Jamais regressará a dor ao coração das mães nem a vergonha à alma de cada cubano honesto!

Raúl Castro    03.Ene.09    Outros autores

Raúl Castro
Discurso do Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da
República de Cuba, Raúl Castro Ruz, no comício comemorativo do 50º aniversario do triunfo da Revolução Cubana, realizado em 1 de Janeiro de 2009 em Santiago de Cuba.

Santiagueiras e Santiagueiros,
Orientais,
Combatentes do Exército Rebelde na luta clandestina e de cada combate em defesa da Revolução durante estes 50 anos,
Compatriotas:

O primeiro pensamento, num dia como hoje, vai para os que caíram nesta longa luta. São o paradigma e o símbolo do esforço e do sacrifício de milhões de cubanos. Em estreita união, empunhando as poderosas armas que significaram a direcção, os ensinamentos e o exemplo de Fidel, aprendemos no rigor da luta a transformar sonhos em realidades, a não perder a calma e a confiança perante os perigos e as ameaças, a levantar a cabeça depois de grandes reveses, a converter em vitória cada desafio e a superar as adversidades, por mais insuperáveis que pudessem parecer.

Os que tivemos o privilégio de viver com toda a intensidade esta etapa da nossa história sabemos bem como foi certo aquele alerta que ele no fez naquele 8 de Janeiro de 1959, no seu primeiro discurso ao entrar na capital:

«A tirania foi derrotada. A alegria é imensa. E no entanto, ainda fica muito por fazer. Não nos enganemos acreditando que daqui para a frente tudo será mais fácil; talvez no futuro tudo seja mais difícil», concluiu.

Pela primeira vez o povo cubano alcançava o poder político. Nesta ocasião, juntamente com Fidel, sim, os mambises entraram em Santiago de Cuba. Para trás ficaram exactamente 60 anos de absoluta dominação do nascente império norte-americano, que não tardaria a mostrar os seus verdadeiros propósitos, ao impedir a entrada nesta cidade o Exército Libertador.

Para trás ficaram também a grande confusão e toda a enorme frustração que provocou a intervenção norte-americana. No entanto manteve-se em vigilância, muito para além da sua dissolução formal, a vontade de luta do Exército Mambi e o pensamento que guiou as armas de Céspedes, Agramonte, Gomez e Maceo e tantos outros próceres e combatentes pela independência.

Vivemos um pouco mais de cinco décadas de governos corruptos, de novas intervenções norte-americanas, a tirania e revolução frustrada que a derrotou. Mais tarde, em 1952, o golpe de Estado, com o apoio do governo norte-americano, instaurou novamente a ditadura, fórmula aplicada nesses anos para assegurar o seu domínio na América Latina.

Para nós ficou claro que a luta armada era a única via. Aos revolucionários colocava-se novamente, como anteriormente a Martí, o dilema da guerra necessária pela independência que ficou incompleta em 1898.

O Exército Rebelde retomou as armas mambi e depois do triunfo transformou-se, para sempre, nas invictas Forças Armadas Revolucionárias.
CUBA - COMÍCIO DE 50º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO CUBANA
A Geração do Centenário, que em 1953 assaltou os quartéis de Moncada e Carlos Manuel Céspedes, contou com o importante legado de Martí, com a sua visão global humanística, que vai para além da consecução da libertação nacional.

Em termos históricos foi breve o tempo que mediou entre a frustração do sonho mambi e o triunfo da Guerra de Libertação. No início deste período, Mella, um dos fundadores do nosso primeiro Partido Comunista e criador da Federação Estudantil Universitária (FEU), converteu-se em herdeiro legítimo e ponte de união entre o pensamento martiano e ideias mais avançadas.

Foram anos de maturação da consciência e da acção dos operários e camponeses, e da formação de uma intelectualidade genuína, valente e patriótica que os acompanhou até ao presente.

O magistério cubano, fiel depositário das tradições de luta dos seus predecessores, semeou-as no melhor das novas gerações.

