Neo-realismo, uma legítima opção estética, um contributo para a modernidade**


O neo-realismo, as exposições gerais de artes plásticas e a contribuição que deram à luta pela modernidade da arte, em Portugal, têm sido persistentemente votados ao esquecimento, atacados ou deturpados. É altura de reabilitar e conferir a sua real dimensão a essa fase tão importante da História da Arte Contemporânea, ligada indissoluvelmente à luta anti-fascista em Portugal

Não irei aprofundar aqui as razões desses ataques e desse apagamento e deixarei de lado a carga política que, em muitos casos, esteve na sua origem e se foi prolongando pelos tempos fora, até cristalizar em ideias feitas, difíceis de remover. E tanto mais difíceis de remover porquanto os principais responsáveis dessa situação foram aqueles que ocupavam lugares de destaque na pesquisa e divulgação da História da Arte, particularmente das Artes Plásticas em Portugal.

Também não posso deixar de referir que os mais activos detractores do neo-realismo visual o atacaram utilizando conceitos (ou preconceitos?) dogmáticos e intolerantes, exactamente quando acusavam os neo-realistas desses defeitos de dogmatismo, intolerância e…é claro, de ortodoxia. Chavões e equívocos que ainda hoje perduram, em textos de seguidores que continuam a repeti-los, ignorando talvez que nada é pior na crítica da arte do que o facciosismo, as ideias feitas e a paz podre do elogio mútuo em capelinhas de amigos.
Mesmo aqueles que têm tratado do neo-realismo visual com alguma equidade e profundidade não lhe reconhecem a importância que de facto teve e o impulso e avanço que determinou nas Artes Plásticas em Portugal. O mesmo não acontece com os estudiosos e especialistas do movimento neo-realista na literatura, que consideram ter esta desempenhado um papel de vanguarda no panorama da nossa cultura.
Julgo que deveriam ser mais aprofundadas as razões que estão na origem desta diferença entre os tratamentos dados pelos críticos e ensaístas das artes visuais e pelos da literatura neo-realista, quando as origens, filosofia e objectivos do movimento tinham as mesmas raízes comuns e tanto na literatura como nas artes visuais se destacaram nomes cujo valor é indiscutível na cultura portuguesa.
É certo que muito recentemente surgiram investigadores que iniciam uma nova abordagem do movimento neo-realista nas artes visuais, o que acontece, porém, é que quase inevitavelmente se apoiam em obras anteriores, correndo o risco de prolongar alguns equívocos. Daí a importância da criação do Museu do Neo-Realismo e as iniciativas que tem desenvolvido, exposições, conferências, publicação de catálogos e outros documentos e nomeadamente as actividades de pesquisa dos seus responsáveis ou coordenadas por eles. Entre os objectivos expressos pelo seu coordenador, Dr. David Santos, destaco: “uma mais ampla e continuada divulgação sobre a expressão visual de um movimento que ainda está preso a demasiados clichés e preconceitos, o que tem impedido, em certa medida, uma interpretação mais eficaz e produtiva do ponto de vista da investigação científica”. Isto poderá determinar um avanço significativo na justa visão histórica de uma época importante da cultura portuguesa.
Um dos aspectos em que se avançou, e não é de somenos importância, é a localização do neo-realismo visual num período que vai dos anos 40 a 60, comprovando que não se esgotou logo no início dos anos 50, como alguns historiadores da arte afirmavam. Quer a exposição “Um Tempo e Um Lugar”, realizada em 2005, quer a exposição quando da inauguração do novo edifício do Museu, em Outubro de 2007, dão prova evidente da vitalidade e extensão das opções visuais do neo-realismo por essas duas décadas.
Os traços dominantes dessa época são: a contestação viva e actuante do ensino academizante e retrógrado na Escola de Belas Artes de Lisboa, a acção unitária dos artistas pela modernização dos critérios da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), nomeadamente através da eleição dos júris das exposições e de direcções da Sociedade abertas à modernidade e isentas de influências fascistas, e a organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP’s) entre 1946 e 1956, verdadeiros actos de confrontação com o regime fascista, para a participação nas quais era condição implícita não apoiar o regime, e onde as opções estéticas do neo-realismo tomaram maior visibilidade.
A contestação dos estudantes da Escola de Belas Artes de Lisboa e a acção dos artistas tomaram muitas vezes o carácter de verdadeiras batalhas, que extravasaram do Largo de S. Francisco para o Chiado, do Café Chiado e da Brasileira para a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e que levaram ao encerramento desta, depois da luta travada pela eleição dos júris de pintura e de escultura para o salão da Primavera de 1952, júris até ali dominados pelos velhos bonzos do regime como Eduardo Malta, pintor das altas figuras da ditadura fascista, que acabou por ser expulso de sócio pela provocação que encenou contra José Dias Coelho, que encabeçava essa batalha. E que outra palavra se não esta podemos usar, quando de verdadeiras batalhas se tratou?
O regime fascista, esse, soube entender que a frente unida dos artistas plásticos tinha alcançado uma vitória e que a expulsão de Eduardo Malta constituiu uma derrota, e por isso mandou encerrar a Sociedade Nacional de Belas Artes, para a qual, pouco tempo antes, tinha sido eleita uma direcção de artistas unitária sob a presidência do escultor Anjos Teixeira, contra a lista daqueles que obstaculizavam ferozmente a entrada de artistas e obras de vanguarda nos Salões da SNBA.
