Discurso de Putin em Davos

Vladimir Putin*    20.Feb.09    Outros autores


No seu discurso pronunciado em Davos, Vladimmir Putin põe em causa algumas medidas tomadas para o combate à crise e defende uma nova ordem internacional

Boa tarde colegas, senhoras e senhores,

Gostaria de agradecer aos organizadores do Fórum por esta oportunidade de partilhar o que penso sobre os desenvolvimentos económicos globais, bem como os nossos planos e propostas.

O mundo enfrenta agora a sua primeira verdadeira crise económica global, que continua a progredir a um ritmo sem precedentes.

A situação actual é muitas vezes comparada à Grande Depressão do final dos anos 1920 e princípios dos anos 1930. É verdade que há algumas semelhanças.

Mas há também algumas diferenças básicas. A crise afectou toda a gente nesta época de globalização. Independentemente do seu sistema político ou económico, todos os países descobriram que estão no mesmo barco.

Existe um determinado conceito, chamado tempestade perfeita, que designa uma situação em que as forças da natureza convergem num ponto do oceano e aumentam muitas vezes o seu potencial destrutivo. Aparentemente a crise actual assemelha-se a uma tempestade perfeita.

As pessoas responsáveis e bem informadas tem que preparar-se para ela. No entanto, ela mostra-se imprevisível.

Também a situação actual não é excepção. Embora a crise espreitasse, a maioria das pessoas esforçava-se por garantir a sua parte, quer se tratasse de um dólar ou de um bilião, e não quis prestar atenção à vaga que se formava.

Nos últimos meses, quase todos os discursos sobre o tema começavam com uma crítica aos Estados Unidos. Mas eu não farei nada disso.

Apenas quero lembrar-vos que, apenas há um ano, os delegados americanos, falando desta tribuna, destacaram a profunda estabilidade e as perspectivas optimistas da economia norte-americana. Hoje, os bancos de investimento, o orgulho de Wall Street, praticamente deixaram de existir. Em apenas 12 meses registaram perdas que ultrapassam os lucros obtidos nos últimos 25 anos. Só este exemplo reflecte a situação real melhor que qualquer crítica.

Chegou a altura de compreendermos o que se passa. Temos que, com calma, com humildade, avaliar as causas fundamentais desta situação e tentar descortinar o futuro.

Em nossa opinião, a crise foi provocada por uma combinação de diversos factores.

O sistema financeiro vigente falhou. A regulação insuficiente contribuiu para a crise, por não ter conseguido controlar periodicamente riscos tremendos.

Juntem-se a isto as desproporções colossais que se avolumaram nos últimos anos. Fundamentalmente, as desproporções entre a escala das operações financeiras e o valor base dos activos, bem como aquelas entre o peso acrescido dos empréstimos internacionais e a origem dos seus colaterais.

Todo o sistema de crescimento económico, em que um determinado centro regional continuamente imprime dinheiro e consome riqueza material, enquanto outro centro regional produz bens de baixo custo e economiza dinheiro impresso por outros governos, sofreu um enorme revés.

Gostaria de acrescentar que este sistema deixou regiões inteiras, incluindo a Europa, à margem dos processos económicos globais e impediu-as de tomar decisões económicas e financeiras essenciais.

Para além disso, a prosperidade gerada foi distribuída com extrema iniquidade entre os vários estratos da população. Isto aplica-se às diferenças entre estratos sociais em certos países, incluindo os mais desenvolvidos. E aplica-se igualmente às diferenças entre países e entre regiões.

Uma parte substancial da população mundial ainda não tem acesso a habitação condigna, a educação e a cuidados de saúde de qualidade. Mesmo a recuperação global que teve lugar nos últimos anos não logrou alterar radicalmente a situação.

Finalmente, a crise foi provocada por expectativas exageradas. Pretensões corporativas ligadas à exigência de crescimento constante aumentaram injustificadamente. A corrida entre os índices da bolsa de valores e a capitalização começou a sobrepor-se à crescente produtividade laboral e à real eficácia corporativa.

Infelizmente, não apenas na comunidade financeira se criaram expectativas exageradas, mas também nos padrões de consumo pessoais, em rápido crescimento, principalmente no sector industrial. Temos que admitir abertamente que tal crescimento não foi suportado por um potencial real. Daí resultou riqueza que não foi ganha através do trabalho, um empréstimo que terá que ser pago pelas gerações futuras.