Desde o momento do triunfo, tornou-se evidente para cada homem e mulher humilde que a revolução era um justiceiro cataclismo social que tocou a todas as portas, desde os palacetes da Quinta Avenida na capital, até à mais miserável cabana dos nossos campos e montanhas.

As leis revolucionárias não deram apenas cumprimento ao programa de Moncada, superaram-no com acréscimo na evolução lógica do processo. Além disso, criaram um precedente para os povos da nossa América, que há 200 anos iniciaram o movimento emancipador do colonialismo.

Em Cuba, a história americana tomou rumos diferentes. Moralmente, nada foi alheio ao torvelinho, que ainda antes do 1º de Janeiro de 1959, começou a varrer opróbrios e iniquidades, ao mesmo tempo que abriu caminho para o gigantesco esforço de todo um povo decidido a oferecer a si mesmo tudo quanto merece e conseguiu levantar com o seu sangue e suor.

Milhões de cubanas e cubanos foram trabalhadores, estudantes, soldados ou simultaneamente as três coisas, tantas vezes quantas as circunstâncias o exigiram.

A genial síntese de Nicolas Guillén resumiu o significado para o povo do triunfo de Janeiro de 1959: «Tenho o que tinha de ter», disse num dos seus versos, referindo-se não a riquezas materiais, mas a sermos donos do nosso próprio destino.

É uma vitória duplamente meritória, porque foi alcançada apesar do ódio doentio e vingativo do poderoso vizinho.

O fomento e apoio à sabotagem e ao banditismo, a invasão de Playa Girón, o bloqueio e demais agressões económicas, políticas e diplomáticas, a permanente campanha de mentiras dirigida para denegrir a Revolução e os seus líderes, a Crise de Outubro, os sequestros e ataques a embarcações e aeronaves civis, o terrorismo de Estado com o seu terrível saldo de 3.478 mortos e 2.099 mutilados, os planos de atentados a Fidel e outros dirigentes, os assassínios de operários, camponeses, pescadores, estudantes, diplomatas e combatentes cubanos. Esses e muitos outros crimes demonstram irrefutavelmente o obstinado empenho de apagar, a qualquer preço, a luz da justiça e o decoro que significou a alvorada do Primeiro de Janeiro.

Uma após outra, todas as administrações norte-americanas não cessaram de tentar forçar uma mudança de regime em Cuba, empregando uma ou outra via, com maior ou menor agressividade.

Resistir foi a palavra de ordem e a chave de cada uma das nossas vitórias durante este meio século de ininterrupto batalhar, em que invariavelmente jogámos a nossa própria pele, sem deixar de reconhecer a ampla e decisiva solidariedade recebida.

Desde há muitos anos, nós, os revolucionários cubanos ativemo-nos à máxima martiana: «A liberdade custa muito caro, e é necessário ou resignar-se a viver sem ela ou a decidir comprá-la pelo seu preço».

Nesta praça, no 30º aniversário do triunfo, Fidel disse-nos: «Aqui estamos porque pudemos resistir». Uma década depois, em 1999, desta mesma varanda, afirmou que o período especial constituía «a mais extraordinária página de glória e firmeza patriótica e revolucionária, (…) quando ficámos absolutamente sós no meio do Ocidente a 90 milhas dos Estados Unidos e decidimos seguir em frente». Assim o repetimos hoje.

Foi uma resistência firme, alheia a fanatismos, toda ela baseada em sólidas convicções e na decisão de todo um povo de as defender pelo preço que fosse necessário. Exemplo vivo disso, nestes momentos, é a insuperável firmeza dos nossos gloriosos Cinco Heróis.

Hoje não estamos sós frente ao império neste lado do oceano, como aconteceu nos anos sessenta quando os Estados Unidos impuseram a absurda expulsão de Cuba da OEA em Janeiro de 1962, o país que pouco antes tinha sido vítima de uma invasão organizada pelo governo norte-americano e escoltada até ás nossas costas pelos seus barcos de guerra. Como se demonstrou, aquela expulsão era precisamente o prelúdio de uma intervenção militar directa, só impedida pela instalação dos mísseis nucleares soviéticos, que desaguou na Crise de Outubro, mundialmente conhecida como a crise dos mísseis.

