidade económica básica, categoria económica e espaço específico onde modo, relação social e unidade económica básica se constituem e constituem os seres humanos como sujeitos/actores deste modo de ser.

A emergência/insurgência de um modo de produção: o capitalismo industrial, nacional, o nacionalismo industrial, o capitalismo industrial e o movimento operário industrial organizado pressupõe a fábrica como unidade básica, a grande indústria mecanizada como relação social do capital e o capitalismo industrial como modo e estado.

A crise do estado-nação, do nacionalismo industrialista, do capital industrial impõe sempre um processo de lutas e negociações até que se impõe um novo modo, relação e unidade económica. Isto é valido também para o globalismo, para o capital financeiro global e a sua rede de cidades financeiras.

O caminho histórico percorrido pelo capital financeiro tem três grandes etapas com a crise desde 1880: de 1880/90 a 1929/39; de 1945/1950 a 1990/2001; de 2006/08 a…O Estado-nação metrópole dos grupos económicos financeiros, o estado nacional de país central da corporação financeira multinacional; o estado global da rede financeira global em processo de crise financeira económica, militar e institucional. O globalismo financeiro constituiu a sua unidade económica: a rede financeira global, a sua relação social de produção: o capital financeiro global e o seu modo de produção: capitalismo financeiro global. Mas não o instituiu política e estrategicamente. Ainda não o tornou hegemónico. A crise global, o processo da crise e a sua profundidade estrutural expressam isso.

A condução do processo da crise/luta no processo da revolução politica por parte do globalismo financeiro debilitou-se a partir da insurgência do multipolarismo universalismo Brics/humanismo ecuménico-inter-religioso em 2013-14 e da reacção anti-globalista das elites nacionais do Brasil e de Trump? Sim, é assim, é claro. O globalismo passa por uma crise de condução do processo geral? Sim, também é assim. Que surge como alternativas? O Nacionalismo industrialista dos Estados Unidos? O Continentalismo financeiro de país central e os Universalismos multipolares não financeiros.

Para os universalismos multipolares não financeiros com Trump? No que respeita a Pequim, o presidente Trump pôs fim à participação norte-americana no Acordo Transpacífico, que foi concebido contra a China, excluindo-a. Sabe-se que Trump manteve conversações sobre a possível adesão de Washington ao Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (Asian Infrastructure Investment Bank ou AIIB). Se os Estados Unidos se juntarem a essa instituição, aceitariam cooperar com a China — em vez de se lhe opor — e os dois países poderiam participar no estabelecimento das duas «rotas da seda». O anterior é um sinal claro dos universalismos não financeiros o que tornaria contraproducentes as guerras do Donbass e da Síria (Thierry Meyssan, Contra Donald Trump, a propaganda de guerra, Voltaire, 7 de Fevereiro de 2017).

De modo a resolver o conflito ucraniano, Donald Trump está a tentar desligar-se do presidente Pedro Petrochenko. Por isso recebeu na Casa Branca a chefe da oposição Yulia Tymochenko, mesmo antes de aceitar uma chamada telefónica do presidente Petrochenko. Na Síria e no Iraque Donald Trump já iniciou as acções comuns com a Rússia, embora o seu porta-voz o negue. O Ministério da Defesa russo revelou-o depois imprudentemente, suspendendo imediatamente todas as declarações a esse respeito.

No plano financeiro, o presidente Trump já iniciou o desmantelamento da lei Dodd-Frank que tratou de resolver a crise de 2008, evitando a quebra abrupta dos grandes bancos norte americanos — em aplicação da linha politica chamada «too big to fail». Apesar de alguns aspectos positivos — o seu texto consta de 2 300 paginas — a lei Dodd-Frank institui uma tutela do Departamento do Tesouro sobre os bancos., o que evidentemente trava o seu desenvolvimento. Donald Trump parece dispor-se também a reinstaurar a diferença entre os bancos de depósitos e os bancos de investimento mediante o restabelecimento do Acto Glass- Steagall (Ibid).
Trump iniciou também a limpeza no seio das instituições internacionais. Os fundadores da ONU nunca imaginaram a participação militar de 100 000 capacetes azuis em conflitos internos. A ONU foi criada para prevenir ou resolver conflitos entre Estados, nunca conflitos internos. As operações actuais de «manutenção da paz» têm como objectivo impor o apoio da solução imposta pelo Conselho de Segurança da ONU e recusada por uma das partes em conflito, o que é um prolongamento do colonialismo. Pôr fim a esse sistema seria regressar ao espírito e conteúdo iniciais da Carta da ONU, renunciar aos privilégios coloniais e pacificar o mundo.