Esta pirâmide de expectativas iria cair em derrocada mais cedo ou mais tarde. Na verdade, isto está a acontecer diante dos nossos olhos.

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Estimados colegas, é grande a tentação de tomar decisões simples e populares em tempos de crise. Contudo, poderíamos ter que enfrentar complicações bem maiores se tratássemos meramente os sintomas da doença.

Naturalmente, todos os governos nacionais e gestores empresariais têm que agir prontamente. Apesar de tudo, mesmo em circunstâncias extremas, é importante evitar tomar decisões de que nos possamos arrepender no futuro.

É por esta razão que gostaria de começar por referir medidas específicas que devem ser evitadas e que não serão implementadas pela Rússia.

Não podemos regressar ao isolacionismo e ao isolamento económico sem limite. Os líderes das maiores economias mundiais concordaram, durante a cimeira do G20 em Novembro de 2008, em não criar barreiras que dificultassem o comércio global e a circulação de capital. A Rússia partilha destes princípios.

Mesmo que um maior proteccionismo se revele inevitável durante a crise, todos devemos usar de parcimónia.

A intervenção excessiva na actividade económica e a crença cega na omnipotência do Estado são outros erros possíveis.

É verdade que atribuir ao Estado um papel de maior relevo em tempos de crise é uma reacção natural aos reveses do mercado. Ao invés de optar por mecanismos de regulação do mercado, há quem seja tentado a alargar o mais possível a intervenção económica do Estado.

A concentração de activos excedentes nas mãos do Estado é um aspecto negativo das medidas de prevenção da crise praticamente em todos os países.

No Século XX, a União Soviética tornou absoluto o papel do Estado. A longo prazo, isto retirou por completo a competitividade à economia soviética. Esta lição teve um preço elevado. Estou certo de que ninguém quererá vê-la repetir-se.

Também não devemos virar as costas ao facto de que o espírito de liberdade de empresa, incluindo o princípio de responsabilidade individual dos empresários, investidores e accionistas pelas suas decisões tem sido criticado nos últimos meses. Não há razão para crer que podemos atingir melhores resultados por passar a responsabilidade para o Estado.

E mais uma questão: as medidas de combate à crise não devem ascender ao populismo financeiro e à recusa de implementar políticas macroeconómicas responsáveis. O crescimento injustificado do défice orçamental e a acumulação das dívidas públicas são tão destrutivas como a agiotagem aventureira.

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Senhoras e senhores, infelizmente não soubemos até agora interpretar a verdadeira escala da crise actual. Mas uma coisa é certa: a extensão da recessão e a sua escala estarão em grande parte dependentes de medidas específicas de alta precisão, que devem ser planeadas por governos e por comunidades empresariais, e partir dos nossos esforços coordenados e profissionais.

Em nossa opinião, devemos primeiro compreender os erros do passado e, por assim dizer, fazer jogo limpo.

Isto significa que devemos encarar a realidade e amortizar todas as dívidas incobráveis e activos “tóxicos”.

É verdade que este processo será extremamente desagradável e doloroso. Nem todos conseguem aceitar estas medidas, temendo pelo seu capital, os seus bónus, ou a sua reputação. Contudo podemos «conservar» e prolongar a crise se não limparmos os nossos balanços financeiros. Acredito que as autoridades financeiras têm que desenvolver o necessário mecanismo para amortizar as dívidas correspondentes às necessidades actuais.

Segundo: para além de limpar os nossos balanços, já devíamos ter eliminado o dinheiro virtual, relatórios exagerados e taxas duvidosas. Não devemos alimentar quaisquer ilusões na avaliação da economia global e do mundo empresarial, mesmo que essas avaliações sejam levadas a cabo por auditores e analistas de peso.

De facto, a nossa proposta implica que a reforma do sistema de auditoria, contabilidade e avaliação seja baseada numa reversão do conceito básico de valor dos activos. Por outras palavras, as avaliações de cada indústria em particular têm que ser baseadas na sua capacidade de gerar valor acrescentado e não em conceitos subjectivos. Na nossa opinião, a economia do futuro tem que tornar-se uma economia de valores verdadeiros. Não é assim tão claro o modo como podemos aí chegar. Vamos pensar nisso juntos.

Terceiro: a dependência excessiva numa única moeda de reserva é perigosa para a economia global. Consequentemente, seria razoável encorajar o processo objectivo de criação de várias moedas de reserva fortes no futuro. Já devíamos ter começado a discutir detalhadamente os métodos para facilitar uma mudança suave e irreversível para este novo modelo.

