A Gripe suína e o monstruoso poder da grande indústria pecuária

Mike Davis*    08.May.09    Outros autores

Mike Davis
O autor, Mike Davis, explica como a grande industria agro-pecuária globalizada é responsável por uma mais que preocupante erupção de gripe suína no México e denuncia a leviandade com que as autoridades de saúde, desde a OMS às autoridades nacionais dos EUA e da UE se prepararam para a mais que esperada pandemia de gripe suína.

A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebida no lodaçal fecal de uma pocilga industrial, subitamente, ameaça com febre o mundo inteiro. Os pimpolhos da América do Norte apresentam uma infecção que já viaja a uma velocidade maior que aquela a que viajou a última pandemia oficial, a gripe de Hong-Kong em 1968.

Roubando protagonismo ao nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que o Síndroma Respiratório Agudo (SARS nas sua sigla em inglês) em 2003 mas, como gripe, pode vir a ser mais duradoura que o SARS. Dado que as domesticadas gripes de época de tipo A matam nada menos do que um milhão de pessoas por ano, um modesto incremento da virulência, especialmente se vier combinado com uma elevada incidência, poderá provocar uma carnificina equivalente a uma guerra importante.

Isto é, uma das primeiras vítimas foi a consoladora fé, inveteradamente pregada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com a resposta imediata das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local.Desde as primeiras mortes de H5N1, em Hong-Kong, a OMS promoveu, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, uma estratégia centrada na identificação e isolamento de um novo foco de pandemia, seguidos de uma massiva administração de antivirais e – se disponível – de vacinação da população.

Uma legião de cépticos criticou esta concentração na contra-insurreição viral, afirmando que os micróbios podem agora voar por todo o mundo – quase literalmente no caso da gripe das aves – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco original. Esses peritos observaram também o carácter primitivo, e amiúde inexistente, da vigilância, através de interface, entre as doenças humanas e as dos animais. Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe das aves teve um resultado valiosíssimo para a causa dos países ricos como o Reino Unido e os EUA, que preferem investir nas suas próprias linhas Maginot biológicas, em vez de incrementar de forma radical a ajuda aos focos epidémicos surgidos no ultramar. Este mito também não custou nada às transnacionais farmacêuticas, confrontadas numa guerra sem quartel com as exigências dos países em vias de desenvolvimento, empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos chave, como o Tamiflu patenteado pela Roche.

A versão da OMS e dos centros de controlo de doenças, de acordo com a qual já se está preparado para uma pandemia, sem necessidade de outros investimentos massivos na vigilância, em infra-estruturas científicas e reguladoras, em saúde pública básica e acesso generalizado a fármacos vitais, está agora definitivamente posta à prova pela gripe suína, e talvez venhamos a concluir que pertence à mesma categoria de gestão «malsã» do risco dos títulos e obrigações de Madoff. Não é assim tão difícil o falhanço dos sistemas de alerta, se tivermos em conta que estes, simplesmente, não existem. Nem sequer na América do Norte e na União Europeia.

Talvez não seja surpreendente o México carecer tanto de capacidade como de vontade política para gerir doenças avícolas e de gado, pois sucede que a situação só é um pouco melhor na fronteira norte, onde a vigilância se desfaz num pouco feliz labirinto de jurisdições estatais, e onde as grandes empresas pecuárias vêem as regulamentações sanitárias com o mesmo desprezo com que costumam tratar os trabalhadores e os animais. Do mesmo modo, também fracassou toda uma década de advertências dos cientistas para garantir a transferência de sofisticada tecnologia viral experimental para os países situados em rotas pandémicas mais prováveis. O México conta com peritos sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. E nisto se perdeu uma semana…

Mas ninguém de somenos pode lançar um alerta a não ser as autoridades de controlo de doenças em Atlanta. De acordo com o Washington Post, o Centro de Controlo de Doenças [CDC na sua sigla em inglês], só se apercebeu do erupção do virus seis dias depois de o México ter começado a impor medidas urgentes de prevenção. Não há desculpa que os salve. O paradoxal desta gripe suína é que, ainda que totalmente inesperada, tinha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science, consagrou um importante artigo em que se salientava que «depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte deu um salto evolutivo vertiginoso».

Desde a sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só tinha experimentado uma ligeira mutação desde o seu genoma original. Depois, em 1998, uma sua variedade muito patogénica começou a dizimar porcas numa quinta da Carolina do Norte, e começaram, ano pós ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes internos do H3N2, a surgir novas e mais virulentas versões (causa da outra gripe de tipo A que se propaga entre os humanos).

Os investigadores entrevistados pela revista Science mostravam-se preocupados pela possibilidade de algum desses híbridos poder converter-se num vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e a de 1968 foram provocadas por uma mescla de genes avícolas e humanos urdida no interior de organismos porcinos – e urgiam a criação de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: admoestação, importa dizê-lo, a que um Washington, então disposto a atirar milhares de milhões de dólares pelo esgoto das fantasias bioterroristas, prestou orelhas moucas.

O que provocou uma tal aceleração da gripe suína? Há muito que os virólogos estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vector da mutação gripal: tanto da «deriva» estacional como do episódico «intercâmbio» genómico. Mas a industrialização em grandes empresas da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. Nas últimas décadas o sector pecuário transformou-se numa coisa mais parecida com a indústria petroquímica do que com a feliz quinta familiar que nos descrevem os livros de leitura do ensino básico.

Em 1965,por exemplo, havia nos EUA 53 milhões de porcos repartidos entre mais de um milhão de quintas; hoje 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a ciclópicos infernos fecais onde, entre esterco e debaixo de um calor sufocante, condições ideias para intercambiar agentes patogénicos à velocidade de um raio, se amontoam dezenas de milhares de animais com mais que debilitados sistemas imunitários.

O ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a «produção animal em quintas industriais» onde se destacava o perigo eminente da «contínua circulação do vírus (…), característica de enormes varas de porcos e rebanhos, incremente as oportunidades de aparecimento de novos vírus mais eficazes na transmissão entre os humanos». A comissão também alertou para o promíscuo uso de antibióticos nas suiniculturas – mais baratos que para os humanos – estava a proporcionar o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que os seus dejectos geravam o aparecimento de escherichia coli (o protozoário que matou milhares de milhões de peixes nos estuários de Carolina e contagiou dezenas de pescadores).

Qualquer melhoramento ecológico deste novo agente patogénico teria de se confrontar com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (porcino e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática às suas investigações por parte das grandes empresas, e mesmo de umas nada discretas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que trabalham com a comissão.

Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Tal como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Banguecoque, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe das aves mo sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense da erupção da gripe suína parta a cabeça contra a férrea muralha da indústria dos porcos.

Isso não quer dizer que nunca vá encontrar uma acusadora pistola fumegante: na imprensa mexicana já corre o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial da Smithfield, no Estado de Veracruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – não são as árvores, é a floresta: a fracassada estratégia antipandémica da OMS, a progressiva degradação da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas sobre medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é a produção pecuária industrializada e ecologicamente desequilibrada.

* Mike Davis é articulista do The Guardien e membro do Conselho Editorial de Sinpermiso

Este texto foi publicado em www.sinpermiso.info

Tradução de José Paulo Gascão

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