Alastra-se a dissenção entre os militares americanos

John Catalinotto*    02.Jun.07    Colaboradores

A violência, o horror e o cansaço da guerra provocada pela invasão do Iraque abreviam o caminho para o fim de todas as guerras de ocupação: o desânimo entre as forças ocupantes, os primeiros casos de dissidência e depois a derrota das forças invasoras…

A crescente ira contra a guerra americana no Iraque e o crescente entendimento de que a ocupação é um fracasso completo estão a alastrar nas fileiras dos militares americanos. Esta dissidência apresenta-se de diferentes maneiras entre os soldados rasos e entre sargentos e oficiais. Mas a partir de um aumento de cartas iradas enviadas a publicações anti-guerra, como GI Special, sobre o aumento das tropas marciais, os sinais de resistência estão a crescer.

Em 18 de Maio, o capitão-tenente Matthew Diaz foi condenado depois de ter sido considerado culpado por um tribunal marcial da U.S. Navy por o que a Armada considerou um crime grave. Enquanto enfrentava uma possível pena de 14 anos de prisão, a sentença deste veterano com 19 anos de Armada foi seis meses de prisão com pagamento e expulsão da Armada, o que equivale a um afastamento menos do que honroso.

Diaz fora designado para investigar alegados abusos de prisioneiros em Guantánamo, o bocado de território cubano que os EUA ainda ocupam ilegalmente. Washington tem mantido ali prisioneiros de guerra capturados nos últimos quatro ou cinco anos, no Afeganistão em 2003 e outros países sob a suspeita de “terroristas”, em condições de campo de concentração.

Cumprindo ordens do secretário da Defesa Donald Rumsfeld, os EUA ignoraram o direito internacional e recusaram divulgar os nomes dos prisioneiros. Alguns professores de direito consideram Rumsfeld culpado de crimes de guerra por ter dado tais ordens. Diaz, preocupado com este abuso dos direitos humanos, em Fevereiro de 2005 enviou uma lista dos nomes daqueles prisioneiros a promotores de liberdades civis em Nova York.

“Meu juramento como oficial é perante a Constituição dos Estados Unidos”, afirmou Diaz. “Não sou um criminoso. Observei a obstrução, os escolhos que continuávamos a colocar no caminho dos procuradores”, declarou aos media antes da sua condenação. “Eu sabia que o meu tempo era limitado… Tinha de fazer alguma coisa”.

Muitos, talvez mesmo uma maioria aqui nos EUA, consideram Diaz um herói por actuar. (www.militaryproject.org)

Em relação a outros heróicos e resistentes militares, em 10 de Maio o cabo especialista Augustín Aguilar foi recentemente libertado duma prisão militar na Alemanha e voltou à sua casa na Califórnia. Durante oito meses foi mantido como prisioneiro de consciência, depois de ter ser ter ausentado, sem licença, (AWOL) para demonstrar a sua recusa de regressar ao Iraque.

Segundo o grupo Courage to Resist (www.couragetoresist.org), a partir de 10 de Maio Aguilar “partilhou a sua história de resistência em reuniões de comunidade em Sacramento, Carmel e San Francisco. É de destacar que a primeira semana de Augustin como activista contra a guerra incluiu a sua presença no dia dos trabalhadores a operários agrícolas acompanhados da família em Stockton, e a estudantes de faculdades e colégios em Watsonville”.

Longe de ser isolado ou marginalizado pela sua acção anti-guerra, Aguilar foi bem recebido numa comunidade de resistentes à guerra que inclui Robert Zebala, Pablo Paredes e Camilo Mejía, bem como muitos outros veteranos da guerra do Iraque, que agora estão a falar em reuniões anti-guerra e conseguem aceitação popular.

Outro resistente à guerra, o tenente Ehren Watada, cujo tribunal marcial está pendente depois de os militares decidirem, unilateralmente em Fevereiro último, declarar inválido o seu primeiro julgamento, teve agora o seu julgamento marcial adiada mais uma vez. Agendado primeiro para 23 de Junho em Ft. Lewis, o julgamento está agora suspenso até que determinem se, ao recomeçá-lo, Watada arrisca uma dupla condenação (”double jeopardy”). Ainda é possível que o Exército seja forçado a abandonar as acusações a Watada, o primeiro oficial que recusou servir no Iraque.