Quarto: a maioria dos países convertem as suas reservas internacionais em moeda estrangeira, e portanto têm ainda que ser convencidas que as suas moedas são fiáveis. Aqueles que cunham moeda de reserva e de conta estão objectivamente interessados no seu uso por outros estados.

Isto realça a importância dos interesses recíprocos e da interdependência.

Consequentemente, é importante que os emitentes de moeda de reserva implementem políticas monetárias mais abertas. Para além disso, estes países têm que empenhar-se em cumprir normas internacionalmente reconhecidas de disciplina macroeconómica e financeira. Em nossa opinião esta exigência não é excessiva.

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro não é o único elemento a precisar de reforma. Enfrentamos uma problemática bem mais vasta.

Isto significa que um sistema baseado na cooperação entre vários centros tem que substituir o conceito obsoleto de mundo unipolar.

Devemos reforçar o sistema de reguladores globais baseados no direito internacional e num sistema de acordos multilaterais de modo a prevenir o caos e a imprevisibilidade num mundo com muitos pólos. Consequentemente, é muito importante que reavaliemos o papel das principais organizações e instituições internacionais.

Estou convencido de que podemos construir um sistema económico global mais equitativo e eficiente. Mas não é possível criar um plano detalhado hoje neste evento.

É contudo claro que cada país deve ter acesso garantido aos recursos vitais, a tecnologia nova e recursos de desenvolvimento. Do que precisamos são garantias que possam minimizar crises cíclicas.

Naturalmente, temos que continuar a discutir todos estes assuntos, incluindo na Cimeira dos G20 em Londres, que terá lugar em Abril.

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As nossas decisões têm que estar à altura da situação actual e contemplar as necessidades de um novo mundo que se seguirá à crise.

A economia global poderá enfrentar as inevitáveis crises energéticas e um futuro ameaçado ao mesmo tempo que a crise vai sendo ultrapassada.

Há três anos atrás, numa cimeira do Grupo dos Oito, levantámos a questão da segurança energética global. Exigimos a responsabilidade partilhada de fornecedores, consumidores e países de trânsito. Penso que é altura de criar mecanismos realmente eficazes que garantam este requisito.

A única forma de garantir segurança energética verdadeiramente global é criar interdependência, incluindo troca de activos, sem qualquer discriminação ou duplicidade de critérios. É este tipo de interdependência que verdadeiramente gera responsabilidade mútua.

Infelizmente a actual Carta Europeia da Energia não se revelou um instrumento de trabalho capaz de regular problemas emergentes.

Proponho que comecemos a delinear um novo quadro legal internacional para segurança energética. A implementação da nossa iniciativa poderá desempenhar um papel político comparável ao do tratado que estabeleceu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Isto equivale a dizer que os consumidores e os produtores iriam finalmente estar ligados a uma única verdadeira parceria energética baseada em princípios legais claros.

Cada um de nós compreende que flutuações intensas e imprevisíveis nos preços da energia são um factor colossal de desestabilização na economia global. A actual derrocada dos preços levará a um crescimento no consumo de recursos.

Por um lado, os investimentos na poupança de energia e em energias alternativas serão restringidos. Por outro, investir-se-á menos dinheiro na produção de petróleo, o que resultará na sua inevitável recessão. O que, no fim de contas, irá desencadear outra bolha de crescimento descontrolado dos preços e uma nova crise.

É necessário regressar a um preço equilibrado com base num equilíbrio entre oferta e procura e retirar à fixação dos preços um elemento especulativo gerado por muitos instrumentos financeiros derivados.

Garantir a circulação de recursos energéticos permanece um desafio. Há dois modos de o encarar e devem ser ambos prosseguidos.

O primeiro é seguir princípios de mercado globalmente reconhecidos de fixação de tarifas sobre serviços de transporte. Estes podem ser registados em documentos legais internacionais.

O segundo consiste em desenvolver e diversificar as rotas do transporte de energia. Temos vindo a trabalhar muito de acordo com estes princípios.

Só nos últimos anos, implementámos projectos como os gasodutos Yamal-Europa e Blue Stream. A experiência demonstrou a sua urgência e relevância.

Estou convencido que projectos como os dos gasodutos South Stream e North Stream são igualmente necessários para a segurança energética da Europa. Estima-se que a sua capacidade total seja qualquer coisa como 85 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano.

