Ucrânia: estação terminal

CEDRI*    03.May.09    Outros autores

Refugiados africanos no marOs países ricos da UE descobriram uma forma expedita de se verem livres dos refugiados que procuram matar a fome na Europa desenvolvida: enviam-nos para a Ucrânia, onde são encerrados em campos de refugiadosm, onde são desrespeitados os mais elementares Direitos do Homem!
O Comité Europeu para a Defesa dos Refugiados e Imigrantes (CEDRI) fez recentemente uma visita a alguns desses campos. O texto que hoje publicamos é o relato dessa visita de inspecção.

Ficámos desconfiados face a este silêncio. Onde estão actualmente os refugiados? Os países europeus continuam a expulsá-los para a Ucrânia que tem fronteiras comuns com a Polónia, a Eslováquia, a Hungria e a Roménia. Para um crescente número de migrantes a Ucrânia é a estação terminal do seu caminho para ocidente. As nossas amigas e amigos no terreno tinham conhecimento de alguns indícios que gostaríamos de seguir. O que vimos, perturbou-nos.

Terça-feira, 10 de Março, visitámos, graças ao talento negociador dos nossos colaboradores, um campo no quartel dos guardas fronteiriços ucranianos em Chop, uma cidade na fronteira húngara. Até agora quase ninguém tivera acesso a este campo. Acompanhados por representantes da Caritas de Igreja local, encontrámo-nos com o major dos guardas fronteiriços, que nos conduz na visita pelas instalações.

Leva-nos primeiro a um pavilhão que foi remodelado através de recursos da UE e da Caritas Austríaca. Na parte esquerda do edifício está o sector das mulheres e no da direita o dos homens. O oficial mostra-nos a cozinha comum na ala das mulheres e dos quartos. Aí apenas se encontra uma mulher idosa proveniente da Moldávia. Está sentada na sua cama, prostrada e silenciosa. Mostra-nos uma porta fechada à chave que conduz a um pátio cercado por rede, “destinado às crianças”.

Uma cerca apresenta-se perante nós; chegamos ao sector dos homens. O ar é sufocante. Um estreito corredor central estende-se à nossa frente, de cada lado estão quatro celas, habitadas por 3-4 pessoas, fechadas por pesadas portas de aço. Duas estão vazias. Dois olhos plenos de esperança observam-nos através de um postigo do tamanho de uma carta de correio. Chegamos a comunicar com alguns refugiados através destas pequenas aberturas. Dois jovens Georgianos estão aqui há três meses; um deles não come quase nada e o outro queixa-se da água que é intragável. Um homem originário do Paquistão pergunta quando poderá finalmente fazer um pedido de asilo. Ao todo o pavilhão tem a capacidade de acolher 44 pessoas. Não vemos, no entanto, mais de 20. Inicialmente tinham-nos dito que o número de ocupante se cifrava em 120 pessoas. Onde estão os outros? Insistimos inúmeras vezes junto do major sobre o facto de querermos ver os outros refugiados. Após longas hesitações leva-nos a um outro edifício.

Um guarda em uniforme de combate abre-nos a cerca. Encontramo-nos num corredor sombrio: há uma avaria na electricidade. As portas das celas são abertas e, a pouco e pouco, alguns jovens afluem ao corredor. Eles estão de pé, frente a nós e à nossa volta. Homens que vêm da Somália, do Iraque, da Eritreia, da Palestina, da Tchechénia, do Afeganistão. Um Palestiniano falando bem o francês e implora-nos: são 27 pessoas numa cela de 5 metros por 5, com quatro camas de três níveis. Eles têm que se revezar para poderem dormir. A comida é miserável, não há água em condições, não há água quente nem duches. Têm que pedir aos guardas para ir aos sanitários. Reina um cheiro incrível. Ao todo, o sector conta com quatro celas com aproximadamente 100 pessoas. Não têm direito a respirar ar fresco no pátio interior mais que duas vezes por mês, mesmo sendo o ar das celas irrespirável. Um jurista vem de duas em duas semanas. Mas jamais alguém teve notícias dos seus pedidos de asilo.

Os cofres do Estado Ucraniano estão vazios. O dinheiro quase que não chega para pagar o soldo dos seus próprios guardas fronteiriços. Até ao momento era a Caritas local que assegurava por assim dizer a alimentação das pessoas internadas. A obra de caridade levava água potável em garrafas, comida, roupas, produtos de higiene e medicamentos. Era ela também que remunerava uma assistente social e a visita dos juristas. Contudo, os recursos da Caritas estão igualmente esgotados, porque a UE não dá mais dinheiro. Ninguém sabe como a situação vai poder continuar.