Hoje a Revolução está mais forte que nunca e jamais cedeu um milímetro nos seus princípios, nem nos mais difíceis momentos. Não muda minimamente essa verdade, mesmo que alguns se cansem e reneguem a sua história, esquecendo-se que a vida é um constante batalhar.

Significa isso que os perigos diminuíram? Não, não tenhamos ilusões. Quando comemoramos este meio século de vitórias, impõe-se uma reflexão sobre o futuro, sobre os próximos cinquenta anos, que serão também de permanente luta.

Observando as actuais turbulências do mundo contemporâneo, não podemos pensar que haverá mais facilidades, digo-o não para assustar, é a pura realidade.

Também devemos ter bem presente o que Fidel nos disse a todos, mas especialmente aos jovens, na Universidade de Havana, em 17 de Novembro de 2005: «Este país pode autodestruir-se a si próprio; esta Revolução pode destruir-se, hoje os que não podem destruí-la são eles; nós podemos destruí-la, e seria culpa nossa», sentenciou.

Observando esta possibilidade interrogo-me: qual é a garantia de que não ocorrerá algo tão terrível para o nosso povo?

Como evitar um golpe tão aniquilador que necessitaríamos muito tempo para recuperarmos e alcançarmos de novo a vitória?

Falo em nome de todos os que lutámos, desde os primeiros disparos nos muros de Moncada, há 55 anos, até aos que cumpriram heróicas missões internacionalistas.

Falo, naturalmente, também em nome dos que caíram nas guerras de independência e mais recentemente na Guerra de Libertação. Em representação de todos eles, falo em nome de Abel e José António, de Camilo e Che, quando afirmo, em primeiro lugar, que isso exige dos dirigentes de amanhã que não esqueçam nunca que esta é a Revolução dos humildes e para os humildes; que não se deixem encantar com os cantos de sereia do inimigo e tenham consciência de que pela sua essência, nunca deixará de ser agressivo, dominante e traiçoeiro, que não se afastem jamais dos nossos operários, camponeses e do resto do povo; que a militância impeça a destruição do Partido. Aprendamos com a história.

Se actuarem assim, contarão sempre com o apoio do povo, incluso quando de equivocarem em questões que não violem princípios essenciais. Mas se os seus actos não estiverem em consonância com essa conduta, não contarão, sequer, com a força necessária nem a oportunidade para rectificar, pois faltar-lhes-á a autoridade moral que as massas só atribuem aos que não cedem na luta. E podem terminar impotentes perante os perigos externos e internos, e incapazes de preservar a obra fruto do sangue e do sacrifício de muitas gerações de cubanos.

Se isso vier a acontecer, ninguém o duvide, o nosso povo saberá dar-lhe combate, e na primeira linha estarão os mambises de hoje, que não se desarmarão ideologicamente nem deixarão cair a espada.

Cabe à direcção histórica da Revolução preparar as novas gerações para assumir a enorme responsabilidade de continuar em frente com o processo revolucionário.

Esta heróica cidade de Santiago, e Cuba inteira, foram testemunhas do sacrifício de milhares de compatriotas, da ira acumulada de tanta vida interrompida pelo crime, pela dor infinita das nossas mães e pelo valor sublime das suas filhas e filhos.

Aqui nasceu um jovem revolucionário, de apenas 22 anos quando caiu assassinado, que simboliza essa disposição para o sacrifício, a pureza, a valentia, a serenidade e o amor à pátria do nosso povo: Frank Pais Garcia.

Nesta terra oriental nasceu a Revolução. Aqui aconteceu a intempestiva Demajagua e o 26 de Julho, aqui desembarcámos no Granma e iniciámos o combate nas montanhas e nas planícies que depois se estendeu a toda a ilha. Como disse aqui Fidel em A História me Absolverá, «cada dia parece que vai ser outra vez o de Yara ou o de Baire».

