Greve contra o monopólio*

António Santos    23.Abr.17    Outros autores

Nos EUA, ter organização sindical numa empresa já constitui um enorme feito dos trabalhadores. Se os trabalhadores organizados empreendem uma luta que dura desde 28 de Março, é caso para celebrar em ainda maior escala. Nem mesmo os poderosíssimos monopólios dos EUA podem empreender uma ofensiva de classe sem defrontar uma resposta de classe.

Cerca de dois mil trabalhadores da empresa de telecomunicações Spectrum nos estados norte-americanos de Nova Iorque e Nova Jérsia estão em greve desde 28 de Março. Heróica pela sua duração e justeza dos seus objectivos, esta luta desbrava caminho para os novos combates da classe operária nos EUA de Trump.

Da reunião que, no passado dia 24, Tom Rutledge, presidente executivo da Charter Communications, detentora da Spectrum, manteve com Donald Trump, destacou-se a promessa de devolver mais de 20 mil postos de trabalho actualmente no estrangeiro para os EUA. «Recorrer a mão-de-obra americana, altamente qualificada, é poupar dinheiro: ao contrário dos estrangeiros, acertam logo à primeira», disse o presidente executivo da segunda maior empresa do sector. Trump, por seu turno, chamou às alterações económicas em curso «um novo modelo, o modelo americano», prometendo «acabar, massivamente [sic], com a regulamentação económica».

Para compreender o que Trump queria dizer com «regulamentação económica» nada melhor do que olhar para as reivindicações dos trabalhadores da Spectrum que, quatro dias depois da reunião na Sala Oval, pousaram as ferramentas e partiram para a greve. Na sequência da compra da Time Warner Cable pela Charter, em Maio passado, o gigante monopolista pôs fim a todas as negociações com o sindicato e forçou a caducidade do contrato colectivo de trabalho assinado pelos antigos patrões, o que aconteceu no final de Março. No novo contrato, a Charter quer ver drasticamente reduzidos os chamados «benefícios de saúde e de reforma», a componente dos seguros de saúde e das pensões de reforma financiada pelo patronato. Em troca, a Charter propõe um aumento salarial inferior a três por cento. Feitas as contas, mantendo o mesmo plano de saúde e optando por um fundo de pensões equivalente, os trabalhadores podem perder até 20 por cento do actual salário.

Firmeza no piquete

Em declarações ao Brooklyn Eagle, o dirigente do sindicato International Brotherhood of Electrical Workers Local 3, Derek Jordan, fez o balanço de um mês de greve: «A administração insiste em não dialogar e, violando a regulamentação do sector, está a transferir os serviços paralisados pela greve para operadores de outros estados. Mas os piquetes mantêm-se firmes». A falta de técnicos, engenheiros e operadores de armazéns faz-se contudo sentir num número crescente de falhas de serviço e na queda da qualidade da ligação de televisão e Internet: «nas duas primeiras semanas de Abril, cada cliente esteve, em média, cinco horas por semana sem ligação e a qualidade do serviço caiu em flecha», especificou.

«Quando eles falam em trazer de volta 20 mil postos de trabalho no estrangeiro, devemos lembrar-nos que deslocalizaram esses postos de trabalho porque noutros países pagava-se menos», disse Derek Jordan. «Se agora estão a voltar, só há duas explicações: ou no resto do mundo se está a pagar melhor ou aqui os patrões querem pagar menos. Muito, muito menos.»

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2264, 20.04.2017

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos