Testamento de Ho Chi Minh*

Ho Chi Minh    22.Dic.07    Outros autores


Publicamos hoje o testamento de Ho Chi Minh (1890–1969), fundador do Partido Comunista do Vietname. Dirigiu o povo vietnamita na luta contra o colonialismo francês até à vitória em 1954 na batalha de Dien Bien Phu. Até à sua morte, em 1969, Ho Chi Minh dirigiu também a luta contra a agressão imperialista norte-americana, que terminou já em 1975, com a apressada e desordenada retirada das desmoralizadas forças norte-americanas, na que constitui a maior derrota política e militar até hoje sofrida pelos EUA.

DOCUMENTOS

A luta do nosso povo contra a agressão norte-americana, pela salvação nacional, ainda que tenha de passar por mais tormentos e sacrifícios, culminará seguramente com a vitória total.

Isto é uma certeza.

Quando chegar esse dia, tenho a intenção de ir por todas as partes de ambas as regiões, Sul e Norte, para felicitar os nossos heróicos patriotas, quadros e combatentes; para conversar com os anciãos e com os nossos queridos sobrinhos, jovens e crianças.

Então, em nome do nosso povo, irei visitar os países irmãos do campo socialista e os países amigos dos cinco continentes, para lhes agradecer o apoio e a ajuda que prestaram de todo o coração à luta do nosso povo contra os agressores norte-americanos, pela salvação nacional. Tu Fu, o famoso poeta chinês da época Tang, deixou o seguinte verso: «Em todas as épocas, escassas são as pessoas que chegam aos 70 anos.»

Este ano completo os 79. Já sou dessas pessoas «escassas em todas as épocas». O meu espírito e a minha mente continuam a ser lúcidos, mas a minha saúde debilitou-se ao longo dos últimos anos. Quando alguém ultrapassa as 70 primaveras, quantos mais anos acumula menos saúde tem. Não há nada de estranho nisso.

Mas, quem pode adivinhar quando tempo me resta para continuar a servir a revolução, a pátria e o povo?

Por isso, deixo de antemão estas palavras, caso vá reunir-me ao velho Karl Marx, ao velho Lénine e outros revolucionários predecessores. Nessa altura, os compatriotas de todo o país, os camaradas do partido e os amigos de todo o mundo não ficarão surpreendidos.

EM PRIMEIRO LUGAR, REFIRO-ME AO PARTIDO: é por ter estado estreitamente unido e se ter entregado de corpo e alma ao serviço da nossa classe, do povo e da pátria, que o nosso partido, desde a sua fundação até à data, conseguiu unir, organizar e dirigir o nosso povo na sua esforçada luta, conduzindo-o de vitória em vitória.

A unidade é uma tradição sumamente preciosa do nosso partido e do nosso povo. Os camaradas, do Comité Central até às células, devem defender a unidade e coesão do partido como a menina dos seus olhos.

Aplicar uma ampla democracia e realizar regularmente uma séria autocrítica e crítica no seio do partido, é a melhor maneira de consolidar e desenvolver a sua unidade e coesão. É preciso cultivar a camaradagem, o carinho e o afecto mútuo entre os camaradas.

O nosso partido é um partido no poder. Cada militante e cada quadro devem estar profundamente imbuídos nas virtudes revolucionárias; devem praticar verdadeiramente o trabalho, a economia, a integridade, a rectidão, a total entrega ao colectivo e o desinteresse pelo que é individual. É preciso preservar a pureza absoluta do partido e torná-lo digno dirigente e fiel servidor do povo.

OS MEMBROS DA JUVENTUDE E OS NOSSOS JOVENS EM GERAL, são bons, sempre combativos e na vanguarda de todas as tarefas, sem medo das dificuldades e ansiosos por superar-se. O partido deve preocupar-se por educá-los nas virtudes revolucionárias e prepará-los para que sejam os continuadores «vermelhos» e ao mesmo tempo «especialistas» da construção socialista.

É uma tarefa muito importante e muito necessária a preparação da geração revolucionária para o futuro.

O NOSSO POVO TRABALHADOR, tanto na planície como na região montanhosa, sofreu muito durante gerações, vítima da opressão e exploração do regime feudal e colonial, e passou, além disso, muitos anos de guerra.

Contudo, o nosso povo é muito heróico, valente, combativo e trabalhador. Sempre seguiu e se manteve fiel ao partido, desde a fundação deste.

O partido deve conseguir uma boa planificação para desenvolver a economia e a cultura, com vista a elevar constantemente o nível de vida do povo.

A RESISTÊNCIA À AGRESSÃO NORTE-AMERICANA pode prolongar-se ainda mais. Os nossos compatriotas terão provavelmente que fazer mais sacrifícios em bens e homens. Mas, seja de que maneira for, temos de continuar a combater firmemente os agressores norte-americanos, até alcançar a vitória total.

Enquanto existam rios e montanhas, enquanto restem homens, uma vez vencido o agressor norte-americano, construiremos um país dez vezes mais belo.

Sejam quais foram as dificuldades e tormentos, o nosso povo conseguirá a vitória total. Os imperialistas norte-americanos serão obrigados a sair do país. A pátria será reunificada. Os compatriotas do Sul e do Norte reunir-se-ão com toda a segurança debaixo do mesmo tecto. O nosso país terá a grande honra de ser um país pequeno que soube combater com valentia e vencer duas grandes potências imperialistas – o imperialismo francês e o norte-americano –e dar uma digna contribuição ao movimento de libertação nacional.

NO QUE RESPEITA AO MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL: tendo dedicado toda a minha vida à revolução, quanto mais orgulho sinto face ao crescimento e força do movimento comunista e operário internacional, maior é a minha dor perante a desunião actual entre os partidos irmãos. Espero que o nosso partido siga esforçando-se por contribuir com eficácia para o restabelecimento da unidade entre os partidos irmãos, assente no marxismo-leninismo e no internacionalismo proletário, de acordo com a lógica e a razão.

Estou firmemente convencido de que os partidos e países irmãos terão que unir-se de novo.

SOBRE ASSUNTOS PESSOAIS: Ao longo da minha vida servi com toda a minha alma e todas as minhas forças a pátria, a revolução e o povo. Hoje em dia, embora tenha que despedir-me deste mundo, não me arrependo de nada; só lamento não poder prestar mais serviços durante mais tempo.

Depois da minha morte não se devem organizar funerais dispendiosos para não desbaratar o tempo e o dinheiro do povo.

Finalmente, lego todo o meu carinho ao povo, ao partido, ao exército, aos sobrinhos, jovens e crianças.

Faço chegar também a minha carinhosa saudação aos camaradas, amigos, sobrinhos, jovens e crianças no mundo.

O meu último desejo: que todo o nosso partido e todo o nosso povo estreitem a sua unidade e lutem pela edificação de um Vietname pacífico, reunificado, independente, democrático e próspero, e contribuam dignamente para a causa revolucionária mundial.

Hanoi, 10 de Maio de 1969

Nota:
Testamento de Ho Chi Minh foi traduzido do livro “HO CHI MINH – Escritos Políticos”, publicado pela Editorial de Ciências Sociales – Instituo Cubano del Libro, La Habana, 1973.

Tradução de Margarida Folque

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