O internacionalismo proletário, elemento inseparável da identidade anticapitalista *

Marcos
”O internacionalismo não é, em suma, uma actividade mais, só para se desenvolver como plataforma para gerar ou receber solidariedade; é um elemento para ir mais além do capital, para romper as cadeias da exploração, para construir um mundo melhor que é possível, um mundo com que sonham e pelo qual lutam os partidários da opção socialista e do projecto comunista.”

Não há melhor momento para falar do internacionalismo proletário que o aniversário da queda em combate do Comandante Ernesto Che Guevara.

O Che é o exemplo permanente da luta pela liberdade, pela justiça, pela revolução; e é também o constante recordar de que se luta em qualquer solo, sem importância de fronteiras, porque o género humano é a Internacional; porque a libertação dos nossos povos é tarefa de todos e porque o dever de todo o revolucionário é fazer a revolução.

Faz hoje 39 anos que, em terras bolivianas, o Comandante Che Guevara foi capturado. Ainda hoje, sobre o Che se dizem coisas com muita ligeireza. Fidel dizia com razão em 2001, que a sua morte não significava que a estratégia e as concepções de luta do Che estivessem erradas; como tão pouco tivessem sido erradas as ideias dos revolucionários cubanos se, ao desembarcarem do Granma, tivessem morrido todos debaixo do tiroteio dos aviões da ditadura batistiana. Podemos assegurar que a justeza das ideias e acções não é determinada pela derrota ou pela vitória, mas sim por partir de uma posição de princípio, de uma análise concreta e de uma acção consequente para emancipar o povo trabalhador e a humanidade.
Marcos
Antes de entrar directamente no tema que, como Partido dos Comunistas, nos toca abordar, permitam por favor que reivindiquemos o Che e tudo o que há detrás da sua acção na Bolívia, como homem de armas do exército do povo, como construtor da nova sociedade socialista, como teórico e prático dos problemas quotidianos de uma revolução, como estratega continental da libertação dos povos da América e como um internacionalista consequente que deu um contributo aos processos libertadores de África, Ásia, e América Latina. O Che é, como costumam dizer os camaradas da Juventude Comunista, mais que uma t-shirt. Rendemos pois homenagem ao Che, ao insubmisso, ao rebelde, ao adversário do burocratismo e do dogmatismo, inimigo dos privilégios e do abuso do poder, adversário da imitação e partidário da criação heróica, ao enamorado da humanidade e parteiro da mulher e do homem novos.

Ao aparecer o marxismo como teoria e prática do movimento operário revolucionário, teve como elemento constituinte o internacionalismo. Marx e Engels, já nas suas reflexões mais antigas, tinham consciência de estar a vincular-se a uma luta que ultrapassa qualquer fronteira. Tinham já estudado o desenvolvimento do capitalismo e o expressam magistralmente no Manifesto do Partido Comunista de 1847, demonstram que este se desenvolve por todo o globo e que a exploração une os proletários, que a luta é nacional pela sua forma e internacional pelo seu conteúdo, ao mesmo tempo que concluem que o proletariado é a classe revolucionária que enterrará o capitalismo e que, ao emancipar-se, emancipará o conjunto da humanidade, concluem também que este constrói laços de luta e solidariedade internacional. Inclusive a consigna que lançam nesse documento da Liga dos Comunistas, que é já uma organização internacional, é o grito de guerra não só para a arrancada revolucionária de 1848, como estão já a propor algo indissociável do movimento de ruptura com o sistema capitalista: Proletários de todos os países, uni-vos!

E essa perspectiva é a que vai marcando o desenrolar da luta anti-capitalista, das organizações que se vão criando, das lutas, da proposta.

Não vamos aqui fazer a história da Associação Internacional dos Trabalhadores, nem da II ou da III Internacional, nem dos debates que no seu seio tinham lugar, por exemplo, sobre a solidariedade de classe dos que lutavam em países mais desenvolvidos ou nas colónias, nas semi-colónias e nos países periféricos, sobre as alianças, ou sobre a fase de desenvolvimento da crise. Tão pouco é esta a ocasião para fazer um balanço concludente sobre a experiência histórica. Pela nossa parte, diremos que reivindicamos aprender o positivo e o negativo e que o estudo sério e profundo é uma necessidade para a luta global anti-sistema.