Novo julgamento em Fort Drum

Um soldado da 10ª Divisão de Montanha, uma unidade cuja base é em Fort Drum, a norte do estado de Nova York, e que agora assalta casas em Bagdad, está a enfrentar um afastamento por má conduta e um ano de prisão por ausência sem licença. Em 16 de Maio o Exército anunciou que o julgamento marcial do cabo especialista Eugene Cherry começará em 25 de Junho. Cherry tem um atestado médico em como sofre distúrbios por stress pós-traumático. Ele afirma que está a ser submetido a um julgamento marcial porque foi a Chicago obter ajuda, depois do Exército não lhe ter proporcionado o tratamento adequado.

“Eles não querem assumir a responsabilidade, por isso negam que eu tenha um problema e, por ter tentado ajudar-me a mim próprio, agora querem tornar-me um criminoso”, disse o cabo especialista Eugene Cherry, numa entrevista telefónica de Fort Drum à Associated Press.

Cherry contou ao seu médico que, durante a sua estadia no Iraque como enfermeiro, o facto mais perturbador que presenciou foi um grupo de soldados de artilharia fez explodir um veículo utilitário (minivan), descoberto, carregado de explosivos e materiais inflamáveis. A explosão arrasou um edifício de apartamentos com três andares nas proximidades, ferindo os moradores. Cherry tentou ajudar uma mulher iraquiana que descobriu com a cara virada para baixo. Quando a virou, viu que metade da sua cara estava destruída. Foi então que começaram os pesadelos e a depressão, conta Cherry. (www.differentdrummercafe.org)

O horror à Guerra e às acções norte-americanas não são as únicas razões que levam à dissidência militar. Há também a percepção de que os EUA estão a perder a guerra.

Alguns oficiais americanos, nomeados para trabalhar com as tropas fantoches iraquianas, fizeram objecções às tropas por prenderem civis iraquianos que, aparentemente, não tinham cometido qualquer crime, nem actos que os ocupantes americanos pudessem considerar criminoso. Um oficial americano foi recentemente repreendido por um general americano por ter libertado 35 prisioneiros que ele acreditava terem sido presos sem razão.

Alguns destes oficiais americanos consideram a detenção de civis inocentes um crime de guerra pelo qual não querem ser responsabilizados. Além disso, consideram que essas prisões são contraproducentes.

Até o almirante tem medo

Alguns dos oficiais superiores, que normalmente não têm perturbações ao ordenar ataques e bombardeamentos cirúrgicos que provocaram centenas de milhares de baixas, e que certamente não têm problemas morais em começar uma guerra, começam a hesitar em obedecer à liderança da administração Bush. Uma notícia do Inter Press Service divulgada em 19 de Maio relata que o almirante William Fallon, chefe do CENTCOM e um dos nomeados pelo próprio Bush, “em Fevereiro exprimiu forte oposição a um plano da administração para aumentar o número de grupos de porta-aviões (carrier strike groups) no Golfo Pérsico de dois para três, e prometeu, em privado, que não haveria guerra no Irão enquanto ele fosse chefe do CENTCOM, de acordo com fontes que conhecem as suas ideias”.

Segundo esta fonte não mencionada, Fallon disse não estar só e que “há vários de nós a tentar colocar os loucos outra vez dentro da caixa”. Esta declaração, publicitada uma semana após o vice-presidente Dick Cheney ter ameaçado a guerra contra o Irão no convés de um porta-aviões no Golfo Pérsico, ao largo da costa daquele país, e próximo do momento em que o arquitecto da guerra do Iraque, Paul Wolfowitz, foi forçado a demitir-se do Banco Mundial, tem um fundo de verdade, ainda que não seja fácil verificá-la.

Fallon é um leal oficial do imperialismo americano, cujos interesses de classe e privilégios estão ligados ao domínio militar norte-americano no mundo. As suas palavras — partindo do princípio que o relato da IPC é verdadeiro — reflectem o cepticismo existente entre a classe dominante quanto à capacidade de liderança da administração Bush. Elas reflectem o impacto de quatro anos de heróica resistência iraquiana que paralisaram a tentativa americana de dominar aquele país.

De uma forma diferente, a resistência iraquiana estimulou a dissidência honesta e a recusa em participar em crimes de guerra expressa pelos oficiais de patente mais baixa. Os sinais de que esta dissidência está a crescer e a difundir-se nas Forças Armadas dos EUA constituem a melhor notícia para aqueles que querem acabar com a horrenda e criminosa ocupação do Iraque.

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