Estes factos não podem ser ignorados para quem queira analisar sem preconceitos os caminhos para a modernidade, tanto mais que um dos factores sempre tidos em conta pelos historiadores deste período é a sucessão de esforços das várias gerações de modernistas para conquistarem a visibilidade em mostras públicas. É citado por exemplo António Pedro, um dos principais dinamizadores da modernização, com a criação da Galeria UP, que acabou por não ter grandes resultados práticos dada a inexistência então de um mercado da arte, assim como a realização de várias exposições da artistas modernos que, ao longo dos anos 30, se foram realizando, sem continuidade.
Exactamente para preencher esta lacuna foi criado em 1933 o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) sob orientação de matriz nazi definida por Salazar como a “política do espírito” e que António Ferro procurava levar à prática no campo da cultura, particularmente nas artes plásticas, com uma adaptação inteligente às nossas condições nacionais. Assim o SPN, cuja sigla passou a SNI (Secretariado Nacional de Informação) a partir de 1944, realizou catorze exposições de arte moderna entre 1935 e 1951. No plano estético, o pseudo-modernismo fomentado por António Ferro foi bem caracterizado por Diogo de Macedo, que no início dos anos quarenta já denunciava o “academismo de fundos claros do SPN, só superficialmente diferente do academismo de fundos escuros da Sociedade Nacional de Belas Artes”.
É neste contexto que se inscrevem as lutas dos anos 40 e 50 pela modernidade na Escola e na SNBA, nomeadamente pela conquista de espaços para exposições fora da influência do SNI e sem as peias dos academismos cediços da SNBA, lutas desencadeadas por um grande grupo de artistas de vanguarda. E, quando digo de vanguarda, refiro-me quer ao plano das opções estéticas, quer às opções políticas sob influência dos comunistas, ou próximo destes.
O facto de ter sido eleita para a Sociedade Nacional de Belas Artes uma direcção unitária e aberta à modernidade, de que foi presidente o escultor Anjos Teixeira, permitiu que nela tivessem acolhimento as Exposições Gerais de Artes Plásticas durante os dez anos em que se realizaram.
Só perto dos anos 60 (a partir de 1957), com a realização da primeira exposição promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e os seus apoios regulares a bolseiros, é que este panorama nas artes plásticas se alterou sensivelmente.
Mas esta não é razão para apagar ou ignorar aqueles anos difíceis em que as Exposições Gerais de Artes Plásticas constituíram uma abertura e um campo adequado para a apresentação de manifestações artísticas que lutavam pela expressão livre, pelo que a cada artista interessava exprimir como fundo e forma e, em última análise, contribuindo para fomentar uma renovação no panorama artístico português.
Rogério Ribeiro, o nosso querido amigo há pouco desaparecido e que participou activamente na organização das EGAP’s e no movimento neo-realista, é o melhor exemplo de um grande artista que daí seguiu para outros caminhos sem rejeitar o ponto de partida.
A própria evolução daqueles que, tendo sido cultores da prática e da reflexão plástica do neo-realismo passaram para outras opções estéticas, comprova que ali tinham ganho o poderoso impulso do inconformismo e da luta pelo novo, que os catapultou para novas experiências. Júlio Pomar e Lima de Freitas são bons exemplos disto.
A exposição “Um Tempo e um Lugar” realizada no âmbito do Museu do Neo-Realismo, abrangendo os dez anos das EGAP’s e de que Rogério Ribeiro foi comissário, permitiu uma visão desse período isenta e objectiva, que certamente ajudou a destruir muitos preconceitos e chavões. Ficou claro, por exemplo, que se o neo-realismo adquiriu maior visibilidade a partir das EGAP’s e nelas predominou, a verdade é que estas apresentavam uma pluralidade de opções estéticas decorrente dos objectivos de abrangência estética e de unidade política dos seus organizadores.
Contrariamente às críticas dos seus detractores, não se tratava da “unidade artificial que esteticamente as EGAP’s acabaram por criar”, mas sim do propósito consciente de não erguer barreiras nem criar rejeições no plano estético. Isto é, um critério o menos ortodoxo possível.
Por outro lado, as EGAP’s introduziram inovações quanto à pluralidade das disciplinas artísticas nelas apresentadas, acolhendo pela primeira vez em exposições de artes plásticas a gravura, a fotografia e a arquitectura.
Nessa época não se ensinava gravura nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e do Porto e o estímulo à gravura como modalidade artística que permitia uma multiplicação a baixo preço e uma divulgação ampla entre as camadas populares, permitiu a realização de exposições em centros operários, como nas colectividades populares do Barreiro e de Almada. Foi o incremento dado à gravura pelas EGAP’s que levou artistas que nelas expunham a criar a Cooperativa Gravura em 1956.
Assim, as Exposições Gerais de Artes Plásticas eram de facto inovadoras, abertas e livres, numa época de repressão, censura e ausência de liberdades. Livres de júris, de prémios e de medalhas, procurando o estreitamento de relações entre a arte e o povo, como os princípios do neo-realismo pretendiam.

** Título da responsabilidade de odiario.info

* Margarida Tengarrinha é amiga e colaboradora de odiario.info

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