Queremos de facto dizer, que nessa prática há histórias luminosas de heroicidade e do desenvolvimento de solidariedade que orgulham os que lutam em qualquer canto deste planeta. Digamos por exemplo, que um operário alemão combate e morre com os seus irmãos franceses na Comuna de Paris; que operários polacos lutam ao lado dos seus irmãos russos e de muitas nacionalidades na Revolução de Outubro; ou de um japonês ou um hindu que vêm para o México difundir o bolchevismo; ou de mexicanos, norte-americanos, italianos, e de todas as nacionalidades, que combatem pela República Espanhola; ou de um argentino e de um mexicano que abordam o Granma; e porque olvidar como os dominadores querem que olvidemos, que Arturo Gámiz e o Grupo Popular Guerrilheiro levaram a cabo acções armadas em solidariedade com o povo do Vietname antes de caírem, na manhã de 23 de Setembro de 1965; ou por exemplo que os povos índios, as comunidades zapatistas, enviam o seu milho ao heróico povo de Cuba.

Há que dizer ainda que o internacionalismo proletário é também fruto das manifestações solidárias dos povos, das suas lutas, que irmanam os dominados na luta de classes contra os dominadores, contra os exploradores.

O internacionalismo e a solidariedade são elementos essenciais da identidade anti-capitalista.

O sistema capitalista seguiu a rota prevista pelo marxismo, internacionalizou-se mais, globalizou-se, instalou-se por toda a parte, alterando os tecidos sociais, aprofundando a exploração, agudizando o saque, destruindo a cada passo que dá. Transportou-nos à barbárie com a sua guerra permanente destrutiva, de saque e exploração.

O capital contemporâneo e as suas internacionais da morte

A formulação de Marx, Engels e Lenine sobre o desenvolvimento histórico do sistema capitalista materializa-se: ao entrar na sua fase imperialista, a tendência para o monopólio, para a sobre-exploração, o desemprego, o aumento do exército de reserva, estão para além de qualquer previsão. Acresce a isto a guerra permanente que vai liquidando os povos, submetendo as nações, tornando-se mais agressiva. O capitalismo na sua fase imperialista, aplicando o neo-liberalismo em todos os cantos do planeta, criou os instrumentos que lhe assegurem a exploração e o saque. O FMI, o Banco Mundial, a OCDE, a OMC, a União Europeia, a OTAN, os TLC instalaram-se como internacionais da morte, globalizadoras da dor e da desesperança, responsáveis pela pobreza de metade da população mundial, da fome que mil milhões de seres humanos padecem, do desemprego de um terço da população mundial economicamente activa, de que em cada dia morrem 30 mil crianças, da qual 854 milhões de adultos não sabem ler nem escrever, de que mais de 1400 milhões não dispõem de água potável, de que anualmente 40 milhões de pessoas morrem de fome; em contraste, uns quantos monopólios concentram a riqueza, decidem a guerra e a destruição para aumentar os seus lucros.

O neo-liberalismo está em concordância com as teses expostas pelo marxismo-leninismo na lei geral da acumulação do capital, que demonstra como o regime burguês é criador da riqueza para as minorias e da miséria para as maiorias. Conforme vai crescendo a acumulação do capital e só nuns quantos se concentra o consumo, o que não evita o excesso de produtos e capacidades produtivas, agrava-se a super-produção, desencadeia-se uma crise atrás doutra, aumenta a tendência da oligarquia financeira para a especulação, o terrorismo de Estado universal e a guerra.

A ordem económica imposta à humanidade por estas internacionais da morte é a barbárie anunciada por Frederico Engels e Rosa Luxemburgo. A população da África sub-sahariana está em vias de desaparecer. Para que falar em números, se os seres humanos não são uma fria estatística nem um código de barras. O sistema capitalista fustiga-nos em todos os países e pode levar-nos à extinção, se não organizamos uma contra-ofensiva nacional e internacional contra o que por todo o lado nos golpeia; o que envia bombas e exércitos contra o Iraque, o Afeganistão, Líbano e a Palestina; o que ameaça Cuba e outros povos é o mesmo responsável da dor que A Outra Campanha [1] testemunhou durante a sua primeira fase: o sistema capitalista, o imperialismo, o mundo burguês.

É preciso dizer que o internacionalismo proletário tem um conteúdo mais amplo, que não se pode limitar hoje estritamente à solidariedade entre a classe operária. Hoje tem que integrar o sujeito anti-capitalista, que tem o seu núcleo duro na classe operária, o proletariado, como bem o definiu o Subcomandante Insurgente Marcos em 28 de Abril no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores, mas também a todos os afectados pelo sistema: os povos índios, os camponeses e trabalhadores agrícolas, as mulheres e os jovens, em poucas palavras os párias da terra que somos nós todos.
Pretendeu-se sepultar o internacionalismo proletário como valor fundamental da luta dos povos na negra noite da contra-revolução mundial, quando no fim da história e da desideologização, no início dos anos 90, proclamaram um IV Reich Global, um mundo unipolar. Disse-se então que a solidariedade, a fraternidade não tinham já lugar, tão pouco a luta de classes, nem dos povos contra os seus opressores. Mas foi outra a resposta dos oprimidos.