É importante entender que em Washington começou uma guerra mortal ao capital financeiro globalizado. A imprensa atlantista sob controlo desse capital comenta as declarações de Trump de maneira mal-intencionada e não deixa ver os factos. Donald Trump dedicou-se a garantir o seu controlo sobre os órgãos de segurança. Os seus três primeiros nomeados — o conselheiro de segurança nacional Michael Flynn, o secretário de Defesa James Mattis e o secretário de Segurança Nacional John Kelly — são 3 generais que questionam o «Governo de Continuidade» desde 2003. Depois reformou o Conselho de Segurança Nacional para excluir o chefe de Estado-Maior Conjunto e o director da CIA. Nesta viragem política de 180 graus Trump afasta um sistema instaurado durante os últimos 16 anos e que se originou na guerra-fria, a opção que os Estados Unidos adoptaram em 1947. Esse sistema gangrenou não apenas instituições como a ONU (com o embaixador norte-americano Jeffrey Fellman) mas também (com Jens Stoltenberg e o general norte americano Curtis Scaparrotti) a NATO (ibid).

3. Nacionalismo, Continentalismo e Globalismo /Universalismo

A chamada «crise do globalismo» ou «desglobalização» observa-se e é aceite por muitos intelectuais já que os actores e interesses globalistas perdem o controlo da Grã- Bretanha e da City de Londres e assim a capacidade de influenciar a União Europeia (UE). Este processo inicia-se com a perda de referendo pela permanência ou não na UE da Grã-Bretanha, onde ganha o Brexit, a saída da UE. Facto que se expressa numa diferença de menos de 2% e que se explica pelo voto dos trabalhadores brancos industriais do norte de Inglaterra e a decisão da Coroa Britânica de apoiar o Brexit.

O outro facto é a perda por parte do Globalismo Financeiro da city financeira de Nova Iorque (Wall Street), do controlo e influência sobre o governo dos Estados Unidos, com o triunfo de Donald Trump, embora ainda se mantenha o controlo da política monetária da Reserva Federal.

Estes dois factos marcam e delimitam o início do debate sobre a globalização/desglobalização. Mas a chegada de Trump ao governo dos Estados Unidos, observado pelas suas decisões no governo, mostram uma politica que expressa uma orientação para um nacionalismo industrialista anti-oligarquia financeira global (contra a China e saída dos TPP) e anti-oligarquia financeira Continentalista (contra o México e saída do TLCAN). Um nacionalismo industrialista que pede relocalização dos investimentos industriais nos Estados Unidos e saída dos países emergentes. A reversão do processo iniciado em 1991-94.

Uma politica industrialista que lembra a que se desenvolveu durante a segunda guerra mundial, na qual os Estados Unidos participaram como grandes provedores de bens industriais fazendo saltar em escala o seu processo de industrialização até Dezembro de 1942 e que só entram na guerra directa quando esta estava definida pelo esgotamento dos dois lados, que deixou os Estados Unidos como o grande vencedor do Ocidente, que lhes permitiu subordinar a Grã-Bretanha e impor o dólar como moeda dominante na sua órbita. Os Estados Unidos saem da Segunda Guerra Mundial, que foi a maneira de resolver a crise/guerra financeira de 1919, como a grande potência capitalista imperialista e se coloca como um nacionalismo industrialista expansivo imperialista. Que era, como foi apresentado no seu tempo, um Continentalismo imperialista confrontado pelo Continentalismo soviético.

Os Estados Unidos de Trump têm grandes obstáculos para que se possa realizar o seu plano de nacionalismo industrialista antioligárquico financeiro, o que apresenta a realidade do aprofundamento da luta e crise económica como luta e crise institucional política.

