O Movimento comunista: da autofobia ao desenvolvimento do processo de aprendizagem

Domenico Losurdo*    15.Ene.09    Outros autores

Domenico LosurdoDomenico Losurdo, que em Fevereiro virá a Portugal a convite de odiario.info fazer uma conferência em Lisboa e outra em Coimbra, é um conceituado marxista. Publicamos hoje, do seu livro Fuga da História? já traduzido no Brasil pela Editora Revan, o prefácio e o primeiro capítulo do seu livro intitulado Numa encruzilhada: religião ou política?

Prefácio

Em 1818, em plena Restauração, e em um momento no qual a falência da Revolução Francesa tornava-se evidente mesmo aqueles que, inicialmente, a haviam visto com bons olhos se preocupavam em manter distância da experiência histórica iniciada em 1789: tinha sido um equívoco colossal, uma vergonhosa traição de nobres ideais. Neste sentido Byron cantava: “Mas a França se inebriou de sangue para Vomitar delitos. E as suas Saturnais foram fatais à causa da Liberda de, em qualquer época e em toda a Terra”. Dever hoje tornar nosso esse desespero, limitando-nos apenas a substituir a data, 1917 por 1789, e a causa do socialismo pela ‘causa da Liberdade”? Os comunistas devem se envergonhar da sua história?

A história das perseguições sofridas por grupos étnicos ou religiosos nos coloca diante de um fenômeno Em um determinado momento, as vítimas tendem a adotar como seu o ponto de vista dos opressores e começam até mesmo a desprezar e odiar a si mesmas. O Selbsthass ou Sel-bate a autofobia é pesquisada sobretudo em relação aos judeus objeto há milênios de uma sistemática campanha de discriminação e difamação. Mas algo análogo se verificou no curso da história dos negros, também esta trágica, deportados de seus países, submetidos à escravidão e opressão, e privados da própria identidade: em um certo momento, as jovens afro-americanas, mesmo aquelas dotadas de esplêndida beleza começaram a desejar e a sonhar ter a pele branca, ou Pelo menos que o negro de sua pele se atenuasse. Tão radical pode ser a adesão das vítimas aos valores dos opressores…

O fenômeno da autofobia não concerne apenas aos grupos étnicos e religiosos. Pode atingir classes sociais e partidos políticos que sofreram uma derrota severa sobretudo se os vencedores, deixando de lado ou em segundo plano as verdadeiras e reais armas, insistem em sua campanha mortífera, atualmente garantida pelo poder de fogo da multimídia. Entre os vários problemas que afligem o movimento comunista, o da autofobia não é certamente o menor. Deixemos de lado os ex-dirigentes e ex-expoentes do PCI que chegam a declarar ter aderido no passado ao partido sem jamais terem sido comunistas. Não por acaso, eles admiram e até mesmo invejam Clinton, que, quando de sua reeleição, agradeceu a Deus por ter nascido estadunidense. Uma forma ainda que sutil de autofobia é estimulada em todos aqueles que não tiveram a sorte de fazer parte do povo eleito, povo ao qual a providência divina confiou a tarefa de difundir no mundo, através de todos os meios, as idéias e as mercadorias made in USA.

Mas, como dizia, convém deixar de lado os ex-comunistas que lamentam nostalgicamente não terem nascido anglo-saxões e liberais, e que foram colocados, por uma sorte madrasta, longe do sagrado coração da civilização. Desgraçadamente, porém, a autofobia alinha também em suas fileiras aqueles que, mesmo continuando a se declararem comunistas, se mostram obcecados com a preocupação de reiterar seu total distanciamento em relação a um passado que, para eles, como para seus adversários políticos, é simplesmente sinônimo de abjeção. Ao soberbo narcisismo dos vencedores, que transfiguram a própria história, corresponde a substancial autoflagelação dos vencidos.

É óbvio que a luta contra a praga da autofobia resultará tanto mais eficaz quanto mais radicalmente crítico e sem preconceito for o balanço da grande e fascinante experiência histórica iniciada com a Revolução de Outubro. Porém, apesar das assonâncias, autocrítica e autofobia constituem duas posições antitéticas. Em seu rigor, e até mesmo em seu radicalismo, a autocrítica exprime a consciência da necessidade de acertar as contas com a própria história; a autofobia é a fuga vil desta história e da realidade da luta ideológica e cultural que sob ela ainda arde. Se a autocrítica é o pressuposto da reconstrução da identidade comunista, a autofobia é sinônimo de capitulação e de renúncia a uma ‘identidade autônoma.

