Os principais diários do mundo estão falidos

Inês Hayes*
04.Mai.09 :: Outros autores
Crise nos media
Também a imprensa sofre o vendaval da crise económica que sacode o mundo. E tal como outros sectores também são os trabalhadores as primeiras vítimas, inclusive os jornalistas que modelam a realidade nos centros de fabricação de notícias.

Derrocada

Não é a primeira vez que os principais porta-vozes do capital internacional estão na bancarrota. Nos Estados Unidos, diários centenários despedem-se dos seus leitores para sempre, deixando na rua milhares de trabalhadores. As acções dos empórios mediáticos caiem a pique nas bolsas. Cidades inteiras ficam sem jornais impressos. Desesperados, alguns meios de comunicação decidem passar à Internet e cobrar um tanto pela leitura dos seus artigos. O grupo espanhol PRISA, editor do El País, perdeu no último período 95% do seu valor bolsista: uma acção sua vale menos do que um exemplar do jornal. Na América Latina, apesar dos empresários negarem os efeitos da crise, os seus ecos ensurdecem os trabalhadores do continente que vêem os seus salários reduzidos e os seus direitos laborais não reconhecidos. A imprensa do capital tem a mesma sorte do sistema que serve.

A falência dos principais diários do planeta é notícia desde meados de 2008. Os grandes porta-vozes do capital internacional caiem como peças de dominó, deixando fora do tabuleiro milhares de trabalhadores em todo o mundo.

Em princípios de Março, a empresa editorial McClatchy Company, proprietária de 30 diários, entre eles o Miami Herald, anunciou que projectava eliminar 1.600 postos de trabalho, equivalentes a 15% da sua força de trabalho.

A quebra das vendas publicitárias provocada pela crise mundial do capitalismo, reduzirá enormemente a tiragem do Miami Herald, uma das mais aguçadas pontas de lança do imperialismo contra Cuba. Nascido em 1903 como Miami Evening Record, ganhou inúmeros prémios Pulitzer e, ainda tem uma tiragem diária de 210 mil exemplares, mas agora, 175 trabalhadores perderam o seu trabalho e os restantes viram diminuído seu salário.

A empresa, que também é proprietária do The Sacramento Bee, planeia para 2009 uma profunda redução dos custos: espera poupar entre 100 e 110 milhões de dólares e reduzir drasticamente os seus dividendos em 90%. Como parte das medidas de poupança o formato do Miami Herald será reduzido para 44 polegadas e acabará a sua edição internacional.

No final de 2008, a empresa tinha uma dívida de cerca 2.040 milhões de dólares, a maior parte da qual relacionada com a aquisição em 2006 da cadeia de jornais Knight Ridder. Segundo informou o presidente da empresa, Gary Pruitt, a redução de pessoal far-se-á através de reformas antecipadas, o que importará em cerca de 30 milhões de dólares.

«O impacte das reduções de emprego no El Nuevo Herald não tem correspondência com os lucros gerados pelo diário que, nos últimos cinco anos, que conheceu um aumento da sua circulação, disse Humberto Castelló, antes de renunciar ao seu lugar de director deste diário, também propriedade da McClatchy Company. El Nuevo Herald, surgiu em 1857 e é um dos três grandes diários em língua espanhola nos Estados Unidos. Depois de 25 anos de trabalho, o subdirector do jornal, Anthony Espetia, anunciou que também abandonará o seu lugar em Junho. Além da eliminação de postos de trabalho, os empregados que ganhem entre 25.000 e 50.000 dólares por ano terão uma redução de 5% do salário, e para os que recebem um salário superior a 50 mil dólares anuais a redução será de 10%.

Em 18 de Março, Seattle amanheceu sem um dos seus principais diários, The Post Intelligencer (The P-I). Depois de 146 anos de história, o matutino da Corporação Hearst não chegará mais às casas dos seus 117.600 assinantes; a partir de agora só poderá ser lido na Internet. O seu encerramento deixa a cidade apenas com um jornal diário impresso, o seu concorrente The Seattle Times. O peso dos 14 milhões de prejuízos do ano passado, no entanto, cai em cima das costas dos 140 jornalistas que ficaram sem trabalho. «Foi um dia muito triste para todos os que aqui trabalhamos», disse Rita Hibbard, subdirectora do diário a que dedicou 25 anos da sua vida.

«Ainda não consegui descobrir como se consegue transformar um prémio Pulitzer em dinheiro», afirmou Samuel Zell, proprietário do Tribune e Los Angeles Times, em declarações à revista Portfolio (os dois diários receberam 62 daqueles prémios, considerados como os Óscares do Jornalismo).

No final de 2008, TRibune Company, o segundo grupo mediático dos Estados Unidos, proprietário entre outros de The Baltimore Sun, apresentou-se à falência com dívidas acumuladas de 12.100 milhões de dólares. O gigante mediático pediu ajuda, ao abrigo do capítulo 11 da Lei das Falências, para reestruturar a sua dívida. Tribune Co. é também proprietária da equipa de beisebol Cachorros de Chicago e do estádio Wrigley Field e emite através de 23 canais de televisão. Os seus principais credores são o JP Morgan Chase e Merryl Lynch. O Tribune já despediu cntenas de empregados e deve pagar no próximo mês de Junho uma dívida de 512 milhões de dólares (cerca de 400 milhões de euros).

Entre 2007 e 2008, Gannett Company, a editora de jornais diários mais importante dos EUA, proprietária de 85 diários, eliminou mais de 8.300 postos de trabalho e está a preparar um plano de suspensão da maioria dos seus 31.000 empregados.

Outro dos gigantes mediáticos, EW Scripps Company, proprietário de 15 jornais diários e 10 estações de televisão, despediu 400 trabalhadores e encerrou o jornal Rocky Mountains News, a dois meses de festejar os 150 anos.

A empresa que publica o USA Today, o diário de maior circulação dos EUA, despediu mil trabalhadores em Agosto passado. Outros jornais estadunidenses como o The New York Sun e o Baltimore Examiner despediram-se para sempre dos seus leitores, deixando centenas de trabalhadores na rua.

O efeito de dominó sacode também os gigantes de The New York Times, Wall Street Journal e as revistas Time e Newsweek. No final de 2008, The New York Tmes teve que dar como garantia de um empréstimo seu edifício sede em Manhattan: Necessitava de 177 milhões de dólares para enfrentar um crédito de 412 milhões que se vence em Maio.

A diminuição de anunciantes, a queda das acções, das vendas e de leitores faz com que os media procurem desesperadamente qualquer acção que lhes permita salvarem-se.

Walter Isaacson, ex-director da revista Time e presidente da cadeia CNN concebeu um sistema de Internet através do qual os cibernautas devem pagar entre 2 e 19 dólares pelos artigos que desejem ler.Pela sua parte, a Newsweek, propriedade de The Washington Post também aposta nos poderes da Internet para não sucumbir perante a crise. Mesmo o famoso Washington Post passou de uma redacção de 900 jornalistas há seis anos, para menos de 700 na actualidade.

Em Janeiro de 2009, a falência chegou ao The Star Tribune de Minneapolis e, em meados de Fevereiro, as empresas editoriais do New Haven Register de Connecticut declara-se em bancarrota.

Uma semana mais tarde, o grupo de imprensa Hearst Corporation anunciou o corte nos trabalhadores do diário San Francisco Chronicle que, em 2008, registou perdas de mais de um milhão de dólares semanais. O grupo empresarial disse que o seu objectivo era reduzir custos e evitar o encerramento do jornal de maior tiragem da cidade californiana.

Nem sequer o News Corp, o grupo mediático do australiano Rupert Murdoch, se salva do colapso: o consórcio proprietário de The Wall Street Journal e The Sun acumulou perdas durante o último trimestre de 2008 de 6.400 milhões de dólares. Os jornais vedetas The New York Times, The Washington Post, The Chicago Tribune e Los Angeles Times ganham menos 25% do que há 15 anos.

Jornada nefasta para os jornais europeus

No velho continente, as crónicas do colapso não são muito diferentes. Prisa, o complexo mediático espanhol que edita El País tem uma dívida de mais de 5 mil milhões de euros. Além de ser proprietário do diário de maior tiragem de Espanha, possui o quotidiano desportivo As a editorial Santillana e a mega empresa de televisão Sogecable. As acções do grupo fecharam em princípios de Março a 0,99 cêntimos, menos que o preço de um exemplar de um diário.

Desde os 20,8 euros do ano 2000, quando as acções deste grupo foram lançadas no mercado, até aos 0,99 cêntimos deste ano, Prisa perdeu maisde 95% do seu valor bolsista.

O administrador-delegado do grupo empresarial, Juan Luís Cebrián, pediu a intervenção do Governo e do Parlamento para evitar a ruína do conglomerado mediático. «Milhares de jornalistas foram para a rua ou estão ameaçados de despedimento mas próximas semanas ou meses. Os meios de comunicação têm problemas em sobreviver, e esta é uma questão que afecta o conteúdo da democracia», disse Cebrián no Fórum da Nova Comunicação que reuniu em Maddrid os dirigentes dos mais poderosos media espanhóis. A intenção grupo Prisa de se converter um agente político opositor dos governos que na América Latina encabeçam um processo de mudanças radicais desvanece-se no éter, tal como as suas acções.