Nunca mais voltarão a miséria, a ignominia, o abuso e a injustiça à nossa terra!

Jamais regressará a dor ao coração das mães nem a vergonha à alma de cada cubano honesto!

Esta é a firme decisão de uma nação em pé de guerra, consciente do seu dever e orgulhosa da sua história.

O nosso povo conhece cada imperfeição da obra que ele mesmo levantou com os seus braços e defendeu com risco de vida. Nós, os revolucionários, somos os nossos principais críticos. Não duvidámos em esclarecer deficiências e erros publicamente. Sobram exemplos passados e recentes.

Desde 10 de Outubro de 1868, a desunião foi a causa fundamental das nossas derrotas. A partir do primeiro de Janeiro de 1959, a unidade, forjada por Fidel, foi garantia das nossas vitórias. O nosso povo conseguiu mantê-la frente a todos os imprevistos e tentativas divisionistas e soube situar os anseios comuns acima das diferenças, derrotar mesquinhezes à força de colectivismo e generosidade.

As revoluções só avançam e perduram quando é o povo que as leva por diante. Ter compreendido essa verdade e actuado invariavelmente consequentemente com ela foi factor decisivo da vitória da Revolução Cubana frente a inimigos, dificuldades e desafios aparentemente invencíveis.

Ao chegar ao primeiro meio século de Revolução triunfante, chega o principal tributo ao nosso maravilhoso povo, à sua exemplar decisão, valor, fidelidade, vocação solidária e internacionalista; à sua extraordinária demonstração de vontade, espírito de sacrifício e confiança na vitória, no Partido, no seu líder máximo e sobretudo em si próprio.

Sei que expresso o sentir dos meus compatriotas e de muitos revolucionários do mundo ao, nesta hora, prestar homenagem ao Comandante-Chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro Ruz.

Um indivíduo não faz a história, sabemo-lo, mas há nomes imprescindíveis capazes de influir o seu curso de modo decisivo. Fidel é um deles, ninguém duvida, nem mesmo os seus mais acérrimos inimigos.

Desde muito jovem fez seu o pensamento martiano: «Toda a glória do mundo cabe num grão de milho». Converteu-o em escudo contra o fátuo e o passageiro na sua principal arma para transformar adulações e honras, por merecidas que fossem, em mais modéstia, honradez, vontade de luta e amor pela verdade, que invariavelmente colocou acima de tudo.

A estas ideias se referiu nesta mesma praça há 50 anos. As suas palavras daquela noite mantêm absoluta vigência.

Neste momento especial que nos faz meditar no caminho percorrido e sobretudo que a maior parte dele está adiante, quando ratificamos novamente o compromisso com o povo e os nossos mártires, permitam-me concluir repetindo o alerta premonitório e o apelo que nos fez e Comandante-Chefe neste histórico lugar, no primeiro de Janeiro de 1959, quando assinalou:

«Não acreditamos que todos os problemas se vão resolver facilmente, sabemos que o caminho está pejado de obstáculos, mas nós somos homens de fé, que enfrentámos sempre as maiores dificuldades. Poderá o povo estar seguro de uma coisa, a de que podemos equivocarmo-nos uma e muitas vezes, a única coisa que não poderá dizer-se de nós é que roubámos, que traímos».

E acrescentou:

«Nunca nos deixaremos levar pela vaidade nem pela ambição, (…) não há satisfação nem prémio maior que cumprir o dever», concluiu.

Numa data de tanto significado e simbolismo, reflictamos sobre estas ideias que constituem um guia para o verdadeiro revolucionário. Façamo-lo com a satisfação de ter cumprido o dever até ao presente; com o aval de ter vivido com dignidade o mais intenso e fecundo meio século da história pátria e com o firme compromisso de que nesta terra sempre poderemos exclamar com orgulho:

Glória aos nossos heróis e mártires!

Viva Fidel!

Viva a Revolução!

Viva Cuba Livre!

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