Cuba resistiu, e o seu povo decidiu manter a sua alternativa de independência e construção da nova sociedade. Em grande medida foi assim devido à solidariedade que recebeu de todos os povos. Quanto mais negra era a situação e o neo-liberalismo de primeira geração se apresentava imparável, a irrupção do EZLN a 1 de Janeiro de 94, veio a desarticular os mitos de invencibilidade do sistema de dominação e a promover formas de solidariedade internacional que contribuíram para gerar essas mobilizações que desde 1997 e sobretudo no ano de 1999 com a ronda do milénio em Seattle, denunciaram a globalização neo-liberal e rearmaram mundialmente a luta contra o sistema.

Novas formas de coordenar resistências e acções em vários países lograram desestabilizar o capital e os seus planos; assim foi derrotado o AMI, comprometida a ALCA, travada a Constituição Europeia e posta em questão na sua essência a doutrina das guerras preventivas.

Saudamos e somos parte deste movimento, ainda que haja que dizer com honestidade que uma parte tem a entravá-la a lógica de administrar o sistema e não têm no seu horizonte, como muitos temos, o objectivo do derrube radical do actual estado de coisas. Este movimento tem a sua base nas lutas de classe, sindicais, no anti-imperialismo, nos movimentos de libertação nacional e naqueles que enfrentam as intervenções imperialistas.

De uma maneira geral, a passagem à ofensiva dos povos que vêm defrontando o capital vai novamente reconhecendo a necessidade do internacionalismo anti-capitalista, dos dominados.

América latina, olhando sempre para baixo, porque os que chegaram acima, em cima ficaram

Desencadeou-se na Nossa América uma grande rebelião contra o neo-liberalismo. O resultado constitui uma lição para os nossos povos.
Verdadeiros movimentos de massas estiveram na base de mobilizações que derrubaram governos ou serviram de base eleitoral a candidatos do chamado “progressismo”, que uma vez chegados ao governo, tiveram como primeira acção desmobilizar os movimentos, corporativizar alguns deles e integrar os quadros de direcção na administração governamental, fazendo-os cair numa armadilha, pois sem mudar as questões de base, sem forçar a ruptura, perpetuando o mesmo sistema responsável pelos problemas sociais, mais tarde ou mais cedo entram em contradição com a sua origem, chegando a converter-se nos repressores dos movimentos que os apoiaram.

E que dizer do resultado dessas administrações da chamada “esquerda progressista”, o mesmo que a das neo-liberais, mas com apoio popular por determinado tempo.

E como se atrevem a soltar fantasmas como o do “mal menor” e da ultra-direita, com que argumentam que temos a obrigação de os apoiar. Que apoiemos internacionalmente a quem avaliza a intervenção militar no Haiti, a quem privatiza os fundos de reformas e pensões; a quem privatiza a água ou o petróleo. Nunca apoiaremos em nome do internacionalismo os que, a troco de umas esmolas, com o pretexto de manter o governo e a governabilidade, aplicam fielmente as receitas neo-liberais e acabam fazendo parte do sistema. É um “transfuguismo” diferente do dos que abjuraram dos seus princípios nos anos 90, mas este é um produto desse caminho, que tenta gerir o sistema e não mudá-lo e se converte em estátua de sal; quem vindo de baixo se adapta a uma institucionalidade criada pela classe dominante, passa por uma mutação, torna-se dos de cima; por isso a nossa solidariedade e o nosso internacionalismo só podem ser abaixo e à esquerda, respeitando as formas de luta que cada caso concreto requer.

Por isso tal como faz o EZLN na Sexta Declaração da Selva lacandona, reiteramos a nossa solidariedade aos povos de Cuba e da Venezuela, e pensamos que da mesma maneira que se materializou um dos compromissos que foi a entrega do milho a Cuba, cabe a todos os que somos da Outra Campanha que a nossa solidariedade seja uma palavra que se transforma em acção, que o que dizemos fazemos.

Na América Latina, a nossa solidariedade com os que lutam, na Bolívia com os povos índios, na Argentina com os trabalhadores desempregados que têm que fazer piquete, com a justa causa da luta pela devolução com vida dos desaparecidos; no Uruguai com os que combatem as privatizações e o livre comércio, embora estas venham de um governo em que depositaram as suas esperanças; no Brasil a nossa solidariedade com a esquerda que não se deixa assimilar e os trabalhadores rurais que estão em baixo e a partir daí buscam uma vida digna; na Colômbia com a luta insurgente das FARC-EP e do ELN que, atacada pelas balas norte-americanas e pelo governo paramilitar, enfrenta também a calúnia.