Mesmo quando o presidente da China Xi Jinping se ergue em Davos como a personificação do globalismo, ou seja, de todos os globalismos em geral e do globalismo multipolar não financeiro em particular, porque nas economias emergentes convivem em 2017, em especial na Ásia-Pacífico, as transnacionais financeiras globais e as grã-nacionais universais. Tudo o que marca a escala do limiar do poder mundial é o Universalismo/Globalismo. A escala mostra-nos qual é a magnitude de poder na qual se produz/realiza/poder/valor. É o espaço mais provável que triunfa a partir do conflito interno entre as duas fracções de capital financeiro que se agudiza com o projecto de um nacionalismo industrialista de Trump.

Hoje parece não haver margem para o poder de um nacionalismo industrialista, no limite se conseguisse existir para um continentalismo militarista norte-americano, apenas pelo poder militar do complexo industrial militar e a sua ameaça de guerra termonuclear. Depender deste único instrumento de poder não lhe dá o estatuto de muito provável. O nacionalismo industrialista também não poderia ser contido/submetido pelo continentalismo financeiro militarista porque o primeiro precisa negar toda a possibilidade do seu desdobramento como tal, porque o fragmentaria.

O nacionalismo industrialista antioligárquico só poderia ser contido/submetido pelo universalismo multipolar industrialista dos BRICS e do Humanismo ecuménico-inter-religioso. Porque o seu desenvolvimento é necessário para ele, não poderia ser simultaneamente seu motor e país central. Na mesma situação encontra-se a Alemanha, França e a UE. Esta posição tem história e base social nos Estados Unidos naqueles que seguem Thomas Jefferson e a sua luta contra o imperialismo britânico e F.D. Roosevelt e a sua lei Glass Steagall contra a banca financeira anglo-americana na Reserva Federal.

4. Estamos perante um momento crucial na história. Encontramo-nos numa situação onde as fissuras do globalismo neoliberal se tornam cada vez mais evidentes e a «insegurança» sobre a estabilidade do sistema capitalista como tal aumenta. Num mundo onde não só cabem cada vez menos cidadãos, mas também importantes fracções de capital financeiro dentro dos próprios EUA como nação hegemónica ficam excluídas, podem desembocar num processo de desgaste do próprio processo de globalização e até do capitalismo como sistema. Cedo ou tarde o rumo da economia tende a reorientar-se para uma regularização económica a nível mundial.

No quadro de um mundo multipolar não há subordinação de umas nações por outras nem a subsunção de todas a um Estado global. Se a Rússia e a China reivindicam a qualquer preço algo para um mundo multipolar é precisamente a soberania nacional. O Papa Francisco reivindica a nível espiritual o respeito de cada religião pela outra e a convivência ecuménica entre as mesmas. As duas concepções reforçam-se. Não vemos que o processo de acumulação de capital tenha vida longa a partir do mundo multipolar quando apostam na «Nova Rota da Seda», uma espécie de projecto de desenvolvimento produtivo à escala mundial a partir das periferias. É uma saída pelo menos temporária onde há lugar para todos os capitais, onde até o capital dos Estados Unidos e Trump poderiam entrar.

A grande pergunta que nos fazemos é se uma vez concluídas as grandes obras de infra-estrutura nos Estados Unidos e com a Rota da Seda, se estes investimentos se encadeiam ou não num próximo ciclo de reprodução do capital. Nós acreditamos que o cenário mais provável é que não se encadeiem, como assinalámos no nosso livro «Geopolítica da Crise Económica Mundial». A ser assim a transição para o pós-capitalismo estaria a caminho.

As mudanças sistemáticas nunca se processam em períodos de calma mas sim no meio de tempestades que viram tudo de pernas para o ar. A eleição de Donald Trump é uma das insubordinações políticas mais espectaculares que, juntamente com o Brexit e outros menos espectaculares, indicam um colapso da hegemonia neoliberal. Ainda quando diferem em ideologia e objectivos, esses motins populares eleitorais compartilham um alvo comum: recusam a globalização das grandes corporações, o neoliberalismo e o establishment político que os apoia. Os seus votos são uma resposta à crise estrutural desta forma de capitalismo, crise que ficou exposta pela primeira vez com o quase colapso da ordem financeira global de 2008. No entanto, um dos problemas mais importantes que enfrenta a luta emancipadora nas últimas décadas é a subordinação dos movimentos anti-sistémicos ao capital financeiro globalista.