Urbino, Fevereiro de 1999

Numa encruzilhada: religião ou política?

Para analisar as ideias, as posições e os humores da esquerda contemporânea convém partir de um longo recuo no tempo

1. Uma experiência esclarecedora de quase dois mil anos

SETENTA ANOS DEPOIS DE CRISTO: a revolução nacional judaica contra o imperialismo romano é obrigada a capitular, após um implacável cerco que condenou Jerusalém não apenas à fome mas também à desintegração de todas as relações sociais: «[…] os filhos arrancavam o pão da boca dos pais e coisa mais dolorosa, as mães da boca dos filhos». Se terrível foi a coisa cerco, não menos terríveis foram as medidas tomadas para enfrentá-lo. Sem misericórdia, traidores e desertores reais ou potenciais, eram castigados com a morte; aos suspeitos ou doentiamente delatados, eram feitas falsas acusações frequentemente formuladas em privado, com fins privados e ignóbeis; nem velhos nem crianças foram poupados às torturas infligidas àqueles que se supunha terem escondido comida. Mas tudo isto de nada serviu: ao triunfo dos romanos correspondeu não apenas a morte dos dirigentes e militantes da revolução nacional, mas também o exílio e a diáspora de todo um povo.

Quem relata estes detalhes é um autor judeu que por algum tempo participou da luta de resistência, mas que passou para o lado dos vencedores, dos quais elogia magnanimidade e a invencibilidade. José — este é seu nome – tornou-se José Flávio, assumindo o nome da família dos que destruíram Jerusalém. Mais importante que esta mudança de lado é a experiência vivida pelos cristãos. Originariamente parte integrante da comunidade judaica, eles sentiram a necessidade de declarar que não tinham nada em comum com a revolução recém-subjugada. Continuaram a se apegar aos textos sagrados, sagrados também para os revolucionários derrotados, que foram acusados de tê-los desfigurado e traído.

É uma dialética que se pode seguir de perto a partir, principalmente, do Evangelho de São Marcos, escrito imediatamente após a destruição de Jerusalém. Uma catástrofe prevista por Jesus: «Não permanecerá pedra sobre pedra». E a chegada de Jesus, o Messias, foi por sua vez profetizada por Isaías. A tragédia que se abateu sobre o povo judeu não deve ser principalmente imputada ao imperialismo romano: por um lado, já estava escrita na economia divina da salvação; de outro lado, foi resultado de um processo de degeneração interna da comunidade judaica. Os revolucionários cometeram o erro de interpretar a mensagem messiânica pelo viés mundano e político, e não pelo lado espiritualista e intimista: o horror e a catástrofe foram o resultado inevitável desta desnaturação e traição. Distanciando-se claramente da revolução nacional judaica, derrotada pelo imperialismo romano, os cristãos distanciaram-se também, com a mesma nitidez, da ação histórica e política enquanto tal.

2. História das classes subalternas e história dos movimentos religiosos

Gramsci esclareceu que, mesmo no mundo contemporâneo, as posições religiosas (mais ou menos explícitas) podem muito bem se manifestar no âmbito dos movimentos de emancipação das classes subalternas. Vejamos a dialética que se desenvolveu em seguida ao colapso do “socialismo real”. Deixemos, porém, de lado aqueles que sofregamente saltaram para o carro dos vencedores. Concentremo-nos, em vez disso, no desgaste, na devastação espiritual e política que tal fracasso produziu em determinados setores do movimento comunista. Assim como os cristãos do Evangelho de São Marcos, dirigindo-se aos próprios vencedores romanos se empenhavam em declarar seu total distanciamento em relação à revolução nacional judaica recém-derrotada, do mesmo modo, em nossos dias, procedem não poucos comunistas: rechaçam, indignados, a suspeita de qualquer vínculo com a história do «socialismo real», e, reduzindo esta história a uma simples cadeia de horrores, esperam readquirir credibilidade, desta vez aos olhos da própria burguesia liberal.

