Os 100 dias de Obama – os loucos conseguiram safar-se

John Pilger*    10.May.09    Outros autores

John Pilger
Pouco a pouco, torna-se mais claro o logro que os media nos venderam e continuam a tentar vender: cada dia é mais evidente “que este inexperiente senador de 45 anos, com um discurso bem ritmado e servido por um timbre agradável, mas oco de ideias, publicitariamente marcado até à exaustão por «sim nós podemos» e a palavra «mudança» foi lançado por uma poderosa máquina publicitária, como se um qualquer produto se tratasse”.

Os primeiros 100 dias da presidência de Barack Obama mostraram que ele é o sonho dos executivos de marketing, um Homem Marlboro para o novo século – e pouco mais do que isso.

A novela Mad Men (Os loucos) na televisão americana da BBC apresenta um raro vislumbre do poder da publicidade corporativa. A promoção do tabaco há meio século atrás pelas pessoas “inteligentes” da Madison Avenue, que sabiam a verdade, levou a mortes incontáveis. A publicidade – e a sua gémea, as relações públicas – tornou-se no meio de enganar sonhado por aqueles que leram Freud e aplicam psicologia de massa a qualquer coisa, desde os cigarros à política. Assim como o Homem Marlboro era a própria virilidade, da mesma forma os políticos podiam ser marcados, empacotados e vendidos.

Passaram-se mais de 100 dias desde que Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. A “marca Obama” foi denominada “Profissional de marketing do ano 2008 da Era da Publicidade” (”Advertising Age’s marketer of the year for 2008″), ultrapassando facilmente os computadores Apple. David Fenton de MoveOn.org descreve a campanha eleitoral de Obama como “uma comunidade organizadora tecnológica e automatizada institucionalizada ao nível de massa que nunca existiu antes e é uma força muitíssimo poderosa”. Utilizando a Internet e um slogan plagiado do organizador da União Latina César Chávez – “Sí, se puede!” (”Sim, podemos!”) – a comunidade tecnológica automatizada ao nível de massa mercadejou a sua marca até à vitória num país desesperado por livrar-se de George W. Bush.

Ninguém sabia o que a nova marca realmente significava. Tão perfeita foi a publicidade (só em comerciais na televisão foi gasto um recorde de US$75 milhões) que muitos americanos realmente acreditaram que Obama partilhava a sua oposição às guerras de Bush. Na realidade, ele reiteradamente apoiara as guerras de Bush e o seu financiamento pelo Congresso. Muitos americanos também acreditaram que ele era o sucessor do legado anti-colonialista de Martin Luther King. Mas se Obama tinha um tema, além do vago “A mudança em que pode acreditar”, este não era de modo algum a renovação da América como um tirano dominante e cúpido. “Seremos os mais poderosos”, declarou ele muitas vezes.

Talvez a marca publicitária mais efectiva de Obama tenha sido fornecida gratuitamente por aqueles jornalistas que, como correctores de um sistema predatório, promovem brilhantes cavaleiros. Eles despolitizam-nos, divulgando as platitudes dos seus discursos como “hábeis criações literárias, ricas, como aquelas colunas dóricas, com alusão…” (Charlotte Higgins no Guardian ). O colunista Mark Morford, de The San Francisco Chronicle, escreveu: “Muitas pessoas espiritualmente avançadas que conheço… identificam Obama como um trabalhador inspirado (lightworker), aquela rara espécie de ser harmonioso que… pode realmente ajudar a iniciar um novo modo de estar no planeta”.

Nos primeiros 100 dias, Obama desculpou a tortura, opôs-se ao habeas corpus e exigiu mais governo secreto. Ele manteve o gulag de Bush intacto e pelo menos 17 mil prisioneiros para além do alcance da justiça. Em 24 de Abril, seus advogados ganharam um recurso o qual estabelecia que os prisioneiros da Baía de Guantanamo não eram “pessoas” e portanto não tinham direito a não serem torturados. O seu director de inteligência nacional, almirante Dennis Blair, diz acreditar que a tortura funciona. Um dos seus responsáveis superiores de inteligência na América Latina é acusado de encobrir a tortura de uma freira americana na Guatemala em 1989, um outro é um apologista de Pinochet. Como destacou Daniel Elsberg, os EUA experimentaram um golpe militar sob Bush, cujo secretário de “Defesa”, Robert Gates, juntamente com os mesmos responsáveis que fizeram a guerra, foram mantidos por Obama.

Por toda a parte do mundo, o violento assalto da América a povos inocentes, directamente ou através de agentes, foi acelerado. Durante o recente massacre em Gaza, relata Seymour Hersh, “a equipe de Obama deixou saber que não objectaria ao planeado reabastecimento de ‘bombas inteligentes’ e outras munições de alta tecnologia que já estavam a fluir para Israel” e a serem utilizadas para massacrar principalmente mulheres e crianças. No Paquistão, o número de civis mortos pelos mísseis estado-unidenses a partir de drones mais do que duplicou desde que Obama tomou posse.

No Afeganistão, a “estratégia” estado-unidense de matar o povo da tribo pashtun (os “Taliban”) foi prolongada por Obama para dar tempo ao Pentágono para construir uma série de bases permanentes através do país devastado onde, diz o secretário Gates, os militares dos EUA permanecerão indefinidamente. A política de Obama, não alterada desde a Guerra Fria, é intimidar a Rússia e a China, agora um rival imperial. Ele está a prosseguir com a provocação de Bush de colocar mísseis na fronteira ocidental da Rússia, justificando-a como uma contenção ao Irão, o qual acusa, absurdamente, de colocar “uma ameaça real” à Europa e aos EUA. A 5 de Abril, em Praga, ele fez um discurso relatado como “anti-nuclear”. Não foi nada disso. Sob o programa Substituição Confiável de Ogivas (Reliable Replacement Warhead), os EUA estão a construir novas armas nucleares “tácticas” destinadas a borrar a distinção entre guerra nuclear e guerra convencional.

Talvez a maior mentira – o equivalente a “fumar é bom para si” – seja o anúncio de Obama de que os EUA estão a deixar o Iraque, com o país reduzido a um rio de sangue. Segundo despudorados planeadores do exército dos EUA, até 70 mil soldados permanecerão “durante os próximos 15 a 20 anos”. A 25 de Abril, a sua secretária de Estado, Hillary Clinton, aludiu a isto. Não é de surpreender que os inquéritos estejam a mostrar que um número crescente de americanos acredita terem sido ludibriados – especialmente quando a economia do país foi confiada aos mesmos trapaceiros que a destruíram. Lawrence Summers, o principal conselheiro económico de Obama, está a lançar US$3 milhões de milhões aos mesmos bancos que lhe pagaram mais de US$8 milhões no ano passado, incluindo US$135 mil por um discurso. “A mudança em que você pode acreditar”.

Grande parte do establishment americano odeia Bush e Cheney por revelar e ameaçar o avanço do “grande desígnio” da América, como a chama Henry Kissinger, criminoso de guerra e agora conselheiro de Obama. Em termos de publicidade, Bush foi uma “marca que entrou em colapso” ao passo que Obama, com o seu sorriso pasta de dentes e clichés virtuosos, é um enviado de deus. De um só golpe, ele afastou a grave dissidência interna à guerra e provocou lágrimas, desde Washington até Whitehall. Ele é o homem da BBC, da CNN, de Murdoch, da Wall Street e da CIA. Os loucos conseguiram safar-se.

30/Abril/2009

O original encontra-se entre www.newstatesman.com/north-america/2009/05/barack-obama-pilger-bush

Este artigo foi publicado em www.resistir.info

* Jornalista australiano

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