A vitória de Trump não é apenas uma revolta contra as figuras globais. O que os votantes recusaram não foi o neoliberalismo, mas sim o neoliberalismo progressista. Nas palavras da feminista Nancy Fraser, «o neoliberalismo progressista é uma aliança das correntes dominantes dos novos movimentos sociais (feminismo, anti-racismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ) por um lado e, por outro, o mais alto nível de sectores de negócios «simbólicos» e de serviços (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood). Nesta aliança, as forças progressistas uniram-se realmente com as forças do capital financeiro globalizado. Ideais como a diversidade e concessão de maiores poderes, que em princípio bem poderiam servir propósitos diversos, agora dão lugar a políticas que se tornaram devastadoras para a indústria manufactureira e para o que antes era a classe media (Nancy Fraser, Trump ou o fim do neoliberalismo progressista, Rebellion, 23 de Janeiro de 2017).

O neoliberalismo progressista desenvolveu-se nos Estados Unidos durante estas três últimas décadas e foi ratificado pelo triunfo eleitoral de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal organizador e porta-estandarte dos «Novos Democratas», o equivalente norte-americano do «Novo Trabalhismo» de Tony Blair. Clinton e os Novos Democratas têm uma pesada responsabilidade no enfraquecimento das uniões sindicais, no declive dos salários reais, no aumento da precaridade laboral e no auge das famílias com dois rendimentos que veio substituir o antigo salário familiar. Cobriram o assalto à segurança social com um verniz de carisma emancipatório, tomado de empréstimo aos novos movimentos sociais.

Ao identificar «progresso» com meritocracia em lugar de igualdade, equiparava-se nas palavras de Nancy Fraser a «emancipação» com a subida de uma pequena elite de mulheres, minorias e gays «com talento» na hierarquia empresarial baseada na noção de «quem ganha fica com tudo» (validando a hierarquia em vez de a abolir). Essa noção liberal e individualista do «ser progressivo» (homo oeconomicus do século XXI) foi substituindo gradualmente a noção emancipadora anticapitalista, abarcadora, anti-hierárquica, igualitária e sensível ao conceito de classe social que floresceu ainda nos anos 60 e 70. O resultado foi um «neoliberalismo progressista» amálgama de ideais truncados de emancipação e formas letais de financeirização. A seu ver as feministas e Wall Street eram aves da mesma plumagem, perfeitamente unidas na pessoa de Hillary Clinton, termina Fraser (ibid). Quem precisa de estabilidade são precisamente as elites dos movimentos, incrustadas no poder, donde pretendem evitar que a opressão as afecte num caminho de salvação individualista.

A raiva de Wall Street e da imprensa do sistema é que a vitória de Trump deixe a dita «aliança entre a emancipação e a financeirização» num estado de fraqueza máxima, daí o seu empenho em mobilizar os jovens para evitar fracturas. Para eles, a chegada de Trump ao governo, é sintoma de decomposição do sistema que nos afecta como os estalos de uma tormenta. É em meio do caos sistémico que nos empenhamos em construir o novo, com todos os riscos que isso implica, mas com a vontade intacta (Raul Zibechi, A oportunidade Trump, Rebellion, 10 de Fevereiro de 2017).

Concluindo, o globalismo financeiro imperial está num momento de crise, que é luta e confronto estrutural. Não morreu e a luta interimperialista que forjou e desenvolve contra o continentalismo financeiro com base nos Estados Unidos e o TLCAN segue o seu curso sob outras condições, formas e modos. O relato ideológico do neoliberalismo e o neoprogressismo globalista sofreu um duro golpe, ao ter-se deteriorado o seu halo determinista de neo-destino manifesto global. Não morreu mas perdeu toda a sua força discursiva virginal de «terceira via». Fará seguramente uma enorme tentativa para voltar com uma auréola renovada. A história não se repete, excepto como farsa, a crise actual debate a sua superação por vezes sob a forma de reacção.

Tradução: Manuela Antunes

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