Nota dos Editores

Haiti: Porque falham os «Estados falhados»

Os Editores    21.Ene.10    Editores

A tragédia que se abateu sobre o Haiti trouxe este paupérrimo país para a primeira página dos noticiários de todo o mundo.

Simultaneamente, a ajuda internacional tem vindo a deparar-se com dificuldades operacionais que vão muito para além das que resultam das condições miseráveis do país e da devastação causada pelo sismo de 10 de Janeiro. Esse acréscimo de dificuldades resulta, no essencial, do papel que os EUA decidiram assumir.

Os EUA decidiram tirar partido desta tragédia para de novo ocupar directamente o país e para ampliar exponencialmente a sua presença militar na zona, deslocando meios tão desproporcionados e inadequados ao propósito de uma «ajuda humanitária» como um porta-aviões nuclear, submarinos e outros navios de guerra, um contingente de tropas especiais que se aproxima dos 10 mil efectivos. O controlo absoluto dos acessos à ilha por parte dos EUA suscitou já queixas e reclamações por parte de outros países e por parte de organizações internacionais, nomeadamente a ONU e a Cruz Vermelha Internacional.

Impressiona a forma como este efectivo bloqueio à ajuda internacional vem sendo secundarizado pelos grandes meios de comunicação social, ao mesmo tempo que a ocupação violenta e repressiva daquele território vem sendo preparada com empolados relatos acerca dos «saques» e da «violência» desencadeadas pela população haitiana.

Não se sabe como esperariam estes órgãos de desinformação que os haitianos reagissem ao desamparo, à fome, à ausência de cuidados, ao desespero. Não valorizam, em contrapartida, os incontáveis gestos de solidariedade entre sobreviventes e vítimas neste povo tão martirizado. O que se passa no Haiti não tem comparação, em violência verificada, com o que se passou em 2005 na New Orleans destruída em consequência do furacão Katrina, quando a sucessão de roubos, assaltos, assassinatos e violações obrigou o governo federal a enviar 50 mil homens armados e com ordem para matar, em que a estação central de caminhos-de-ferro foi transformada em prisão temporária, em que a onda de violência alastrou a outras cidades que acolheram refugiados.

Por detrás deste enviesamento informativo estão duas coisas: a justificação da ocupação militar que está em marcha, e um ponto de vista profundamente racista.

O Haiti está há muito incluído na categoria do que Samuel Huntington classificou como «estado falhado». Não interessa, de momento, discutir os critérios de tal qualificação. Mas a história do Haiti é bem elucidativa do caminho e das responsabilidades que conduzem a essa situação.

O Haiti foi a primeira nação do mundo a libertar-se do jugo colonial, a única cuja independência foi conquistada em resultado de uma vitoriosa revolta de escravos, a primeira ex-colónia governada por negros. Ainda hoje as potências coloniais cobram ao povo haitiano esse facto, com particular destaque, nos últimos 100 anos, para os EUA. Desde o início do séc. XX os EUA dominam económica, militar e politicamente o Haiti. Ocuparam-no directamente durante mais de 30 anos. Apoiaram a mantiveram a dinastia Duvalier, uma das mais sanguinárias e retrógradas tiranias do séc. XX, puseram e depuseram governantes sempre que entenderam, institucionalizaram o atraso, a miséria, a corrupção e o banditismo. E quando não intervieram directamente os EUA, interveio o FMI. Um território com tão excepcionais condições para a agricultura que - apesar do imenso atraso das forças produtivas - permitia a auto-suficiência alimentar em alguns dos géneros da magra dieta haitiana está hoje devastado e exangue. O golpe de misericórdia deu-o o FMI, obrigando à baixa das taxas aduaneiras de 50% para 3%, o que levou a que o mercado haitiano fosse invadido por arroz dos EUA, muito mais barato. O resultado foi a ruína definitiva de milhares de agricultores e o seu êxodo para as cidades, onde se instalaram nos gigantescos bairros da lata que o terramoto agora arrasou.

Há algum tempo o dirigente do MST João Pedro Stédile, interrogado acerca do socialismo em Cuba, respondeu: “se não fosse o socialismo Cuba estaria como o Haiti. O Haiti é a Cuba capitalista”.

Trata-se de uma acertadíssima síntese. Se o Haiti é hoje um «estado falhado», à dominação imperialista o deve. Poucas vezes, como na situação actual, fica tão visível como a dominação imperialista condena os povos ao atraso, à opressão e à miséria. Tornou o povo haitiano completamente vulnerável e indefeso perante a tragédia natural que sobre ele se abateu. Actua agora no sentido de que nem a própria solidariedade humanitária possa chegar, em condições de dignidade nacional, a esse povo martirizado.

Os Editores de odiario.info

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