Marx sintetizou a metodologia do materialismo histórico afirmando que «os homens fazem eles próprios sua história, mas não em circunstâncias escolhidas por eles». Nos nossos dias, se alguém tenta timidamente chamar a atenção para o estado de excepção permanente no qual se desenvolveu a experiência iniciada com a Revolução de Outubro e alguém procura pesquisar concretamente as «circunstâncias» objetivas nas quais se insere a tentativa de construção de uma sociedade pós-capitalista, eis que os «comunistas» êmulos da primitiva comunidade cristã, esbravejam contra a ignóbil tentativa «justificacionista». Para entender a posição destes «comunistas», mais vale recorrer ao Evangelho de São Marcos do que À Ideologia Alemã ou ao Manifesto do Partido Comunista. Aos olhos deles, o cerco imperialista ao «socialismo real» e à revolução socialista é irrelevante, assim como aos olhos da primitiva comunidade judaico-cristã era insignificante o cerco romano a Jerusalém e à revolução nacional judaica. Nesta perspectiva, atormentar-se com uma pesquisa histórica concreta é desviacionismo e imoralidade: a única coisa que importa, verdadeiramente, é a autenticidade a pureza não contaminada da mensagem da salvação.

Em vez de constatar dolorosamente a vitória do imperialismo romano, a comunidade judaico-cristã parece alegrar-se com a queda e a destruição de Jerusalém: ela fora prevista por Jesus, portanto, a partir deste momento, é possível pregar a mensagem da salvação sem as mentiras e as traições próprias da política. Analogamente, em nossos dias, não poucos comunistas declaram ter experimentado uma sensação de alívio e de «libertação» com o colapso do «socialismo real»: finalmente, é possível voltar ao «autêntico» Marx e pregar a ideia do comunismo sem as manchas horríveis que sobre eia haviam depositado a história e a política.

3. ‘Volta a Marx” e o culto formalístico dos mártires

Eis que emerge a palavra de ordem «volta a Marx». Seria fácil demonstrar que Marx é o filósofo mais decisivamente crítico da filosofia dos retornos. Em sua época, desprezou aqueles que, em polêmica com Hegel, queriam voltar a Kant ou, definitivamente, a Aristóteles! Volta a entrar, no abc do materialismo histórico, a tese segundo a qual a teoria se desenvolve a partir da história, da materialidade dos processos históricos. O grande pensador revolucionário não hesitou em reconhecer o débito teórico contraído por ele em relação à breve experiência da Comuna de Paris: atualmente, ao contrário, décadas e décadas de um período histórico particularmente intenso, da Revolução de Outubro à chinesa, cubana etc., devem ser declaradas destituídas de significado e de relevância no que diz respeito à «autêntica» mensagem de salvação já consignada, de uma vez por todas, em textos sagrados, que teriam apenas de ser redescobertos e reanalisados religiosamente!

Por sua vez, os primeiros a não levarem a sério a palavra de ordem da «volta a Marx» são aqueles que a lançaram. Diversamente, como explicar a grande atenção que dedicam a Gramsci e Che Guevara? Trata-se de duas personalidades cujo pensamento e cuja acção pressupõem a revolução bolchevique e o desenvolvimento do movimento comunista internacional, em uma palavra, decênios e decênios de decisiva história mundial transcorridos após a morte de Marx e cujo desenrolar por ele não foram e não poderiam ter sido previstos! Em que texto de Marx se pode ler a previsão ou a justificativa de um socialismo em uma pequena ilha como Cuba, ou da guerrilha na Bolívia para promover uma revolução de tipo socialista? No que concerne a Gramsci, é notório que ele saúda Outubro como A revolução contra «o capital». Foram os mencheviques que lançaram, naquele momento, a palavra de ordem da «volta a Marx» (mecanicísticamente interpretado)! E a grandeza de Gramsci reside exatamente no fato de ter-se oposto a tudo isto.

Claramente, a fórmula do retorno a Marx é religiosa. Do mesmo modo que a primitiva comunidade cristã declarava o seu distanciamento em relação à revolução nacional judaica, contrapondo a ela lsaías e Jesus, assim determinados «comunistas» contemporâneos proclamam o seu distanciamento em relação à experiência histórica iniciada com a Revolução de Outubro, contrapondo a ela Marx e eles próprios.

Igualmente, apresenta características bastante singulares o apelo a Gramsci e Che Guevara. Em apoio aos dois age a lição de Lênin, que, ao contrário, é diligentemente acusado. Bastante diferentes entre si, Gramsci e Che Guevara têm em comum o fato de terem sido derrotados, de que não puderam participar da gestão do poder originado da revolução e que, em vez disso, sofreram a violência da ordem político-social existente. Por isso, destes dois eminentes expoentes do movimento comunista internacional se preza o martírio, não o pensamento e a acção política, que remetem a uma história obstinadamente ignorada.