A Gazprom, juntamente com os seus parceiros Shell, Mitsui e Mitsubishi, irá brevemente lançar infra-estruturas para liquefacção e transporte de gás natural produzido na região de Sacalina. E isso também faz parte da contribuição da Rússia para a segurança energética global.

Estamos a desenvolver a infra-estrutura dos nossos oleodutos. A primeira secção do Oleoduto do Báltico (OB) já está completa. O OB-1 fornece cerca de 75 milhões de toneladas de petróleo por ano. Fá-lo directamente aos consumidores através dos nossos portos no Mar Báltico. Os riscos de transporte são deste modo completamente eliminados. Decorrem trabalhos para o design e construção do OB-2 (que poderá transportar 50 milhões de toneladas de petróleo por ano).

Tencionamos construir infra-estruturas de transporte em todas as direcções. O primeiro troço do Oleoduto Sibéria Oriental – Oceano Pacífico está na fase final. O seu termo será um novo porto petrolífero na Baía de Kozmina e uma refinaria de petróleo na região de Vladivostok. No futuro, um gasoduto será construído paralelamente ao oleoduto, em direcção ao Pacífico e à China.

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Ao dirigir-me aqui hoje a vós, não posso deixar de mencionar os efeitos da crise global sobre a economia russa. Nós também fomos seriamente afectados.

Contudo, ao contrário de muitos outros países, nós acumulámos grandes reservas. Elas aumentam as nossas possibilidades de atravessar com confiança o período de instabilidade global.

A crise tornou os problemas que tínhamos mais evidentes. Estes respeitam à ênfase excessiva em matérias-primas nas exportações e na economia em geral e a um mercado financeiro fraco. A necessidade de desenvolver um certo número de instituições de mercado fundamentais, sobretudo com ambiente competitivo, tornou-se mais premente.

Estávamos cientes destes problemas e procurámos enfrentá-los gradualmente. A crise apenas nos faz ir ao encontro das prioridades apontadas com maior dinamismo, sem mudar a estratégia propriamente dita, que deverá conduzir a uma renovação qualitativa da Rússia nos próximos 10 a 12 anos.

A nossa política de combate à crise destina-se a apoiar a procura interna, a fornecer garantias sociais à população e a criar novos postos de trabalho. Tal como muitos países, reduzimos as taxas sobre a produção, deixando o dinheiro permanecer na economia. Optimizámos a despesa do Estado.

Mas, repito, em simultâneo com as medidas de resposta imediata, também estamos a trabalhar para criar uma plataforma para o desenvolvimento posterior à crise.

Estamos convencidos que aqueles que criarem condições favoráveis ao investimento global e forem capazes de preservar e reforçar recursos energéticos estratégicos tornar-se-ão líderes no restabelecimento da economia global.

É por isso que temos entre as nossas prioridades a criação de um ambiente comercial favorável e o desenvolvimento de um ambiente competitivo; o estabelecimento de um sistema de empréstimo estável com base em recursos internos suficientes; e a implementação de um sistema de transporte e outros projectos infraestruturais.

A Rússia é já um dos principais exportadores de um certo número de produtos alimentares básicos. E a nossa contribuição para garantir a segurança alimentar global apenas irá aumentar.

Também vamos desenvolver activamente os sectores de inovação da economia. Acima de tudo, aqueles em que a Rússia tem um espaço fulcral de competitividade, como a energia nuclear ou a aviação. Nestas áreas estamos já a estabelecer activamente laços de cooperação com outros países. Uma área prometedora para esforços conjuntos poderá ser a da economia energética. Nós consideramos a melhoria da eficiência energética um dos factores chave para a segurança energética e desenvolvimento futuro.

Continuaremos as reformas na nossa indústria energética. Iremos adoptar um novo sistema de fixação interna dos preços com base em tarifas economicamente viáveis. Isto é importante, também para encorajar a poupança de energia. Continuaremos a nossa política de abertura ao investimento estrangeiro.

Acredito que a economia do século XXI é uma economia de pessoas e não de fábricas. O factor intelectual tornou-se crescentemente importante na economia. É por isso que planeamos dar às pessoas mais oportunidades para que compreendam o seu potencial.

Já somos um país com um nível elevado de instrução. Mas precisamos que os cidadãos russos obtenham formação da mais elevada qualidade e actualidade, e tais competências profissionais serão muito procuradas nos dias de hoje. Portanto, seremos pró-activos na promoção de programas educacionais em especialidades de relevo.