O di´rio El Mundo, principal concorrente de El País, também enfrenta problemas económico-financeiros que poderão significar a sua falência.

Outro dos jornais espanhóis de grande tiragem, o ABC, registou em Fevereiro perdas de 43 milhões de euros e os seus proventos publicitários reduziram-se 26%. 220 trabalhadores foram despedidos no último período e diminuíram-se os salários dos quadros dirigentes. La Razón, propriedade de Editorial Planeta, segue os passos de El Mundo e El País: já não têm colaborações externas e acordaram com os sindicatos congelar os salários dos trabalhadores.

«Em oito meses 1.850 jornalistas foram para a rua» informa a Federação de Associações de Jornalistas de Espanha (FAPE).

Apesar de ser o país mais atingido pela crise internacional, Espanha não é o único país europeu a ver como os seus empórios mediáticos se reduzem a escombros. Os jornais britânicos he Times, The Guardien, The Independt, The Finantial Times e The Daily Telegraph perdem centenas de leitores diariamente e anúncios publicitários em toda a Inglaterra. Em Itália, os media enfrentam a mais profunda derrocada de publicidade de 16 anos, enquanto as acções das 10 maiores empresas caem a pique. Em França, o presidente Sarkozy teve que injectar 765 milhões de euros para sustentar a indústria mediática. Mesmo assim, Le Monde reduziu a sua equipa em 20% com o despedimento de 130 trabalhadores e reformas forçadas. O jornal Liberación, nascido em Maio de 68 para desmascarar os efeitos desumanos intrínsecos ao capitalismo, foi comprado pelo banqueiro Edouard Rothschild.

América Latina: más notícias para os grandes diários

Apesar de na América Latina ainda não se terem registado falências nos grandes diários, os efeitos da crise começam a ser palpáveis. Na Argentina, o grupo La Nación fechou a revista Cinemania e planeia reduzir o formato de Rollig Stone. Apesar de dizerem que os jornalistas da revista de cinema serão colocados noutras publicações, já houve vários despedimentos.

«Há ajustes e despedimentos encobertos», diz Edgardo Miranda, secretário da União de Trabalhadores de Imprensa de Buenos Aires (UTPBA). Até agora, mais de 50 empregados administrativos do grupo La Nación estavam em conciliação obrigatória, analisando se aceitavam as reformas voluntárias propostas pela empresa.

Por seu lado, Clarín, figura de proa de um poderosíssimo grupo que inclui o monopólio da televisão por cabo, neste momento duramente disputado pelas multinacionais de telecomunicações, elaborou uma lista de reformas voluntárias e pressiona com os métodos habituais os jornalistas para reduzir o seu número, tentando evitar o conflito laboral. Outros media de limitadíssima circulação na Argentina (tanto favoráveis ao governo como opositores que vendem entre dois e quatro mil exemplares diários) são artificialmente mantidos por razões políticas. E os seus trabalhadores sentem que as novas condições determinadas pela crise o seu trabalho está ameaçado.

Se bem que as falências dos grandes diários estadunidenses e a queda do gropo espanhol Prisa aparecem nas primeiras páginas de La Nación e Clarín, os matutinos de maior tiragem na Argentina, os seus próprios problemas económicos ficam fora das suas agendas mediáticas. Nada dizem sobre as quedas das suas vendas. A média de vendas de Clarín caiu pelo terceiro ano consecutivo e não consegue que a sua média se situe acima dos 400 mil exemplares, que era a sua plataforma há três anos. Depois de um ligeiro crescimento entre 2004 e 2006, as vendas de La Nación caíram pelo segundo ano consecutivo. A sua média anual de vendas ficou abaixo da média obtida nos últimos quatro anos. Os 160 mil exemplares que até há uns anos eram a sua plataforma mínima converteu-se no máximo de vendas.

Na Venezuela, até agora não se conhecem encerramento de grandes jornais por razões económicas. Só saiu de circulação o vespertino El Mundo para se transformar num matutino de informação económica, abandonando o seu perfil original de jornal generalista, com um peso maior na política e acontecimentos.

O El Mundo pertence à Cadena Capriles, também proprietária de Últimas Notícias (UN), o diário de maior circulação do país.

Esse grupo económico tem à frente de UN um jornalista apoiante de Chávez, Eleazar Diaz Rangel, e tinha um antichavista à frente de El Mundo, Enrique Rondón, o que pode ser entendido como uma forma de estar bem com Deus e com o Diabo.