4. Recuperar a dimensão e a autonomia política

Bastante graves são as consequências desta visão fundamentalmente religiosa. Limito-me a dois exemplos. Il Manifesto e Liberazjone justificadamente, condenam o embargo contra o Iraque e contra Cuba como um genocídio ou tentativa de genocídio, mas em seguida criticam os EUA por não renunciarem ao normal intercâmbio comercial com a China, acusada de sufocar os «dissidentes». Assim, para garantir o respeito aos «direitos humanos» na China, é chamado um país acusado de genocídio, e este país é, uma hora, acusado porque pratica o embargo, e na hora seguinte porque não o pratica ou não aplica a medida. Claramente, não há lógica; mas é inútil procurar traços, ainda que remotos, de lógica no discurso de uma consciência religiosa que se move em um espaço fantástico e que está unicamente preocupada em proclamar o próprio distanciamento do mal, onde quer que ele se manifeste: o embargo contra os povos cubano e iraquiano ou a repressão aos ‘dissidentes” na China.

Basta folhear qualquer texto de análise política e histórica para lermos que a atual campanha antichinesa é uma «consequência mais ou menos pretextuosa dos incidentes praça Tienanmen» [1] os EUA estão na realidade irritados com o fato de a «China ser o último grande território que escapa da influência política norte-americana, constitui a última fronteira a conquistar»[2]. Mas é irrelevante a análise histórica e política feita por uma consciência religiosa empenhada apenas em proclamar (e a gozar narcisisticamente) a própria pretensa pureza, O que importa se, ao invocar uma política de embargo contra o povo chinês, se legitima indiretamente o embargo já posto em prática contra povos iraquiano e cubano? A conquista norte-americana da «última fronteira» poderia significar o desmembramento da China (depois do da Iugoslávia e da URSS) e a catástrofe para seu povo; por sua vez, a derrota do grande país asiático reforçaria enormemente o imperialismo dos EUA e sua capacidade militar e política de impor o embargo e um estrangulamento genocida contra os povos iraquiano e cubano. Com tudo isso, é supérfluo interrogar-se sobre o primitivismo religioso de certos «comunistas».

Vejamos um outro exemplo. No Liberazione, pudemos ler artigos que, corretamente, comparam as facções mais radicais do movimento separatista aos nazistas[3]. Mas eis que, pouco depois, o mesmo jornal trava uma polêmica com os que invocam a intervenção da magistratura para pôr um fim à instigação ao ódio racial e aos preparativos de guerra civil contra-revolucionária realizados pela Liga Norte e pelo arquipélago separatista. Não parece que estes companheiros tenham se colocado um problema elementar: podem os comunistas invocar a impunidade para os bandos “nazistas”? Novamente, é inútil empenharmo-nos em procurar uma lógica diferente daquela, primitiva, de uma consciência religiosa ingênua. A violência, não importa qual seja, é condenada: o que importa se a condenação à repressão judiciária e policial estimula poderosamente a violência da Liga e nazista? De qualquer maneira, a alma está salva. Assiste-se, assim, a um paradoxo. Insistindo repetidamente no perigo do projeto da Liga, o Vaticano impulsiona de fato as instituições estatais a enfrentarem com decisão o perigo da divisão e da guerra civil contra-revolucionária, O Jesus que surge da derrota da revolução nacional judaica proclama: «Meu reino não é deste mundo». Levantando essa palavra de ordem estão hoje os «comunistas», muito mais que os cristãos!

Comparei a posição de determinados «comunistas» com a comunidade judaico-cristã. Mas é necessária uma precisão, A retirada intimista desta comunidade comporta um elemento positivo: o distanciamento de uma revolução nacional estimula a emergência de um pensamento universal. Ao proclamar o próprio distanciamento em relação a uma revolução e a uma experiência histórica desenvolvidas a partir da palavra de ordem declaradamente de valor universal, a retirada intimista contemporânea tem um significado unívoco de involução e regressão. Por isso é preciso esbravejar. É natural que uma derrota de proporções históricas estimule uma posição de tipo religioso. Catastrófico seria, porém, obstinar-se em tal atitude. Se não quiserem condenar-se à impotência e à subalternidade, aos comunistas impõe-se a reconquista da capacidade de pensar e de agir em termos políticos, e até mesmo de uma política sustentada por uma grande tensão ideal.


Notas:
[1] Jean, 1995, p. 205.
[2] Vailadão, 1996, p. 241.
[3] Caldiron, 1997

* Domenico Losurdo, filósofo e historiador, é Professor da Universidade de Urbino, Itália

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