Em poucas palavras, a nossa solidariedade vai para os que lutam e resistem, para os que não se deixam assimilar, para os insubmissos, os rebeldes e revolucionários que procuram desde o fundo da escala social transformar as suas realidades.

Um espaço de luta global para rebeldes e revolucionários: a Sexta Internacional

Companheiras e companheiros:

O que vemos é que em torno desta iniciativa civil e pacífica que é a Outra Campanha, há um denominador comum: a identidade anti-capitalista, ainda que os caminhos a percorrer a partir desse ponto constituam um debate. Se o que nos une é a luta contra a exploração, o saque, o desprezo e a repressão, então talvez esse seja um caminho para a luta mundial contra o sistema.

É normal que haja referências diversas, condicionadas pelas tradições e afinidades da luta histórica da esquerda, mas também pelo esforço de multinacionais que tentam submeter e controlar os movimentos globais, inclusive de parte do patronato, através das suas fundações e ONG`s, que têm apenas como objectivo embelezar um ou outro aspecto do sistema, sobretudo de carácter assistencial.

Mas queremos falar dos que querem mudar o sistema desde a sua raiz. Naturalmente insistimos que há que procurar uma identidade colectiva de luta sem deixar de ser o que somos, o que fomos e o que queremos ser.

Se entre rebeldes e revolucionários o ponto de unidade é a luta contra o sistema até ao seu derrube, e as diferenças estão no que se há-de seguir, na alternativa, então o anti-capitalismo significa que os meios de produção passem para o controlo dos trabalhadores, a terra para os camponeses, que se reconheça a cada um o seu lugar e se respeite a cultura e o modo de organização dos povos índios, dos jovens e das mulheres. Pode ser esse o ponto que agrupe uma luta necessária e inadiável contra a barbárie e a destruição da humanidade ocasionada pela guerra que todos os dias nos move um sistema que está em crise estrutural e terminal.

O que vemos é que seguindo o método da Outra Campanha, sob as directivas da Sexta Declaração, é possível pôr de pé acordos de luta internacionais, como viandantes da história que somos, não só passando através dela, mas também transformando-a com a nossa passagem e a nossa acção.

O internacionalismo e a solidariedade dos dominados

Os povos são solidários, isso já está visto. Entre as suas organizações e movimentos se tecem malhas inquebráveis. Pela nossa parte, procuramos em diversos espaços que a luta da Outra Campanha seja conhecida. Mais de 40 partidos comunistas e operários manifestaram o seu apoio e vários deles envolveram-se na luta pela liberdade dos companheiros detidos em 3 e 4 de Maio em San Salvador Atenco.

Agora, com os acontecimentos no norte e o impulso que uma delegação de alto nível da Sexta Comissão dá a esta luta, é o momento propício para chamar quase 70 partidos comunistas e operários, organizações revolucionárias e movimentos sociais de esquerda com quem temos relações em todos os continentes, a darem alento a esta luta. Porque a solidariedade internacionalista deve centrar-se nos que lutam no fundo da escala social, os dominados.

Cremos que a Outra Campanha tem, uma vez definidos os objectivos, que dinamizar as suas acções solidárias e internacionalistas.

Internacionalismo para ir mais além do Capital

Desmontados os esquemas que as forças reaccionárias divulgavam sobre a dependência da URSS, o internacionalismo permaneceu, renovou-se e alcançou graus de compromisso muito elevados.

O internacionalismo não é, em suma, uma actividade mais, só para se desenvolver como plataforma para gerar ou receber solidariedade; é um elemento para ir mais além do capital, para romper as cadeias da exploração, para construir um mundo melhor que é possível, um mundo com que sonham e pelo qual lutam os partidários da opção socialista e do projecto comunista.

Ir mais além do capital, demolindo a injustiça, enterrando a exploração, a morte.

Notas:
[1] Frente constituída EZLN dirigido pelo Comandante Marcos e o Partido dos Comunistas, do México que, que não apoiava nenhum dos candidatos por os três não serem merecedores de confiança.

* Comunicação apresentada na Conferência Conjunta do Partido dos Comunistas, do México com o FPFVI-UNOPII, UNIOS e a Sexta Comissão do EZLN, sob o tema América Latina.

** Secretário para as Relações Internacionais e membro da Comissão Política do Partido dos Comunistas, do México

Tradução de Carlos Coutinho

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