Na mesma visita encontrámo-nos com o Delegado para a Migração do Ministério das Nacionalidades e Religiões em Oujgorod, a capital da Transcarpácia. Ele assegura-nos que não tem recebido mais pedidos de asilo apresentados por refugiados do campo de Chop, para submeter ao Ministério da Defesa. O delegado não tinha qualquer contacto com o campo.

Mais tarde, em Oujgorod, encontrámos cinco refugiados somalis que tinham conseguido entregar um pedido de asilo. Em seguida tinham obtido uma autorização de estadia provisória, mas sem qualquer possibilidade de obterem asilo. Não têm o direito de trabalhar nem recebem qualquer ajuda. Vivem nove num compartimento minúsculo. Os policias remexem e interrogam-nos quase diariamente. Dificilmente passeiam nas ruas com medo das agressões racistas. A sua voz é hesitante, têm medo e recusam-se a falar mais.

Dois dias mais tarde. Encontramo-nos a 500 km mais ao norte do pais, na direcção de Ludsk. É aqui que um campo “modelo” está construído, segundo um plano da Organização Internacional para as Migrações. A OIM é uma organização intergovernamental, que se ocupou, por exemplo dos campos de internamento dos boat people nas longínquas ilhas do Pacífico, por mandato da Austrália. O campo ucraniano situa-se nos confins de uma floresta pantanosa, no lugar de uma antiga base soviética de mísseis nucleares. O local está cercado por um alto muro branco encimado por fios de arame farpado resplandecentes. Os edifícios estão renovados, com boa aparência e limpos. Em resumo, uma prisão perfeita, sob controle do Ministério do Interior, com policias e também com pavorosos guardas em uniformes negros, munidos de longas matracas. Mulheres de impecáveis blusas brancas deambulam pelos corredores como se se tratasse de uma clínica.

Um verdadeiro goulag moderno. O campo está preparado para 180 pessoas mas apenas 29 aí estão encerradas. Percebemos que também aí faltava dinheiro para poder alimentar um maior numero de ocupantes. O ocidente contentou-se em financiar a renovação. Os refugiados ficam aí no máximo 6 meses e são em seguida deixados sem trabalho, sem alojamento nem dinheiro em qualquer lugar nos campos. Levam-nos a uma casa onde se encontram os refugiados; estão sentados numa sala de repouso cercada por rede, como que paralisados. Não querem falar perante os guardas, têm medo. Deixamos o lugar arrepiados. Ucrânia: estação terminal.

Que podemos fazer? No decurso da nossa viagem encontrámos numerosas comissões que constituem a base de uma futura sociedade civil. Graças a elas podem ser elaborados projectos de desenvolvimento com as populações autóctones ; graças a elas o tráfico de seres humanos é combatido; graças a elas pudemos visitar os campos. Elas gostariam de fazer qualquer coisa pelos refugiados e nós queremos apoiá-las nas suas acções. Ajudem-nos a apoiá-las! Cem francos de cá são uma grande quantia lá.

No imediato: grande urgência de água potável, comida, vestuário e medicamentos para os refugiados do campo de Chop, bem como conselheiros jurídicos independentes, no campo e à sua volta. É necessário criar um fundo de urgência para os refugiados pobres que se encontram nas cidades, que será gerido pelos nossos colaboradores no local.

A médio prazo: queremos promover a instalação de campos “abertos” e permanentes, nos quais os refugiados possam receber conselhos, cuidados médicos, e nos quais possam encontrar a paz, como alternativa aos campos aferrolhados. Além disso é urgente sensibilizar a população ucraniana sobre a situação aflitiva em que vivem os refugiados, para evitar violências xenófobas.

A longo prazo: organizar uma campanha de informação no nosso país e nos restantes países europeus com o objectivo de suprimir os envios para a Ucrânia. Temos em preparação um dossier detalhado destinado às organizações sobre refugiados e à comunicação social, que enviaremos a pedido.

Não podemos aceitar que os Estados ricos europeus tentem desembaraçar-se do problema dos refugiados repelindo-os para os países mais pobres da periferia da Europa. Agradecemos antecipadamente a vossa solidariedade.

* O CEDRI é o Comité Europeu para a Defesa dos Refugiados e Imigrantes.

Tradução : Guilherme Coelho

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