Do Heroísmo de Henri Alleg
à legalização da tortura num filme comovente

Miguel Urbano Rodrigues
03.Abr.09 :: Colaboradores
Henri Alleg
Neste artigo Miguel Urbano Rodrigues comenta um filme sobre Henri Alleg que está a ser exibido por televisões regionais francesas. Nele o escritor comunista evoca episódios da sua prisão durante a guerra da Argélia quando foi barbaramente torturado pelos paraquedistas do general Massu.
Alleg alerta para o facto de transcorridos 50 anos, as forças armadas dos EUA e de Israel continuarem a praticar a tortura , com a peculiaridade de contarem com cobertura legal para os crimes cometidos.

Televisões locais estão a transmitir em França um filme de choque: ”Henri Alleg, o homem de La Question ”.

Com poucas excepções, os grandes media ignoraram a iniciativa, porque o tema é incómodo para os detentores do Poder, conscientes de que as novas gerações assimilaram da história das guerras coloniais da França a visão distorcida que dela apresentam os manuais escolares.

O filme de Christoffe Kantcheff, muito belo, é mais literário do que político, mas provocou mal-estar no Governo de Sarkozy e no Alto Comando do Exército por recordar que a tortura foi uma prática rotineira durante a Guerra da Argélia.

Para avivar a memória dos franceses deste início do século XXI, Kantcheff funde passado e presente, numa obra em que a leitura de passagens de “La Question”, num cárcere imundo, por um grande actor contemporâneo, alterna com o testemunho de Alleg que, ao responder a jovens que o cercam numa sala de conferências, evoca hoje as torturas a que foi submetido.

Publicado no auge da guerra da Argélia em 1958, “La Question” – palavra que a Inquisição utilizava na Idade Media para designar a tortura – foi apreendida, mas a vaga de emoção e escândalo desencadeada pelo livro varreu a França.

Dois Prémios Nobel, Roger Martin du Gard e François Mauriac e dois grandes escritores, Jean Paul Sartre e André Malraux , assinaram então um documento, exigindo do governo francês uma resposta às gravíssimas denúncias de Alleg, torturado pelos paraquedistas do general Massu.

Traduzido em 30 línguas, o livro correu pelo mundo e a indignação suscitada pelas revelações nele contidas, ao enlamearem a imagem de honra cultivada pelo Exército francês, contribuíram para apressar o fim da guerra suja e criminosa da Argélia.

Mas numa época como a nossa de desinformação e perversidade mediática em que jovens franceses, na resposta a inquéritos de opinião, afirmam que a URSS foi aliada da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial, não é surpreendente que ignorem os crimes cometidos nas guerras coloniais do seu país.

É portanto compreensível a emoção suscitada pelo filme de Kantcheff. Milhares de telespectadores ouviram com um sentimento de angústia Henri Alleg ao lado do edifício da antigo centro de terror de El Biar, onde foi torturado barbaramente pelos oficiais da 10º Divisão de paraquedistas, contar estórias de horror que se diria terem ocorrido numa terra inimaginável.

E contudo elas foram bem reais. Essas coisas aconteceram há cinquenta anos.
Henri Alleg, preso por defender como director do diário “Alger Republicain” (já então proibido e encerrado), o direito do povo muçulmano argelino à autodeterminação, foi tratado como um animal por oficiais franceses que o submeteram a torturas que figuravam nos manuais da Gestapo hitleriana.

E a tudo resistiu. Não falou quando lhe aplicaram choques eléctricos na boca e no sexo, e calado permaneceu quando o penduraram de cabeça para baixo, como se fora um porco depois de abatido. Resistiu inclusive à injecção do pentotal, o mal chamado “soro da verdade”.

Neste tempo de crise de civilização, em que os detentores do poder glorificam a religião do dinheiro e tudo fazem para reescrever a Historia, é reconfortante escutar a palavra de Henri Alleg. Como revolucionário e comunista, ele sentiu, depois de transferido de El Biar para a prisão

Barberousse, que era seu dever levar ao conhecimento do povo francês o que se passava naquele centro de horrores. E decidiu escrever não um simples folheto sobre a sua experiência pessoal, mas “La Question”, o livro que se tornaria com os anos best seller mundial.

Utilizando um caderno em que teoricamente preparava a sua defesa, conseguiu fazer sair do presídio, por mãos de advogados vindos de França (alguns assassinados pelos fascistas da OAS), quatro folhas de cada vez, em letra miudinha, o texto que pouco a pouco ia redigindo, iludindo a vigilância dos guardas.

Não foi aliás por acaso que o Partido Comunista Português, então na clandestinidade, distribuiu o livro aos seus militantes, em edição copiografada, por ver em Alleg exemplo de comportamento exemplar de um comunista preso e torturado.

O filme de Christophe Kantcheff procura sobretudo iluminar o homem e a sua coragem, como paradigma do heroísmo individual. O combatente revolucionário aparece esbatido, o que é pena.

Não creio que qualquer dos canais portugueses de televisão o inclua na sua programação. O tema da guerra colonial também em Portugal continua a incomodar aqueles que aqui exercem o poder económico e o político.

É difícil esquecer que nem um só dos oficiais paraquedistas que torturaram Henri Alleg em El Biar foi punido pelos seus actos criminosos. Todos foram promovidos posteriormente de acordo com a antiguidade e alguns condecorados por serviços à pátria.

Sucessivos governos da França e o alto comando do seu Exército não reconheceram até hoje a prática da tortura durante a guerra da Argélia.

É útil esclarecer que no filme de Kantcheff, Alleg, estabelecendo uma ponte entre o passado e o presente, sublinha, dirigindo-se aos jovens que o ouviam, que a tortura no mundo actual não somente permanece como em alguns países tem cobertura institucional. E cita os casos dos EUA e de Israel. No primeiro, o Congresso, sob proposta do ex-presidente George Bush, aprovou uma lei que autoriza certas formas de tortura (algumas foram rotineiras em Guantanamo e no presídio iraquiano de Abu Ghraib). No tocante a Israel, generais sionistas reconheceram que, em 2006, durante a guerra de agressão ao povo do Líbano, utilizaram, com aprovação oficial, manuais das SS nazis.

Senti que deveria escrever estas linhas ao ver “Henri Alleg, l’homme de La Question”. É para mim motivo de orgulho que o autor de Mémoire Algérienne me inclua entre os seus amigos.

Uma longa vida abriu-me a possibilidade de conhecer e por vezes trabalhar com grandes revolucionários do século XX. Em Henri Alleg identifico um dos mais puros e autênticos comunistas que conheci.

Vila Nova de Gaia, 31 de Março de 2009