Cuba: Jamais poderá construir-se com solidez a partir de dogmas.

Alfredo Guevara*    15.Abr.08    Outros autores

Alfredo Guevara
Numa linguagem rigorosa e de fino recorte literário, Alfredo Guevara debruça-se sobre a instrução, a cultura e o papel dos intelectuais na Revolução Cubana, ontem, hoje e amanhã

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Inicia-se o nosso Congresso [N.do T.: da União de Escritores e Artistas Cubanos - UNEAC] com um tema que considero de transcendência fundamental a que preferirei chamar fundacional. Fundacional, porque convém sublinhar que há milénios que cultura e sociedade são, em rigor, duas abordagens sobre o mesmo tema de reflexão. A sociedade que se conhece desde que a pessoa é pessoa não é outra senão a que pressupõe associação e valores comuns assentes na memória da experiência, memória que é história; e história é a acumulação discernida dessa experiência; experiência progressivamente depuradora do saber, do ir sabendo. Essa é a cultura, desenho subjacente, omnipresente e determinante da sociedade, do seu rosto dos seus recursos, visíveis, invisíveis, sofisticados ou primários, isto é, das suas potencialidades.

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Dito isto, será necessário encontrar resposta adequada à pergunta em que sociedade vivemos, hoje, agora, quais são as suas urgências, quais as suas possibilidades, que se pode fazer, como teria de ser, e que pudesse contribuir com a intelectualidade que a nossa sociedade se ofereceu?

Não serei que dará tão complexa resposta, será o Congresso, serão os seus delegados, será a qualidade, o aprofundamento, também a altura, o rigor das nossas intervenções, as que produzam uma aproximação a essa resposta. Sou dos que acreditam que a tarefa e a possibilidade do revolucionário, que para mim é-o sempre, milite ou não numa organização, o que oferece solidariedade ao outro, aos outros, que pensa neles, vive, sente e sofre e goza quando se dá um passo para o sonho-projecto de uma sociedade mais justa, inundada de espiritualidade e de beleza, de liberdade e liberdades e que para o exercício e gozo real de tais valores preparou, construiu e desenvolveu qualidades e qualidades, com a instrução e o seu culminar na formação e na sensibilidade que fazem, da pessoa, mais e mais pessoas, porque mais culta.

Não é uma frase lançada ao vento «ser culto para ser livre», não é uma folha aventada essa feliz expressão que define como martiana a geração que pôs a Revolução em marcha. José Martí transforma-se na ideia, símbolo de um sonho, utopia de fundação. É por isso, que quem inspirou Moncada nos inspira a nós

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Em que sociedade vivemos? Antes de continuar, façamos um brevíssimo, nada exaustivo, balanço. Somos um pouco menos de 12 milhões de habitantes e entre nós, todos alfabetizados e com o nono ano, convivem já um milhão de universitário e um número idêntico de jovens que atingiram níveis que superam o secundário, seja por especialização, ou a partir de outras sistemas de ensino.

Deus meu! Então somos uma pequena ilha gigante e não nos damos conta, somos o povo e o país mais instruído do planeta. Instrução não é cultura, ou nem sempre o é, sabemo-lo, é apenas um estádio, mas um passo avançado. Potencialmente, num futuro que teria de ser mais e mais próximo, país culto e mais que culto. É um tempo de desinteresse. Desinteresse, palavra-chave. Trata-se hoje e agora, da esperança encontrar a realidade, alcançá-la. Por isso temos de fazer uma outra pergunta, em que quadro?

Fala-se da revolução tecnológica, electrónica, digital. Esta a fundar-se um mundo novo em que só as revoluções devem ser protagonistas e de que, por enquanto, não o são. São as chamadas limitações ou situações objectivas o único factor ou haverá alguma dose de cegueira? Valeria a pena interrogarmo-nos. É a revolução do saber quem chega, a que tudo envolve e se desenha numa escala nunca vista, é a sociedade do saber que chega, a que tudo envolve, aquela em que o saber domina.

Tratei de descobrir alguns traços-realidades da nossa sociedade, direi então que na consciência da pessoa e na sua criatividade inata, na sua inteligência e sensibilidade reside a riqueza mais valiosa da sociedade, e que essa complexa riqueza encarnada no nosso povo é, na realidade, a própria sociedade. Estamos prontos para o salto qualitativo que o saber impõe.