Iremos desenvolver programas de intercâmbio de estudantes, dar formação aos nossos estudantes nas melhores faculdades e universidades estrangeiras e com as empresas mais avançadas. Também criaremos condições para que os melhores professores e investigadores, independentemente da sua cidadania escolham visitar e trabalhar na Rússia.

A História deu à Rússia uma oportunidade única. Os acontecimentos exigem que reorganizemos a nossa economia e actualizemos a nossa esfera social. Não queremos desperdiçar esta oportunidade. O nosso país deve emergir da crise renovado, mais forte e mais competitivo.

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Em separado, gostaria de comentar problemas que vão para além da agenda puramente económica, mas que apesar de tudo são muito importantes nas condições actuais.

Infelizmente, cada vez mais ouvimos o argumento de que o aumento do investimento militar poderia resolver os problemas sociais e económicos. A lógica é bastante simples. Um maior complexo militar cria mais postos de trabalho.

No imediato, isto parece um bom modo de combater a crise e o desemprego. Esta política pode até ser bastante eficaz a curto prazo. Mas a longo prazo a militarização não resolverá o problema, apenas temporariamente. O que fará é retirar grandes recursos financeiros e outros da economia em vez de encontrar melhores e mais sensatos usos para eles.

A minha convicção é que restrições razoáveis em despesa militar, especialmente a par de esforços para aumentar a segurança e estabilidade globais, trarão certamente dividendos económicos significativos.

Espero que este ponto de vista venha a imperar globalmente. Pela nossa parte, estamos activamente empenhados em discutir um desarmamento mais amplo.

Gostaria de chamar a vossa atenção para o facto de que a crise económica poderá agravar as actuais tendências negativas na política mundial.

O mundo tem vindo a enfrentar uma vaga de violência inaudita e agressões, tais como a incursão aventureira da Geórgia no Cáucaso, os recentes ataques terroristas na Índia, e a escalada de violência na Faixa de Gaza. Embora não pareçam directamente relacionados, estes acontecimentos têm ainda assim características comuns.

Refiro-me em primeiro lugar à incapacidade das actuais organizações internacionais para fornecer quaisquer soluções construtivas para os conflitos regionais, ou propostas eficazes para um entendimento entre estados e etnias. Os mecanismos políticos multilaterais demonstraram ser ineficazes como reguladores financeiros e económicos mundiais.

Sinceramente, todos sabemos que provocar instabilidade militar e politica, conflitos regionais e outros, constitui um meio de distrair o público de problemas sociais e económicos crescentes. Infelizmente não podemos proibir estas tentativas.

Para prevenir este cenário, temos que melhorar o sistema de relações internacionais, tornando-o mais eficaz, seguro e estável.

Há um grande número de assuntos importantes na agenda global, em que muitos países têm interesses comuns, incluindo medidas políticas para combater a crise, esforços comuns para reformar as instituições financeiras internacionais, melhorar os mecanismos de regulação, garantir segurança energética e mitigar a crise alimentar global, que constitui um problema que urge solucionar.

A Rússia quer contribuir para a resolução dos principais problemas internacionais. Esperamos que todos os nossos parceiros na Europa, na Ásia e na América, incluindo a nova administração norte-americana, se mostrem interessados em cooperar construtivamente na resolução de todos estes problemas e noutros. Desejamos sucesso à nova equipa.

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Senhoras e senhores, a comunidade internacional enfrenta um conjunto de problemas extremamente complexos, que podem parecer inultrapassáveis. Mas, como diz o ditado, uma longa viagem começa com um único passo.

Temos que procurar uma base segura, apoiando-nos nos valores morais que garantiram o progresso da nossa civilização. Integridade e muito trabalho, responsabilidade e autoconfiança conduzir-nos-ão ao sucesso.

Não devemos perder a esperança. A crise pode e deve ser combatida, inclusive com base nos nossos recursos intelectuais, morais e materiais.

Esta consolidação de esforços é impossível sem confiança mútua, não apenas entre empresários, mas antes de tudo entre países.

Consequentemente, encontrar esta confiança mútua é um objectivo fundamental em que nos devemos concentrar.

Confiança e solidariedade são a chave para ultrapassar os problemas actuais e evitar futuros choques para atingir prosperidade e bem-estar neste novo século.

Obrigado.


Tradução de André Rodrigues P. Silva

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