A decisão de mudar o vespertino em matutino também obedece à necessidade de diminuir os custos de distribuição. Antes, os camiões da rede de distribuição circulavam pelas principais cidades do país e, de Caracas, levavam unicamente os exemplares de El Mundo.

Agora, com o novo formato, podem viajar os dois jornais nos mesmos camiões: dois jornais de uma só cajadada.

Além disso, também o político antichavista Teodoro Petkoff já se tinha antecipado ao converter em matutino o seu jornal Tal Cual, originalmente vespertino, pois assim também se podia aproveitar a rede de distribuição dos jornais tradicionais, e ao mesmo tempo aumentar o tempo de vigência de cada exemplar, que nos matutinos é várias horas mais que os vespertinos. Conhecedores do sector afirmam que no campo da distribuição de jornais há muito foi erradicada a concorrência, pois as empresas de distribuição distribuem-se por zonas determinadas do país, de modo a que todos os jornais cheguem a cada posto de venda no mesmo camião.

As sacudidelas do colapso económico mundial também se sentem no Paraguai. A circulação dos principais jornais contraiu-se. De acordo com um estudo de Auditores Publicitários, empresa que estuda o mercado publicitário para a Câmara de Anunciantes do Paraguai (CAP), entre Janeiro de 2008 e o mesmo mês de 2009 registou-se uma baixa de 4,5% no investimento publicitário em revistas, diários, rádios e televisão.

Ainda que não tenham ocorrido despedimentos massivos no país, 90% dos jornalistas consultados por uma sondagem encomendada pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraguai (SPP), manifestaram não contar com o seguro do Instituto de Previsão Social (IPS) para a sua vida. 30% dos inquiridos afirmou receber do IPS menos que o escasso salário mínimo, 1.341.000 guaranis mensais (259 dólares).

«Existe uma evasão escandalosa que, historicamente, está a desprezar o bem-estar dos camaradas da terceira idade», disseram os representantes do Sindicato dos Jornalistas do Paraguai. «Como consequência desta deficiência a roçar o delito, muitos trabalhadores não se podem reformar, porque os patrões descontam as contribuições mas não as enviam para o Instituto», denunciam os sindicalistas. «Um exemplo disto é o caso dos trabalhadores do desaparecido diário Notícias, onde a entidade patronal ficou com mais de 1.200 milhões de guaranis (cerca de 230 mil dólares ao cambio actual), apropriando-se de mais de quatro anos de contribuições dos trabalhadores. Até agora o Instituto de Previsão Social não meteu nenhuma acção judicial contra o ex-dono deste malogrado diário, Eduardo ‘Bilo’ Bo.»

À laia de resposta a esta situação, ouve-se a voz dos trabalhadores uruguaios: «Se face à crise se tomam medidas de apoio a sectores que concorrem com os seus produtos no exterior, como a indústria láctea, por que razão não se tomam medidas para apoiar a situação da imprensa? Vamos deixar que nos baixem os salários e que os trabalhadores vão para o fundo de desemprego?, pergunta Victor Abelando, presidente da Associação de Imprensa Uruguaia (APU).

Quase como uma resposta, Federico Fasano, director e proprietário do grupo mediático Multimedio Plural, composto pelo diário La Republica, a emissora 1.410 AM Libré e TV Libré, disse que a crise económica global não bateu à porta do matutino, o segundo jornal de maior circulação nacional: «Pelo Contrário, beneficiou-nos, já que baixaram os preços dos factores de produção e da publicidade, e não diminuíram as vendas de jornais. Não dependemos do poder económico mas dos leitores».

De acordo com a maioria dos analistas económicos uruguaios, os efeitos da crise vão notar-se no segundo semestre do ano. As afirmações do titular da associação patronal de imprensa parecem responder com a outra face da explicação: «Ainda não há despedimentos o pessoas no fundo de desemprego, mas sim uma importante perda do salário real, e é frequente o pagamento com atraso dos salários, dos subsídios de férias, do 13º mês.

Sabemos que quando chegam as crises, os grandes empresários reduzem os custos com os trabalhadores».

Diariamente, milhares de trabalhadores de todo o mundo vão para a rua. As rotativas funcionam a meio gás e as notícias sobre as falências e os encerramentos dos principais diários do globo sucedem-se uma após outra, testemunhos do capitalismo do papel que se desfaz no ar.

* Inés Hayes é jornalista de IPI na Argentina

Este texto foi publicado em America XXI, año VII, No. 48, abril 2009 e teve contributos de relatórios de Ernesto Villegas de Caracas, Georgina Rodríguez de Montevideu e Jorge Zárate de Assunção.

Tradução de José Paulo Gascão