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Então prossigo e prossigo interrogando-me e perguntando Pode a escola primária e secundária a pré-primária, tal como chegaram a ser, regidas por critérios e práticas descabeladas e ignorantes de princípios pedagógicos, psicológicos elementares, e violadora dos direitos familiares, ser formadora de meninos e adolescentes, e por isso alicerçar o futuro? Será que acaso por esses caminhos se calcula que posam crescer as gerações a que caberá cumprir a imensa tarefa de esculpir, primeiro que tudo na sua alma, a pátria sonhada? Será que essa escola continua realmente a desenhada pela Revolução nos seus primeiros dias? E também nos territórios que se iam libertando?

Jamais poderá construir-se solidamente a partir de dogmas, obstinação, desconhecimento da realidade real ou ignorando as mensagens de alerta da experiência e dos cidadãos. Estou convencido.

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Também pode dar-se uma contribuição formadora ou enriquecedora, menos defensora e aprofundadora dos valores humanistas e do auto-respeito a partir dos Meio de Comunicação [cubanos] neocoloniais na sua programação estupidificante e dominados por tão descomunal ignorância que não se sabe se aliados do capitalismo na sua manifestação mais soez e do imperialismo nessa técnica que tantos resultados deu aos seus especialistas, a de esvaziar a alma da finura, da sensibilidade, da informação complexa para, de imediato, a encher de banalidades; e a de destruir a linguagem para destruir ou danificar a articulação do pensamento. Para isso, incentiva-se a grosseria que se pretende popular e é precisamente a ofensa ao essencial do povo-protagonista. E à sua inteligência.

Mais ainda, obrigados à meditação e actuações teríamos de sentir se nos detivermos no panorama actual do Ensino Artístico, submetido sem tréguas, ele e os seus licenciados, a interferências inadmissíveis e que contradizem o rigor e os tempos necessários a toda a formação intelectual de criação ou de interpretação, já que esta deve ser e teria que ser igualmente criativa. Teríamos que nos preocupar, como o Relatório assinala, talvez servindo-se de Comissões ou Grupos de Trabalho envolvidos em tudo o que ali se sublinha e igualmente sugiro preocupar-nos para que os recém licenciados, e particularmente esses talentos que o professor detecta, não sejam tratados por algumas autoridades como coisas, preocuparmo-nos para que se respeite irrestritamente a condição de pessoa, e quando mais jovem por maioria de razão.

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Essa permanente urgência de acudir à «emergência», improvisando sem tréguas, deve ser submetida mais que a estudo a investigação; a estudo para arrasar esse método empobrecedor e, por vezes, fonte de arbitrariedades. Teríamos que nos perguntar porquê uma e outra vez esse nível de improvisação, porquê tanta improvisação? A resposta genérica é muito simples, falta de desenho. A solução, em contrapartida, é bem complexa, passa por rectificações de fundo.

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Para concluir devo referir-me à Batalha das Ideias, esse projecto maior do Comandante em Chefe, de que fomos e temos de continuar a ser cúmplices e com o qual estamos moralmente comprometidos clara, simples e sinceramente a partir da condição de intelectual.

É que o importante não é a forma mas o objectivo. O importante será sempre não perder o rumo.

Não podemos permitir que o entorpecimento de alguns esterilize o projecto desmiolando-o e convertendo-o numa fonte de poder, de poderzinho.? As situações amadurecem, as urgências são mais urgentes. A Batalha das Ideias é, por isso, tarefa de toda a Revolução, das suas instituições, das suas organizações sociais e políticas, de todo o povo e dos seus intelectuais. Direi então que o pior inimigo das revoluções é a ignorância, e como parte da sua lesiva presença, a conversão da ideia em ritual, palavreado e cerimónia, uma coisa comum na história e aspiração dos burocratas e oportunistas, e seu modo de vida.

Salvar esse projecto, levá-lo à sua máxima tensão e também e muito a partir da UNEAC será, creio, a grande tarefa da intelectualidade. E será igualmente a melhor homenagem àquele que conceptualizou, priorizou e fez viver. Espero que este, o nosso Congresso, o prolongue em compromisso moral e intelectual, de afirmação e identidade a salvar e enriquecer.

Obrigado.

Intervenção de Alfredo Guevara na sessão plenária «Cultura e Sociedade» do VII Congresso da União de Escritores e Artistas Cubanos em 2 de Abril de 2008.

*Alfredo Guevara, cineasta, escritor e militante, desde início envolvido na Revolução Cubana

Tradução de José Paulo Gascão

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